O que é Humanismo?

“Um sistema de pensamento racionalista que atribui importância primordial ao humano ao invés do divino ou das questões supernaturais.” (Oxford English Dictionary)

“A rejeição da religião a favor do progresso da humanidade pelos seus próprios esforços.” (Collins Concise Dictionary)

“…uma filosofia não religiosa, baseada em valores humanos liberais.” (Little Oxford Dictionary)

“…a busca, sem a religião, do melhor nos seres humanos, e para os mesmos.” (Chambers Pocket Dictionary)

“…um apelo à razão em contraposição à revelação ou autoridade religiosa como um meio de descobrir o mundo natural e o destino do homem, fornecendo ainda um alicerce para a moralidade… A ética humanista é também distinguível pela colocação do fim da ação moral no bem-estar da humanidade ao invés de no cumprimento da vontade de Deus.” (Oxford Companion to Philosophy)

Diferentemente dos religionários, os humanistas não têm fé. Ter ‘fé’ significa ter uma forte crença em algo sem prova. Os humanistas são essencialmente céticos. Enquanto as pessoas religiosas podem oferecer respostas supernaturais a das questões fundamentais acerca da vida, do universo, e de todas as coisas, os humanistas preferimos deixar um ponto de interrogação. Os humanistas são ateístas (o que significa ‘sem deus’), ou agnósticos (um termo criado no século XIX pelo biólogo Thomas Henry Huxley, para designar ‘sem conhecimento’, pois Huxley afirmou uma vez que ninguém pode provar ou desprovar a existência de Deus).

Os humanistas rejeitam a noção da pós-vida; nós achamos que essa vida é a única que temos, e que precisamos aproveitá-la ao máximo.

Os humanistas não têm o equivalente da Bíblia ou do Corão, ou um livro de regras para guiar-nos pela vida, embora nós podemos nos referir às grandes obras da história, da filosofia e da literatura. Não é necessário ter lido a história das ideias humanistas, mas a maioria dos humanistas, que é formada por pessoas curiosas e inquisitivas, irá investigar as ideias que nos interessam.

Podemos traçar as influências humanistas a mais de 2.500 anos atrás, ao sábio chinês Confucius e aos filósofos, cientistas e poetas da antiguidade. Um deles foi o filósofo grego Epicuro, que, partindo do princípio de Aristóteles de que a felicidade humana depende da boa conduta, definida como ter uma vida boa, de prazeres e amizades, ausência de dor e paz na mente. Os seus discípulos incluíam mulheres e escravos, algo que na época era quase impensável. Epicuro afirmou, “De todos os fins pelos quais a sabedoria traz felicidade na vida, de longe o mais importante é ter amizades”.

Por muitos séculos, não era seguro expressar abertamente pontos de vista não ortodoxos acerca da religião, mas o surgimento da Idade da Razão e do Iluminismo, nos séculos XVII e XXVIII, gradualmente permitiu que isso se tornasse possível, embora com cautela. Algumas pessoas descreveram-se como sendo ‘racionalistas’, ‘secularistas’ ou ‘livre pensadores’, termos que ainda são empregados pelos humanistas de hoje.

Charles Darwin, cuja teoria da evolução causou um enorme impacto na nossa compreensão acerca de onde viemos, foi uma forte influência no humanismo. A cientista Marie Curie, a feminista do século XVIII Mary Wollstonecraft, os autores Thomas Hardy e George Eliot, o Primeiro Ministro da Índia independente, Jawaharlal Nehru, e o criador americano do seriado de TV Star Trek, Gene Roddenberry, são apenas algumas das pessoas influentes que viveram pelos princípios humanistas.

O professor Richard Dawkins, um incansável advogado do secularismo, afirmou, “Eu cheguei às minhas crenças, como todo mundo devia fazer, pelo exame das evidências”. Muitos humanistas resolveram as suas próprias crenças e se encantam ao descobrir que outras pessoas chegaram a conclusões semelhantes. Porque somos pensadores independentes, os humanistas discordamos acerca de muitas coisas, mas a maioria de nós concorda com alguns princípios básicos. Nós acreditamos que devemos assumir a responsabilidade pelo nosso comportamento e pela maneira como o mesmo afeta as outras pessoas e o mundo onde vivemos. Porque nós acreditamos que essa é a única vida que nós temos, nós acreditamos que é importante tentar viver uma vida plena e feliz, e ajudar os outros a fazer o mesmo.

Os humanistas estiveram envolvidos na criação das Nações Unidas; nós valorizamos os direitos humanos, a liberdade de comunicação, a liberdade do medo, da carência e do sofrimento, e uma educação livre de preconceitos e da influência das poderosas organizações religiosas ou políticas.

No seu livro ‘Humanism, an introduction’ (Humanismo, uma introdução), Jim Herrick escreveu, “O humanismo é a mais humana filosofia de vida. A sua ênfase é no humano, no aqui e agora, o humanitarismo. Não se trata de uma religião e não possui nenhum credo formal, embora os humanistas tenham crenças. Os humanistas são ateístas ou agnóstico e não esperam uma pós-vida. É essencial para o humanismo trazer valores e significação à vida”.

Em 1996, a Assembleia Geral da União Humanista & Ética Internacional (IHEU) adotou a seguinte resolução. Qualquer organização que desejar tornar-se um membro da IHEU é doravante obrigada a validar a sua aceitação da declaração abaixo:

O humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e de moldar suas próprias vidas. Significa ser a favor da construção de uma sociedade mais humanitária através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais à luz da razão e da livre inquirição através das capacitações humanas. Não é teísta, e não aceita visões supernaturais da realidade.

Nota: Fonte: http://suffolkhands.org.uk/humanism/, 27.09.2017. Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK).

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René Descartes

Apesar do seu ar pomposo e da sua errônea doutrina do dualismo, René Descartes (1596-1650) foi um grande matemático cujo maior legado é A Geometria (La Géométrie), onde ele apresentou o seu sistema de coordenadas que permite descrever cada ponto num plano por dois números que fornecem a sua localização horizontal e vertical (veja abaixo). Descartes também se destacou pelo absoluto ceticismo em relação ao conhecimento existente, o que o fez reconstruir o mundo a seu redor através da lógica. Acreditava na superioridade do método científico como fonte de conhecimento. Pôs em dúvida a própria existência até deduzi-la por inferência na frase “penso, logo existo”.

As coordenadas cartesianas servem para medir localizações no eixo horizontal (x) e vertical (y) através de linhas perpendiculares (ou eixos) que se cruzam em um ponto chamado ‘origem’, gerando os quatro quadrantes do plano. Qualquer equação pode ser representada no plano, plotando sobre o mesmo o conjunto de soluções da equação. Por exemplo, a simples equação y = x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,1), (2,2), (3,3), etc. A equação y = 2x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,2), (2,4), (3,6), etc. Equações mais complexas envolvendo x2, x3, etc, geram diversos tipos de curvas no plano. À medida que um ponto muda ao longo da curva, as suas coordenadas mudam, mas uma equação pode ser escrita para descrever a mudança no valor das coordenadas em qualquer ponto na figura. O emprego dessa nova abordagem logo revelou que uma equação como x2 + y2 = 4, por exemplo, descreve um círculo; y2 – 16x uma curva chamada parábola; x2⁄a2 + y2⁄b2 = 1 uma elipse; x2⁄a2 – y2⁄b2 = 1 uma hipérbole; etc.

Em essência, a geometria analítica de Descartes permite converter a geometria em álgebra e vice-versa; portanto, um par qualquer de equações simultâneas pode ser resolvido tanto algebraicamente quanto graficamente (na interseção de duas linhas). Além se servir de base para a invensão do cálculo por Newton e Leibniz, a geometria analítica de Descartes abriu caminho para a o desenvolvimento de geometrias navegantes em dimensões mais elevadas, impossíveis de ser visualizadas fisicamente – um conceito que se tornaria central à física moderna ainda por ser descoberta.

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro encontra-se disponível em versão Kindle e em brochura nos portais da Amazon.

Colóquio: Richard Dawkins: o revolucionáro racional

Colóquio: Richard Dawkins: o revolucionáro racional

Joaquina Pires-O’Brien

‘Richard Dawkins:The Rational Revolutionary’, ou, em português, ‘Richard Dawkins: o revolucionáro racional’, é o título do colóquio que eu tive a oportunidade de assistir em 14 de julho de 2016, em Londres, promovido pela Intelligence Squared (intelligence2; Inteligência ao Quadrado), um fórum mundial de debates inteligentes fundado em 2002 em Londres, com o objetivo de celebrar os 75 anos do cientista bem como os 40 anos da publicação de O gene egoísta (The Selfish Gene, 1976) e os 10 anos de Deus, um delírio (The God Delusion, 2006). O colóquio teve lugar no auditório do Immanuel Centre, em Londres, não muito distante do Parlamento. Em adição ao próprio Dawkins, havia outros seis palestrantes: o jornalista e autor Jonathan Freedland (1967 -), que atuou como Presidente, a psicóloga, professora universitária e escritora Susan Blackmore (1951 -), o ilusionista e autor Derren Brown (1971 -), o dramaturgo e escritor Michael Frayn (1933 -), e através de ligação por vídeo, o filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett (1942 -) e o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker (1954 -).

É interessante notar que dentre os palestrantes havia três não-cientistas, todos três confiantes na própria capacidade de discutir ciência com Dawkins, Dennett, Pinker e Blackmore. Dentre os não-cientistas, o que mais atraiu a curiosidade foi o ilusionista Deren Brown, que notabilizou-se pela prática da sugestão psicológica, com a qual ele é capaz de desbancar as pretensões de espiritualistas e milagreiros. Michael Frayn é o autor da peça de teatro ‘Coppenhagen’ que foi atuada com sucesso em Londres e Nova Iorque, e que trata da física quântica e do desenvolvimento da bomba atômica. Jonathan Freedland, o Presidente, é um jornalista e radialista premiado, crítico literário, e autor de diversos livros de não-ficção e de ficção.

O presente ensaio é a minha versão desse evento, compilado a partir das anotações que fiz durante o mesmo. Reconheço que não é uma transcrição completa mas sim um esboço daquilo que consegui capturar. Peço desculpas adiantadas por falhas eventuais que possa ter cometido.

Abertura do Colóquio

O colóquio ‘Richard Dawkins: The Rational Revolutionary’ ocorrido em 14 de julho de 2016, no auditório principal do Emmanuel Centre, na Marsham Street, Westminster, contou com a participação de cerca de 600 pessoas. Os palestrantes sentavam-se em cadeiras voltadas ao público: Frayn, Dawkins, Freedland, Blackmore e Brown. Acima desses ficava um telão, onde as imagens de vídeo dos outros dois participantes Dennett e Pinker seriam projetadas.

Dois painéis com citações bíblicas, localizados em ambos os lados do telão acima mencionado, mostravam que o local se tratava de uma igreja cristã. O do lado esquerdo tinha a inscrição ‘I am that they might have light and that they might have it more abundantly. John 10:10’, enquanto que a do lado direito dizia ‘Immanuel: God with us. Matt. 1:23’. Os presentes no colóquio certamente notaram a ironia de evento de ateístas ser realizado numa igreja cristã.

De início, Hanna, a representante da Intelligence Squared, apresentou cada um dos participantes, e, em seguida, ela deu a palavra ao jornalista, radialista e ator Stephen Fry, o qual falou através de vídeo, louvando o homenageado Dawkins. Dando início ao colóquio propriamente dito, o seu Presidente, Jonathan Freedland, começou afirmando que o evento daquela noite seria mais uma conversação do que um debate, mas uma conversação especial pois envolveria alguns dos mais influentes pensadores da atualidade.

O gene egoísta

Freeland começou pedindo a Dawkins que explicasse o porquê dele ter se arrependido de ter usado a expressão ‘gene egoísta’. Dawkins respondeu que era porque muita gente julga os livros pelos seus títulos, e, no caso do livro O gene egoísta, muita gente interpretou a palavra ‘egoísta’ ao pé da letra e não metaforicamente como ele havia intencionado. Segundo Dawkins, o seu livro O gene egoísta chegou a ser associado com a ascensão de Margareth Thatcher ao cargo de Primeira Ministra, cuja política de privatizações e defesa do livre mercado fez com que fosse vista por muitos como uma pessoa egoísta. Dawkins disse ter cogitado o título ‘The Immortal Gene’ (O gene imortal), mas que o seu editor tinha preferido ‘O gene egoísta’. Os outros participantes concordaram que o título ‘O gene egoísta’ era por si provocante, mas afirmaram que isso era uma boa razão para mantê-lo.

Genes como replicadores e os memes

Blackmore falou que o sentido da palavra ‘egoísmo’ no livro O gene egoísta tinha a ver com a tremenda capacidade de autorreplicação do gene, a qual envolve copiar informação e passá-la a um novo organismo através da reprodução sexuada; falou dos erros que podem ocorrer durante a cópia das informações genéticas, e, que tais erros levam às variações que costumam aparecer.

Blackmore abordou o tópico dos ‘memes’ palavra criada por Richard Dawkins a partir da palavra grega ‘mimeme’, que quer dizer ‘imitar’, e introduzida no seu livro O gene egoísta. Os ‘memes’ de Dawkins são outras coisas auto-replicáveis, podendo ser ideias ou qualquer coisa cultural; os ‘memes’ podem advir da ciência, da arte e da música, e até de coisas como a moda. Assim como os genes, os memes também sofrem alterações durante esse processo de propagação. Conforme Blackmore, a religião é uma fonte poderosa de memes. “Se você acredita que seja uma boa pessoa, você não consegue acreditar que seja uma má pessoa, e assim sendo, continua a agir de uma mesma forma”.

A ideia perigosa de Darwin

Dennett falou acerca do processo de adaptação dos organismos através da seleção natural descoberta por Charles Darwin, e, porque tal processo foi e ainda é considerado uma ideia perigosa. Conforme ele próprio descreveu no seu livro Darwin’s Dangerous Idea (A Ideia Perigosa de Darwin; 1995), a explicação natural para o surgimento das espécies, através do processo de adaptação ao ambiente, contraria as explicações sobrenaturais contidas nos livros de revelação religiosa.

Por que a seleção natural demorou tanto para ser descoberta

Dawkins afirmou que o fato da seleção natural só ter sido descoberta no século XIX é algo que sempre o intrigou. Por que não Aristóteles ou outro que veio depois dele? Uma possível explicação dele para tal atraso é que a enorme beleza do mundo possivelmente predispôs o homem a aceitar a explicação supernatural da existência do universo.

Fayn apontou que tanto Darwin quanto Wallace (Alfred Russell W.) eram naturalistas de campo, e que esse pode ter sido o fator crítico da descoberta da seleção natural. Blackmore completou que a descoberta da seleção natural tirou o homem do pedestal que antes ocupava. Segundo Pinker, a descoberta da seleção natural decorreu tanto da intuição de Darwin quanto do fato dele ter ligado a riqueza da vida na Terra à reprodução dos organismos. Retomando a palavra, Dawkins levantou a possibilidade de que a ‘forma ideal’ do essencialismo platonista – a ideia de que cada entidade específica possui um conjunto de atributos tal,  necessário para a sua identidade e função – tivesse dificultado pensar em formas em mutação.

A fé e o poder psíquico

Derren Brown, um conhecido ilusionista inglês que iniciou uma carreira na televisão em dezembro de 2000 com a série Mind Control (Controle da mente), é também um desmascarador da arte da manipulação psicológica. Para Brown, o poder psíquico costuma ser empregado por pregadores religiosos para demonstrar o poder do divino, quando na verdade é um fenômeno inteiramente natural. Brown falou que embora ele sempre tivesse deixado isso claro para as suas audiências, que ocasionalmente as pessoas pedem a ele que se comuniquem com indivíduos já falecidos, o que mostra que muita gente não consegue abrir mão do supernatural.

Novos ateístas

Foi colocado a Dennett que ele faz parte do grupo conhecido como ‘novos ateístas’ (autores do início do século XXI que escreveram livros promovendo o ateísmo, os quais incluem Dennett, Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris). Dennett é autor de Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (Quebrando o encanto. A religião como fenômeno natural; 2007) e Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind (Apanhado no púlpito: deixando para trás a crença; 2013), com Linda LaScola. Dennett falou que o termo ‘novos ateístas’ simplesmente se refere a ateístas declarados, pois são muitas as pessoas que não revelam que são ateístas. Ele acha que o número de ateístas declarados nos Estados Unidos cresceu desde a publicação do seu livro (Breaking the Spell). Segundo ele, era comum na classe dos professores universitários não desejar impor seus ateísmos, mas que agora muitos já decidiram não mais continuar no papel de ‘acadêmicos ateístas gentis’.

A visão antiga do ateísmo

Frayn lembrou como era a visão antiga do ateísmo na época que ele havia se alistado no exército britânico. Ele conta que, quando escreveu que era um ateísta no formulário de dados pessoais, o seu supervisor imediato não entendeu o que ele havia escrito e presumiu que ele era ‘essayist’ (ensaísta). Frayn confessou que embora ele tivesse se declarado ateísta desde jovem, que hoje em dia ele já não gosta de ser rotulado um ateísta, pois ser ateísta significa simplesmente alguém que não crê em Deus, enquanto que existe muitas outras coisas que ele também não acredita, o que faz dele ‘a-cinderelista’, ‘a-papainoelista’ e mais um monte de ‘a-coisistas’.

O grande tecido da religião

Frayn disse ter dificuldade de entender não apenas por que as pessoas creem mas também por que muitas pessoas não conseguem mudar de ideia seja qual for o motivo. A explicação dele é que as pessoas desejam fazer parte do ‘grande tecido da religião’ e, consequentemente, não refletem acerca dos motivos para seguir determinada religião. Uma evidência disso é o fato dos congressistas americanos serem em sua maioria religiosos.

O consolo da religião

Frayn levantou a questão de que a religião dá consolo, e portanto, se seria uma boa coisa tirar do povo esse consolo. Blackmore respondeu que no seu caso, ela preferiria sempre a verdade sobre qualquer outra coisa. Frayn assumiu o papel de advogado do diabo e perguntou: ‘Que mal pode fazer se as pessoas vão à igreja e se sentem bem com isso?’ Dawkins respondeu afirmando que a fé religiosa leva ao sentimento anti-ciência e contra os cientistas. Entretanto, alguém mostrou que há muitos cientistas que declaram ter fé religiosa. Como explicar isso? O fato de alguém declarar ter fé religiosa não significa que esteja falando a verdade. Muita gente pensa que não existe outra fonte de moralidade senão a religião, e isso é um motivo para afirmar ter crença religiosa mesmo sem ter. As pessoas têm as mais diversas razões para frequentar igrejas: lealdade, comunidade tribal, gostar dos hinos, gostar do vigário etc. Entretanto, há muitas outras fontes de consolo sem ser a religião como a amizade e o amor.

Vigários que não creem

Dennett falou que existe muitos vigários (pastores protestantes) que não são crentes mas mesmo assim continuam desempenhando o papel de crente. Tal afirmação é o resultado de entrevistas confidenciais realizadas com clérigos de diversas denominações, o qual foi publicado no livro que ele escreveu junto com Linda LaScuola: Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind; 2013.

O Islã como fonte atual do mal

O próximo tema discutido foi a religião islâmica. Dawkins afirmou que embora outras religiões tivessem cometido atrocidades no passado, no presente é o islamismo que as tem cometido. O próprio islamismo é a fonte de poder para tais atrocidades. A sua escritura sagrada, o Corão, ordena cortar cabeças, chicoteamentos, apedrejamentos, jogar homossexuais em abismos, etc. Não há como negar que o islamismo seja uma fonte atual do mal.

Relação entre as ciências e as artes

Freedland perguntou se o hiato identificado entre as ciências e as artes ainda existe ou se tem diminuído. A seu ver, ainda há muitas pessoas oriundas das artes que não conseguem entender as ciências, e muitos cientistas que não entendem as artes. Dawkins lembrou que Frayn, um oriundo das artes, escreveu a peça teatral Copenhague, para a qual ele precisou compreender bem a física quântica, uma das mais difíceis áreas da ciência. Abrindo um parêntese, a peça de Frayn é centrada em dois encontros fictícios entre os físicos quânticos teóricos, Werner Heisenberg (1901-76) e Niels Bohr (1885-1962), um em setembro de 1941, quando ambos trabalhavam aconselhando o governo dos Estados Unidos acerca da bomba atômica, e outro em 1947, após o fim da Primeira Guerra e no início da Guerra Fria. Frayn explicou que precisou ler muitos livros escritos por cientistas a fim de entender o suficiente de física quântica para escrever Copenhague.

Os novos sumos-sacerdotes do conhecimento

Dawkins usou a analogia do ‘sumo-sacerdote’, os clérigos mais importantes das religiões antigas, para se referir ao papel dos cientistas no conhecimento humano. “Como os indivíduos que atuam nas artes normalmente não entendem de ciência, os cientistas eram os ‘sumo-sacerdotes do conhecimento’”, afirmou. Em seguida, Dawkins abriu um espaço para afirmar que o entendimento de ciência de Michael Frayn, um homem oriundo das artes, era uma exceção. Conforme visto anteriormente, Frayn é o autor da peça Copenhagen, que requereu conhecimentos de física quântica, uma área da ciência de notória dificuldade.  Dawkins  então fez um desabafo ligado ao ataque que sofreu de certos colegas cientistas, quando afirmou que “os novos sumo-sacerdotes do conhecimento são os cientistas que vilificam outros cientistas simplesmente porque explicam a ciência ao público leigo”.

A fé na ciência

A fé não é exclusiva da religião mas também ocorre na ciência, cuja amplitude impede que os cientistas entendam tudo acerca das disciplinas que não são as deles. Blackmore, que atua no campo da psicologia, admitiu que muitas vezes aceita afirmações da física quântica e de outros tópicos complexos da ciência, pela fé e não pelo entendimento. Entretanto, ela completou o argumento afirmando que a fé na ciência não é a mesma coisa do que a fé na religião, pois a ciência possui métodos de procedimentos que incluem a repetição do experimento.

A batalha do significado

Brown apontou o fato de que a religião dá significado às pessoas, como sendo a derradeira dificuldade para eliminar a religião. Em meio às suas ambiguidades impossíveis acerca da morte, a religião oferece um significado macio ao qual as pessoas se agarram, e, sem o qual, se atirariam das pontes. Mesmo baseando-se em coisas impossíveis, a religião dá às pessoas o significado que precisam. Portanto, há uma batalha pelo significado entre a ciência e a religião.

Perguntas do público

Ao fim da conversação entre os sábios presentes, teve início a parte em que membros da audiência fizeram perguntas, algumas das principais sendo listadas a seguir.

  • Há lugar para a serendipidade nesse mundo do ateísmo?
  • Como explicar casos em que uma pessoa sonha com outra e essa outra pessoa morre logo em seguida?
  • O mundo seria um lugar melhor se não existisse a religião?
  • Por que não tratar as declarações de fé como sendo um assunto pessoal?
  • Por que a religião ainda existe?
  • Onde e como as pessoas podem encontrar significado fora da religião?
  • Por que o Oriente Médio não teve uma revolução ateísta assim como o Ocidente?
  • Pode a ciência desprovar Deus?
  • O que acham os palestrantes acerca do determinismo e do livre arbítrio?

Respostas dadas

Os participantes responderam às respostas do público, embora sem seguir a ordem exata em que foram formuladas. Brown falou que as pessoas querem que haja uma narrativa em torno de si próprias, e, por essa razão, se agarram à crenças e à religião. As pessoas anseiam por serendipidade, isto é, que coisas boas aconteçam uma depois da outra. Entretanto, o acontecimento de coisas felizes ou úteis está ligado à lei das probabilidades. O fato de uma pessoa ter morrido logo depois de alguém ter sonhado tal evento, não significa que a morte da mesma ocorreu devido ao sonho. Há coisas cuja chance de acontecer é de um para muitos milhões, mas mesmo assim acontecem.

Dennett explicou que a religião continua existindo porque é um replicador de si própria. O valor para um replicador significa um valor que seja útil ao próprio replicador. Portanto, a religião não precisa ser boa para que sobreviva, pois foi programada para sobreviver.

Pinker acha que o mundo seria melhor sem a religião. A seu ver, o problema em julgar a crença religiosa como sendo meramente uma questão pessoal não se limita ao fato da religião tratar de inverdades; há também o fato de que é muito difícil manter o espaço privado separado do espaço público. A verdade é bela, elegante e gloriosa, e, por essas razões, deve ter primazia sobre qualquer inverdade.

Dawkins aponta outro problema da crença religiosa que é o abuso de crianças. Ele reconhece duas formas desse tipo de abuso, quando um adulto fala do inferno com uma criança, e a rotulação de crianças com a religião de seus pais.

Dawkins gostaria que as pessoas parassem para pensar nos pontos incompatíveis ensinados pela religião. A teoria evolutiva de Darwin já mostrou que Adão e Eva não existiram, e se não existiram, também o pecado original nunca existiu.

Perguntado sobre o que pensa das outras crenças das crianças como a crença no Papai Noel, Dawkins afirmou que sua filha acreditava no Papai Noel, mas que logo deixou de acreditar, assim como as outras crianças. Entretanto, ele lembrou que a crença em Papai Noel é diferente das crenças religiosas por ser algo temporário. As crianças eventualmente param de acreditar no Papai Noel, mas continuam acreditando em Deus.

Para Dawkins, o mundo ligado à religião é um mundo empobrecido. É também repleto de obscenidades como a narrativa em torno do pecado original. Como é que o Deus que é o inventor de tudo, precisou empregar tortura e morte para redimir o suposto pecado da humanidade? Por que não encontrou uma maneira melhor para redimir tal pecado? A religião não é a única fonte de significado para a vida das pessoas. Basta olhar à volta no mundo para encontrar significados. A arte e a música são excelentes fontes de significado.

Dennett falou sobre como as pessoas podem encontrar significado fora da religião. Primeiro você procurar algo admirável que seja muito maior do que você mesmo, e depois, você se dedica ao mesmo.

Brown admitiu que embora a ciência não tenha como desprovar Deus, isso não significa que Deus exista. Ele explicar isso fazendo um paralelo entre Deus e outra coisa qualquer que alguém diz acreditar. “Um homem pode afirmar que em sua casa tem um rato verde, mas o fato de ser impossível provar que tal rato verde não existe não significa que o mesmo exista”. Portanto, o ônus da prova é do afirmador e não do negador.

Acerca da questão do determinismo e do livre arbítrio, três participantes deram três respostas diferentes. Blackmore negou acreditar no livre arbítrio e afirmou que o passado das pessoas e as suas situações ambientais determinam como as pessoas se comportam em determinado momento. Dennett critica o raciocínio determinista, afirmando que o mesmo pode levar um criminoso a não assumir a responsabilidade pelo seu crime, afirmando simplesmente ‘o meu cérebro me obrigou a fazer isso’. Dawkins optou em responder a pergunta citando a seguinte frase de Christopher Hitchens: “Eu não creio no livre arbítrio mas não tenho escolha”. As posições diferentes de Blackmore, Dennett e Dawkins, mais o paradoxo contido na resposta de Dawkins, mostram que o determinismo e o livre arbítrio são assuntos demasiadamente complexos para o momento e o local.

Dawkins encerrou o evento reafirmando a importância de repassar os bons memes. “Embora a nossa existência hoje deva-se a uma longa linha de ancestrais que tiveram sucesso em passar os seus genes para as gerações sucessivas, não é preciso ter filhos para passar os bons memes adiante”, concluiu o cientista.

Conclusão final

O colóquio acima descrito foi uma homenagem ao cientista e escritor Richard Dawkins, e, por essa razão, girou em torno dos temas mais chegados a Dawkins: ‘memes’ e ateísmo. É interessante notar que em nenhum ponto do colóquio o conceito dos ‘memes’ foi explicado. Tal fato sugere uma presunção de que a audiência presente entendia do que se tratava, e, portanto, uma explicação não era necessária. Para os que não familiarizados, Dawkins criou o conceito de ‘memes’ para designar “unidades hipotéticas de cultura e de comportamento que passam de um indivíduo a outro através da imitação”. Os ‘memes’ são análogos aos genes no sentido em que ambos são replicáveis. A diferença entre os dois está no modo de replicação: enquanto que os genes são replicados geneticamente, os memes são replicados pela imitação. Todos os três cientistas que participaram do colóquio, Daniel Dennett, Steven Pinker, e Suzan Blackmore, já haviam empregado o conceito de ‘memes’ em suas pesquisas. Todos os participantes do colóquio concordaram que o homem encontra consolo nas coisas que têm significado, e, que o significado obtido da verdade é melhor do que o obtido da inverdade. Concordaram ainda que existem boas coisas no mundo que merecem ser replicadas para o bem de toda a sociedade.


Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria sobra a cultura ibérica no mundo, de generalidades, cultura e política. Em 2016 ela publicou O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9.99.

Sobre o individualismo

Sobre o individualismo

“Ser você mesmo num mundo que está constantemente tentando fazer outra coisa de você é a maior realização.” Ralph Waldo Emerson

Joaquina Pires-O’Brien

O individualismo é entendido diferentemente por socialistas e liberais. Para os socialistas, o individualismo é a primazia dos valores ligados ao indivíduo e ao seu bem-estar sobre os valores ligados à comunidade e ao bem-estar comunitário. Para os liberais, individualismo é a visão moral, política e social que prega a independência humana e a importância da autoconfiança e da liberdade. Essas duas definições de individualismo são contrárias e não podem estar ambas corretas. Por acaso o individualismo é uma forma de egoísmo, como afirmam os socialistas, ou é uma simples preferência pelo indivíduo, em contraposição ao coletivo, como afirmam os liberais?

O primeiro passo no processo de entendimento de qualquer palavra terminada em ‘ismo’ é procurar descobrir a mensagem por detrás desse sufixo, que indica tendência, viés ou preconceito. O segundo passo é entender a palavra sem o ‘ismo’. A palavra  ‘individualismo’ surgiu na década de 1820, entre os seguidores franceses do socialismo de Claude-Henri Saint-Simon (1760–1825), sendo logo exportada para a Inglaterra, Alemanha e outros países.

O significado da palavra sem o ‘ismo’ pode elucidar o sentido verdadeiro da mesma palavra com o ‘ismo’. A palavra ‘indivíduo’ vem do latim (indīviduus), cujo significado é ‘indivisível’ ou ‘inseparável’, e nos remete à palavra grega para ‘átomo’ (άτομο), cujo significado é o mesmo. Na doutrina do ‘individualismo’, a palavra indivíduo refere-se à pessoa humana  (antropos) considerada a unidade básica da sociedade. Como o contrário de ‘indivíduo’ é o ‘coletivo’, o contrário do individualismo é o coletivismo. Portanto, ‘individualismo’ significa valorizar o ‘indivíduo’ em preferência ao ‘coletivo’. Um possível motivo da conotação negativa imputada ao individualismo está na visão ultrassimplificada do mundo como um jogo de somatório zero, no qual o ganho de um representa sempre uma perda para o outro. Finalmente, podemos perguntar se o ‘individualismo’ não seria um direito natural das pessoas, considerando-se que desde tempos imemoriais a sociedade reconhece indivíduos, ainda que que a palavra ‘individualismo’ só tenha aparecido no século XIX.

Os liberais acreditam no individualismo devido ao fato de que a responsabilidade e a responsabilização – os ingredientes essenciais da boa cidadania e da boa governança –, residem no indivíduo e não no grupo. Acreditam,  ainda que a corruptibilidade e a incorruptibilidade são atributos do indivíduo, pois é o indivíduo e não o grupo, que pode ser chamado a juízo. Finalmente, individualismo é acompanhado da regra dourada a qual afirma que devemos tratar o outro da forma como desejamos que o outro nos trate. Tal regra implica no reconhecimento dos direitos do outro, o que é suficiente para desfazer a conotação de egoísmo do individualismo.

O individualismo é, portanto, a preferência pelo hábito de ser e agir independente e com iniciativa própria. Ser um ‘individualista’ significa ter o hábito de cultivar a própria mente, de refletir sobre ideias e, se necessário, desafiar as normas ou padrões da sociedade. Sobre as raízes do individualismo, embora alguns cientistas sociais as tenham colocado no cristianismo e o seu entendimento acerca da individualidade da vida e da salvação, a maioria aceita que o individualismo tem raízes mais profundas, incluindo o estoicismo.

Alguém poderia argumentar que o reconhecimento de talentos natos e das capacidades implica, também, no reconhecimento dos individualismos psicopatológicos como o autismo, a sociopatia e a megalomania. Tal não é o caso, e o motivo é a  diminuição de responsabilidade dessas pessoas, a qual é normalmente levada em contra pela legislação de cada país.

Liberdade e igualdade

Liberdade e igualdade são valores atrelados, o que significa necessariamente que o aumento de um requer uma diminuição do outro. A discrepante visão acerca da liberdade e da igualdade entre socialistas e liberais também atrapalha o entendimento do individualismo. Enquanto os socialistas enxergam a igualdade como algo que tende para o absoluto, para os liberais a igualdade é simplesmente ser tratado igual pela lei. Conforme já visto, a visão dos socialistas de que o ganho de uns resulta sempre na perda de outros costuma ser usada como justificativa para aumentar o valor da igualdade em detrimento da liberdade.

As visões díspares dos socialistas e liberais tanto sobre o individualismo quanto sobre a liberdade e a igualdade têm diversas implicações importantes para a sociedade. A facilidade com que os socialistas sacrificam a liberdade a fim de ganhar mais igualdade, é conducente ao Estado grande e oneroso. A desconfiança dos socialistas no individualismo é acompanhada da desconfiança da excelência, que para eles é uma forma de elitismo. Enquanto que, pela ótica socialista, o indivíduo é coagido a curvar-se ao denominador comum da maioria, que é a própria mediocridade, pela ótica liberal, o indivíduo é encorajado a desenvolver ao máximos seus talentos natos e suas capacidades. O individualismo, e não o coletivismo, é o melhor caminho para a boa governança, pois além de favorecer a boa cidadania, favorece o bom desenvolvimento do homem razoável do direito inglês, que é mais conducente à excelência do indivíduo, da qual toda a sociedade se beneficia.

Declarações de direitos do homem nos Estados Unidos e França

Os primeiros estados a adotar declarações de direitos do homem foram os Estados Unidos e a França. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso norte-americano, em 4 de julho de 1776, sublinhou os direitos do homem junto ao direito de se revoltar contra o domínio político. Em 1787, a Constituição dos Estados Unidos da América foi aprovada, e, em 15 de dezembro de 1791, recebeu dez emendas, chamadas coletivamente de ‘Bill of Rights’, garantindo uma relação de direitos do indivíduo, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade. Na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada em 1789, pela Assembleia Constituinte, poucos meses depois da tomada da Bastilha. O problema dessa Declaração é que a mesma interpretou a lei como uma “expressão da vontade do povo”, cuja intenção era promover tal igualdade de direitos e proibir “apenas as ações danosas à sociedade”. A interpretação ao pé da letra do termo “vontade do povo” levou à ditadura da facção majoritária dos jacobinos.

O primeiro crítico de peso das declarações de direitos do homem dos Estados Unidos e da França foi o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-59) que, em sua viagem aos Estados Unidos em 1831, feita com o objetivo de pesquisar o sistema prisional deste país, estudou os mais diversos aspectos da sociedade norte-americana. Tocqueville publicou as suas observações, feitas a partir desta viagem, no livro Democracy in America (1835 e 1440; A Democracia na América), dividido em dois volumes.

Antes mesmo de viajar para os Estados Unidos, Tocqueville havia reconhecido os problemas causados pela democracia direta, implementada na França pós-revolucionária, e acreditava que era possível aperfeiçoar o regime através de reformas. Mais tarde, durante a crise da Segunda República Francesa, ele apoiou o Partido da Ordem (Parti d’Ordre) contra os socialistas, mas, em dado momento, desencantou-se com a política e com os jogos dos arrivistas do poder.

Qual deve ser a esfera do governo?

A extensão da esfera do governo é a maneira de decidir como deve ser o equilíbrio entre liberdade e igualdade. Um dos primeiros pensadores modernos que se preocupou com isso foi Karl Wilhelm von Humboldt (1767-1835), pensador alemão e irmão mais velho do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), que viajou pela América do Sul e fez a primeira descrição científica de suas paisagens. É mister notar que os dois irmãos foram educados por pensadores do Iluminismo como o médico kantista Marcus Herz e o botânico Karl Ludwig Willdenow.

Karl Humboldt foi o grande visionário da unificação da Alemanha ocorrida em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi elevado a Imperador da Alemanha. O seu livro The Sphere and Duties of Government (1854; A esfera e os deveres do governo), escrito em 1791 e publicado postumamente em 1852, trata dos dois objetos da política, a questão de quem deve governar e ser governado; e a questão da demarcação das esferas do governo e dos governados. Para Von Humboldt, a segunda é mais importante do que a primeira, pois a delimitação da esfera do cidadão abarca a sua vida privada e os limites de sua liberdade.

…existem dois grandes objetos, a mim me parece, que devem ser mantidos distintamente sob a vista, nenhum dos quais podendo ser ignorado ou ser subordinado sem causar um dano grave ao modelo comum; esses são – primeiro, determinar, no tocante à nação em questão, quem deve governar, quem deve ser governado, e organizar o funcionamento do poder constituído; e segundo, prescrever a esfera exata à qual o governo, uma vez construído, deve estender ou confinar as suas atuações. O último objeto, o qual abraça mais imediatamente as vidas privadas do cidadão, e de uma maneira mais especial determina os limites de sua atividade livre e espontânea, é, estritamente falando, o propósito verdadeiro e final; o primeiro é apenas um meio necessário de como chegar à esse importante fim. Contudo, por mais estranho que possa parecer, é no alcance do primeiro desses objetivos que o homem direciona a sua melhor atenção; e, como nos cabe mostrar, esta busca exclusiva de um propósito definido coincide apenas com a manifestação usual da atividade humana.

A comparação entre a modernidade e a antiguidade era o grande debate da época pós-revolucionária em que Humboldt viveu. Muitos tomaram partido da modernidade e, em muitos aspectos, cogitaram colocar a antiguidade na lata de lixo da história. Essa não era a postura de Humboldt, o qual reconhecia o quanto os antigos valorizavam a individualidade. Ele ilustrou isso com a seguinte citação da Ética de Aristóteles:  “Pois aquilo que peculiarmente pertence a cada um por natureza é o melhor e o mais prazeroso para cada um; consequentemente, para o homem constituído especialmente pelo intelecto, a vida (mais prazerosa) é aquela de acordo com o intelecto. Essa é, portanto, a vida mais feliz.”

Nessa mesma época pós-revolucionária, quando os primeiros Estados Modernos eram criados, Humboldt entendeu que a pergunta relevante acerca do papel do Estado era: ‘deve este fornecer apenas a seguridade ou deve fornecer a totalidade do bem-estar físico e moral da nação?’. Quem tem apreço pela liberdade na vida privada optaria pela primeira premissa. Infelizmente, os que acham que o Estado deve prover mais do que segurança não pensam na potencial injúria que tal política pode causar à liberdade.

Humboldt reconhece que o Estado Moderno, com sua solicitude de agir pelo indivíduo e prover o seu bem-estar, cria uma necessidade de impostos, enquanto que as legislações criadas nesse sentido acabam limitando a liberdade do indivíduo e valorizando menos o que o indivíduo é e mais o que ele possui. O capítulo II do seu livro The Sphere and Duties of Government trata especificamente do indivíduo e da individualidade. Seu título éof the individual man, and the highest ends of his existence’ (Do homem individual e os objetivos mais elevados de sua existência).

O verdadeiro propósito do homem, ou aquele que é prescrito pelo eterno e imutável ditame da razão, e não sugerido por anseios vagos e transientes, é o mais alto e mais harmonioso desenvolvimento de seus poderes no tocante a um todo completo e consistente. A liberdade é a grande e indispensável condição que a possibilidade de tal desenvolvimento pressupõe; mas ao lado dessa há uma outra que é essencial, – intimamente conectada com a liberdade, na verdade –,  uma variedade de situações. Mesmo o mais livre e autoconfiante dos homens é frustrado e impedido no seu desenvolvimento pela uniformidade de posições. Mas se por um lado é evidente que uma diversidade desse tipo é o resultado constante da liberdade, por outro lado, existe um tipo de opressão que, sem impor restrições no homem em si, gera uma impressão peculiar de suas próprias circunstâncias circundantes; essas condições de liberdade e variedade de situações, podem ser tomadas, num determinado sentido, como sendo uma mesma coisa. Ainda assim, pode contribuir à perspicuidade capaz de apontar a distinção entre elas.

… a razão não pode desejar para o homem nenhuma outra condição do que aquela em que cada indivíduo desfrute da mais absoluta liberdade de se desenvolver por suas próprias energias, em sua perfeita individualidade, mas cuja natureza externa é deixada sem qualquer agência humana, apenas recebendo a impressão de si própria e da autodeterminação que é dada a cada indivíduo, segundo a medida de seus desejos e instintos, e limitado apenas pelos limites de seus poderes e seus direitos.

Humboldt conclui que a razão deve ser a base de cada sistema político e o ponto de partida de toda investigação acerca do mesmo. A razão deve ser usada, a fim de salvar o que é necessário para preservar a liberdade, e nunca deve ceder a pressões para abrir mão da liberdade.

As visões de John Stuart Mill e Bertrand Russell

A visão de Humboldt sobre a esfera do governo impressionou o pensador britânico John Stuart Mill (1806-73), um dos nomes mais importantes do liberalismo britânico, o qual, por sua vez, influenciou seu afilhado Bertrand Russell (1872-1970), o grande divulgador do individualismo no século XX.

No seu famoso ensaio intitulado ‘Da individualidade’, Mill reconhece que a individualidade, isto é, o caráter de uma pessoa, é o principal ingrediente do progresso social, inspirado no livro The Sphere and Duties of Government (1854; A Esfera e os Deveres do Governo) de Humbolt. O ensaio de Mill começa mostrando que, se todas as pessoas do mundo menos uma, tivessem determinada opinião, tal maioria não justificaria silenciar o indivíduo de opinião divergente. Tirar a liberdade de expressão é sempre condenável, não importa que a opinião seja minoritária ou até errada. Mill concorda com Von Humboldt ser uma pena que a maioria tenda a ver o indivíduo que insiste em sua individualidade como um causador de problemas. Não obstante, as faculdades humanas da percepção, do julgamento, do sentimento discriminador, da atividade mental e da preferência moral, só são exercitadas fazendo-se escolhas. Portanto, o privilégio de ser um ser humano reside em experimentar ser ele próprio a fim de amadurecer as suas faculdades humanas e, com elas, interpretar a experiência de sua própria maneira.

Para Mill, o indivíduo de caráter autêntico é aquele que tem desejos e impulsos próprios que expressam a sua natureza. O homem cujos desejos e impulsos não são dele próprio tem o mesmo caráter que o de uma locomotiva a vapor.  Diz-se que uma pessoa tem um caráter forte quando, além de ter impulsos próprios, tais impulsos são encontram-se sob o controle de uma determinação forte. O indivíduo que desenvolve o seu caráter torna-se mais rico, diversificado e  animado; e, por se tornar mais valioso para si mesmo, é capaz de ser mais valioso para os outros, através de ideias que alimentam o tipo de pensamento elevado que enriquece a sociedade. Como Von Humboldt, Mill também reflete sobre o debate acerca dos antigos versus modernos e reconhece a importância dada pelos primeiros não apenas à individualidade mas também à capacidade intelectual. Identifica que os antigos valorizavam as mentes superiores enquanto que a tendência moderna é dar ascendência à mediocridade pelo fato de a mesma refletir melhor a maioria.

Russell abordou o individualismo na série de palestras intitulada ‘Reith Lectures’ feitas para a BBC, que ele mais tarde transformou em ensaios e publicou no livro Authority and the Individual (1950; A autoridade e o indivíduo)1. Na primeira palestra, intitulada ‘Social Cohesion and Human Nature’ (A coesão social e o indivíduo), Russell fez a pergunta de como conciliar a iniciativa individual que é necessária para o progresso com a coesão social que é necessária para a sobrevivência. Na palestra ‘The role of individuality’ (O papel da individualidade) Russell reafirma a ideia de Mill (seu padrinho), ao sublinhar a importância dos indivíduos não conformes ao progresso social e a própria sobrevivência da sociedade.

Praticamente todo progresso artístico, moral e intelectual depende desse tipo de indivíduos, os quais foram um fator decisivo na transição do barbarismo para a civilização. Se uma comunidade quiser progredir, precisa de indivíduos excepcionais, cujas atividades, embora úteis, não são necessariamente do tipo genérico. Na sociedade altamente organizada há sempre uma tendência para que as atividades de tais indivíduos sejam indevidamente tolhidas; por outro lado, se a comunidade não exercer nenhum controle, o mesmo tipo de iniciativa individual capaz de produzir uma inovação valiosa pode também produzir um criminoso. O problema, como todos aqueles com os quais nós nos preocupamos, é uma questão de equilíbrio; a liberdade de menos traz estagnação, e em excesso, o caos.

Russell termina reclamando da homogeneização da sociedade e da falta de espaço para a espontaneidade e a iniciativa, e portanto, para a individualidade. Para ele, a melhor maneira de as crianças aprenderem é seguindo os seus próprios instintos.

Conclusão

O presente ensaio procurou explicar o individualismo mostrando o que é e o que não  é. O individualismo é a primazia pelo indivíduo em contraposição ao grupo. A razão por detrás do individualismo é o reconhecimento de que os direitos e as responsabilidades humanas são imputáveis apenas a indivíduos. O individualismo não é uma forma de egoísmo, o amor exagerado aos próprios valores e interesses, como ocorre no tipo de comportamento que sacrifica o dever ao interesse particular. O contrário de egoísmo é altruísmo, definido como a inclinação a preocupar-se com o outro sem uma expectativa de ser retribuído. O egoísmo, assim como os outros vícios ou virtudes, independem de ideologias. O individualismo se opõe à conformidade inquestionável do grupo. Ser individualista não significa ignorar as comunidades, mas sim, refletir sobre os seus valores antes de aceitá-los. Conforme Mill e Russell reconheceram, as pessoas diferentes têm uma capacidade maior de descobrir coisas e de reconhecer a originalidade, e, por essa razão, são mais úteis à sociedade.

O individualismo floresceu no século XVIII na Europa e nos Estados Unidos, mas perdeu prestígio durante o século XIX em razão do Movimento Romântico e do avanço do socialismo. O Movimento Romântico enalteceu o espírito comunitário do povo, assim como a sua língua e cultura, e, influenciou o processo de criação de nações durante o século XIX e o início do século XX. Também serviu de suporte para os regimes fascistas, surgidos após a Primeira Guerra Mundial, bem como para a indústria de publicidade e da propaganda. O movimento da contracultura das décadas de 1960 e 1970 teve um veio de liberalismo na promoção da liberdade sexual e da autenticidade do indivíduo. Infelizmente tal movimento não concretizou seu apoio ao individualismo, pois era bem mais simpático coligar-se ao socialismo ou a sua forma mais diluida, o progressismo. Por fim, no que diz respeito à revolução digital do final do século XX , ainda não se sabe se a mesma favoreceu, ou não, o individualismo. O que é sabido é que essa revolução criou as massas do espaço cibernético, que giram em torno de sexo, moda, celebridades e as mais diversas aspirações.

O homem é ao mesmo tempo um indivíduo e um animal social. Tanto a individualidade quanto a coesão social são fatores importantes na configuração da sociedade. Entretanto, conforme Russell e outros identificaram, a conformação social pode acarretar a perda da capacidade de pensar por si próprio, e portanto, a perda da criatividade necessária à sobrevivência da própria  sociedade. Para Russell, é importante conciliar a iniciativa individual à participação na comunidade. A melhor justificativa do individualismo é que o desenvolvimento das capacidades do indivíduo e da excelência beneficia a toda a sociedade. Outra justificativa considerável é que ninguém consegue ser feliz sem ser ele próprio.

 

[1] Publicou também o livro Unpopular Essays (1950; Ensaios Impopulares).

Referências

Von Humboldt, Baron Wilhelm (1852). The Sphere and Duties of Government. Translated by Joseph Coultlhard Jr. London, John Chapman, 1854. (Ideen zu einem Versuch, die Gränzeen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen).

Mill, J. S. Of individuality. In: Boaz, David, editor. The Libertarian Reader, 1997. New York, Simon & Schuster.

Russell, Bertrand (1950). Authority and the Individual. London, Simon and Schuster. 79 pp.

Tocqueville, Alexis de (1835, 1840). Democracy in America. Volume I. Translated by Henry Reeve. Guttenberg, eBook, released Jan 21 2006, last updated Feb 7 2013.

                                                                                                                                               

O presente ensaio foi publicado na revista eletrônical PortVitoriahttp://www.portvitoria.com, sobre generalidades, cultura e política, dedicada a falantes de português e espanhol (15, Jul-Dec 2017), fundada pela própria autora em 2010. Joaquina Pires-O’Brien publicou o O homem razoável (2016), uma compilação de 23 ensaios sobre a Civilização Ocidental e a educaçção liberal, disponível exclusivamente pela Amazon.

Os cavaleiros lá fora

O ano passado (2015) foi perturbante em todo o mundo, particularmente para as pessoas afetadas por governos falidos e guerras civis. O lado positivo é que existe grandes mentes iluminando os problemas da humanidade, embora o emprego dessa luz esteja condicionado à existência de uma boa opinião pública. Cada um de nós pode contribuir para a boa opinião pública aprendendo a pensar por si próprio e praticando essa capacidade nas nossas vidas quotidianas. A boa opinião pública é também essencial para saber distinguir entre os cavaleiros e os capangas da intelectualidade. Sem ela, a sociedade é vulnerável aos líderes desequilibrados e seus radicalismos. Conquanto a boa opinião pública seja um elemento definidor em todas as democracias amadurecidas, uma característica que aparece em todas as democracias imaturas é a incapacidade de reconhecer a inteligência, seja ela da casa ou de onde for.

Há mais ou menos dois séculos e meio atrás, o Ocidente abraçou o secularismo1, atendendo ao chamado das grandes mentes do Iluminismo. Agora, as grandes mentes do século XXI estão tentando persuadir a humanidade acerca da necessidade de defender a vida aqui e agora, e a considerar a alternativa de uma moralidade pós-teísta. Duas das mentes excepcionais que estão na vanguarda desse movimento são Anthony C. Grayling e Daniel Dennett. Grayling é Professor de Filosofia e Reitor do New College of the Humanities, em Londres, enquanto que Dennett é cientista cognitivo aposentado e filósofo. As suas ideias altamente relevantes para os problemas do século XXI estão contidas no (meu) ensaio O Caminho do Humanismo (The Path to Humanism), publicado na presente edição.

Os dois livros resenhados nesta edição são individualmente sobre os persas e os turcos, duas culturas orientais situadas no âmago dos problemas globais. Eles são ambos do autor Warwick Ball, um arqueólogo australiano-britânico especializado em culturas antigas, e fazem parte da série de quatro livros intitulada Asia in Europe and the making of the West (A Ásia na Europa e a Invenção do Ocidente), publicados pela East & West Publishing. O primeiro livro é Towards one world: Ancient Persia and the West (Em direção a um só mundo. A Pérsia antiga e o Oeste), e o segundo é Sultans of Europe: The Turkish world expansion (Os sultões de Roma. A expansão turca no mundo). A ideia principal de Warwick Ball é de que hiato que separa o Ocidente do Oriente é mais psicológico do que real e quanto mais cedo o mundo entender isso melhor será em termos do bom relacionamento entre o Ocidente e o Oriente. Fico na expectativa de que gostem das resenhas e quem sabe se disponham a ler os livros em questão. Janeiro de 2016.

Notas

Artigo reproduzido da revista transnacional PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo. http://www.portvitoria.com/index.html

  1. Secularismo. Para entender melhor o secularismo, visite o Glossário de Secularização disponível em PortVitoria http://www.portvitoria.com/Documents/12_Glossário%20de%20Secularizacao.pdf

Aristóteles: quem deve governar

Aristóteles deixou dois livros de elevada importância para o desenvolvimento da civilização ocidental: Ética a Nicômaco e Política. Em Política está sua famosa citação: ‘… é evidente que o estado é uma criação da natureza e que o homem é pela própria natureza um animal politico`. Aristóteles fez essa dedução a partir da percepção de que os seres humanos tinham uma compulsão para formar grupos.

Aristóteles reconhecia quatro formas de governo: (1) a monarquia – o governo de um só; (2) a oligarquia – o governo de vários; (3) a aristocracia – o governo de um punhado de pessoas; e (4) a democracia – o governo de muitos. Para Aristóteles, todas essas quatro forma de governo são falhas. A monarquia é falha porque busca o interesse de uma só pessoa, o monarca; a oligarquia é falha porque busca o interesse dos ricos; a democracia é falha porque busca o interesse dos mais carentes. A existência de interesses próprios nesses três sistemas torna-os incapazes de colocar o bem comum em primeiro lugar.

Entretanto, Aristóteles fez a pergunta sobre como saber quem se caracterizava entre os melhores? Essa é uma pergunta altamente pertinente pois a opinião pública raramente coincide. Na época de Aristóteles, por exemplo, era comum haver dois polos de preferências, um formado pelos muito ricos e outro formado pelos mais pobres, impossíveis de conciliar.

No seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles questiona as disposições (hexeis) das pessoas para fazer algo ou desejar uma coisa, afirmando que o homem virtuoso não almeja diretamente a felicidade mas sim a realização. Nesse livro Aristóteles procura mostrar que a felicidade é a vida plena, onde a alma (psyche) age de acordo com a virtude (arete). Esse tipo de felicidade é o bem supremo (summum bonum) que dá o objetivo e mede o valor de todas as atividades humanas, e somente está disponível aos indivíduos realmente livres.

É interessante notar que dois importantes filósofos do século vinte que valorizaram Aristóteles, Leo Strauss e Karl Popper, seguiam linhas políticas diferentes. Strauss, que era favorável à democracia social, adotou dois esteios aristotelianos: o direito natural do indivíduo e a existência de uma base natural para o julgamento sobre a moralidade política. Popper, que era favorável à democracia liberal, resgatou outros pontos da filosofia de Aristóteles, que ele julgou importantes, chamando-os de ‘essencialismo’.

Como é possível que os escritos de Aristóteles sirvam duas linhas políticas diferentes? A resposta está no espírito prático Aristóteles, que favorecia o meio termo e as políticas de centro. Isso vai de encontro à ideia do pensador político Francis Fukuyama, de que a existência de uma classe média forte é essencial para a sustentabilidade democrática, pois a classe média tente a defender as posições de centro. Fukuyama complementa a visão de Aristóteles do bom governante, afirmando que este deve saber pensar de uma forma independente, já que os que não têm tal capacidade são muito mais susceptíveis à tela de fumaça criada pelas artimanhas dos políticos raposa.

Assim como o seu antigo mestre, Platão, Aristóteles achava que o melhor governo ou administração para a busca do bem comum é aquele em que os administradores são também os melhores indivíduos. Mas Aristóteles também mostrou que os melhores indivíduos eram aqueles que não só eram preparados, virtuosos e incorruptíveis mas cujas ideias e opiniões também refletem os anseios da maioria.

Post Scriptum. O grande problema do nosso tempo, é que os indivíduos mais preparados e que são capazes de pensar de uma forma independente – quase nunca são escolhidos nos pleitos. Por que razão?

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O universalismo na Filosofia

Universalismo vem de universal, que vem de universo, que significa o cosmos ou o mundo todo. Na filosofia, o universalismo, também conhecido como cospopolitanismo, é uma tentativa de resolver o problema filosófico do ‘um e outros’ que aparece na ética, na teologia, na epistemologia e na política.
Immanuel Kant (1724-1804) levou o universalismo ao seu ponto mais longe, analisando-o pelos ângulos da epistemologia e da política. Na filosofia Kantiana o universalismo epistemológico tem a ver com a unidade cósmica das coisas, e o universalismo político com a comunidade de nações que ele propôs com o objetivo de substituir o nacionalismo, cujo objetivo final era ganhar o consenso e a paz universal. Para Kant, esses dois universalismos estão interligados no progresso científico que predispôs a humanidade à uma cultura mundial voltada à preservação da paz universal.

O Universalismo Político ou Cosmopolitanismo
Os estoicos dos séculos um e dois da era corrente foram um dos primeiros a prever um cosmopolitanismo com base na cultura romana. O universalismo político como o de Kant contraria o problema filosófico do ‘um e os outros’, pois defende a substituição dos países soberanos por uma comunidade supranacional. Kant desenvolveu-o inspirado pelo breve período de paz que sucedeu ao Tratado de Basel, entre a Prússia e a França, assinado em 1785. Nesse mesmo ano, ele publicou o ensaio Paz Perpétua, onde descreveu o mundo evoluindo em direção a uma sociedade ideal que seria uma federação mundial de Estados Repúblicas, que geraria a cidadania global, que a seu ver era o caminho para a paz perpétua da humanidade. Na sociedade ideal de Kant, a razão ‘uniria todos os legisladores permitindo que criassem as leis como se tivessem brotado da vontade unida do povo, considerando ao mesmo tempo o desejo de cada indivíduo de participar como cidadão e sua conformidade à vontade geral. Poucos anos após o tratado de Basel a Europa se viu assolada pelas guerras e o ‘universalismo’ político de Kant entrou para o rol das utopias.
Embora o universalismo (cosmopolitanismo) Kantiano fosse considerado uma utopia, Kant conseguiu colocar em evidência diversos aspectos da política que continuaram a ser estudados, como a noção de que a política depende das unidades geográficas dos países, e os países evocam sentimentos nacionalistas nos seus cidadãos. O nacionalismo é sempre um perigo à paz pois coloca em evidência o problema do um e os outros.
Quando a Primeira Guerra Mundial começou, os líderes da revolução Marxista na Rússia viram nela uma oportunidade de criar a comunidade internacionalista prevista por Marx. Entretanto, eles subestimaram a força do sentimento nacionalista e se surpreenderam quando a maior parte dos adeptos russos da revolução Marxista optou por apoiar seu país contra o atacante inimigo.

O Universalismo Epistemológico
O universalismo epistemológico refere-se à outra ideia de Kant de que todo o conhecimento acumulado forma um único corpus, governado por um único critério universal. Em A Crítica da Razão Pura, Kant explicou o sistema de ideias que integram a verdade e que seria caracterizado pela coerência e pela estabilidade. Kant explicou ainda que a experiência ordenadora do mundo era uma só e portanto, todas as áreas do conhecimento estão interligadas. Essa ideia está contida na seguinte frase Kant sobre os estágios da ordem do mundo: ‘a sensação é o estímulo desorganizado, a percepção é a sensação organizada, a concepção é a percepção organizada, a ciência é o conhecimento organizado e a sabedoria é a vida organizada: cada um representando um grau de ordenação, sequência e unidade’.
Georg Hegel (1770-1831) também abraçou o universalismo epistemológico aceitando as inter-relações entre a ética, a estética e o conhecimento. Hegel mostrou que o conhecimento, embora seja limitado, ganha um toque de infinidade através da ideia maior que ajuda a esclarecer. De acordo com o universalismo Hegeliano ‘as leis da lógica e as leis da natureza são uma unidade, pois a lógica e a metafísica se fundem’. Foi nesse contexto que Hegel propôs a sua famosa dialética envolvendo o processo tríplice da tese, antítese e síntese – que Karl Marx (1818-83) mais tarde adaptaria para gerar a sua profecia socialista.

Conclusão
O universalismo político de Kant apontou o caminho para a criação da Liga das Nações, e mais tarde, da Organização das Nações Unidas e da Declaração Universal de Direitos Humanos. O universalismo de Kant e de Hegel impulsionou os esforços para a compilação de uma enciclopédia universal ao estressar a necessidade de salvaguardar o conhecimento existente para facilitar o seu acréscimo pelas gerações futuras de cientistas.