O estoicismo

O estoicismo é uma das quatro grandes escolas de filosofia da antiga Grécia, juntamente com a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles e o Jardim de Epicuro, sendo caracterizada pela atenção especial que dava à filosofia da mente. Muitos consideram a escola Estoica como pioneira da ciência cognitiva. O termo ‘estoico’ vem de ‘stoa poikile’, designação da ‘colunada’ onde Zenão do Chipre (c. 335-263 AEC) costumava ensinar.

Os ensinamentos de Zenão giravam em torno da natureza da alma, que era entendida como sinônimo da mente. Juntamente com Cleante de Assos (c. 331-232 AEC), seu seguidor imediato, Zenão enfatizou a natureza ativa da alma, identificando-a pelo seu fogo interno ou calor vital. O estoicismo atingiu o seu ponto maior com Crysipo (c. 280-207 AEC), nascido em Soli ou Tarsus, na Cilícia, o qual propôs a ideia da substância semelhante ao ar da respiração designada pneuma, cujas atividades específicas definiam as faculdades cognitvas do indivíduo. O pneuma era também o princípio organizador do cosmos, a alma do mundo, que os estoicos reconheciam como sendo algo vivo. O estoicismo é centrado em quatro ideias: valor, emoções, natureza e controle. Os estoicos dividiam a lógica em duas: a retórica, ‘a ciência da mão aberta’ e a dialética, ‘a ciência da mão fechada’. Os estoicos viam a filosofia como um meio de aprendizagem; seus objetivo finais eram ética e a física.

Os estóicos entendiam a sensação com sendo o resultado de um impulso externo, que quando combinado com um assente interno, gerava um estado mental que revelava o objeto que o produziu. Por essa razão, os estóicos procuram não se deixar levar por sensações, e buscavam cultivar a fortitude e o auto-controle a fim de vencer as emoções que consideravam destrutivas.

Os estoicos rejeitavam a ideia de que a alma fosse uma entidade incorpórea, que podia existir sem o corpo. Para eles, a alma era como um sopro quente [pneuma] e altamente sensível, infuso no corpo das pessoas. Eles analisavam a atividade da alma tanto pelo nível físico quanto pelo nível lógico, utilizando o pensamento e a linguagem em tal análise. Eles negavam que a alma tinha faculdades racionais ou irracionais, e, afirmavam que as paixões humanas não decorriam da irracionalidade e sim de erros de julgamento. Reconheciam como bens absolutos a sabedoria, a justiça, a coragem e a temperança. Todas as outras coisas como vida, saúde, prazer, beleza, força, riqueza, reputaçãom descendência, assim como os seus opostos, tanto podem ser empregados para o bem quanto para o mal. Os estóicos reconheciam que o mal do mundo e a infelicidade resultavam da ignorância. Eles aceitavam como natural o direito de se retirar da vida, isto é, cometer suicído. Para os estóicos o viver bem era viver em harmonia com a natureza e praticando as quatro virtudes cardeais ensinadas por Platão: a sabedoria (sophia), a coragem (andreia), a justiça (dikaiosyne) e a temperança (sophrosyne).

O estoicismo teve a sua maior influência no mundo greco-romano, em especial entre pessoas de instrução, tendo produzido diversos pensadores de peso como Paneto de Rodes (185 – 109 AEC), Posidônio (c.135 – 50 AEC), Cato o Jovem (94 – 46 AEC), Sêneca o Jovem (4 AEC – EC 65), Epicteto e Marco Aurélio.

O estoicismo é considerado ainda o precursor do solipsismo ético, a ideia de que todos os julgamentos são centrados no ‘eu’ o que torna impossível julgar o comportamento moral dos outros.

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

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Irving Finkel e a escrita cuneiforme

 

Uma visita que fiz uns anos atrás à Galeria do Iluminismo (The Enlightenment Gallery) do Museu Britânico de Londres coincidiu com uma demonstração sobre a escrita antiga que permitia que os visitantes pegassem e tocassem tabletes antiquíssimos de inscrições cuneiformes da Babilônia. Percebendo a rara oportunidade à minha frente eu busquei imediatamente um lugar numa das mesas que haviam sido ali colocadas especialmente para a demonstração. Minutos depois de me sentar, um indivíduo de aparência peculiar, magro, alto, barba branca e longa e cabelos brancos amarrados num rabo na nuca, entrou na galeria a passos rápidos e foi ter com as duas funcionárias do Museu que ali estavam, desaparecendo logo em seguida. Uma das funcionárias do Museu com quem o indivíduo havia falado, veio até a mesa onde eu mais umas sete pessoas aguardavam, trazendo alguns estojos de uns 28 x 25 cm, contendo tabletes de barro de inscrições cuneiformes que lembravam jogos de carimbos de madeira e borracha. Assim que eu peguei um dos tabletes para examinar eu fui acometida pelas mais diversas sensações, que eu naturalmente procurei disfarçar. Como é que o Museu Britânico podia permitir que pessoas ordinárias como eu própria, pegar nessas relíquias de mais de três mil anos de idade? A funcionária do Museu parece que adivinhou os meus pensamentos pois logo explicou que aqueles tabletes eram simples registros de contabilidade, o tipo mais comum que existe, e continuam a ser encontrados aos montes nas escavações arqueológicas da Mesopotâmia. Mesmo assim, pegar nesses tabletes foi para mim uma experiência inesquecível.

Em janeiro de 2014 eu descobri quem era o indivíduo acima descrito que eu tinha avistado na Galeria do Iluminismo do Museu Britânico. Seu nome é Irving Finkel, e ele acaba de publicar o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio, tradução livre para o português), um substancial volume que narra as versões babilônicas da arca e do dilúvio gravadas em escrita cuneiforme sobre tabletes de barros, escritas séculos antes do surgimento da bíblia dos israelitas (ou judeus). Finkel é Diretor Assistente (Assistant Keeper) do Departamento do Oriente Médio do Museu Britânico, e o curador encarregado da maior coleção de tabletes de barro de escrita cuneiforme do mundo.

Nesse livro Finkel explica a versão do tablete Gilgamesh, que já era conhecida desde a segunda metade do século dezenove, e as demais versões e cópias que existem no arquivo cuneiforme. O primeiro tablete Gilgamesh foi encontrado entre 1845 e 1851 no sítio do antigo palácio de Assurbanipal, o rei da Assíria entre 668 e 627 a.C. e decifrado em 1872 por George Smith, outro especialista em escrita cuneiforme do Museu Britânico. A sua referência completa é Gilgamesh XI, pois trata-se do segmento XI que narra uma inundação ou dilúvio que teria ocorrido na Suméria há quase quatro milênios, e que faz parte do épico babilônico Gilgamesh, rei de Uruk na Suméria, que reinou entre 2700 e 2600 a.C. Desde a sua decifração em 1872 outros tabletes cuneiformes apareceram não apenas sobre o épico Gilgamesh mas também sobre outras lendas da antiguidade.

Mas a narrativa principal de Finkel baseia-se num outro tablete datado de cerca de 1750 b.C., que traz uma versão bem mais pormenorizada da narrativa babilônica da arca, que inclui as instruções do deus mesopotâmio sobre como a arca deveria ser construída. A embarcação deveria ser redonda e seu tamanho deveria ser de cerca de dois terços de um campo de futebol. Em termos de material, ela deveria ser feita de corda, revorçada com vigas de madeira e impermeabilizada com betume. O texto também especifica que os animais devem entrar na arca de dois a dois. Segundo a descrição de Finkel, ‘quando os deuses decidiram exterminar a humanidade com um dilúvio, o deus Enki, que tinha senso de humor, vazou a informação para um homem chamado Atra-hasis, ‘o Noé babilônio,’ que deveria construir a Arca’. Finkel também descreve outras narrativas antiquíssimas em escrita cuneiforme que têm remarcáveis semelhanças com certas narrativas da bíblia1. Para quem tiver a oportunidade de ir a Londres, o tablete que Finkel decifrou encontra-se à mostra na Sala 56 do Museu Britânico.

As diversas resenhas que apareceram nos jornais britânicos sobre o livro The ark before Noah de Finkel me persuadiram a comprar o livro que eu li com enorme interesse. O livro de Finkel é sério mas num estilo simples e cativante.

Nota

1. Versões em português e inglês da lenda babilônica de Sargão, que teria inspirado a história de Moisés.

A Lenda de Sargão
SARGÃO, poderoso rei, o Rei da Acádia, eu sou.
A minha mãe era humilde, o meu pai eu não conheço.
O irmão do meu pai morava na montanha.
A minha cidade era Azupirani, situada na beira do Eufrates.
(A minha) humilde mãe me concebeu; em segredo ela me teve.
Ela me colocou num cesto-barco de junco; e com piche ela
fechou a minha porta.
Ela me deu ao rio que não subiu sobre mim.
O rio me levou para Akki, o irrigador, ele me carregou.
Akki, o irrigador do * * * levou-me para a terra.

Akki, o irrigador, me criou como seu próprio filho.
Akki, o irrigador, me fez seu jardineiro.
Quando eu era jardineiro, Ishtar me olhou com amor
[e] * * * * * * quatro anos eu governei o reino.
[Resquícios de cinco linhas bastante danificadas para permitir uma tradução.]

Legend of Sargon
SARGÃO, the powerful king, King of Agade, am I.
My mother was of low degree, my father I did not know.
The brother of my father dwelt in the mountain.
My city was Azupirani, situate on the bank of the Euphrates.
(My) humble mother conceived me; in secret she brought me forth.
She placed me in a basket-boat of rushes; with pitch she closed my door.
She gave me over to the river which did not (rise) over me.
The river bore me along; to Akki, the irrigator, it carried me.
Akki, the irrigator in the * * * brought me to land.

Akki, the irrigator, reared me as his own son.
Akki, the irrigator, appointed me his gardener.
While I was gardener, Ishtar looked on me with love
[and] * * * * * * four years I ruled the kingdom.
[Remnants of five lines too badly mutilated for translation.]

Júlio Cesar e a destruição da biblioteca de Alexandria

A destruição da biblioteca da Alexandria foi atribuído por Plutarco a um incêndio causado por Júlio César. Segundo a narrativa de Plutarco, no ano 48 a.C., Júlio César perseguia Pompeu no Egito quando de repente ele foi cortado por uma armada egípcia em Alexandria. Ao ver-se em perigo em território inimigo César ordenou a seus homens que incendiassem todos os navios ancorados e o incêndio no cais invadiu a cidade e incendiou a biblioteca.

A versão de Plutarco foi contestada pelo historiador romano Lucano, conforme mostrou Theodore Venettos no seu livro Alexandria (2001). Na versão de Lucano descrita por Venettos, Júlio César foi de fato para o Egito perseguindo Pompeu, assim que chegou lá Júlio César chegou no Egito ele foi informado da morte de Pompeu, e portanto, não tinha nenhum motivo para incendiar os barcos egípcios. Além disso, Ptolomeu XII havia morrido, os seus filhos – incluindo Cleópatra – brigavam entre si pelo trono do Egito, e tudo o que Júlio César queria era chegar aos palácios reais da Alexandria. A fim de facilitar a passagem dos galeões romanos que traziam a 37ª legião da Ásia Menor para o Egito, Júlio César mandou incendiar a frota egípcia ancorada em Lochias. Diversas estruturas perto das docas foram incendiadas e suas mercadorias destruídas, incluindo alguns milhares de livros que se encontravam num dos prédios. Eis a citação de Venettos:

‘Deste incidente, os historiadores erroneamente assumiram que a Grande Biblioteca havia sido destruída, mas a Biblioteca não ficava nem um pouco perto das docas. O historiador romano Lucano reportou que César cercou o palácio, ordenou que tochas fossem encharcadas de piche e lançadas nas embarcações egípcias. O fogo imediatamente se espalhou para os cordames e as docas, que eram pintadas de piche. Devorada pelas chamas, enquanto o incêndio se alastrava para o restante das embarcações. As casas perto das docas também pegaram fogo; e as chamas, levadas por rajadas de vento, riscaram o céu como meteoros sobre os telhados. O maior dano ocorreu na área das docas, em estaleiros, arsenais, e armazéns onde grãos e livros se achavam armazenados. Cerca de quarenta mil rolos foram destruídos pelo incêndio. Não havia nenhuma conexão com a Grande Biblioteca, eram livros de contabilidade e livros-razão contendo registros das mercadorias a serem despachadas para Roma e outras cidades do mundo’ (Venetos 2001).

Não é difícil entender porque a acusação incorreta a Júlio César pegou e demorou a ser corrigida. O viés do ódio simplesmente impediu a verdade de emergir. Júlio César era odiado pelos intelectuais da época pelo seu populismo, arrogância e hipocrisia, enquanto que os povos conquistados odiavam o imperialismo romano e os romanos de maneira geral.
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Joaquina Pires-O’Brien é a editora da revista eletrônica bianual PortVitoria, dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês:

Referência
Venettos, Theodore (2001). Alexandria. City of Western Mind. The Free Press. New York. 247 pp.

A biblioteca da Alexandria

Quando Alexandre o Magno ainda era menino e aluno de Aristóteles, ele certamente conheceu Homero e a descrição de ‘uma ilha no mar que se avista na costa do Egito, designada Faros’ contida na sua Odisseia. Foi precisamente na Ilha de Faros, na desembocadura do Nilo, que Alexandre construiu a nova capital do Egito em substituição a Mênfis. O local escolhido para a construção de Alexandria foi precisamente a Ilha de Faros, na desembocadura do Nilo. A nova cidade teria amplas avenidas e ganharia pelo menos dois monumentos que ficariam na história: um grande farol e um Templo das Musas. O ‘Mouseion’, como este era chamado, seria uma verdadeira instituição de ensino inspirada no Liceu de Aristóteles, em Atenas, onde ficaria uma grande biblioteca, o repositório do saber do mundo.

Alexandre que tinha um enorme respeito pelo antigo mestre, para quem ele enviava regularmente espécimes de minerais e plantas durante as suas campanhas militares. Alexandre morreu aos trinta e dois anos de idade, presumivelmente envenenado por alguém do seu círculo mais chegado, e portanto, não viu a cidade concluía. Foi enterrado lá num local provisório, até a construção do mausoléu em sua homenagem. Após a morte de Alexandre, o império Greco-macedônico foi dividido pelos generais macedônios que o acompanharam nas suas conquistas. Quem ficou com o Egito foi o general Ptolomeu (323-283 a.C.), que era meio-irmão de Alexandre, sendo filho de Felipe com Arsinoe, uma de suas concubinas. Ptolomeu não só conseguiu restaurar a ordem do país mas também ganhar a afeição dos egípcios, que lhe atribuíram o título de Soter, ou ‘o Salvador’. No reinado de Ptolomeu I Soter a Alexandria era um canteiro de obras repleto de trabalhadores de todas as nacionalidades. Ele foi substituído pelo seu filho Ptolomeu II, designado de Philadelphus, que foi quem conseguiu terminar o Mouseion, com a sua grande biblioteca mais alojamentos, áreas para palestras, jardins e um zoológico. Uma segunda biblioteca foi construída posteriormente no Templo de Serapis, conhecida como Serapiana.

Ptolomeu II continuou os esforços do pai e eventualmente ganhou a simpatia dos egípcios através do cultivo das tradições egípcias e restauração das construções dos faraós, que haviam sido destruídos pelos persas. Um exemplo é o Templo de Serapis, num ponto elevado da cidade onde gregos e egípcios veneravam num só altar Zeus e Osíris. Ptolomeu II era instruído e ficou conhecido pelo valor que dava às artes, à história e às ciências. Ele mandou compilar uma história do Egito, uma versão grega da bíblia dos hebreus e é de sua autoria o relato mais crível sobre as campanhas de Alexandre. Durante o seu reinado, a cidade de Alexandria já estava dividida em três distritos administrativos: (i) Rhakotis, o dos egípcios natos; (ii) Bruchium, o da realeza Greco-macedônica, onde ficava o grande Templo das Musas, ou Mouseion, com sua famosa biblioteca real, o Mausoléu de Alexandre e o teatro; e (iii) o distrito dos judeus, que era quase tão vasto quanto o dos gregos.

Toda a dinastia dos Ptolomeus zelou pela manutenção do Mouseion e de suas atividades. Estima-se que a biblioteca tenha chegado a ter entre 500.000 e 700.000 rolos de pergaminhos e manuscritos de todas as partes do mundo incluindo a Grécia, a Pérsia a Assíria e a Índia. Durante o seu apogeu, a Alexandria foi uma das mais importantes cidades do mundo antigo, além de ser também um dos maiores centros culturais do mundo civilizado. Era uma cidade altamente cosmopolita, onde diversas culturas conviviam pacificamente, incluindo uma extensiva comunidade de judeus. Os estudiosos iam para lá a fim de encontrar outros estudiosos. Dentre os seus famosos pesquisadores estão Euclides, Erastóstenes e Aristarco de Samos. Lá ocorreu ainda a mistura da herança egípcia, helênica e judaica que influenciou a nova seita cristã.

Segundo diversas narrativas históricas a Biblioteca principal foi destruída acidentalmente no ano 48 a.C. por um incêndio causado por Júlio César, e que a biblioteca Serapeiana tomou o lugar da primeira até ser ela própria destruída no ano 391 durante a guerra civil que ocorreu no governo do imperador Aureliano. Infelizmente a história do desaparecimento da grande biblioteca da Alexandria foi incorretamente narrada durante muitos séculos. No seu recente livro Alexandria, City of Western Mind (2001), Theodore Vretos esclarece o erro da imputação da destruição da grande biblioteca ao incêndio causado por Júlio César em 48 a.c. Uma súmula dos fatos descritos no livro de Vretos é fornecida na minha postagem Júlio Cesar e a Destruição da Biblioteca de Alexandria.

Quem Destruiu a Biblioteca?
Se Júlio César não teve nada a ver com a destruição da biblioteca real da Alexandria, quem destruiu-a? A história não identifica culpados individuais, apenas relata ações coletivas depredadoras motivadas pelo fanatismo religioso.

Em 391, o Templo de Serápis, que ficava no ponto mais alto da cidade de Alexandria, foi destruído e uma igreja erguida no mesmo local. Outros palácios ou templos considerados pagãos foram demolidos. Quanto aos livros da biblioteca real e da biblioteca serapiana, quem pode dizer ao certo? O que se sabe é que as tentativas de organizar o cristianismo em torno de uma igreja universal, primeiro por Irineu e depois pelo concílio de Niceia, foram acompanhadas de incitações à destruição dos livros contendo doutrinas e evangelhos apócrifas.

Em 641, dez anos depois da morte do profeta Maomé, o Egito foi invadido pelo exército árabe sob o comando do general Amru. A implantação do islamismo no Egito foi acompanhada da predisposição para destruir tudo aquilo que fosse considerado contrário aos ensinamentos do Corão. Os livros que ainda restavam em Alexandria eram os alvos mais fáceis dos novos fanáticos.
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Joaquina Pires-O’Brien é a editora da revista eletrônica bianual PortVitoria, dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês:

Referências
Venettos, Theodore (2001). Alexandria. City of Western Mind. The Free Press. New York. 247 pp.

O indiciamento de Platão (c.428-c.348 a.C.)

No século vinte Platão foi indiciado como filósofo coletivista e inimigo da democracia, sendo Karl Popper o seu maior acusador. De fato, a imputação de Platão como coletivista e inimigo da democracia é escorada em A República, de cerca de 360 a.C., um retrato da sociedade perfeita idealizada, governada por um rei-filósofo. Os diálogos da República são diferentes dos outros diálogos de Platão, pois neles Sócrates é o narrador que expõe as diferentes visões sobre os temas relevantes da cidade como a justiça, o bem comum e a educação. O ataque de Popper é sobre o coletivismo embutido nas ideias de Platão de que as pessoas instruídas podiam governar bem melhor do que um punhado de pessoas sem instrução mesmo que eleitas pela população, que o governo da cidade (polis) deve controlar a arte e a educação e que cada indivíduo cidadão da cidade deve personificar a sociedade.

A crítica de Popper a Platão está ligada à noção de que as ideias têm um pedigree e que o pedigree do coletivismo totalitarista, como aquele que afetou diversas regiões do mundo no século vinte, pode ser traçado para trás através de uma série de pensadores como Karl Marx (1818-1883), Georg Hegel (1770-1831), Charles Fourier (1772-1837), Robert Owen (1771-1858), Claude Saint-Simon (1760-1825), Jean Jacques Rousseau (1712-78) e muitos outros.

Defendendo Platão
Popper estava certo em julgar que as ideias de Platão eram perigosas pois o século vinte foi marcado por diversas tentativas de estabelecer reis-filósofos, embora a partir de homens que se julgavam filósofos como Vladimir Lenin (1870-1924), Leon Trotsky (1879-1940), Joseph Stalin (1879-1953), Adolf Hitler (1889-1945), Mao Zedong (1893-1976), Pol Pot (1925-98) etc. Entretanto, o banimento de Platão ao mesmo rol de Lenin, Trotsky, Stalin, Hitler, Mao Zedong e Pol Pot é excessivamente severo. A incriminação de Platão como inimigo da democracia e promotor do coletivismo tem três importantes atenuantes: a juventude, a integridade pessoal e a mente aberta. No atenuante juventude, Platão tinha apenas seus vinte e poucos anos quando imaginou a utopia do rei-filósofo. Antes de se tornar aluno de Sócrates ele serviu na guerra do Peloponeso, que durou muitos anos e terminou com a derrota de Atenas. Ele tinha apenas 29 anos de idade quando no ano 399 a.C. ele testemunhou o julgamento e a condenação de Sócrates. Que democracia era aquela que condena a morte um indivíduo que além de nunca ter causado mal a ninguém era também um sábio? No atenuante integridade pessoal, Platão soube resistir à diversas pressão de seus pares, por exemplo para se associar aos Trinta Tiranos que governaram brevemente Atenas (404-403 a.C.) e para falar mal de Sócrates que havia sido ridicularizado na comédia As Nuvens de Aristófanes. No atenuante mente aberta, está a sua aplicação como aluno de Sócrates, de quem ele adotou o método do diálogo, ou dialética, que até hoje considerado um dos pilares da democracia.

A ambição desmedida pelo poder é apenas uma das duas perspectivas da ideia do rei-filósofo de Platão. Existe uma segunda perspectiva onde há uma motivação justificada para a busca do poder, na ideia de que um governante dotado de razão e conhecimentos reduziria incertezas típicas da sociedade. O fato de Platão ter, em duas ocasiões, aceito a tarefa de aconselhar Dionísio, o governante de Siracusa, na Sicília, mostra que o desejo dele era de ver a filosofia empregada pelos chefes de governo.
Platão teve uma vida repleta de aventuras, na tentativa de por em prática a sua ideia de que os governantes poderiam se beneficiar da filosofia, embora as intrigas da corte de Siracusa malograram ambas as suas tentativas de levar a filosofia aos governantes. Platão também viajou pelo Egito, onde estudou os documentos disponíveis e se convenceu de diversas crenças religiosas, e pela Itália, onde estudou matemática com ex-alunos de Pitágoras. De volta a Atenas, em 428/427 a.C., aos quarenta e um anos de idade, Platão fundou a sua Academia, primeira universidade do Ocidente, dedicada ao estudo da filosofia e da ciência.


Joaquina Pires-O’Brien
Beccles, 25 de outubro de 2013

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A justiça e a lei na Grécia antiga

A justiça e a lei surgiram com a civilização. E na Grécia antiga, o berço da Civilização Ocidental, acreditava-se que a lei havia sido dada aos homens por Zeus. Possivelmente o primeiro legislador grego foi Sólon (638 BC – 558), que é creditado pelos seus biógrafos Heródoto e Plutarco como sendo o criador ou o reformador do Aerópago (Aeropagus) uma espécie de concelho ou tribunal superior com inspetores e mantenedores da lei. Além de ter se esforçado para promover leis voltadas a coibir o declínio moral dos atenienses, Sólon escreveu poemas que serviram para inculcar o civismo e reforçar a identidade ateniense e grega.

Para os filósofos gregos clássicos, a justiça era tanto um bem político quanto uma virtude individual. Na obra de Platão o tema da justiça aparece em dois diálogos – A República e Gorgias –, o primeiro entre Sócrates e Thrasymachus e o segundo entre Sócrates e Callicles. Embora os dois diálogos abordem o tema usando a situação das cidades-estado da antiga Grécia, eles trazem uma universalidade ao contrastar as visões dos expoentes do poder e dos expoentes do direito. No primeiro, a justiça é definida como sendo uma virtude, e no segundo, o debate gira em torno de qual a alternativa menos ruim, causar injustiça ou sofrer injustiça. Embora Sócrates tivesse sublinhado a justiça interior de cada ser humano, Platão conduziu o argumento para a justiça externa ao indivíduo, ou seja, a justiça do Estado.

Podemos notar que os filósofos gregos já separavam os dois tipos de justiça: a justiça política dispensada pelo Estado, e a justiça natural, aquela que se presume que cada indivíduo tenha, considerada uma virtude que se revela nos hábitos de conduta de cada indivíduo. Na visão de Sócrates é preciso que a sociedade seja harmoniosa mas para isso é preciso que os seus cidadãos se encontrem no lugar certo, fazendo e dando o melhor que podem. Platão concordou com seu mestre sobre a importância da sociedade ser harmoniosa, mas para ele a condição maior é a boa administração.

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A biblioteca ou museu da Alexandria

A Biblioteca da Alexandria, também chamada Museu das Musas da Alexandria, com as suas áreas para palestras, jardins e um zoológico, foi a mais importante instituição de aprendizado de filosofia do mundo antigo. O próprio Alexandre o Grande, da Macedônia, que havia conquistado a Grécia, o Egito e uma boa parte do mundo antigo, planejou a criação da biblioteca com base nos moldes do Liceu de Aristóteles em Atenas. Alexandre havia sido aluno de Aristóteles, e durante as suas viagens de conquistas ele costumava mandar espécimes de minerais e plantas para o antigo mestre em Atenas. Alexandre morreu antes de ter completado seus trinta e tres anos de idade, possivelmente envenenado por alguém do seu próprio círculo, motivado pelo surto de fúria do Conquistador. Após alguns anos de confusão e violência, o Império de Alexandre foi dividido pelos generais macedônios que o acompanharam nas suas conquistas. Quem ficou com o Egito foi o general Ptolomeu, que era filho de Felipe com Arsinoe, uma de suas concubinas, e portanto, era meio irmão de Alexandre. Ptolomeu não só conseguiu restaurar a ordem do país mas também ganhar a afeição dos egípcios, que lhe atribuíram o título de Soter, ou ‘o Salvador’. Ptolomeu I Soter (323-283 a.C.) optou por criar uma nova capital, Alexandria, onde deu início ao projeto da sua Biblioteca, cuja completação só ocorreu em 295 a.C., no governo de Ptolomeu II Philadelphus.

Ptolomeu I concluiu a fundação da cidade de Alexandria e se esforçou para vencer as resistências dos egípcios. O seu filho Ptolomeu II continuou os esforços do pai e eventualmente ganhou a simpatia dos egípcios através do cultivo das tradições egípcias e restauração dos templos dos faraós, que haviam sido destruídos pelos persas. Ptolomeu II era instruído, valorizava as artes e as ciências, e é de sua autoria o relato mais crível sobre as campanhas de Alexandre.

Em 235 a.C. Ptolomeu III Eergetes estabeleceu uma biblioteca filial no Templo de Serapis. Todo o conjunto da biblioteca da Alexandria foi mantido pela dinastia dos Ptolomeus. Estima-se que a biblioteca tenha tido entre 500.000 e 700.000 pergaminhos e manuscritos de todas as partes do mundo incluindo a Grécia, a Pérsia a Assíria e a Índia. Estima-se que a cultura ateniense não teria sido preservada se não fosse a Biblioteca da Alexandria.

No seu apogeu Alexandria foi uma das mais importantes cidades do mundo antigo e um importante porto. Durante um certo período, a Alexandria foi também o principal centro de cultura do mundo. Alexandria foi uma cidade altamente cosmopolita, onde diversas culturas conviviam pacificamente, incluindo uma extensiva comunidade de judeus. Os estudiosos iam para lá a fim de encontrar outros estudiosos. Dentre os seus famosos pesquisadores estão Euclides, Eratóstenes e Aristarcos de Samos. Lá ocorreu ainda a mistura da herança egípcia, helênica e judaica que influenciou a nova seita cristã.

Consta da narrativa de Plutarco que a Biblioteca foi destruída acidentalmente no ano 48 a.C. por um incêndio causado por Júlio César. Segundo Plutarco, Cesar estava perseguindo Pompeu no Egito quando de repente ele foi cortado por uma armada egípcia em Alexandria. Ao ver-se em perigo em território inimigo César ordenou a seus homens que incendiassem todos os navios ancorados e o incêndio no cais invadiu a cidade e incendiou a biblioteca. Após a destruição a biblioteca do Templo de Serapis passou a ser a principal. Apesar de tudo Júlio César conseguiu ganhar o Egito para o Império Romano. Ele destituiu o último Ptolomeu, o XIII, e teve um romance com a irmã dele, Cleópatra VII, que no ano seguinte teve um filho de César. Com o apoio de César, Cleópatra VII reinou no Egito até o assassinato de César em 44 d.C.  Cleópatra VII teve também um relacionamento amoroso com Marco Antonio, que foi em campanha militar para o Egito no ano 40, ficando lá por quatro anos. Marco Antonio acabou se tornando um desafeto do novo imperador Otaviano, e no ano 30 ele se apunhalou enquanto que Cleópatra suicidou-se com a picada de uma cobra.

A outra biblioteca de Alexandria sobreviveu até o terceiro século da era atual, mas foi destruída no ano 391 durante a guerra civil que ocorreu no governo do imperador Aureliano. A destruição da biblioteca da Alexandria foi uma das piores perdas culturais da humanidade em toda a sua existência.


Revisor: Carlos Pires

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista PortVitoria, dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês: http://www.portvitoria.com/: www.portvitoria.com