Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e ‘Ambientalista’

Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e  ‘Ambientalista’

James Corbett

O desonrado cleptocrata Maurice Strong morreu no final do ano passado[1], aos 86 anos. Ele foi banido da sociedade refinada e forçado a uma vida de exilado, em Pequim, depois que as suas décadas de chicanices comerciais, crimes contra a humanidade e destruição ambiental foram reveladas. A sua desumanidade culminou com uma tentativa de lucrar com a morte de crianças iraquianas famintas. O seu funeral foi uma cerimônia tranquila, com a participação de apenas dos poucos familiares que não conseguiam livrar-se dele completamente. Ex-amigos e parceiros de negócios como Paul Martin, James Wolfensohn, Kofi Annan, Conrad Black e Al Gore, todos evitaram pedidos de comentários sobre a morte do amigo em desgraça.

… é assim que a memória de Maurice Strong deveria seria lembrada em qualquer mundo razoável. Em vez disso, o que obtivemos foi isso:

Na quarta-feira, centenas de pessoas irão se reunir em frente ao Parliament Hill para uma comemoração extraordinária. O Governador Geral, o Primeiro Ministro, o Ministro do Meio Ambiente, o ex-presidente do Banco Mundial – entre outros dignitários, tanto no exercício de cargos quanto fora deles – prestarão homenagem a um dos grandes canadenses de sua geração. Eles celebrarão a vida de Maurice Frederick Strong, que morreu em 27 de novembro [de 2015]. A sua morte trouxe os obituários obrigatórios e homenagens pessoais. Mas em um país que muitas vezes esconde a sua luz sob um celeiro, e a vida consequente e exaltada de Maurice Strong, em casa e no exterior, não deve passar em branco.

E os elogios continuam chegando.

Do Primeiro Ministro canadense Justin Trudeau: “Maurice Strong foi um pioneiro do desenvolvimento sustentável que fez do nosso país e do mundo um lugar melhor.”

Do cofundador do Fórum Econômico Mundial em Davos: “Ele foi um grande visionário, sempre à frente dos nossos tempos em seu pensamento.”

De John Ralston Saul, autor e filósofo: “Ele mudou o mundo.”

De fato, toda uma multidão de globalistas apareceu no início desta semana em Ottawa para prestar homenagem à memória de Strong, desde o ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ao subsecretário-geral da ONU, Achim Steiner, e o ex-secretário-geral do clube de Roma, Martin Lees. Chegaram também uma enxurrada de condolências escritas de outros proeminentes globalistas, incluindo Mikhail Gorbachev, Gro Harlem Bruntland e Kofi Annan.

Então, por que exatamente Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista?

Ah, está certo:

ENTREVISTADOR: “O Maurice Strong não tem nenhuma ambição para tornar a ONU (Organização das Nações Unidas) o governo do mundo?”

STRONG: “Não, e não é necessário, não é viável e, certamente, estamos longe de algo assim. Mas precisamos – se queremos ter um mundo mais pacífico, um mundo mais seguro – precisamos de um sistema de cooperação mais eficaz, que é o que chamo de ‘sistema de governança’. E as Nações Unidas, com todas as suas dificuldades , é o melhor jogo da cidade.” (Entrevista)

Presidente da Power Corp. Presidente da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional. Presidente da Petro Canadá. Presidente da Ontario Hydro. Chefe do Programa Ambiental das Nações Unidas. Membro fundador do Fórum Econômico Mundial em Davos. Pai do IPCC. Globalista dedicado.

Não, não é difícil entender por que os globalistas amam o arquiglobalista Maurice Strong. Mas, como foi que esse homem, um jovem pobre que abandonou o ensino médio em Oak Lake, Manitoba, tornou-se no estrategista de bastidor responsável por moldar as nossas instituições globais modernas? A história é tão improvável quanto instrutiva, e nos leva do coração do universo do petróleo à criação do IPCC[2].

Dada a notável ascensão de Strong através das fileiras do poder político para se tornar um chefão globalista, não será surpreendente saber que ele tinha conexões políticas em sua família. Mas pode ser surpreendente ouvir onde se encontravam essas conexões. Uma tia dele, Anna Louise Strong, era uma comunista convicta que fez amizade com Lenine e Trotsky (que lhe pediu que lhe ensinasse inglês) antes que ela finalmente se estabelecesse na China, onde tinha familiaridade com Mao Zedong. Ela se aproximou de Zhou Enlai, que chorou abertamente quando ela foi enterrada com honras completas no cemitério revolucionário de Babaoshan, em Beijing.

Infelizmente para a humanidade, a o cavaco não caiu muito longe do pau com o jovem Maurice. Nascido na zona rural de Manitoba, em 1929, e sofrendo o pior da Grande Depressão, Maurice Strong abandona a escola aos 14 anos em busca de trabalho. Ele trabalha como auxiliar de convés em navios e, aos 16 anos, como comprador de peles da Hudson’s Bay Company, no norte do Canadá. Lá ele conhece O ‘Wild’ [Selvagem] Bill Richardson, cuja esposa, Mary McColl, vem da família McColl-Frontenac, que está por trás da uma das maiores empresas de petróleo do Canadá.

Através de Richardson, Strong faz contatos que o impulsionam a sua improvável carreira. A Wikipédia explica enigmaticamente:

“Strong se encontrou pela primeira vez com um importante funcionário da ONU em 1947, que providenciou uma nomeação temporária e de baixo nível, para servir como oficial de segurança júnior na sede da ONU em Lake Success, Nova York. Ele logo retornou ao Canadá e, com o apoio de Lester B. Pearson, dirigiu a fundação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional em 1968”.

No que diz respeito a grandes lacunas narrativas e encobrimentos enigmáticos de pormenores, esse parágrafo é uma obra-prima. A verdade é ainda mais estranha. Aquele ‘funcionário da ONU’ sendo referido pela Wiki? Aquele não era outro senão o próprio tesoureiro da ONU, Noah Monod. De fato, Monod não apenas arranja um emprego para ele, mas lhe dá também um lugar para morar; as duas salas juntas durante o tempo de Strong na Big Apple. Mas o mais importante é que Monod lhe apresenta ao homem que mais do que qualquer outro estará por trás de sua ascensão meteórica ao estrelato internacional: David Rockefeller.

Maurice Strong gostava de contar a história de que ele havia enfrentado Rockefeller no início. De acordo com Strong, algumas de suas primeiras palavras para David foram: “Eu sou profundamente contrário a você e a tudo o que a sua família representa”. Estranhamente, David não se lembra do encontro dessa maneira, dizendo que os dois tinham “uma forte relação de trabalho.”

De qualquer maneira, a partir daquele momento, Strong era um homem feito. E a partir daquele momento, onde quer que Strong fosse, Rockefeller e seus associados estavam lá em algum lugar nos bastidores.

Foi um veterano da Standard Oil, Jack Gallagher, que deu a Strong sua grande oportunidade na indústria de petróleo de Alberta quando este deixou o seu emprego seguro na ONU para voltar ao Canadá. Gallagher havia sido contratado por Henrie Brunie, uma amiga íntima de John J. McCloy, um associado de Rockefeller, para criar uma nova empresa de exploração de petróleo e gás. Strong entrou como assistente de Gallagher.

Quando, de repente, Maurice Strong decidiu deixar o emprego, vender sua casa e viajar para a África, encontrou um emprego no CalTex de Rockefeller, em Nairobi.

Quando ele deixou o cargo em 1954 e fundou sua própria empresa no Canadá, contratou Brunie para administrá-lo e nomeou dois representantes da Standard Oil de Nova Jersey para seu conselho. A essa altura, ele estava no final da casa de 20 anos e já era um multimilionário.

Após criar uma considerável rede de contatos junto à elite política do Canadá, Strong foi nomeado chefe da Power Corporation, uma nova cria da poderosa família Desmarais, os ‘Rockefellers do Canadá”. A Power Corp é um importante ‘criador de caciques políticos’ no meio político canadense, e, sob a administração de Strong, continuou a desempenhar esse papel. Um de seus escolhidos: um MBA de Harvard de cara nova chamado James Wolfensohn, futuro presidente do Banco Mundial. Outra escolha dele: Paul Martin, futuro CEO da Canada Steamship Lines e futuro Primeiro Ministro do Canadá.

Strong deixou a Power Corp para liderar o programa de ajuda externa do Canadá. Ele supervisionou a criação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e do Centro Internacional de Pesquisa em Desenvolvimento (IDRC). Como a jornalista Elaine Dewar, que entrevistou Strong para seu livro inovador Cloak of Green (Capa Verde), explica:

“A IDRC tinha uma cláusula em sua legislação de habilitação que lhe permitia doar dinheiro diretamente a indivíduos, governos e organizações privadas. Foi criada como uma corporação, reportando ao Parlamento através do ministro de Assuntos Externos. Seu conselho de governadores foi projetado para incluir pessoas privadas e até estrangeiras. […] Como o IDRC não foi criado como um agente da Coroa (como é a CIDA), pôde receber doações de caridade de empresas e indivíduos, bem como fundos do governo”.

Essas “empresas e indivíduos” generosamente “doaram” seu dinheiro ao IDRC, e, naturalmente, incluíram o Chase Manhattan Bank, do Rockefeller, e a própria Fundação Rockefeller. Strong admitiu a Dewar que o IDRC foi capaz de vender influência política no terceiro mundo sob seu disfarce de organização quase governamental.

No entanto, a sua carreira quase empresarial / quase governamental / quase “filantrópica” atingiu um novo nível em 1969. Isso se deu quando o embaixador sueco na ONU telefonou para Strong para ver se ele queria liderar a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que deveria ocorrer em 1972. Ele recebeu a ligação não pelo seu suposto amor ao meio ambiente, mas porque, mesmo naquela época, Strong já era conhecido como um ‘Fichário de Rolo’ humano de conexões políticas, comerciais e financeiras em todo o mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

E naturalmente, ele foi devidamente nomeado administrador da Fundação Rockefeller, que depois financiou o seu escritório para a cúpula (cimeira) de Estocolmo, e forneceu a pesquisadora da Carnegie, Barbara Ward, e o ecólogo da Rockefeller, René Dubos, para a sua equipe. Strong os encomendou a escrever ‘Only One Earth’ (Uma só Terra), um texto fundamental no campo do desenvolvimento sustentável, o qual é fortemente apontado pelos globalistas como sendo chave na promoção da gestão global de recursos.

A Cúpula (Cimeira) de Estocolmo, de 1972, ainda é reconhecida como um momento marcante na história do movimento ambiental moderno, pois levou não apenas aos primeiros planos de ação ambiental administrados por governos na Europa, mas também a criação de uma burocracia totalmente nova da ONU: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNDP/PNUMA). Diretor fundador do PNUMA: Maurice Strong. Como Dewar explica:

“Como muitas das organizações que Strong criou, essa também teve vários usos. Em 1974, o PNUMA emergiu do solo não cultivado de Nairóbi, no Quênia, antigo território de Strong. A colocação do PNUMA na África foi explicada como uma ‘migalha’ para os países em desenvolvimento, e que suspeitavam das intenções ocidentais. Mas também porque era útil para as grandes potências ter outra organização internacional em Nairóbi. Após a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Nairóbi havia se transformado na principal capital de espiões da África”.

A Guerra do Yom Kippur e o consequente embargo da OPEP (previsto magicamente pela Conferência de Bilderberg na Suécia no início do ano e organizado pelo agente de David Rockefeller, Henry Kissinger) tiveram outro efeito derivado que acabou beneficiando Strong. O embargo atingiu com força o leste do Canadá, levando o primeiro-ministro Trudeau a criar uma companhia de petróleo nacional. O resultado: a Petro-Canada nasceu em 1975 e Trudeau naturalmente nomeou Strong, agora o membro mais poderoso do movimento ambiental globalista, como seu primeiro presidente.

David Rockefeller esteve lá com Strong no Colorado em 1987 para o ‘Quarto Congresso Mundial da Vida Selvagem’, um encontro de importância histórica mundial que quase ninguém ouviu falar. Com a participação de Rockefeller, Strong, James Baker e o próprio Edmund de Rothschild, a conferência acabou girando em torno da questão do financiamento para o crescente movimento ambientalista que Strong formou do zero através de seu trabalho no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Foi nessa conferência (gravações da mesma estão disponíveis on-line graças ao denunciante George Hunt) que Rothschild pediu a criação de um Banco Mundial de Conservação, para o qual que ele bolou como mecanismo de financiamento um ‘segundo Plano Marshall’,  que seria usado para ‘alívio de dívidas’ do terceiro mundo e para esse favorito apito de cão globalista, o ‘desenvolvimento sustentável’.

O sonho de Rothschild tornou-se realidade quando Strong presidiu outra cúpula ambiental de alto nível da ONU: a “Cúpula da Terra”, no Rio de Janeiro, em 1992. Embora talvez melhor conhecida como a conferência que deu origem à Agenda 21, o que é muito menos conhecido é que foi a Cúpula da Terra que permitiu que o Banco Mundial de Conservação se tornasse uma realidade.

Iniciado às vésperas da Cúpula da Terra do Rio como um programa piloto de US $ 1 bilhão do Banco Mundial, o banco, agora conhecido como “Global Environment Facility” (GEF), ou Fundo Mundial para o Meio Ambiente, é o maior financiador público de projetos ambientais globais, tendo feito mais de US $ 14,5 bilhões em doações e cofinanciou outros US $ 75,4 bilhões. O banco é o mecanismo financeiro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a convenção organizadora que dirige o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Com a Agenda 21 em seu currículo, o banco de sonhos do GEF de Rothschild dentro da lata e o IPCC já brilhando nos olhos, a notável carreira de Strong não mostrou sinais de parada. Depois de encerrar a Cúpula do Rio, assumiu uma série de compromissos tão desconcertantes que quase desafia a credulidade. De seu site oficial, vem a seguinte lista:

“Após a Cúpula da Terra, Strong continuou a assumir um papel de liderança na implementação dos resultados obtidos no Rio através da criação do Conselho da Terra, do movimento da Carta da Terra, de sua presidência do Instituto de Recursos Mundiais, de membro do Conselho do Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, o Instituto Afro-Americano, o Instituto de Ecologia da Indonésia, o Instituto Beijer da Real Academia Sueca de Ciências e outros. Strong era um diretor de longa data da Fundação do Fórum Econômico Mundial, consultor sênior do presidente do Banco Mundial, membro da Assessoria Internacional da Toyota Motor Corporation, Conselho Consultivo do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, o Conselho de Empresas Mundiais para o Desenvolvimento Sustentável, a União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN), o Fundo Mundial para a Vida Selvagem, Recursos para o Futuro e as Bolsas Eisenhower”.

Não resta dúvida de que Strong levou uma vida encantada. E, dada a presença persistente dos interesses de Rockefeller naquela vida desde seus primeiros anos, não há dúvida de por que as portas pareciam se abrir para ele onde quer que ele fosse.

Mas, ainda assim, é preciso perguntar como e por que um abandono do ensino médio que se tornou grande no ramo do petróleo graças às suas grandes conexões com o petróleo se tornaria a figura mais importante do movimento ambiental internacional. Ele estava realmente interessado em proteger o meio ambiente?

Considere a aquisição de Strong da Arizona Land & Cattle Company, do traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, em 1978. Como parte dessa aquisição, Strong ganhou controle sobre um rancho no vale de San Luis, no Colorado, chamado Baca Grande. Como Henry Lamb explica em um artigo de 1997:

“O rancho, chamado Baca Grande, ficava no maior aquífero de água doce do continente. Strong pretendia canalizar a água para o sudoeste do deserto, mas as organizações ambientais protestaram e o plano foi abandonado. Strong terminou com um acordo de US $ 1,2 milhão da companhia de água, uma concessão anual de US $ 100.000 da Laurance Rockefeller, e ainda manteve os direitos sobre a água”.

Não, o interesse de Strong no sítio não teve nada a ver com a preservação do ambiente primitivo do vale de San Luis. Seu interesse era totalmente estranho. Como observa o Quadrant Online:

“Maurice Strong tinha sido informado por um místico que:

O Baca se tornaria o centro de uma nova ordem planetária que evoluiria do colapso econômico e das catástrofes ambientais que varreriam o mundo nos próximos anos.

Como resultado dessas revelações, Strong criou a Fundação Manitou, uma instituição Nova Era (New Age)[3] localizada no rancho de Baca – acima das águas sagradas às quais a permissão para bombear foi negada a Strong. Esse hocus-pocus continuou com a fundação do The Conservation Fund (com a ajuda financeira de Laurance Rockefeller) para estudar as propriedades místicas da montanha Manitou. No rancho de Baca, há um templo circular dedicado aos movimentos místicos e religiosos do mundo”.

De fato, o zelo missionário de Strong por espalhar sua mensagem ambiental de desastre e destruição por tantas décadas pode ser mais facilmente explicado como um zelo quase religioso por preparar o caminho para a ‘Nova Ordem Mundial’ que esta destruição ambiental supostamente prediz.

Uma visão mais aprofundada das místicas crenças da Nova Era de Strong, pode ser encontrada naquilo que ele considerou ser sua conquista mais importante: a criação da Carta da Terra. A Carta da Terra foi fruto do Instituto do Conselho da Terra de Strong, que ele fundou em 1992 com a ajuda de Mikhail Gorbachev, David Rockefeller (obviamente), Al Gore, Shimon Peres e um punhado de amigos globalistas de Strong.

O próprio portal de Strong descreveu a Carta da Terra como ‘uma declaração de consenso global amplamente reconhecida sobre ética e valores para um futuro sustentável’, mas o próprio Strong estruturou o documento em termos religiosos, dizendo que espera que seja tratado como um novo Dez Mandamentos.

Então, o que a Carta da Terra diz? Além das previsíveis bobagens esperadas sobre ‘justiça social e econômica’ e outras chavões políticos, o documento termina como uma carta de amor ao governo mundial:

“Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional juridicamente vinculativo em meio ambiente e desenvolvimento”.

A própria Carta da Terra repousa na “Arca da Esperança”, uma arca literal que foi construída especificamente para abrigar o documento original em uma referência óbvia à arca da aliança. A arca foi inaugurada em 9 de setembro de 2001 e depois transportou 350 milhas para as Nações Unidas após o 11 de setembro. O membro da Comissão da Carta da Terra que presidiu a inauguração não passou de Steven C. Rockefeller.

Embora essa busca quase religiosa pelo governo global esteja sempre envolvida em uma linguagem de bem-estar sobre o fortalecimento de comunidades e a preservação do planeta, a realidade subjacente é sobre uma agenda maquiavélica muito mais. Como observa Dewar em Cloack of Green  (Manto Verde) acerca da Cúpula do Rio:

“Anunciada como a maior cúpula do mundo, a do Rio foi descrita publicamente como uma negociação global para reconciliar a necessidade de proteção ambiental com a necessidade de crescimento econômico. Os conhecedores entendiam que havia outros objetivos mais profundos. Isso envolveu a mudança dos poderes reguladores nacionais para vastas autoridades regionais; a abertura de todas as economias nacionais fechadas restantes a interesses multinacionais; o fortalecimento das estruturas de tomada de decisão muito acima e muito abaixo do alcance das democracias nacionais recém-criadas; e, acima de tudo, a integração dos impérios soviético e chinês no sistema de mercado global. Não havia nome para essa agenda tão grande que eu já ouvira alguém usar, então, mais tarde, eu mesmo a nomeei – a Agenda de Governança Global”.

O próprio Strong deu uma ideia do que essa agenda realmente implicava para o homem ou mulher comum em uma entrevista da BBC em 1972 antes do início da cúpula de Estocolmo. Discutindo o ‘problema de superpopulação’ então em voga como a causa ambiental do dia, Strong admitiu em suas reflexões sobre o potencial de licenças de reprodução:

“Licenças para ter filhos por acaso é algo que eu tive problemas por alguns anos atrás por sugerir, mesmo no Canadá, que isso pode ser necessário em algum momento, pelo menos alguma restrição ao direito de ter um filho. Não estou propondo isso, estava simplesmente prevendo isso como um dos possíveis cursos que a sociedade teria que considerar seriamente se nos envolvêssemos nesse tipo de situação”.

Que Strong teve tanto sucesso em promover sua agenda de ‘governança global’ por tantas décadas é um testemunho não de sua própria liderança visionária, como muitos globalistas professam, mas dos incríveis recursos dos Rockefellers, dos Rothschilds e outros que estão financiando essa agenda. à existência e empurrando-o a cada passo.

É por alguma medida de boa sorte, então, que as décadas de fraude de Strong finalmente tenham chegado ao fim (mais ou menos) em 2005, quando, como observa o Quadrant Online, ele foi finalmente pego ‘com a mão no caixa’:

“Investigações sobre o Programa Petróleo por Alimentos da ONU descobriram que Strong havia endossado um cheque de 988.885 dólares para M. Strong – emitido por um banco jordaniano. O homem que deu o cheque, o empresário sul-coreano Tongsun Park, foi condenado em 2006 em um tribunal federal dos EUA por conspirar para subornar funcionários da ONU. Strong renunciou e fugiu para o Canadá e daí para a China, onde vive desde então”.

Embora ainda aparecendo em vários eventos ao redor do mundo, Strong liderou uma existência muito mais baixa na última década, provavelmente desacelerada pelos estragos da idade avançada. Mas agora que ele finalmente faleceu, somos deixados a receber elogios ainda mais nauseantes a esse homem e às muitas instituições globalistas que compõem seu legado.

Não, não é difícil entender por que Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista. Só não espere que nenhum dos membros desse jet set conte essa história em detalhes.

Ilustrações:

Foto de Maurice Strong tendo ao fundo uma paisagem ressecada e um selo da ONU.

Foto de Anna Louise Strong, tia de Maurice Strong, ao lado de Mao Zedong e outros dignitários chineses. Anna Strong era uma comunista comprometida que fez amizade com Lenine e Trotsky.

Imagem do sítio de petróleo de Alberta, onde Maurice Strong trabalhou depois de ter deixado o seu primeiro emprego na ONU.

Foto do jovem Maurice Stong em frente à mesa presidencial, em uma conferência da ONU.

Foto de George Bush, presidente dos Estados Unidos, discursando na Cúpula da Terra de 1992 no Rio.

Imagem da placa externa do rancho Baca Grande, no vale de San Luis, no Colorado, adquirido por Maurice Strong, que se tornou o local da Fundação Manitou, uma instituição ‘Nova Era’ (New Age).

Foto de Maurice Strong falando durante uma conferência em que anunciou a criação da Carta da Terra.

Foto de um cheque de US $ 988.885 concedido a M. Strong, emitido por um banco jordaniano, e endossado com a assinatura de Maurice Srong.

Publicado originalmente em TheInternationalForecaster.com, em 31 de janeiro de 2016

James Corbett é um jornalista e editor do portal ‘The Corbett Report’, Open Source Intelligence News, https://www.corbettreport.com/about/

James Corbett has been living and working in Japan since 2004. He started The Corbett Report website in 2007 as an outlet for independent critical analysis of politics, society, history, and economics. Since then he has written, recorded and edited thousands of hours of audio and video media for the website, including a podcast and several regular online video series. He is the lead editorial writer for The International Forecaster, the e-newsletter created by the late Bob Chapman.

His work has been carried online by a wide variety of websites and his videos have garnered over 50,000,000 views on YouTube alone. His satirical piece on the discrepancies in the official account of September 11th, “9/11: A Conspiracy Theory” was posted to the web on September 11, 2011 and has so far been viewed nearly 3 million times.

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For more information about Corbett and his background, please listen to Episode 163 of The Corbett Report podcast, Meet James Corbett: Episode 163 – Meet James Corbett

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK, 4 set 2019)


[1] Maurice Frederick Strong faleceu em 28 de novembro de 2015, em Ottawa, Canadá, aos 86 anos de idade.

[2] IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change / Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

[3] New Age ou Nova Era é definida pelo dicionário Cambridge online como sendo “um modo de vida e pensamento desenvolvido no final dos anos 80, com base em ideias que existiam antes das teorias científicas e econômicas modernas.” Essa definição coloca a Nova Era dentro da doutrina pósmodernista.

Armadilhas do Liberalismo?

Jo Pires-O’Brien

Devido ao meu blog intitulado ‘Armadilhas do Marxismo’, um trolador da esquerda me perguntou por que eu não escrevo um blog mostrando as armadilhas do liberalismo.

Por que eu não escrevo sobre as ‘armadilhas do liberalismo’? Porque, a meu ver, o liberalismo já tem excelentes depreciadores. Um depreciador do liberalismo bastante reconhecido no século XXI é o filósofo alemão Carl Schmitt (1888-1985), jurista e teorista do direito e da política. Embora Schmitt só tivesse apoiado o Nazismo depois que Hitler chegou ao poder, em 1933, ele gozou de um enorme prestígio nos primeiros anos do governo de Hitler, quando costumava defender políticas nazistas que iam contra as leis, como as execuções extrajudiciais. Schmitt era um conservador que detestava os liberais e os judeus. Em 1936 ele defendeu a ideia nazista de remover os livros de autores judeus das bibliotecas, mas apesar de seus esforços no sentido de ganhar a simpatia dos nazistas, ele acabou caindo em desgraça junto aos mesmos, e acabou sendo demitido da universidade onde lecionava Direito. Depois da Guerra, Schmitt usou esse particular para tecer a sua defesa, quando foi inquirido pelos promotores do Tribunal de Nuremberg. Schmitt escapou das acusações e retornou à sua cidade natal de Plettenberg, na Westfália, lá ficando até a sua morte em 1985, aos 96 anos.

Por que o liberalismo* é odiado tanto pela extrema Esquerda quanto pela extrema Direita?  Por acaso seria porque consideram a crença dos liberais, de que as pessoas são essencialmente racionais e capazes de resolver as suas disputas políticas através do diálogo e da mútua transigência, uma utopia? Por acaso seria porque Marx disse que o liberalismo é a ideologia do capitalismo? Ou por acaso seria o resultado de um ressentimento típico da mentalidade do escravo descrita por Nietzsche em A genealogia da moral? Embora seja impossível saber os motivos do ódio que os extremistas de esquerda e de direita têm pelo liberalismo, a afirmação de Schmitt de que “o liberalismo é uma fachada útil da elite dominante” sugere velho motivo do ressentimento de classe.


* O ideal do liberalismo é  um contínuo global tolerante a seres humanos de individualidades diversas, mas com direitos iguais, e cujos direitos de identidade são protegidos por leis baseadas em valores universais.


Jo Pires-O’Brien é editora de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo.

As leis da antiga Grécia – as primeiras leis do Ocidente

Nota: O texto abaixo foi adaptado do texto “Law of Ancient Greece”, do portal Canadian Law, fonte: http://www.canadianlawsite.ca/AncientGreek.htm

As Leis da Antiga Grécia – As Primeiras Leis

No período que vai mais ou menos de 1200 – 900 AEC (Antes da Era Comum), os antigos gregos não tinham nem leis e, nem punições oficiais. Os homicídios eram resolvidos pelas próprias famílias das vítimas, que procuravam capturar e matar o homicida. Isso frequentemente gerava intermináveis e sangrentos feudos. Mais ou menos no meio do século VII AEC os gregos começaram a estabelecer leis oficiais.

Draco

Em torno de 620 AEC, Draco, o legislador, estabeleceu as primeiras leis escritas da Antiga Grécia. Essas leis eram tão severas que o nome ‘Draco’ é empregado na expressão moderna  ‘lei draconiana’, que significa uma lei excessivamente severa.

Sólon

Sólon (640-558 AEC) foi um estadista e famoso legislador de Atenas. Como estadista, Sólon reformou o sistema de governo da cidade-Estado de Atenas, criando um sistema democrático de governo, baseado numa assembleia de quinhentos membros*. Como legislador, Sólon aperfeiçoou as leis de Draco e democratizou a justiça ao tornar as cortes (tribunais) acessíveis aos cidadãos. Sólon criou muitas novas leis que se encaixam em quatro categorias básicas (veja abaixo). A única lei de Draco que Sólon manteve após ter sido apontado legislador, por volta do ano 594 AEC, foi a lei que estabelecia o exílio como punição para o crime de homicídio.

*A democracia ateniense foi consolidada aos poucos, por outros estadistas como Clistenes (565-492 AEC) e Péricles (494-429 AEC).

Leis dos Agravos

Um agravo ocorre quando alguém comete um dano contra uma pessoa ou contra a propriedade de alguém.

O crime de homicídio fica sob a lei de Agravos, e a punição era o exílio conforme determinado na legislação de Draco que Sólon manteve.

De acordo com as leis criadas por Sólon, a multa por um estupro era de 100 dracmas, e a punição por um crime de furto era a restituição da quantia furtada. Outros crimes e penas incluíam coisas como ‘mordida de cão’, cuja pena era entregar o cão numa coleira de madeira de três côvados. Sólon escreveu leis até para servir como regras para a construção de casas, muros, valas, poços, colmeias, e plantações de certos tipos de árvores.

Leis de Família

Sólon criou ainda diversas leis de família, legislações que regulavam a conduta de homens e mulheres. Ele escreveu leis sobre os dotes de casamento e de adoção, bem como leis sobre heranças e sobre o papel de suporte dos pais.

Não havia penas prescritas para essas leis de família;  a decisão ficava com cada chefe de família.

Leis Públicas

As leis públicas tratavam do funcionamento dos serviços públicos. Sólon contribuiu para algumas dessas leis. Por exemplo, ele escreveu as leis que requeriam que as pessoas que viviam a uma certa distância das fontes ou poços públicos que cavassem seus próprios poços, as leis que proibiam a exportação de produtos agrícolas com exceção do azeite de oliva, leis que restringiam a quantidade de terras que alguém podia possuir, leis que permitiam que os mercadores cobrassem qualquer juro que quisessem, e até leis que proibiam o comércio de perfumes.

Leis Processuais

Leis processuais eram diretrizes que esclareciam aos juízes (no sentido de julgadores) como deveriam usar as demais leis. Essas leis especificavam passo a passo os pormenores de como a lei deveria ser cumprida. As leis processuais incluíam minúcias tipo como as testemunhas deveriam ser chamadas a juízo para que alguém pudesse ser condenado por homicídio.

Os Legisladores

Os legisladores não eram os reis ou governantes mas oficiais designados para o posto de escrever leis. A maior parte dos legisladores eram pessoas de classe média oriundos da aristocracia. Para que as leis não fossem injustas, os governantes oficiais procuravam assegurar que os legisladores não tomassem partido, isto é, que não fizessem parte de nenhum grupo isolado. Devido a essa restrição, os legisladores não participavam normalmente do governo, e eram considerados forasteiros políticos.

As Cortes (ou Tribunais) e o Sistema Judicial

A fim de fazer cumprir as punições previstas pela lei, os antigos gregos precisavam de algum sistema para ‘processar’, ‘julgar’ e ‘sentenciar’ os culpados. Assim, eles criaram um sistema judicial. Os oficiais da corte ganhavam pouco, se é que ganhavam alguma remuneração. Os julgamentos eram conduzidos num único dia, sendo que os casos particulares eram ainda mais expeditos.

Na corte ou tribunal não havia oficiais profissionais tipo advogados e juízes. Um caso normal consistia de dois ‘litigantes’, um reclamante que alegava que um ato ilícito havia sido cometido, e um respondente que argumentava a própria defesa. Os ‘jurados’ eram a própria audiência da corte. Cada pessoa votava a favor de uma parte ou da outra. O resultado do julgamento era de ‘culpado’ ou ‘não culpado’. Após o julgamento a audiência votava outra vez para decidir a punição.

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Lições do idos de março

Jo Pires-O’Brien

No feriado de 15 de março de 44 AEC (Antes da Era Comum), conhecido na República de Roma como a festa do idos de março, Júlio César foi assassinado por um grupo de conspiradores que se intitulavam ‘Libertadores’. No mesmo dia 15 de março de 2015, no Brasil, milhares de brasileiros foram às ruas em Maceió, Recife, Rio de Janeiro, e diversas outras capitais para pedir o afastamento (impeachment) da Presidente. Vale a pena refletir sobre as duas situações. Que lições os brasileiros, como os que foram às ruas em março de 2015, podem tirar do idos de março do ano 44 AEC em Roma.

Numa comparação entre a Roma da época de Júlio César e a República do Brasil da atualidade podemos notar que Roma não era constituída só da aristocracia corrupta e da plebe manipulável, assim como o Brasil não é formado só por plutocratas corruptos e uma população altamente influenciável. O Brasil tem, como Roma tinha, muitos cidadãos honestos e decentes. O problema não é o fato desse segmento da população ser minoritário. O problema reside na democracia descaracterizada que permite que as minorias sejam esmagadas pela maioria.

Na sua gigantesca obra Ascensão e Queda do Império Romano Edward Gibbon (1737-94) mostrou a futilidade do assassinato de César, uma vez que os conspiradores mataram o tirano mas não a tirania. Gibbon mostrou ainda que César era um mero sintoma da doença que já instalada no regime político de Roma. É razoável cogitar se não é isso mesmo o que está acontecendo no Brasil, e, pesquisar o que os cientistas políticos têm a dizer sobre as doenças que afligem os regimes.

Samuel Huntington mostrou os regimes políticos sustentam-se pelas suas instituições, que ele definiu como sendo ‘os padrões de comportamento recorrentes, estáveis e valorizados cuja principal função é facilitar a ação humana coletiva’. Huntington usou o termo ‘political decay’, ou ‘desintegração política’, para designar a decadência das instituições que têm a função de sustentar determinado regime político. A desintegração política é, portanto, o nome da doença que afeta os regimes políticos. Francis Fukuyama, que foi aluno de Huntingdon, mostrou que quando os novos grupos sociais deixam de ser acomodados, eles pressionam as instituições e as desestabilizam. Trocando em miúdos, a incapacidade das instituições políticas de acompanhar a evolução social leva à desestabilização e esta à desintegração.

Examinando outros sintomas da desintegração política de Roma podemos destacar as disputas dentro da aristocracia e a maneira como a plebe se aproveitava das mesmas para fazer exigências. No caso do Brasil, são sintomas da desintegração política a arrogância dos políticos, a corrupção, o clientelismo, a impunidade, e as pressões da maioria.

Uma reflexão mais profunda sobre o idos de março romano mostra também o erro que os conspiradores cometeram. Primeiro eles acusaram César de aspirar ser rei, baseando-se no fato de que César era amante da rainha Cleópatra; em seguida eles declararam César culpado; e finalmente eles o executaram. Trocando em miúdos, ao assumir ao mesmo tempo os papéis de acusador, júri e carrasco os conspiradores mostraram uma unilateralidade que é típica dos tiranos.

O idos de março de 44 a.C. tem lições úteis para a inquietante situação do Brasil em 2015. Não adianta atacar sintomas; é preciso eliminar a doença da desintegração política. As soluções paliativas não funcionam contra esta doença, e muito menos aquelas que envolvem uma violação da lei. O que a sociedade civil brasileira precisa é reformar as suas instituições, tornando-as capazes de facilitar a engrenagem social e a inclusão.


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Tome cuidado com o idos de março!

Jo Pires-O’Brien

No calendário romano o ‘idos de março’ correspondia ao dia 15 e era o dia da festa religiosa do lupercais (lupercalia), em homenagem à divindade Pã. Esta data entrou para a História por ser a data escolhida para o assassinato de Júlio César no ano 44 a.C. Shakespeare deu ao idos de março a conotação de mau agouro, conforme mostra o trecho a seguir (a tradução é minha) extraído da sua tragédia Júlio César.

Vidente: César!

César: Quem me chama?

Casca (conspirador contra César): Que todo o barulho cesse: que a calma retorne!

César: Quem é que me chama do meio do povo? Eu ouço uma fala, mais medonha que a música.

Um grito: César! (César volta-se para ouvir.)

Vidente: Tome cuidado com o idos de março!

César: Quem é aquele homem?

Brutus: É um vidente dizendo para tomar cuidado com o idos de março.

César: Traga-o para mim; deixe-me ver o seu rosto.

César: O que é que tu disseste para mim? Diga de novo.

Vidente: Tome cuidado com o idos de março!

Júlio César, Ato 1, cena 2, 13-25 (1599)

Shakespeare baseou este trecho e outros da sua tragédia na biografia de Júlio César escrita por Plutarco1. Segundo esta narrativa, no dia do idos de março, dia 15, do ano 44 a.C., Júlio César dirigiu-se ao fórum do Senado não só contra a vontade de sua esposa Calpúrnia, que havia sonhado que ele havia sido morto, mas também contra a própria intuição, uma vez que ele era um homem supersticioso. Ao chegar no fórum, Júlio César foi abordado por um homem pedindo para falar com ele, e logo em seguida, ele foi cercado por um grupo de conspiradores que tirando as adagas escondidas em suas roupas, aplicaram-lhe 23 golpes. A inferência de Shakespeare é que Júlio César foi derrotado por ter deixado de seguir o seu próprio instinto.

  1. Plutarco (c.46-c.120 d.C.) era um grego altamente letrado e viajado que deixou escritos históricos e de caráter geral. O próprio Plutarco admitiu que não escrevia história e sim biografias e portanto os seus escritos supostamente factuais devem ser escrutinados pelos pesquisadores de história. Na minha postagem A Biblioteca da Alexandria eu cito o exemplo do engano de Plutarco ao creditar a Júlio César a destruição dessa famosa Biblioteca. No caso da biografia de Júlio César de Plutarco é possível que haja outros erros, visto que Júlio César e morreu cento e dois anos antes do nascimento de Plutarco.

PS. Quais as lições que podem ser tiradas do assassinato de Júlio César no idos de março? Essa pergunta foi feita por Edward Gibbon (1737-94), autor da gigantesca obra Ascensão e Queda do Império Romano. Gibbon mostrou a futilidade do evento para o motivo explícito de salvar a República. O que os conspiradores queriam era fama e vingança. Entretanto, eles ganharam a vingança e César ganhou a fama. Depois da sua morte Júlio César foi endeusado, o Senado perdeu poderes e Roma passou a ser governada por imperadores.


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Um resumo da vida de Júlio César (100–44 AEC)

Nascido em Roma em 12 de julho de 100 AEC (Antes da Era Comum) numa família remediada da antiga aristocracia, Júlio César, ou Gaius Julius Caesar, cresceu numa época marcada pela corrupção política e pelo desemprego. A aspiração de seu pai era que César obtivesse alguma colocação modesta no governo mas César precisou criar o próprio caminho uma vez que o seu pai faleceu quando ele tinha apenas quinze anos de idade. Percebendo o jogo de poder de Roma César decidiu fazer casamentos vantajosos, cultivar amizades e a zelar pela boa imagem de si próprio. Aos dezoito anos de idade ele casou-se com Cornelia Cinnilla, de treze anos de idade, filha do cônsul Lucius Cornelius Cinna.

Como punição por ter feito amizades com desafetos do atual governo, aos dezenove anos César foi mandado servir no exército. Entretanto, ele soube tirar o melhor proveito possível dessa punição, conseguindo ganhar o posto de assessor militar junto a um governador de província. Ao término do período de serviço César julgou que ainda não era a hora de voltar a Roma, e resolveu permanecer no sul da Itália, onde se ocupou em estudar retórica e aprimorar a sua educação. Em 68 AEC, a esposa de César, Cornelia, morreu de parto, deixando-lhe a sua filha Júlia.

Eventualmente César retornou a Roma onde logo conseguiu ser nomeado para o cargo de questor (quaestor, magistrado encarregado de funções financeiras) na Espanha (Hispania), onde ficou por alguns anos, retornando depois a Roma, onde ele se ocupou em ganhar o apoio junto à pessoas de todas as classes. No ano 60 a.C. César foi mandado de novo para a Espanha, dessa vez no cargo de pretor (praetor, magistrado que administrava justiça; o termo foi mudado posteriormente para cônsul). Na Espanha ele conseguiu acertar os seus problemas financeiros. Quando César retornou a Roma em 59 AEC ele já tinha a fama de ser um líder capaz e era altamente popular.

César cultivou a companhia de Pompeu o Grande (Gnaeus Pompeus Magnus), que se tornou seu genro ao se casar com sua filha Júlia, bem como de Crasso (Marcus Licinius Crassus), o homem mais rico de Roma, que virou o patrocinador de suas campanhas políticas. No final de 60 AEC, César, Pompeu e Crassus fizeram um pacto secreto designado posteriormente de Triunvirato, onde cada qual administraria uma parte do Império.

Em 59 AEC César foi nomeado cônsul da Gália Cisalpina (Ilíria) e pouco tempo depois da Gália Transalpina, devido à morte do incumbente desta, com um mandato que se estendia até fevereiro de 54 AEC Ainda em 59 AEC. César casou-se com sua terceira esposa, Calpúrnia Pisonis, filha de Lucius Calpurnius Piso, ou Lucius Cornelius Cinna, o qual ele ajudou a se eleger cônsul em 58 AEC. Durante o seu mandato na Gália César juntou dez legiões de cerca de 50 000 soldados e um grupo de 10 a 20 mil aliados, escravos e seguidores. Na Gália César derrotou a tribo dos helvécios, bem como diversas outras germânicas, anexando uma gigantesca região que se estendia até a margem esquerda do Reno.

Apesar da existência do pacto (o Triunvirato) César e Crasso tiveram graves desentendimentos com Pompeu e César rompeu de vez com este depois que a sua filha Júlia morreu de parto em 54 AEC. Depois da morte de Crasso em 53 AEC César perdeu seu grande aliado e ficou à mercê das tramas de Pompeu junto à elite (optimate) de Roma.

Em janeiro do ano 49 AEC Júlio César decidiu desobedecer às ordens do Senado e atravessar o Rubicão (rio que separa a Gália Cisalpina da Itália). Ao entrar em Roma acompanhado das suas tropas César foi aclamado pelo povo e Pompeu viu-se obrigado a fugir. No final de 48 AEC César perseguiu Pompeu até o Egito, onde este último foi morto. Enquanto estava no Egito César se aliou à Cleópatra VII tornando-se seu amante. Dessa união resultou um filho de César, que foi chamado Cesário (Caesarion).

Quando Júlio César retornou a Roma ele foi recebido com grandes honras e em 47 a.C. ele foi apontado ‘tirano’1. César mostrou-se como um ditador benevolente ao perdoar os antigos oponentes e convidá-los para fazer parte do seu governo. César iniciou uma reforma profunda do Senado, e ocupou-se em ajustar as contas públicas e a reorganizar os governos das províncias. A sua popularidade cresceu ainda mais depois que ele distribuiu terras aos soldados e melhorou o nível de vida de muitas pessoas comuns. O Senado conferiu-lhe muitos títulos honoríficos, aprovou a colocação da sua efígie nas moedas do império, e em 14 de fevereiro de 44 a.C. conferiu a ele o título de ‘ditador vitalício’. Esta última honraria foi a gota d’água para os inimigos de César, que fizeram uma conspiração para assassiná-lo a fim de salvar a República de Roma.

O líder iniciador da conspiração contra César era o Senador Cassius (Gaius Cassius Longinus), que era casado com Junia Tertia, irmã de Brutus2 (Marcus Junius Brutos Minor), a quem César tratava como filho. Tanto Cassius quanto Brutus haviam sido perdoados por César e deviam a César os cargos que tinham. Cassius persuadiu Brutus a se juntar à conspiração contra César lembrando a Brutus que era descendente de um dos heróis romanos que haviam derrotado os antigos reis da região a fim de criar a República, e que esta estava em perigo devido às aspiração de César de ser rei, evidenciada pelo fato de César ser amante de Cleópatra, uma rainha. A data escolhida para o assassinato de Júlio César foi o ides de março, dia 15, pois Júlio César havia planejado viajar no dia 18 de Março para uma campanha militar no atual Iraque.

No idos de março de 44 AEC Júlio César resolveu comparecer ao fórum do Senado a despeito das premonições de sua esposa Calpurnia. Logo na entrada Júlio César foi abordado por um homem pedindo para falar com ele, e em seguida, ele foi cercado pelos conspiradores que o assassinaram com 23 punhaladas.

    1. O regulamento Senado Romano permitia a nomeação de ‘tiranos’ (ditadores) em caráter excepcional, como durante crises graves. Leia a minha postagem ‘Um Resumo da República Romana’.
    2. Brutus (85-42 AEC) era filho de Servilia e Marcus Junius Brutus. Depois que o seu pai foi morto por Pompeu em 77 AEC, Brutus foi primeiramente adotado pelo tio Quintus Servilius Caepio, quando ele trocou de nome, e depois por outro tio, Marcus Porcius Cato Uticensis (o filósofo Cato o Jovem), meio-irmão de sua mãe, Servilia. Devido ao fato de Servilha ter sido uma das amantes de César, alguns historiadores acreditam que Brutus era filho natural deste.

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Um resumo da República Romana

Jo Pires-O’Brien

A República de Roma surgiu em torno de 509 AEC (Antes da Era Comum) com a destituição dos reis de toda a região. No início Roma era pequena, mas aos poucos foi conquistando outros territórios e países. No ano 44 AEC, marcado pelo assassinato de Júlio César no ides de março, dia 15, a República de Roma já era um Estado rico e poderoso. Acontece que o poder corrompe sem distinção de classes e a história de Júlio César e do seu assassinato é uma lição ainda válida sobre o jogo do poder e as suas nefastas consequências.

A República de Roma era governada pelo Senado Romano, que era a sua figura representativa. Mas o poder do Senado era concentrado no executivo e no judiciário. Quem propunha legislações eram os cônsules, que eram magistrados. O Senado apenas avaliava tais legislações, juntamente com os Tribunos da Plebe. A entidade chamada Senado Povo Romano (SPQR, ou Senatus Populusque Romanus), distinguia os membros do Senado dos demais cidadãos em termo de classes. Os próprios membros do Senado eram separados entre aristocratas e conscritos (conscripti) da plebe. Internamente o dono do poder era o Povo Romano, através da Comissão Centúria (Comitia Centuriata), da Comissão dos Povos Tribais (Comitia Populi Tributa), e do Conselho do Povo People (Concilium Plebis). A legislação era obtida em diversas assembleias que elegiam os magistrados e agiam segundo as recomendações do Senado.

O Senado enviava e recebia embaixadores, nomeava os governadores das províncias, oficiais militares, declarava guerras, negociava paz e apropriava fundos para obras públicas. Mais ou menos no final da República de Roma o Senado começou a dar o título ‘ditador’ em caráter excepcional como durante crises graves. Como medida de precaução contra ditaduras, o próprio Senado declarou os seus membros defensores da República (senatus consultum ultimum). O Senado era presidido por 2 cônsules eleitos que se alternavam a cada mês.

Os senadores eram apontados pelos equitos (equites), e selecionados pelos Cônsules, Tribunos e mais tarde pelos Censores. Eles também podiam ser selecionados dentre os cidadãos nomeados para a magistratura. Os senadores não tinham os mesmos poderes. Nem todos tinham direito de votar, e entre aqueles que votavam, nem todos tinham o direito de falar em público. Dentre os que podiam falar em público, o patrício sempre tinha prerrogativa em relação ao plebeu. Os senadores votavam nos assuntos ordinários, por aclamação ou levantando a mão. Quando o assunto em questão era importante, então o quorum era demandado, e os senadores se aglomeravam em setores diferentes do forum.

Na época de Júlio César, a República Romana já se encontrava enferma e há muito havia esquecido os antigos valores da virtude e da honra. O Senado Romano encontrava-se dividido por facções que não se entendiam, e as famílias da nobreza se consumiam para ganhar cada vez mais poder, mais terras e mais despojos de guerra. Mas é um engano pensar que todos os romanos pertenciam ou à aristocracia corrupta, ou à plebe manipulada. Roma tinha também cidadãos que se preocupavam em cultivar a virtude e a honra, como os seguidores de Epicuro, mas esse grupo minoritário era ignorado pela decadente e corrupta República.

 


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