E um feliz Ano Novo pós-moderno para você também

E um feliz Ano Novo pós-moderno para você também

Stuart Parker (Escritor convidado)

Tudo bem. Então, neste mundo pós-verdade, a resolução do seu Ano Novo é tornar-se um pós-modernista, mas você não tem certeza de como proceder? Estou aqui para ajudar.

Agora você pode ficar tentado a se sobrecarregar com Derrida ou tomar uma overdose de Wittgenstein, mas apenas se sente. Tudo isso é divertido, mas é um trabalho árduo e você não quer quebrar essa sua resolução, não é mesmo? Não precisa se preocupar. Aqui estão algumas dicas para você se familiarizar com seus novos tópicos pós–modernos.

Primeiro passo: comece a pensar em termos de metáforas.

No seu livro Metaphors We Live By (As metáforas em que vivemos), Lakoff e Johnson descrevem como as metáforas moldam a maneira como vemos o mundo. Tendemos, por exemplo, a ver ‘positivo’ como positivo, ‘negativo’ como negativo. Mesmo com ‘frente’ versus ‘atrás’, ‘reto’ versus ‘torcido’. O ‘argumento’ é facilmente descrito através da linguagem de guerra. Observe a nossa Câmara dos Comuns e pense em como o parlamento seria diferente se o argumento fosse visto como dança, relacionamento ou amor.

Nós os pós-modernistas apenas damos um passo extra para nos livrarmos do literal completamente. Tudo é metáfora. Para fins específicos, algumas metáforas são mais estáveis ​​do que outras. Aí está o seu literal.

Próximo passo: Ouça mais música.

A música é a mais claramente metafórica das artes. Pensar no ‘significado’ da música o ajudará a enfraquecer o domínio do literal em sua visão de mundo. Pense em como o significado da letra de uma música depende de sua configuração em um contexto de melodia e harmonia. Quantas boas letras de músicas são simplesmente poesia ruim quando arrancadas de suas melodias?

Experimente o famoso jogo ‘I’m Sorry I Haven’t a Clue’ (Sinto mas não tenho a menor ideia), cantando a letra de uma música na melodia de outra. O resultado é geralmente ridículo, e, certamente, envolve uma mudança no significado. Aquela coisa que a música ‘Land of Hope and Glory’ (Terra da esperança e da glória) desperta em você. Isso não é literal. Mas não apenas brinca com seus sentimentos, com a sua imaginação e com o seu senso de identidade; faz isso de uma maneira que é comum a muitas outras pessoas.

Tudo isso é relativo, é claro. Os não britânicos podem perceber algo completamente diferente. Sem problemas. Essa é outra coisa que você se acostumará a adotar como um pós-modernista. Relativismo. Grande momento!

Neste ponto, precisamos esclarecer algo. Os pós-modernistas não valorizam o estilo em detrimento da substância. Ou melhor, sim, mas apenas porque vemos a substância como uma consequência do estilo. Isso pode parecer um pouco estranho no começo. Fui criticado por filósofos realistas da tradição analítica por dizer que o que é realmente ruim sobre os nazistas é que eles ofendem o nosso gosto literário; o nosso senso de estilo narrativo.

Isso é bom. Deixe os analíticos se debaterem com noções absolutas de mal, essência e ética, sustentadas por alguma realidade externa (alerta sobre os estraga prazeres: eles não conseguem). Somos relativistas, certo? Se algo ofende nosso gosto literário, então é suficiente (e podemos justificar a nossa ofensa com letras usando palavras como mal, cruel imoral, para as quais o nosso estilo dará sentido).

Veja como um penteado, roupas ou maquiagem diferentes ajudam a fazer a diferença em como você se sente, como é visto, em sua personalidade e em sua identidade. Ei! Você precisa perder aquela noção de essência central, de um eu essencial. Não há nada a ser descoberto. Você é um pós–modernista agora e tudo é estilo. Esqueça o resto!

Isso é assustador e libertador. Lembre-se, você é um personagem das narrativas de outras pessoas. Identidade não é coisa privada (como você pode ter um estilo particular quando o estilo é sobre ser diferente?) Você não é o árbitro final de si mesmo. Mas você é um jogador. Então, comece a trabalhar no controle das narrativas nas quais você está incorporado.

Já mencionei as narrativas, não? Poderíamos chamá-las ‘textos’. Derrida faz isso. E ele diz que não há nada fora do texto. Tudo o que temos como recurso são as nossas narrativas – os ‘jogos de linguagem’, como Wittgenstein os chamava – e não há mundo independente de texto para arbitrar entre textos rivais. Como poderia haver? Nós nos livramos do literal alguns parágrafos atrás.

Alguns textos combinam-se facilmente. Os romances da Jane Austen poderiam todos coexistir alegremente. Jane Austen e William Borroughs? Bem … Seria um choque, mas é realmente nossa a responsabilidade de criar um estilo favorável; uma metanarrativa (exceto pelo fato de que o abrangente meta papel é ele próprio relativo ao texto …) O ponto é que os textos são feitos pelo homem (há um pouco de falocentrismo derridiano nisso). Eles são um empreendimento humano e cabe a nós, se um estilo é ou não construído de forma a que narrativas irritantes e conflitantes possam ser misturadas suavemente. Ou, pelo menos, coexistirem. Possivelmente, apenas dentro de contextos particulares.

Assim, no Natal, podemos abraçar a verdade da natividade e a verdade do Papai Noel. Nós os pós-modernistas abraçamos as contradições e não temos nenhum problema em aceitar a realidade de cada uma delas. Você só precisa reconhecer que elas são feitas pelo homem e que a realidade deles é relativa aos contextos nos quais são úteis. Sim, como pós-modernista, você rapidamente se acostumará também a ser pragmático.

Alguma lição de política? Bem, eu acho que os conservadores tropeçaram em uma abordagem pós-moderna com seus slogans, na sua reescrita da história e nas suas diversas narrativas patrióticas, desajeitadas porém eficazes. É uma mão na roda se você possui uma máquina de narrativas como, por exemplo, a maior parte da imprensa.

E as mentiras? O pós-modernismo não permite mentiras. As mentiras, assim como a verdade, são relativas ao texto. Não tenho certeza de que tipo de narrativa surreal e cômica tornaria Boris Johnson honesto, mas, bem, você entende.

Quanto ao Partido Trabalhista, tudo o que eu diria é: fique pós-moderno antes que seja tarde demais. Você está pedindo que uma banalizada narrativa pré-histórica dos anos 70 seja imposta a você. Corbyn como estilo? Quão passé. Retome o controle de sua textualidade. Adquira alguma agilidade estilística. Convença-nos com a força da sua criatividade. Lembre-se, é tudo sobre avançar com elegância, e não sobre retornar às bocas de sino! A menos que elas voltem.

Quanto a você, querido leitor, dentro em breve você estará pronto para Derrida. E pra a desconstrução. Feliz Ano Novo. 


Artigo publicado na revista The Article, sábado, 28 de dezembro de 2019. Tradução de Joaquina Pires-O’Brien (UK).

Stuart Parker é um jornalista britânico, ex-professor de filosofia e de educação, e autor do livro Reflective Teaching in the Postmodern World. (O ensino refletivo no mundo pós-moderno).

O Pós-modernismo, incluindo os seus efeitos deletérios no Brasil, é o tema da última edição de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo, para falantes de português, espanhol e inglês.  Leia e repasse o link.

‘The buck stops here’. Expressões inglesas e portuguesas de probidade administrativa e de corrupção

Jo Pires-O’Brien

Ao redigir o editorial da presente edição de PortVitoria, que fala sobre as tragédias da corrupção brasileira e da destruição do Museu Nacional no incêndio da noite de 3 de setembro de 2018, eu experimentei um longo fluxo de pensamentos que atravessou todas as áreas de conhecimento em que tenho familiaridade, incluindo a linguística e a história. Eu resolvi aproveitar essa experiência e compilar os termos ingleses de probidade administrativa e de corrupção que conhecia, e criar uma narrativa didática em torno dos mesmos, na expectativa de que sejam de alguma utilidade para os leitores de PortVitoria.

O império onde o sol nunca se põe

O Reino Unido da Grã-Bretanha, ou Reino Unido ou Grã-Bretanha, possui uma considerável experiência em administração, que incluiu governar domínios, colônias, protetorados, mandados e territórios. A maior extensão territorial de sua história ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, quando em 28 de junho de 1919, a recém-criada Liga nas Nações, através do Tratado de Versalhes, deu início ao projeto do Mandato Britânico da Palestina, cobrindo uma vasta extensão no Oriente Médio, a qual incluía a Transjordânia, o qual foi confirmado pelo Conselho da Liga das Nações em 24 de julho de 1922, tendo entrado em vigor em 29 de setembro de 1923. A incumbência não veio em boa hora para a Grã-Bretanha, pois a sua economia estava em ruínas devido à guerra e já havia perdido a antiga posição de maior poder industrial e militar do mundo. E como era de se esperar, o império britânico entrou em declínio e terminou com a independência da Índia em 1947. O seu último protetorado foi Hong Kong, o qual foi devolvido em 30 de junho de 1997, conforme estava estipulado no acordo de leasing de 99 anos, com a China, assinado em 1898.

O Império Britânico e a sua designação de ‘o império onde o sol nunca se põe’ existe apenas na história, mas, apesar de todos os seus erros e acertos, deixou como principal legado a língua inglesa, a terceira mais falada do mundo depois do mandarim e do espanhol, e a mais importante nas relações internacionais. E, se forem contabilizados os falantes de inglês como segunda ou terceira línguas, o inglês é a primeira mais falada de todo o mundo, de acordo com Guillaume Thierry, um professor of neurociência cognitiva da Universidade Bangor1. O mundo anglófono inclui 54 estados soberanos e 27 não soberanos, todos compartilhando as mesmas raízes históricas e culturais. Os países anglófonos mais importantes são os Estados Unidos,  Grã Bretanha, a Austrália, Canadá e a Nova Zelândia.

A língua e os valores culturais

A língua é muito mais do que uma coleção de sinais de comunicação, pois suas palavras e as expressões carregam valores culturais e percepções. A linguagem e a cultura estão estreitamente ligadas, e uma influencia a outra. Por exemplo, a elevada quantidade de expressões idiomáticas do inglês de origem náutica tem a ver com o fato da marinha britânica ter dominado o mundo durante quase três séculos. A longa experiência imperial da Grã-Bretanha ensinou-a não apenas a lidar com as mais diversas culturas, mas também a desenvolver um sofisticado sistema de administração, do qual vieram as expressões idiomáticas de orgulho pela probidade administrativa: ‘not in my watch’ e ‘the buck stops here’, abaixo explicadas. Assim, sempre que alguém interage com outra língua acaba interagindo com a cultura que fala a língua.

O topo da lista de países percebidos como sendo os menos corruptos preparada pela Transparência Internacional,  a Nova Zelândia, o Canadá e a Grã-Bretanha encontram-se entre os 10 primeiros, e a Austrália e os Estados Unidos entre os 20 primeiros.


Jo Pires-O’Brien é editora de PortVitoria.

Leia mais