Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e ‘Ambientalista’

Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e  ‘Ambientalista’

James Corbett

O desonrado cleptocrata Maurice Strong morreu no final do ano passado[1], aos 86 anos. Ele foi banido da sociedade refinada e forçado a uma vida de exilado, em Pequim, depois que as suas décadas de chicanices comerciais, crimes contra a humanidade e destruição ambiental foram reveladas. A sua desumanidade culminou com uma tentativa de lucrar com a morte de crianças iraquianas famintas. O seu funeral foi uma cerimônia tranquila, com a participação de apenas dos poucos familiares que não conseguiam livrar-se dele completamente. Ex-amigos e parceiros de negócios como Paul Martin, James Wolfensohn, Kofi Annan, Conrad Black e Al Gore, todos evitaram pedidos de comentários sobre a morte do amigo em desgraça.

… é assim que a memória de Maurice Strong deveria seria lembrada em qualquer mundo razoável. Em vez disso, o que obtivemos foi isso:

Na quarta-feira, centenas de pessoas irão se reunir em frente ao Parliament Hill para uma comemoração extraordinária. O Governador Geral, o Primeiro Ministro, o Ministro do Meio Ambiente, o ex-presidente do Banco Mundial – entre outros dignitários, tanto no exercício de cargos quanto fora deles – prestarão homenagem a um dos grandes canadenses de sua geração. Eles celebrarão a vida de Maurice Frederick Strong, que morreu em 27 de novembro [de 2015]. A sua morte trouxe os obituários obrigatórios e homenagens pessoais. Mas em um país que muitas vezes esconde a sua luz sob um celeiro, e a vida consequente e exaltada de Maurice Strong, em casa e no exterior, não deve passar em branco.

E os elogios continuam chegando.

Do Primeiro Ministro canadense Justin Trudeau: “Maurice Strong foi um pioneiro do desenvolvimento sustentável que fez do nosso país e do mundo um lugar melhor.”

Do cofundador do Fórum Econômico Mundial em Davos: “Ele foi um grande visionário, sempre à frente dos nossos tempos em seu pensamento.”

De John Ralston Saul, autor e filósofo: “Ele mudou o mundo.”

De fato, toda uma multidão de globalistas apareceu no início desta semana em Ottawa para prestar homenagem à memória de Strong, desde o ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ao subsecretário-geral da ONU, Achim Steiner, e o ex-secretário-geral do clube de Roma, Martin Lees. Chegaram também uma enxurrada de condolências escritas de outros proeminentes globalistas, incluindo Mikhail Gorbachev, Gro Harlem Bruntland e Kofi Annan.

Então, por que exatamente Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista?

Ah, está certo:

ENTREVISTADOR: “O Maurice Strong não tem nenhuma ambição para tornar a ONU (Organização das Nações Unidas) o governo do mundo?”

STRONG: “Não, e não é necessário, não é viável e, certamente, estamos longe de algo assim. Mas precisamos – se queremos ter um mundo mais pacífico, um mundo mais seguro – precisamos de um sistema de cooperação mais eficaz, que é o que chamo de ‘sistema de governança’. E as Nações Unidas, com todas as suas dificuldades , é o melhor jogo da cidade.” (Entrevista)

Presidente da Power Corp. Presidente da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional. Presidente da Petro Canadá. Presidente da Ontario Hydro. Chefe do Programa Ambiental das Nações Unidas. Membro fundador do Fórum Econômico Mundial em Davos. Pai do IPCC. Globalista dedicado.

Não, não é difícil entender por que os globalistas amam o arquiglobalista Maurice Strong. Mas, como foi que esse homem, um jovem pobre que abandonou o ensino médio em Oak Lake, Manitoba, tornou-se no estrategista de bastidor responsável por moldar as nossas instituições globais modernas? A história é tão improvável quanto instrutiva, e nos leva do coração do universo do petróleo à criação do IPCC[2].

Dada a notável ascensão de Strong através das fileiras do poder político para se tornar um chefão globalista, não será surpreendente saber que ele tinha conexões políticas em sua família. Mas pode ser surpreendente ouvir onde se encontravam essas conexões. Uma tia dele, Anna Louise Strong, era uma comunista convicta que fez amizade com Lenine e Trotsky (que lhe pediu que lhe ensinasse inglês) antes que ela finalmente se estabelecesse na China, onde tinha familiaridade com Mao Zedong. Ela se aproximou de Zhou Enlai, que chorou abertamente quando ela foi enterrada com honras completas no cemitério revolucionário de Babaoshan, em Beijing.

Infelizmente para a humanidade, a o cavaco não caiu muito longe do pau com o jovem Maurice. Nascido na zona rural de Manitoba, em 1929, e sofrendo o pior da Grande Depressão, Maurice Strong abandona a escola aos 14 anos em busca de trabalho. Ele trabalha como auxiliar de convés em navios e, aos 16 anos, como comprador de peles da Hudson’s Bay Company, no norte do Canadá. Lá ele conhece O ‘Wild’ [Selvagem] Bill Richardson, cuja esposa, Mary McColl, vem da família McColl-Frontenac, que está por trás da uma das maiores empresas de petróleo do Canadá.

Através de Richardson, Strong faz contatos que o impulsionam a sua improvável carreira. A Wikipédia explica enigmaticamente:

“Strong se encontrou pela primeira vez com um importante funcionário da ONU em 1947, que providenciou uma nomeação temporária e de baixo nível, para servir como oficial de segurança júnior na sede da ONU em Lake Success, Nova York. Ele logo retornou ao Canadá e, com o apoio de Lester B. Pearson, dirigiu a fundação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional em 1968”.

No que diz respeito a grandes lacunas narrativas e encobrimentos enigmáticos de pormenores, esse parágrafo é uma obra-prima. A verdade é ainda mais estranha. Aquele ‘funcionário da ONU’ sendo referido pela Wiki? Aquele não era outro senão o próprio tesoureiro da ONU, Noah Monod. De fato, Monod não apenas arranja um emprego para ele, mas lhe dá também um lugar para morar; as duas salas juntas durante o tempo de Strong na Big Apple. Mas o mais importante é que Monod lhe apresenta ao homem que mais do que qualquer outro estará por trás de sua ascensão meteórica ao estrelato internacional: David Rockefeller.

Maurice Strong gostava de contar a história de que ele havia enfrentado Rockefeller no início. De acordo com Strong, algumas de suas primeiras palavras para David foram: “Eu sou profundamente contrário a você e a tudo o que a sua família representa”. Estranhamente, David não se lembra do encontro dessa maneira, dizendo que os dois tinham “uma forte relação de trabalho.”

De qualquer maneira, a partir daquele momento, Strong era um homem feito. E a partir daquele momento, onde quer que Strong fosse, Rockefeller e seus associados estavam lá em algum lugar nos bastidores.

Foi um veterano da Standard Oil, Jack Gallagher, que deu a Strong sua grande oportunidade na indústria de petróleo de Alberta quando este deixou o seu emprego seguro na ONU para voltar ao Canadá. Gallagher havia sido contratado por Henrie Brunie, uma amiga íntima de John J. McCloy, um associado de Rockefeller, para criar uma nova empresa de exploração de petróleo e gás. Strong entrou como assistente de Gallagher.

Quando, de repente, Maurice Strong decidiu deixar o emprego, vender sua casa e viajar para a África, encontrou um emprego no CalTex de Rockefeller, em Nairobi.

Quando ele deixou o cargo em 1954 e fundou sua própria empresa no Canadá, contratou Brunie para administrá-lo e nomeou dois representantes da Standard Oil de Nova Jersey para seu conselho. A essa altura, ele estava no final da casa de 20 anos e já era um multimilionário.

Após criar uma considerável rede de contatos junto à elite política do Canadá, Strong foi nomeado chefe da Power Corporation, uma nova cria da poderosa família Desmarais, os ‘Rockefellers do Canadá”. A Power Corp é um importante ‘criador de caciques políticos’ no meio político canadense, e, sob a administração de Strong, continuou a desempenhar esse papel. Um de seus escolhidos: um MBA de Harvard de cara nova chamado James Wolfensohn, futuro presidente do Banco Mundial. Outra escolha dele: Paul Martin, futuro CEO da Canada Steamship Lines e futuro Primeiro Ministro do Canadá.

Strong deixou a Power Corp para liderar o programa de ajuda externa do Canadá. Ele supervisionou a criação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e do Centro Internacional de Pesquisa em Desenvolvimento (IDRC). Como a jornalista Elaine Dewar, que entrevistou Strong para seu livro inovador Cloak of Green (Capa Verde), explica:

“A IDRC tinha uma cláusula em sua legislação de habilitação que lhe permitia doar dinheiro diretamente a indivíduos, governos e organizações privadas. Foi criada como uma corporação, reportando ao Parlamento através do ministro de Assuntos Externos. Seu conselho de governadores foi projetado para incluir pessoas privadas e até estrangeiras. […] Como o IDRC não foi criado como um agente da Coroa (como é a CIDA), pôde receber doações de caridade de empresas e indivíduos, bem como fundos do governo”.

Essas “empresas e indivíduos” generosamente “doaram” seu dinheiro ao IDRC, e, naturalmente, incluíram o Chase Manhattan Bank, do Rockefeller, e a própria Fundação Rockefeller. Strong admitiu a Dewar que o IDRC foi capaz de vender influência política no terceiro mundo sob seu disfarce de organização quase governamental.

No entanto, a sua carreira quase empresarial / quase governamental / quase “filantrópica” atingiu um novo nível em 1969. Isso se deu quando o embaixador sueco na ONU telefonou para Strong para ver se ele queria liderar a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que deveria ocorrer em 1972. Ele recebeu a ligação não pelo seu suposto amor ao meio ambiente, mas porque, mesmo naquela época, Strong já era conhecido como um ‘Fichário de Rolo’ humano de conexões políticas, comerciais e financeiras em todo o mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

E naturalmente, ele foi devidamente nomeado administrador da Fundação Rockefeller, que depois financiou o seu escritório para a cúpula (cimeira) de Estocolmo, e forneceu a pesquisadora da Carnegie, Barbara Ward, e o ecólogo da Rockefeller, René Dubos, para a sua equipe. Strong os encomendou a escrever ‘Only One Earth’ (Uma só Terra), um texto fundamental no campo do desenvolvimento sustentável, o qual é fortemente apontado pelos globalistas como sendo chave na promoção da gestão global de recursos.

A Cúpula (Cimeira) de Estocolmo, de 1972, ainda é reconhecida como um momento marcante na história do movimento ambiental moderno, pois levou não apenas aos primeiros planos de ação ambiental administrados por governos na Europa, mas também a criação de uma burocracia totalmente nova da ONU: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNDP/PNUMA). Diretor fundador do PNUMA: Maurice Strong. Como Dewar explica:

“Como muitas das organizações que Strong criou, essa também teve vários usos. Em 1974, o PNUMA emergiu do solo não cultivado de Nairóbi, no Quênia, antigo território de Strong. A colocação do PNUMA na África foi explicada como uma ‘migalha’ para os países em desenvolvimento, e que suspeitavam das intenções ocidentais. Mas também porque era útil para as grandes potências ter outra organização internacional em Nairóbi. Após a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Nairóbi havia se transformado na principal capital de espiões da África”.

A Guerra do Yom Kippur e o consequente embargo da OPEP (previsto magicamente pela Conferência de Bilderberg na Suécia no início do ano e organizado pelo agente de David Rockefeller, Henry Kissinger) tiveram outro efeito derivado que acabou beneficiando Strong. O embargo atingiu com força o leste do Canadá, levando o primeiro-ministro Trudeau a criar uma companhia de petróleo nacional. O resultado: a Petro-Canada nasceu em 1975 e Trudeau naturalmente nomeou Strong, agora o membro mais poderoso do movimento ambiental globalista, como seu primeiro presidente.

David Rockefeller esteve lá com Strong no Colorado em 1987 para o ‘Quarto Congresso Mundial da Vida Selvagem’, um encontro de importância histórica mundial que quase ninguém ouviu falar. Com a participação de Rockefeller, Strong, James Baker e o próprio Edmund de Rothschild, a conferência acabou girando em torno da questão do financiamento para o crescente movimento ambientalista que Strong formou do zero através de seu trabalho no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Foi nessa conferência (gravações da mesma estão disponíveis on-line graças ao denunciante George Hunt) que Rothschild pediu a criação de um Banco Mundial de Conservação, para o qual que ele bolou como mecanismo de financiamento um ‘segundo Plano Marshall’,  que seria usado para ‘alívio de dívidas’ do terceiro mundo e para esse favorito apito de cão globalista, o ‘desenvolvimento sustentável’.

O sonho de Rothschild tornou-se realidade quando Strong presidiu outra cúpula ambiental de alto nível da ONU: a “Cúpula da Terra”, no Rio de Janeiro, em 1992. Embora talvez melhor conhecida como a conferência que deu origem à Agenda 21, o que é muito menos conhecido é que foi a Cúpula da Terra que permitiu que o Banco Mundial de Conservação se tornasse uma realidade.

Iniciado às vésperas da Cúpula da Terra do Rio como um programa piloto de US $ 1 bilhão do Banco Mundial, o banco, agora conhecido como “Global Environment Facility” (GEF), ou Fundo Mundial para o Meio Ambiente, é o maior financiador público de projetos ambientais globais, tendo feito mais de US $ 14,5 bilhões em doações e cofinanciou outros US $ 75,4 bilhões. O banco é o mecanismo financeiro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a convenção organizadora que dirige o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Com a Agenda 21 em seu currículo, o banco de sonhos do GEF de Rothschild dentro da lata e o IPCC já brilhando nos olhos, a notável carreira de Strong não mostrou sinais de parada. Depois de encerrar a Cúpula do Rio, assumiu uma série de compromissos tão desconcertantes que quase desafia a credulidade. De seu site oficial, vem a seguinte lista:

“Após a Cúpula da Terra, Strong continuou a assumir um papel de liderança na implementação dos resultados obtidos no Rio através da criação do Conselho da Terra, do movimento da Carta da Terra, de sua presidência do Instituto de Recursos Mundiais, de membro do Conselho do Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, o Instituto Afro-Americano, o Instituto de Ecologia da Indonésia, o Instituto Beijer da Real Academia Sueca de Ciências e outros. Strong era um diretor de longa data da Fundação do Fórum Econômico Mundial, consultor sênior do presidente do Banco Mundial, membro da Assessoria Internacional da Toyota Motor Corporation, Conselho Consultivo do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, o Conselho de Empresas Mundiais para o Desenvolvimento Sustentável, a União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN), o Fundo Mundial para a Vida Selvagem, Recursos para o Futuro e as Bolsas Eisenhower”.

Não resta dúvida de que Strong levou uma vida encantada. E, dada a presença persistente dos interesses de Rockefeller naquela vida desde seus primeiros anos, não há dúvida de por que as portas pareciam se abrir para ele onde quer que ele fosse.

Mas, ainda assim, é preciso perguntar como e por que um abandono do ensino médio que se tornou grande no ramo do petróleo graças às suas grandes conexões com o petróleo se tornaria a figura mais importante do movimento ambiental internacional. Ele estava realmente interessado em proteger o meio ambiente?

Considere a aquisição de Strong da Arizona Land & Cattle Company, do traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, em 1978. Como parte dessa aquisição, Strong ganhou controle sobre um rancho no vale de San Luis, no Colorado, chamado Baca Grande. Como Henry Lamb explica em um artigo de 1997:

“O rancho, chamado Baca Grande, ficava no maior aquífero de água doce do continente. Strong pretendia canalizar a água para o sudoeste do deserto, mas as organizações ambientais protestaram e o plano foi abandonado. Strong terminou com um acordo de US $ 1,2 milhão da companhia de água, uma concessão anual de US $ 100.000 da Laurance Rockefeller, e ainda manteve os direitos sobre a água”.

Não, o interesse de Strong no sítio não teve nada a ver com a preservação do ambiente primitivo do vale de San Luis. Seu interesse era totalmente estranho. Como observa o Quadrant Online:

“Maurice Strong tinha sido informado por um místico que:

O Baca se tornaria o centro de uma nova ordem planetária que evoluiria do colapso econômico e das catástrofes ambientais que varreriam o mundo nos próximos anos.

Como resultado dessas revelações, Strong criou a Fundação Manitou, uma instituição Nova Era (New Age)[3] localizada no rancho de Baca – acima das águas sagradas às quais a permissão para bombear foi negada a Strong. Esse hocus-pocus continuou com a fundação do The Conservation Fund (com a ajuda financeira de Laurance Rockefeller) para estudar as propriedades místicas da montanha Manitou. No rancho de Baca, há um templo circular dedicado aos movimentos místicos e religiosos do mundo”.

De fato, o zelo missionário de Strong por espalhar sua mensagem ambiental de desastre e destruição por tantas décadas pode ser mais facilmente explicado como um zelo quase religioso por preparar o caminho para a ‘Nova Ordem Mundial’ que esta destruição ambiental supostamente prediz.

Uma visão mais aprofundada das místicas crenças da Nova Era de Strong, pode ser encontrada naquilo que ele considerou ser sua conquista mais importante: a criação da Carta da Terra. A Carta da Terra foi fruto do Instituto do Conselho da Terra de Strong, que ele fundou em 1992 com a ajuda de Mikhail Gorbachev, David Rockefeller (obviamente), Al Gore, Shimon Peres e um punhado de amigos globalistas de Strong.

O próprio portal de Strong descreveu a Carta da Terra como ‘uma declaração de consenso global amplamente reconhecida sobre ética e valores para um futuro sustentável’, mas o próprio Strong estruturou o documento em termos religiosos, dizendo que espera que seja tratado como um novo Dez Mandamentos.

Então, o que a Carta da Terra diz? Além das previsíveis bobagens esperadas sobre ‘justiça social e econômica’ e outras chavões políticos, o documento termina como uma carta de amor ao governo mundial:

“Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional juridicamente vinculativo em meio ambiente e desenvolvimento”.

A própria Carta da Terra repousa na “Arca da Esperança”, uma arca literal que foi construída especificamente para abrigar o documento original em uma referência óbvia à arca da aliança. A arca foi inaugurada em 9 de setembro de 2001 e depois transportou 350 milhas para as Nações Unidas após o 11 de setembro. O membro da Comissão da Carta da Terra que presidiu a inauguração não passou de Steven C. Rockefeller.

Embora essa busca quase religiosa pelo governo global esteja sempre envolvida em uma linguagem de bem-estar sobre o fortalecimento de comunidades e a preservação do planeta, a realidade subjacente é sobre uma agenda maquiavélica muito mais. Como observa Dewar em Cloack of Green  (Manto Verde) acerca da Cúpula do Rio:

“Anunciada como a maior cúpula do mundo, a do Rio foi descrita publicamente como uma negociação global para reconciliar a necessidade de proteção ambiental com a necessidade de crescimento econômico. Os conhecedores entendiam que havia outros objetivos mais profundos. Isso envolveu a mudança dos poderes reguladores nacionais para vastas autoridades regionais; a abertura de todas as economias nacionais fechadas restantes a interesses multinacionais; o fortalecimento das estruturas de tomada de decisão muito acima e muito abaixo do alcance das democracias nacionais recém-criadas; e, acima de tudo, a integração dos impérios soviético e chinês no sistema de mercado global. Não havia nome para essa agenda tão grande que eu já ouvira alguém usar, então, mais tarde, eu mesmo a nomeei – a Agenda de Governança Global”.

O próprio Strong deu uma ideia do que essa agenda realmente implicava para o homem ou mulher comum em uma entrevista da BBC em 1972 antes do início da cúpula de Estocolmo. Discutindo o ‘problema de superpopulação’ então em voga como a causa ambiental do dia, Strong admitiu em suas reflexões sobre o potencial de licenças de reprodução:

“Licenças para ter filhos por acaso é algo que eu tive problemas por alguns anos atrás por sugerir, mesmo no Canadá, que isso pode ser necessário em algum momento, pelo menos alguma restrição ao direito de ter um filho. Não estou propondo isso, estava simplesmente prevendo isso como um dos possíveis cursos que a sociedade teria que considerar seriamente se nos envolvêssemos nesse tipo de situação”.

Que Strong teve tanto sucesso em promover sua agenda de ‘governança global’ por tantas décadas é um testemunho não de sua própria liderança visionária, como muitos globalistas professam, mas dos incríveis recursos dos Rockefellers, dos Rothschilds e outros que estão financiando essa agenda. à existência e empurrando-o a cada passo.

É por alguma medida de boa sorte, então, que as décadas de fraude de Strong finalmente tenham chegado ao fim (mais ou menos) em 2005, quando, como observa o Quadrant Online, ele foi finalmente pego ‘com a mão no caixa’:

“Investigações sobre o Programa Petróleo por Alimentos da ONU descobriram que Strong havia endossado um cheque de 988.885 dólares para M. Strong – emitido por um banco jordaniano. O homem que deu o cheque, o empresário sul-coreano Tongsun Park, foi condenado em 2006 em um tribunal federal dos EUA por conspirar para subornar funcionários da ONU. Strong renunciou e fugiu para o Canadá e daí para a China, onde vive desde então”.

Embora ainda aparecendo em vários eventos ao redor do mundo, Strong liderou uma existência muito mais baixa na última década, provavelmente desacelerada pelos estragos da idade avançada. Mas agora que ele finalmente faleceu, somos deixados a receber elogios ainda mais nauseantes a esse homem e às muitas instituições globalistas que compõem seu legado.

Não, não é difícil entender por que Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista. Só não espere que nenhum dos membros desse jet set conte essa história em detalhes.

Ilustrações:

Foto de Maurice Strong tendo ao fundo uma paisagem ressecada e um selo da ONU.

Foto de Anna Louise Strong, tia de Maurice Strong, ao lado de Mao Zedong e outros dignitários chineses. Anna Strong era uma comunista comprometida que fez amizade com Lenine e Trotsky.

Imagem do sítio de petróleo de Alberta, onde Maurice Strong trabalhou depois de ter deixado o seu primeiro emprego na ONU.

Foto do jovem Maurice Stong em frente à mesa presidencial, em uma conferência da ONU.

Foto de George Bush, presidente dos Estados Unidos, discursando na Cúpula da Terra de 1992 no Rio.

Imagem da placa externa do rancho Baca Grande, no vale de San Luis, no Colorado, adquirido por Maurice Strong, que se tornou o local da Fundação Manitou, uma instituição ‘Nova Era’ (New Age).

Foto de Maurice Strong falando durante uma conferência em que anunciou a criação da Carta da Terra.

Foto de um cheque de US $ 988.885 concedido a M. Strong, emitido por um banco jordaniano, e endossado com a assinatura de Maurice Srong.

Publicado originalmente em TheInternationalForecaster.com, em 31 de janeiro de 2016

James Corbett é um jornalista e editor do portal ‘The Corbett Report’, Open Source Intelligence News, https://www.corbettreport.com/about/

James Corbett has been living and working in Japan since 2004. He started The Corbett Report website in 2007 as an outlet for independent critical analysis of politics, society, history, and economics. Since then he has written, recorded and edited thousands of hours of audio and video media for the website, including a podcast and several regular online video series. He is the lead editorial writer for The International Forecaster, the e-newsletter created by the late Bob Chapman.

His work has been carried online by a wide variety of websites and his videos have garnered over 50,000,000 views on YouTube alone. His satirical piece on the discrepancies in the official account of September 11th, “9/11: A Conspiracy Theory” was posted to the web on September 11, 2011 and has so far been viewed nearly 3 million times.

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For more information about Corbett and his background, please listen to Episode 163 of The Corbett Report podcast, Meet James Corbett: Episode 163 – Meet James Corbett

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK, 4 set 2019)


[1] Maurice Frederick Strong faleceu em 28 de novembro de 2015, em Ottawa, Canadá, aos 86 anos de idade.

[2] IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change / Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

[3] New Age ou Nova Era é definida pelo dicionário Cambridge online como sendo “um modo de vida e pensamento desenvolvido no final dos anos 80, com base em ideias que existiam antes das teorias científicas e econômicas modernas.” Essa definição coloca a Nova Era dentro da doutrina pósmodernista.

Colóquio: Richard Dawkins: o revolucionáro racional

Jo  Pires-O’Brien

‘Richard Dawkins:The Rational Revolutionary’, ou, em português, ‘Richard Dawkins: o revolucionáro racional’, é o título do colóquio que eu tive a oportunidade de assistir em 14 de julho de 2016, em Londres, promovido pela Intelligence Squared (intelligence2; Inteligência ao Quadrado), um fórum mundial de debates inteligentes fundado em 2002 em Londres, com o objetivo de celebrar os 75 anos do cientista bem como os 40 anos da publicação de O gene egoísta (The Selfish Gene, 1976) e os 10 anos de Deus, um delírio (The God Delusion, 2006). O colóquio teve lugar no auditório do Immanuel Centre, em Londres, não muito distante do Parlamento. Em adição ao próprio Dawkins, havia outros seis palestrantes: o jornalista e autor Jonathan Freedland (1967 -), que atuou como Presidente, a psicóloga, professora universitária e escritora Susan Blackmore (1951 -), o ilusionista e autor Derren Brown (1971 -), o dramaturgo e escritor Michael Frayn (1933 -), e através de ligação por vídeo, o filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett (1942 -) e o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker (1954 -).

É interessante notar que dentre os palestrantes havia três não-cientistas, todos três confiantes na própria capacidade de discutir ciência com Dawkins, Dennett, Pinker e Blackmore. Dentre os não-cientistas, o que mais atraiu a curiosidade foi o ilusionista Deren Brown, que notabilizou-se pela prática da sugestão psicológica, com a qual ele é capaz de desbancar as pretensões de espiritualistas e milagreiros. Michael Frayn é o autor da peça de teatro ‘Coppenhagen’ que foi atuada com sucesso em Londres e Nova Iorque, e que trata da física quântica e do desenvolvimento da bomba atômica. Jonathan Freedland, o Presidente, é um jornalista e radialista premiado, crítico literário, e autor de diversos livros de não-ficção e de ficção.

O presente ensaio é a minha versão desse evento, compilado a partir das anotações que fiz durante o mesmo. Reconheço que não é uma transcrição completa mas sim um esboço daquilo que consegui capturar. Peço desculpas adiantadas por falhas eventuais que possa ter cometido.

Abertura do Colóquio

O colóquio ‘Richard Dawkins: The Rational Revolutionary’ ocorrido em 14 de julho de 2016, no auditório principal do Emmanuel Centre, na Marsham Street, Westminster, contou com a participação de cerca de 600 pessoas. Os palestrantes sentavam-se em cadeiras voltadas ao público: Frayn, Dawkins, Freedland, Blackmore e Brown. Acima desses ficava um telão, onde as imagens de vídeo dos outros dois participantes Dennett e Pinker seriam projetadas.

Dois painéis com citações bíblicas, localizados em ambos os lados do telão acima mencionado, mostravam que o local se tratava de uma igreja cristã. O do lado esquerdo tinha a inscrição ‘I am that they might have light and that they might have it more abundantly. John 10:10’, enquanto que a do lado direito dizia ‘Immanuel: God with us. Matt. 1:23’. Os presentes no colóquio certamente notaram a ironia de evento de ateístas ser realizado numa igreja cristã.

De início, Hanna, a representante da Intelligence Squared, apresentou cada um dos participantes, e, em seguida, ela deu a palavra ao jornalista, radialista e ator Stephen Fry, o qual falou através de vídeo, louvando o homenageado Dawkins. Dando início ao colóquio propriamente dito, o seu Presidente, Jonathan Freedland, começou afirmando que o evento daquela noite seria mais uma conversação do que um debate, mas uma conversação especial pois envolveria alguns dos mais influentes pensadores da atualidade.

O gene egoísta

Freeland começou pedindo a Dawkins que explicasse o porquê dele ter se arrependido de ter usado a expressão ‘gene egoísta’. Dawkins respondeu que era porque muita gente julga os livros pelos seus títulos, e, no caso do livro O gene egoísta, muita gente interpretou a palavra ‘egoísta’ ao pé da letra e não metaforicamente como ele havia intencionado. Segundo Dawkins, o seu livro O gene egoísta chegou a ser associado com a ascensão de Margareth Thatcher ao cargo de Primeira Ministra, cuja política de privatizações e defesa do livre mercado fez com que fosse vista por muitos como uma pessoa egoísta. Dawkins disse ter cogitado o título ‘The Immortal Gene’ (O gene imortal), mas que o seu editor tinha preferido ‘O gene egoísta’. Os outros participantes concordaram que o título ‘O gene egoísta’ era por si provocante, mas afirmaram que isso era uma boa razão para mantê-lo.

Genes como replicadores e os memes

Blackmore falou que o sentido da palavra ‘egoísmo’ no livro O gene egoísta tinha a ver com a tremenda capacidade de autorreplicação do gene, a qual envolve copiar informação e passá-la a um novo organismo através da reprodução sexuada; falou dos erros que podem ocorrer durante a cópia das informações genéticas, e, que tais erros levam às variações que costumam aparecer.

Blackmore abordou o tópico dos ‘memes’ palavra criada por Richard Dawkins a partir da palavra grega ‘mimeme’, que quer dizer ‘imitar’, e introduzida no seu livro O gene egoísta. Os ‘memes’ de Dawkins são outras coisas auto-replicáveis, podendo ser ideias ou qualquer coisa cultural; os ‘memes’ podem advir da ciência, da arte e da música, e até de coisas como a moda. Assim como os genes, os memes também sofrem alterações durante esse processo de propagação. Conforme Blackmore, a religião é uma fonte poderosa de memes. “Se você acredita que seja uma boa pessoa, você não consegue acreditar que seja uma má pessoa, e assim sendo, continua a agir de uma mesma forma”.

A ideia perigosa de Darwin

Dennett falou acerca do processo de adaptação dos organismos através da seleção natural descoberta por Charles Darwin, e, porque tal processo foi e ainda é considerado uma ideia perigosa. Conforme ele próprio descreveu no seu livro Darwin’s Dangerous Idea (A Ideia Perigosa de Darwin; 1995), a explicação natural para o surgimento das espécies, através do processo de adaptação ao ambiente, contraria as explicações sobrenaturais contidas nos livros de revelação religiosa.

Por que a seleção natural demorou tanto para ser descoberta

Dawkins afirmou que o fato da seleção natural só ter sido descoberta no século XIX é algo que sempre o intrigou. Por que não Aristóteles ou outro que veio depois dele? Uma possível explicação dele para tal atraso é que a enorme beleza do mundo possivelmente predispôs o homem a aceitar a explicação supernatural da existência do universo.

Fayn apontou que tanto Darwin quanto Wallace (Alfred Russell W.) eram naturalistas de campo, e que esse pode ter sido o fator crítico da descoberta da seleção natural. Blackmore completou que a descoberta da seleção natural tirou o homem do pedestal que antes ocupava. Segundo Pinker, a descoberta da seleção natural decorreu tanto da intuição de Darwin quanto do fato dele ter ligado a riqueza da vida na Terra à reprodução dos organismos. Retomando a palavra, Dawkins levantou a possibilidade de que a ‘forma ideal’ do essencialismo platonista – a ideia de que cada entidade específica possui um conjunto de atributos tal,  necessário para a sua identidade e função – possivelmente teria dificultado imaginar formas em mutação.

A fé e o poder psíquico

Derren Brown, um conhecido ilusionista inglês que iniciou uma carreira na televisão em dezembro de 2000 com a série Mind Control (Controle da mente), é também um desmascarador da arte da manipulação psicológica. Para Brown, o poder psíquico costuma ser empregado por pregadores religiosos para demonstrar o poder do divino, quando na verdade é um fenômeno inteiramente natural. Brown falou que embora ele sempre tivesse deixado isso claro para as suas audiências, que ocasionalmente as pessoas pedem a ele que se comuniquem com indivíduos já falecidos, o que mostra que muita gente não consegue abrir mão do supernatural.

Novos ateístas

Foi colocado a Dennett que ele faz parte do grupo conhecido como ‘novos ateístas’ (autores do início do século XXI que escreveram livros promovendo o ateísmo, os quais incluem Dennett, Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris). Dennett é autor de Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (Quebrando o encanto. A religião como fenômeno natural; 2007) e Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind (Apanhado no púlpito: deixando para trás a crença; 2013), com Linda LaScola. Dennett falou que o termo ‘novos ateístas’ simplesmente se refere a ateístas declarados, pois são muitas as pessoas que não revelam que são ateístas. Ele acha que o número de ateístas declarados nos Estados Unidos cresceu desde a publicação do seu livro (Breaking the Spell). Segundo ele, era comum na classe dos professores universitários não desejar impor seus ateísmos, mas que agora muitos já decidiram não mais continuar no papel de ‘acadêmicos ateístas gentis’.

A visão antiga do ateísmo

Frayn lembrou como era a visão antiga do ateísmo na época que ele havia se alistado no exército britânico. Ele conta que, quando escreveu que era um ateísta no formulário de dados pessoais, o seu supervisor imediato não entendeu o que ele havia escrito e presumiu que ele era ‘essayist’ (ensaísta). Frayn confessou que embora ele tivesse se declarado ateísta desde jovem, que hoje em dia ele já não gosta de ser rotulado um ateísta, pois ser ateísta significa simplesmente alguém que não crê em Deus, enquanto que existe muitas outras coisas que ele também não acredita, o que faz dele ‘a-cinderelista’, ‘a-papainoelista’ e mais um monte de ‘a-coisistas’.

O grande tecido da religião

Frayn disse ter dificuldade de entender não apenas por que as pessoas creem mas também por que muitas pessoas não conseguem mudar de ideia seja qual for o motivo. A explicação dele é que as pessoas desejam fazer parte do ‘grande tecido da religião’ e, consequentemente, não refletem acerca dos motivos para seguir determinada religião. Uma evidência disso é o fato dos congressistas americanos serem em sua maioria religiosos.

O consolo da religião

Frayn levantou a questão de que a religião dá consolo, e portanto, se seria uma boa coisa tirar do povo esse consolo. Blackmore respondeu que no seu caso, ela preferiria sempre a verdade sobre qualquer outra coisa. Frayn assumiu o papel de advogado do diabo e perguntou: ‘Que mal pode fazer se as pessoas vão à igreja e se sentem bem com isso?’ Dawkins respondeu afirmando que a fé religiosa leva ao sentimento anti-ciência e contra os cientistas. Entretanto, alguém mostrou que há muitos cientistas que declaram ter fé religiosa. Como explicar isso? O fato de alguém declarar ter fé religiosa não significa que esteja falando a verdade. Muita gente pensa que não existe outra fonte de moralidade senão a religião, e isso é um motivo para afirmar ter crença religiosa mesmo sem ter. As pessoas têm as mais diversas razões para frequentar igrejas: lealdade, comunidade tribal, gostar dos hinos, gostar do vigário etc. Entretanto, há muitas outras fontes de consolo sem ser a religião como a amizade e o amor.

Vigários que não creem

Dennett falou que existe muitos vigários (pastores protestantes) que não são crentes mas mesmo assim continuam desempenhando o papel de crente. Tal afirmação é o resultado de entrevistas confidenciais realizadas com clérigos de diversas denominações, o qual foi publicado no livro que ele escreveu junto com Linda LaScuola: Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind; 2013.

O Islã como fonte atual do mal

O próximo tema discutido foi a religião islâmica. Dawkins afirmou que embora outras religiões tivessem cometido atrocidades no passado, no presente é o islamismo que as tem cometido. O próprio islamismo é a fonte de poder para tais atrocidades. A sua escritura sagrada, o Corão, ordena cortar cabeças, chicoteamentos, apedrejamentos, jogar homossexuais em abismos, etc. Não há como negar que o islamismo seja uma fonte atual do mal.

Relação entre as ciências e as artes

Freedland perguntou se o hiato identificado entre as ciências e as artes ainda existe ou se tem diminuído. A seu ver, ainda há muitas pessoas oriundas das artes que não conseguem entender as ciências, e muitos cientistas que não entendem as artes. Dawkins lembrou que Frayn, um oriundo das artes, escreveu a peça teatral Copenhague, para a qual ele precisou compreender bem a física quântica, uma das mais difíceis áreas da ciência. Abrindo um parêntese, a peça de Frayn é centrada em dois encontros fictícios entre os físicos quânticos teóricos, Werner Heisenberg (1901-76) e Niels Bohr (1885-1962), um em setembro de 1941, quando ambos trabalhavam aconselhando o governo dos Estados Unidos acerca da bomba atômica, e outro em 1947, após o fim da Primeira Guerra e no início da Guerra Fria. Frayn explicou que precisou ler muitos livros escritos por cientistas a fim de entender o suficiente de física quântica para escrever Copenhague.

Os novos sumos-sacerdotes do conhecimento

Dawkins usou a analogia do ‘sumo-sacerdote’, os clérigos mais importantes das religiões antigas, para se referir ao papel dos cientistas no conhecimento humano. “Como os indivíduos que atuam nas artes normalmente não entendem de ciência, os cientistas eram os ‘sumo-sacerdotes do conhecimento’”, afirmou. Em seguida, Dawkins abriu um espaço para afirmar que o entendimento de ciência de Michael Frayn, um homem oriundo das artes, era uma exceção. Conforme visto anteriormente, Frayn é o autor da peça Copenhagen, que requereu conhecimentos de física quântica, uma área da ciência de notória dificuldade.  Dawkins  então fez um desabafo ligado ao ataque que sofreu de certos colegas cientistas, quando afirmou que “os novos sumo-sacerdotes do conhecimento são os cientistas que vilificam outros cientistas simplesmente porque explicam a ciência ao público leigo”.

A fé na ciência

A fé não é exclusiva da religião mas também ocorre na ciência, cuja amplitude impede que os cientistas entendam tudo acerca das disciplinas que não são as deles. Blackmore, que atua no campo da psicologia, admitiu que muitas vezes aceita afirmações da física quântica e de outros tópicos complexos da ciência, pela fé e não pelo entendimento. Entretanto, ela completou o argumento afirmando que a fé na ciência não é a mesma coisa do que a fé na religião, pois a ciência possui métodos de procedimentos que incluem a repetição do experimento.

A batalha do significado

Brown apontou o fato de que a religião dá significado às pessoas, como sendo a derradeira dificuldade para eliminar a religião. Em meio às suas ambiguidades impossíveis acerca da morte, a religião oferece um significado macio ao qual as pessoas se agarram, e, sem o qual, se atirariam das pontes. Mesmo baseando-se em coisas impossíveis, a religião dá às pessoas o significado que precisam. Portanto, há uma batalha pelo significado entre a ciência e a religião.

Perguntas do público

Ao fim da conversação entre os sábios presentes, teve início a parte em que membros da audiência fizeram perguntas, algumas das principais sendo listadas a seguir.

  • Há lugar para a serendipidade nesse mundo do ateísmo?
  • Como explicar casos em que uma pessoa sonha com outra e essa outra pessoa morre logo em seguida?
  • O mundo seria um lugar melhor se não existisse a religião?
  • Por que não tratar as declarações de fé como sendo um assunto pessoal?
  • Por que a religião ainda existe?
  • Onde e como as pessoas podem encontrar significado fora da religião?
  • Por que o Oriente Médio não teve uma revolução ateísta assim como o Ocidente?
  • Pode a ciência desprovar Deus?
  • O que acham os palestrantes acerca do determinismo e do livre arbítrio?

Respostas dadas

Os participantes responderam às respostas do público, embora sem seguir a ordem exata em que foram formuladas. Brown falou que as pessoas querem que haja uma narrativa em torno de si próprias, e, por essa razão, se agarram à crenças e à religião. As pessoas anseiam por serendipidade, isto é, que coisas boas aconteçam uma depois da outra. Entretanto, o acontecimento de coisas felizes ou úteis está ligado à lei das probabilidades. O fato de uma pessoa ter morrido logo depois de alguém ter sonhado tal evento, não significa que a morte da mesma ocorreu devido ao sonho. Há coisas cuja chance de acontecer é de um para muitos milhões, mas mesmo assim acontecem.

Dennett explicou que a religião continua existindo porque é um replicador de si própria. O valor para um replicador significa um valor que seja útil ao próprio replicador. Portanto, a religião não precisa ser boa para que sobreviva, pois foi programada para sobreviver.

Pinker acha que o mundo seria melhor sem a religião. A seu ver, o problema em julgar a crença religiosa como sendo meramente uma questão pessoal não se limita ao fato da religião tratar de inverdades; há também o fato de que é muito difícil manter o espaço privado separado do espaço público. A verdade é bela, elegante e gloriosa, e, por essas razões, deve ter primazia sobre qualquer inverdade.

Dawkins aponta outro problema da crença religiosa que é o abuso de crianças. Ele reconhece duas formas desse tipo de abuso, quando um adulto fala do inferno com uma criança, e a rotulação de crianças com a religião de seus pais.

Dawkins gostaria que as pessoas parassem para pensar nos pontos incompatíveis ensinados pela religião. A teoria evolutiva de Darwin já mostrou que Adão e Eva não existiram, e se não existiram, também o pecado original nunca existiu.

Perguntado sobre o que pensa das outras crenças das crianças como a crença no Papai Noel, Dawkins afirmou que sua filha acreditava no Papai Noel, mas que logo deixou de acreditar, assim como as outras crianças. Entretanto, ele lembrou que a crença em Papai Noel é diferente das crenças religiosas por ser algo temporário. As crianças eventualmente param de acreditar no Papai Noel, mas continuam acreditando em Deus.

Para Dawkins, o mundo ligado à religião é um mundo empobrecido. É também repleto de obscenidades como a narrativa em torno do pecado original. Como é que o Deus que é o inventor de tudo, precisou empregar tortura e morte para redimir o suposto pecado da humanidade? Por que não encontrou uma maneira melhor para redimir tal pecado? A religião não é a única fonte de significado para a vida das pessoas. Basta olhar à volta no mundo para encontrar significados. A arte e a música são excelentes fontes de significado.

Dennett falou sobre como as pessoas podem encontrar significado fora da religião. Primeiro você procurar algo admirável que seja muito maior do que você mesmo, e depois, você se dedica ao mesmo.

Brown admitiu que embora a ciência não tenha como desprovar Deus, isso não significa que Deus exista. Ele explicar isso fazendo um paralelo entre Deus e outra coisa qualquer que alguém diz acreditar. “Um homem pode afirmar que em sua casa tem um rato verde, mas o fato de ser impossível provar que tal rato verde não existe não significa que o mesmo exista”. Portanto, o ônus da prova é do afirmador e não do negador.

Acerca da questão do determinismo e do livre arbítrio, três participantes deram três respostas diferentes. Blackmore negou acreditar no livre arbítrio e afirmou que o passado das pessoas e as suas situações ambientais determinam como as pessoas se comportam em determinado momento. Dennett critica o raciocínio determinista, afirmando que o mesmo pode levar um criminoso a não assumir a responsabilidade pelo seu crime, afirmando simplesmente ‘o meu cérebro me obrigou a fazer isso’. Dawkins optou em responder a pergunta citando a seguinte frase de Christopher Hitchens: “Eu não creio no livre arbítrio mas não tenho escolha”. As posições diferentes de Blackmore, Dennett e Dawkins, mais o paradoxo contido na resposta de Dawkins, mostram que o determinismo e o livre arbítrio são assuntos demasiadamente complexos para o momento e o local.

Dawkins encerrou o evento reafirmando a importância de repassar os bons memes. “Embora a nossa existência hoje deva-se a uma longa linha de ancestrais que tiveram sucesso em passar os seus genes para as gerações sucessivas, não é preciso ter filhos para passar os bons memes adiante”, concluiu o cientista.

Conclusão final

O colóquio acima descrito foi uma homenagem ao cientista e escritor Richard Dawkins, e, por essa razão, girou em torno dos temas mais chegados a Dawkins: ‘memes’ e ateísmo. É interessante notar que em nenhum ponto do colóquio o conceito dos ‘memes’ foi explicado. Tal fato sugere uma presunção de que a audiência presente entendia do que se tratava, e, portanto, uma explicação não era necessária. Para os que não familiarizados, Dawkins criou o conceito de ‘memes’ para designar “unidades hipotéticas de cultura e de comportamento que passam de um indivíduo a outro através da imitação”. Os ‘memes’ são análogos aos genes no sentido em que ambos são replicáveis. A diferença entre os dois está no modo de replicação: enquanto que os genes são replicados geneticamente, os memes são replicados pela imitação. Todos os três cientistas que participaram do colóquio, Daniel Dennett, Steven Pinker, e Suzan Blackmore, já haviam empregado o conceito de ‘memes’ em suas pesquisas. Todos os participantes do colóquio concordaram que o homem encontra consolo nas coisas que têm significado, e, que o significado obtido da verdade é melhor do que o obtido da inverdade. Concordaram ainda que existem boas coisas no mundo que merecem ser replicadas para o bem de toda a sociedade.


Jo Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria sobra a cultura ibérica no mundo, de generalidades, cultura e política. Em 2016 ela publicou O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9.99.

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Sobre o individualismo

“Ser você mesmo num mundo que está constantemente tentando fazer outra coisa de você é a maior realização.” Ralph Waldo Emerson

Jo Pires-O’Brien

O individualismo é entendido diferentemente por socialistas e liberais. Para os socialistas, o individualismo é a primazia dos valores ligados ao indivíduo e ao seu bem-estar sobre os valores ligados à comunidade e ao bem-estar comunitário. Para os liberais, individualismo é a visão moral, política e social que prega a independência humana e a importância da autoconfiança e da liberdade. Essas duas definições de individualismo são contrárias e não podem estar ambas corretas. Por acaso o individualismo é uma forma de egoísmo, como afirmam os socialistas, ou é uma simples preferência pelo indivíduo, em contraposição ao coletivo, como afirmam os liberais?

O primeiro passo no processo de entendimento de qualquer palavra terminada em ‘ismo’ é procurar descobrir a mensagem por detrás desse sufixo, que indica tendência, viés ou preconceito. O segundo passo é entender a palavra sem o ‘ismo’. A palavra  ‘individualismo’ surgiu na década de 1820, entre os seguidores franceses do socialismo de Claude-Henri Saint-Simon (1760–1825), sendo logo exportada para a Inglaterra, Alemanha e outros países.

O significado da palavra sem o ‘ismo’ pode elucidar o sentido verdadeiro da mesma palavra com o ‘ismo’. A palavra ‘indivíduo’ vem do latim (indīviduus), cujo significado é ‘indivisível’ ou ‘inseparável’, e nos remete à palavra grega para ‘átomo’ (άτομο), cujo significado é o mesmo. Na doutrina do ‘individualismo’, a palavra indivíduo refere-se à pessoa humana  (antropos) considerada a unidade básica da sociedade. Como o contrário de ‘indivíduo’ é o ‘coletivo’, o contrário do individualismo é o coletivismo. Portanto, ‘individualismo’ significa valorizar o ‘indivíduo’ em preferência ao ‘coletivo’. Um possível motivo da conotação negativa imputada ao individualismo está na visão ultrassimplificada do mundo como um jogo de somatório zero, no qual o ganho de um representa sempre uma perda para o outro. Finalmente, podemos perguntar se o ‘individualismo’ não seria um direito natural das pessoas, considerando-se que desde tempos imemoriais a sociedade reconhece indivíduos, ainda que que a palavra ‘individualismo’ só tenha aparecido no século XIX.

Os liberais acreditam no individualismo devido ao fato de que a responsabilidade e a responsabilização – os ingredientes essenciais da boa cidadania e da boa governança –, residem no indivíduo e não no grupo. Acreditam,  ainda que a corruptibilidade e a incorruptibilidade são atributos do indivíduo, pois é o indivíduo e não o grupo, que pode ser chamado a juízo. Finalmente, individualismo é acompanhado da regra dourada a qual afirma que devemos tratar o outro da forma como desejamos que o outro nos trate. Tal regra implica no reconhecimento dos direitos do outro, o que é suficiente para desfazer a conotação de egoísmo do individualismo.

O individualismo é, portanto, a preferência pelo hábito de ser e agir independente e com iniciativa própria. Ser um ‘individualista’ significa ter o hábito de cultivar a própria mente, de refletir sobre ideias e, se necessário, desafiar as normas ou padrões da sociedade. Sobre as raízes do individualismo, embora alguns cientistas sociais as tenham colocado no cristianismo e o seu entendimento acerca da individualidade da vida e da salvação, a maioria aceita que o individualismo tem raízes mais profundas, incluindo o estoicismo.

Alguém poderia argumentar que o reconhecimento de talentos natos e das capacidades implica, também, no reconhecimento dos individualismos psicopatológicos como o autismo, a sociopatia e a megalomania. Tal não é o caso, e o motivo é a  diminuição de responsabilidade dessas pessoas, a qual é normalmente levada em contra pela legislação de cada país.

Liberdade e igualdade

Liberdade e igualdade são valores atrelados, o que significa necessariamente que o aumento de um requer uma diminuição do outro. A discrepante visão acerca da liberdade e da igualdade entre socialistas e liberais também atrapalha o entendimento do individualismo. Enquanto os socialistas enxergam a igualdade como algo que tende para o absoluto, para os liberais a igualdade é simplesmente ser tratado igual pela lei. Conforme já visto, a visão dos socialistas de que o ganho de uns resulta sempre na perda de outros costuma ser usada como justificativa para aumentar o valor da igualdade em detrimento da liberdade.

As visões díspares dos socialistas e liberais tanto sobre o individualismo quanto sobre a liberdade e a igualdade têm diversas implicações importantes para a sociedade. A facilidade com que os socialistas sacrificam a liberdade a fim de ganhar mais igualdade, é conducente ao Estado grande e oneroso. A desconfiança dos socialistas no individualismo é acompanhada da desconfiança da excelência, que para eles é uma forma de elitismo. Enquanto que, pela ótica socialista, o indivíduo é coagido a curvar-se ao denominador comum da maioria, que é a própria mediocridade, pela ótica liberal, o indivíduo é encorajado a desenvolver ao máximos seus talentos natos e suas capacidades. O individualismo, e não o coletivismo, é o melhor caminho para a boa governança, pois além de favorecer a boa cidadania, favorece o bom desenvolvimento do homem razoável do direito inglês, que é mais conducente à excelência do indivíduo, da qual toda a sociedade se beneficia.

Declarações de direitos do homem nos Estados Unidos e França

Os primeiros estados a adotar declarações de direitos do homem foram os Estados Unidos e a França. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso norte-americano, em 4 de julho de 1776, sublinhou os direitos do homem junto ao direito de se revoltar contra o domínio político. Em 1787, a Constituição dos Estados Unidos da América foi aprovada, e, em 15 de dezembro de 1791, recebeu dez emendas, chamadas coletivamente de ‘Bill of Rights’, garantindo uma relação de direitos do indivíduo, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade. Na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada em 1789, pela Assembleia Constituinte, poucos meses depois da tomada da Bastilha. O problema dessa Declaração é que a mesma interpretou a lei como uma “expressão da vontade do povo”, cuja intenção era promover tal igualdade de direitos e proibir “apenas as ações danosas à sociedade”. A interpretação ao pé da letra do termo “vontade do povo” levou à ditadura da facção majoritária dos jacobinos.

O primeiro crítico de peso das declarações de direitos do homem dos Estados Unidos e da França foi o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-59) que, em sua viagem aos Estados Unidos em 1831, feita com o objetivo de pesquisar o sistema prisional deste país, estudou os mais diversos aspectos da sociedade norte-americana. Tocqueville publicou as suas observações, feitas a partir desta viagem, no livro Democracy in America (1835 e 1440; A Democracia na América), dividido em dois volumes.

Antes mesmo de viajar para os Estados Unidos, Tocqueville havia reconhecido os problemas causados pela democracia direta, implementada na França pós-revolucionária, e acreditava que era possível aperfeiçoar o regime através de reformas. Mais tarde, durante a crise da Segunda República Francesa, ele apoiou o Partido da Ordem (Parti d’Ordre) contra os socialistas, mas, em dado momento, desencantou-se com a política e com os jogos dos arrivistas do poder.

Qual deve ser a esfera do governo?

A extensão da esfera do governo é a maneira de decidir como deve ser o equilíbrio entre liberdade e igualdade. Um dos primeiros pensadores modernos que se preocupou com isso foi Karl Wilhelm von Humboldt (1767-1835), pensador alemão e irmão mais velho do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), que viajou pela América do Sul e fez a primeira descrição científica de suas paisagens. É mister notar que os dois irmãos foram educados por pensadores do Iluminismo como o médico kantista Marcus Herz e o botânico Karl Ludwig Willdenow.

Karl Humboldt foi o grande visionário da unificação da Alemanha ocorrida em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi elevado a Imperador da Alemanha. O seu livro The Sphere and Duties of Government (1854; A esfera e os deveres do governo), escrito em 1791 e publicado postumamente em 1852, trata dos dois objetos da política, a questão de quem deve governar e ser governado; e a questão da demarcação das esferas do governo e dos governados. Para Von Humboldt, a segunda é mais importante do que a primeira, pois a delimitação da esfera do cidadão abarca a sua vida privada e os limites de sua liberdade.

…existem dois grandes objetos, a mim me parece, que devem ser mantidos distintamente sob a vista, nenhum dos quais podendo ser ignorado ou ser subordinado sem causar um dano grave ao modelo comum; esses são – primeiro, determinar, no tocante à nação em questão, quem deve governar, quem deve ser governado, e organizar o funcionamento do poder constituído; e segundo, prescrever a esfera exata à qual o governo, uma vez construído, deve estender ou confinar as suas atuações. O último objeto, o qual abraça mais imediatamente as vidas privadas do cidadão, e de uma maneira mais especial determina os limites de sua atividade livre e espontânea, é, estritamente falando, o propósito verdadeiro e final; o primeiro é apenas um meio necessário de como chegar à esse importante fim. Contudo, por mais estranho que possa parecer, é no alcance do primeiro desses objetivos que o homem direciona a sua melhor atenção; e, como nos cabe mostrar, esta busca exclusiva de um propósito definido coincide apenas com a manifestação usual da atividade humana.

A comparação entre a modernidade e a antiguidade era o grande debate da época pós-revolucionária em que Humboldt viveu. Muitos tomaram partido da modernidade e, em muitos aspectos, cogitaram colocar a antiguidade na lata de lixo da história. Essa não era a postura de Humboldt, o qual reconhecia o quanto os antigos valorizavam a individualidade. Ele ilustrou isso com a seguinte citação da Ética de Aristóteles:  “Pois aquilo que peculiarmente pertence a cada um por natureza é o melhor e o mais prazeroso para cada um; consequentemente, para o homem constituído especialmente pelo intelecto, a vida (mais prazerosa) é aquela de acordo com o intelecto. Essa é, portanto, a vida mais feliz.”

Nessa mesma época pós-revolucionária, quando os primeiros Estados Modernos eram criados, Humboldt entendeu que a pergunta relevante acerca do papel do Estado era: ‘deve este fornecer apenas a seguridade ou deve fornecer a totalidade do bem-estar físico e moral da nação?’. Quem tem apreço pela liberdade na vida privada optaria pela primeira premissa. Infelizmente, os que acham que o Estado deve prover mais do que segurança não pensam na potencial injúria que tal política pode causar à liberdade.

Humboldt reconhece que o Estado Moderno, com sua solicitude de agir pelo indivíduo e prover o seu bem-estar, cria uma necessidade de impostos, enquanto que as legislações criadas nesse sentido acabam limitando a liberdade do indivíduo e valorizando menos o que o indivíduo é e mais o que ele possui. O capítulo II do seu livro The Sphere and Duties of Government trata especificamente do indivíduo e da individualidade. Seu título éof the individual man, and the highest ends of his existence’ (Do homem individual e os objetivos mais elevados de sua existência).

O verdadeiro propósito do homem, ou aquele que é prescrito pelo eterno e imutável ditame da razão, e não sugerido por anseios vagos e transientes, é o mais alto e mais harmonioso desenvolvimento de seus poderes no tocante a um todo completo e consistente. A liberdade é a grande e indispensável condição que a possibilidade de tal desenvolvimento pressupõe; mas ao lado dessa há uma outra que é essencial, – intimamente conectada com a liberdade, na verdade –,  uma variedade de situações. Mesmo o mais livre e autoconfiante dos homens é frustrado e impedido no seu desenvolvimento pela uniformidade de posições. Mas se por um lado é evidente que uma diversidade desse tipo é o resultado constante da liberdade, por outro lado, existe um tipo de opressão que, sem impor restrições no homem em si, gera uma impressão peculiar de suas próprias circunstâncias circundantes; essas condições de liberdade e variedade de situações, podem ser tomadas, num determinado sentido, como sendo uma mesma coisa. Ainda assim, pode contribuir à perspicuidade capaz de apontar a distinção entre elas.

… a razão não pode desejar para o homem nenhuma outra condição do que aquela em que cada indivíduo desfrute da mais absoluta liberdade de se desenvolver por suas próprias energias, em sua perfeita individualidade, mas cuja natureza externa é deixada sem qualquer agência humana, apenas recebendo a impressão de si própria e da autodeterminação que é dada a cada indivíduo, segundo a medida de seus desejos e instintos, e limitado apenas pelos limites de seus poderes e seus direitos.

Humboldt conclui que a razão deve ser a base de cada sistema político e o ponto de partida de toda investigação acerca do mesmo. A razão deve ser usada, a fim de salvar o que é necessário para preservar a liberdade, e nunca deve ceder a pressões para abrir mão da liberdade.

As visões de John Stuart Mill e Bertrand Russell

A visão de Humboldt sobre a esfera do governo impressionou o pensador britânico John Stuart Mill (1806-73), um dos nomes mais importantes do liberalismo britânico, o qual, por sua vez, influenciou seu afilhado Bertrand Russell (1872-1970), o grande divulgador do individualismo no século XX.

No seu famoso ensaio intitulado ‘Da individualidade’, Mill reconhece que a individualidade, isto é, o caráter de uma pessoa, é o principal ingrediente do progresso social, inspirado no livro The Sphere and Duties of Government (1854; A Esfera e os Deveres do Governo) de Humbolt. O ensaio de Mill começa mostrando que, se todas as pessoas do mundo menos uma, tivessem determinada opinião, tal maioria não justificaria silenciar o indivíduo de opinião divergente. Tirar a liberdade de expressão é sempre condenável, não importa que a opinião seja minoritária ou até errada. Mill concorda com Von Humboldt ser uma pena que a maioria tenda a ver o indivíduo que insiste em sua individualidade como um causador de problemas. Não obstante, as faculdades humanas da percepção, do julgamento, do sentimento discriminador, da atividade mental e da preferência moral, só são exercitadas fazendo-se escolhas. Portanto, o privilégio de ser um ser humano reside em experimentar ser ele próprio a fim de amadurecer as suas faculdades humanas e, com elas, interpretar a experiência de sua própria maneira.

Para Mill, o indivíduo de caráter autêntico é aquele que tem desejos e impulsos próprios que expressam a sua natureza. O homem cujos desejos e impulsos não são dele próprio tem o mesmo caráter que o de uma locomotiva a vapor.  Diz-se que uma pessoa tem um caráter forte quando, além de ter impulsos próprios, tais impulsos são encontram-se sob o controle de uma determinação forte. O indivíduo que desenvolve o seu caráter torna-se mais rico, diversificado e  animado; e, por se tornar mais valioso para si mesmo, é capaz de ser mais valioso para os outros, através de ideias que alimentam o tipo de pensamento elevado que enriquece a sociedade. Como Von Humboldt, Mill também reflete sobre o debate acerca dos antigos versus modernos e reconhece a importância dada pelos primeiros não apenas à individualidade mas também à capacidade intelectual. Identifica que os antigos valorizavam as mentes superiores enquanto que a tendência moderna é dar ascendência à mediocridade pelo fato de a mesma refletir melhor a maioria.

Russell abordou o individualismo na série de palestras intitulada ‘Reith Lectures’ feitas para a BBC, que ele mais tarde transformou em ensaios e publicou no livro Authority and the Individual (1950; A autoridade e o indivíduo)1. Na primeira palestra, intitulada ‘Social Cohesion and Human Nature’ (A coesão social e o indivíduo), Russell fez a pergunta de como conciliar a iniciativa individual que é necessária para o progresso com a coesão social que é necessária para a sobrevivência. Na palestra ‘The role of individuality’ (O papel da individualidade) Russell reafirma a ideia de Mill (seu padrinho), ao sublinhar a importância dos indivíduos não conformes ao progresso social e a própria sobrevivência da sociedade.

Praticamente todo progresso artístico, moral e intelectual depende desse tipo de indivíduos, os quais foram um fator decisivo na transição do barbarismo para a civilização. Se uma comunidade quiser progredir, precisa de indivíduos excepcionais, cujas atividades, embora úteis, não são necessariamente do tipo genérico. Na sociedade altamente organizada há sempre uma tendência para que as atividades de tais indivíduos sejam indevidamente tolhidas; por outro lado, se a comunidade não exercer nenhum controle, o mesmo tipo de iniciativa individual capaz de produzir uma inovação valiosa pode também produzir um criminoso. O problema, como todos aqueles com os quais nós nos preocupamos, é uma questão de equilíbrio; a liberdade de menos traz estagnação, e em excesso, o caos.

Russell termina reclamando da homogeneização da sociedade e da falta de espaço para a espontaneidade e a iniciativa, e portanto, para a individualidade. Para ele, a melhor maneira de as crianças aprenderem é seguindo os seus próprios instintos.

Conclusão

O presente ensaio procurou explicar o individualismo mostrando o que é e o que não  é. O individualismo é a primazia pelo indivíduo em contraposição ao grupo. A razão por detrás do individualismo é o reconhecimento de que os direitos e as responsabilidades humanas são imputáveis apenas a indivíduos. O individualismo não é uma forma de egoísmo, o amor exagerado aos próprios valores e interesses, como ocorre no tipo de comportamento que sacrifica o dever ao interesse particular. O contrário de egoísmo é altruísmo, definido como a inclinação a preocupar-se com o outro sem uma expectativa de ser retribuído. O egoísmo, assim como os outros vícios ou virtudes, independem de ideologias. O individualismo se opõe à conformidade inquestionável do grupo. Ser individualista não significa ignorar as comunidades, mas sim, refletir sobre os seus valores antes de aceitá-los. Conforme Mill e Russell reconheceram, as pessoas diferentes têm uma capacidade maior de descobrir coisas e de reconhecer a originalidade, e, por essa razão, são mais úteis à sociedade.

O individualismo floresceu no século XVIII na Europa e nos Estados Unidos, mas perdeu prestígio durante o século XIX em razão do Movimento Romântico e do avanço do socialismo. O Movimento Romântico enalteceu o espírito comunitário do povo, assim como a sua língua e cultura, e, influenciou o processo de criação de nações durante o século XIX e o início do século XX. Também serviu de suporte para os regimes fascistas, surgidos após a Primeira Guerra Mundial, bem como para a indústria de publicidade e da propaganda. O movimento da contracultura das décadas de 1960 e 1970 teve um veio de liberalismo na promoção da liberdade sexual e da autenticidade do indivíduo. Infelizmente tal movimento não concretizou seu apoio ao individualismo, pois era bem mais simpático coligar-se ao socialismo ou a sua forma mais diluida, o progressismo. Por fim, no que diz respeito à revolução digital do final do século XX , ainda não se sabe se a mesma favoreceu, ou não, o individualismo. O que é sabido é que essa revolução criou as massas do espaço cibernético, que giram em torno de sexo, moda, celebridades e as mais diversas aspirações.

O homem é ao mesmo tempo um indivíduo e um animal social. Tanto a individualidade quanto a coesão social são fatores importantes na configuração da sociedade. Entretanto, conforme Russell e outros identificaram, a conformação social pode acarretar a perda da capacidade de pensar por si próprio, e portanto, a perda da criatividade necessária à sobrevivência da própria  sociedade. Para Russell, é importante conciliar a iniciativa individual à participação na comunidade. A melhor justificativa do individualismo é que o desenvolvimento das capacidades do indivíduo e da excelência beneficia a toda a sociedade. Outra justificativa considerável é que ninguém consegue ser feliz sem ser ele próprio.

[1] Publicou também o livro Unpopular Essays (1950; Ensaios Impopulares).

Referências

Von Humboldt, Baron Wilhelm (1852). The Sphere and Duties of Government. Translated by Joseph Coultlhard Jr. London, John Chapman, 1854. (Ideen zu einem Versuch, die Gränzeen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen).

Mill, J. S. Of individuality. In: Boaz, David, editor. The Libertarian Reader, 1997. New York, Simon & Schuster.

Russell, Bertrand (1950). Authority and the Individual. London, Simon and Schuster. 79 pp.

Tocqueville, Alexis de (1835, 1840). Democracy in America. Volume I. Translated by Henry Reeve. Guttenberg, eBook, released Jan 21 2006, last updated Feb 7 2013.

                                                                                                                                               

O presente ensaio foi publicado na revista eletrônical PortVitoria , sobre generalidades, cultura e política, dedicada a falantes de português e espanhol (15, Jul-Dec 2017), fundada pela própria autora em 2010. Joaquina Pires-O’Brien publicou o O homem razoável (2016), uma compilação de 23 ensaios sobre a Civilização Ocidental e a educaçção liberal, disponível exclusivamente pela Amazon.

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O homem razoável

Jo Pires-O’Brien

‘O homem razoável’ é o título de um dos 23 ensaios do meu e-book publicado em novembro de 2016 pela Amazon. Escolhi esse tema por dois motivos. O primeiro foi a curiosidade que tive quando encontrei o tema pela primeira vez, quando trabalhava como intérprete num processo de acidente de trabalho. O segundo foi a realização do quão importante é o homem razoável para o bom funcionamento do Estado, e portanto da sociedade. É claro que a sociedade não pode prescindir dos indivíduos excelentes e dos gênios, mas ela precisa também do homem razoável, que, por conhecer-se a si próprio, sabe reconhecer a excelência e a genialidade. Em contraposição ao homem razoável há o homem medíocre, que não conhece a si próprio, e cuja zona de conforto é a mediocridade.

A ideia do homem razoável pode ser traçada desde a Antiguidade. O correspondente da razoabilidade na antiga Grécia era a phronēsis (φρόνησις), ou sabedoria prática; o homem razoável da antiga Grécia era o homem de phronēsis. No seu livro Mênon, Platão mostra um diálogo de Sócrates no qual este afirma que a phronēsis é o atributo mais importante para se aprender, embora não possa ser ensinado e tenha que ser adquirido através do autodesenvolvimento. Para Sócrates, o homem possuidor da phronēsis era aquele capaz de discernir como e por que agir virtuosamente e, ainda, encorajar essa virtude prática noutras pessoas.

No final da Idade Média, o filósofo Baruch Espinosa (1632-77) escreveu que não há nada mais útil no mundo do que um homem razoável. Espinosa definiu o homem razoável como sendo aquele que cultiva o autoconhecimento. Para ele, tal objetivo não torna o indivíduo mais especial ou menos humano, e sim, perfeitamente humano. Quanto mais razoáveis os homens, mais úteis se tornam à sociedade. Pela mesma tabela, a sociedade é tanto mais virtuosa quanto maior for a sua riqueza em cidadãos razoáveis.

A descrição que Espinosa deu do homem razoável está mais para o homem excelente de Adolphe Jacques Quételet (1796-1874) e Max Weber (1864-1920) e do super-homem de Friedrich Nietzsche(1844-1900), do que para o homem médio do direito inglês. Este é descrito como sendo um indivíduo de um nível educacional razoável, porém comum; o seu presumido nível educacional não é o superior mas o médio; possui um nível de educação que o permite arrazoar com certitude acerca das questões práticas do dia a dia.

Quando, em 1903, os legisladores da Inglaterra e do País de Gales incorporaram o conceito do homem razoável no direito, a imagem deste era a de um proverbial passageiro dentro do ônibus de Clapham, então um tranquilo subúrbio de Londres e local de residência de ingleses da classe média. Acontece que Clapham mudou completamente com a expansão de Londres após a Primeira Guerra Mundial. Tal expansão foi maior no curso do Tâmisa, pois amalgamou uma grande quantidade de cidadezinhas que até então possuíam uma existência independente. Os moradores de Clapham também foram mudando, incluindo o proverbial passageiro do ônibus. Se escolhêssemos aleatoriamente um ônibus que faz o trajeto de Clapham para Camdem, outro ex-subúrbio amalgamado à Grande Londres, é muito provável que a maior parte dos passageiros seria formada por estrangeiros que trabalham no setor de serviços. Pode ser que muitos desse indivíduos sejam razoáveis, mesmo que não pareçam em nada com o inglês no ônibus de Clapham em 1903.

Todas as pessoas que valorizam a democracia precisam refletir mais sobre o homem razoável ou o homem médio de suas sociedades. É ele medíocre ou razoável? Se medíocre, como fazer para torná-lo razoável?


Jo (Joaquina) Pires-O’Brien é uma brasileira que estudou no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra, e obteve seu PhD pela Universidade de Londres em 1991. Publicou os seus primeiros ensaios e resenhas na revista Contemporary Review, entre 1999 e 2008, e a partir de 2010, em PortVitoria, revista eletrônica de atualidades centrada na cultura ibérica, que ela própria fundou e continua a editar (www.portvitoria.com). Em 2016 ela publicou  O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9,99.

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A Polícia no Brasil e no Reino Unido

Jo Pires-O’Brien

No Brasil, cada estado da União é responsável pela própria segurança. A manutenção da segurança pública é uma tarefa conjunta de duas forças policiais: uma Polícia Militar, encarregada do policiamento ostensivo, e uma Polícia Civil, encarregada de investigar crimes. As duas forças prestam contas aos governos dos estados através de suas Secretarias de Segurança. A constituição brasileira proíbe que ambas forças policiais façam greves, por considerar o policiamento ostensivo e a investigação de crimes como sendo tarefas essenciais para a segurança pública e para a defesa social.

No Reino Unido a polícia é inteiramente civil mas a carreira policial é diversificada a fim de acomodar as diferentes funções diretas e indiretas da polícia. Cada condado, isolado ou em associações com outros condados vizinhos) possui sua própria força policial. Com a exceção das forças policiais de Londres e Manchester, que prestam contas aos respectivos Prefeitos, as demais prestam contas aos Comissários de Polícia e Crime (Police and Crime Commissioners ou PCCs), eleitos pelas diversas comunidades. A Lei da Polícia de 1919 criou a Federação de Polícia da Inglaterra e Gales, proibiu greves na polícia e criou uma maneira alternativa de resolver disputas trabalhistas envolvendo membros das forças policiais.


Jo (Joaquina) Pires-O’Brien é editora da revista PortVitoria e autora de O homem razoável e outros ensaios, 2016, à venda no portal www.amazon.com.br. A versão em espanhol, El hombre razonable y otros ensayos, também está à venda nos portais da Amazon.

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Reseña del libro de Joaquina Pires-O’Brien, El hombre razonable y otros ensayos (Port-Vitoria, 2016)

Fernando R. Genovés

El título del libro que tengo el gusto de reseñar en las líneas que siguen, en su aparente y genérica convencionalidad, denota una gran precisión. Según leemos en la misma portada, se trata de una colección de ensayos. Y ensayos contiene, en efecto, en su sentido más estricto. ¿Normal? Sí, mas no habitual. Se dirá caso de esta acotación que es una obviedad más. Obvio sí, mas no usual. He aquí la cuestión.

Ocurre que el pensamiento concentrado en el ensayo se caracteriza, según tradición, por reparar (en) aquellos usos erróneos y creencias ordinarias que suelen aceptarse como evidentes —y aun repetirse, una y otra vez—, sin pasar por la prueba del examen crítico y la reflexión ponderada. Sucede que la opinión común (la vox populi) da por hecho aquello que, antes de ser deglutido, necesita ser intelectualmente triturado. Nos hallamos, en fin, en un contexto dominado por el relativismo ramplón y la mixtura de géneros literarios, la intertextualidad de salón y el multiculturalismo de callejón, en el cual una narración en prosa vertida en un papel o en un archivo electrónico de textos recibe, sin más, el diploma de «ensayo», sin distinguirlo de un relato, un crónica periodística, una fábula o un cuento. O al contrario…

Rasgo identificador del ensayo es también que afronta y examina asuntos particulares (e incluso personales) y de actualidad para, a continuación, ser elevados a la categoría de universales. ¿Sobre qué trata El hombre razonable y otros ensayos? Léase los primeros párrafos del Prefacio:

«Algunos de los temas atemporales abordados son la “gran conversación”, la utopía, la educación liberal, la libertad, el totalitarismo y el contrato social, mientras que las “dos culturas”, el instinto de la masa, la guerra de las culturas, el postmodernismo, la creencia religiosa, el jihad islámico y el 9/11 son algunos de los temas contemporáneos abordados. Cuatro grandes pensadores del siglo XX fueron objeto de ensayos específicos: Friedrich Hayek, Elias Canetti, Stefan Zweig y George Orwell. El repertorio de los temas abordados ya es bien conocido en los países situados en el centro de la Civilización Occidental pero no en los países de la periferia. La presente recopilación tiene por objetivo contribuir a corregir esa distorsión.»

Atemporalidad, contemporaneidad y propósito de universalidad, empeño por corregir malentendidos y falsas creencias. ¿Puede alguien negarle corrección a la presente empresa intelectual? Y, con todo, si a alguien le quedan dudas acerca de la exploración de ideas que se propone en las páginas siguientes, sólo le invito a recorrerlas.

El hombre razonable y otros ensayos ha sido compuesto según cabal criterio y sagaz selección, como demuestra el listado de la cita previa. Un acierto acreditado en la misma elección del ensayo que lo titula, encabeza y sirve de guía al mismo. El hombre se ve abocado a aventurarse en una selva oscura y tenebrosa en el momento en que desaprovecha o desatiende la llamada civilizadora de la razonabilidad, el principio de actuar como un ser racional y justo, prudente e íntegro, sensato y honesto. He aquí un horizonte de conducta nada extraordinario, excepcional o superlativo; de lo contrario, no hablaríamos de un ser y un quehacer razonables. Sus rasgos son factibles y depende tan sólo de la voluntad y el coraje de cada cual. ¿Cómo es ello posible?: «Dejar de ser rebaño y recuperar nuestra individualidad es un buen comienzo. Después, es vivir el aquí y ahora de la mejor manera posible.»

Joaquina Pires-O’Brien, autora del libro objeto de la presente reseña, acierta al relacionar aspectos de su vida personal y cotidiana con la meditación y análisis a propósito de determinados asuntos tratados. Demuestra así tener bien aprendida la lección sobre el sentido y fin del ensayo, sintetizados en la siguiente declaración del principal inspirador del ensayo moderno, Michel de Montaigne: «Yo soy el tema de mi libro».

No se confunda esto con un volumen de memorias. Los textos ofrecidos en los ensayos tienen que ver con la vida, porque son vitales, porque no se pierden en especulaciones ni circunloquios (tampoco en meras anécdotas), sino que nos hablan sobre aquellas cuestiones (sean intemporales, sean contemporáneas) que nos ocupan y nos preocupan. Y no para hacer de ellas una crónica, sino una indagación.

La condición profesional de la autora, concentradas en tareas de traducción y edición (está al frente del magazine PortVitoria) favorece en gran manera tal empeño. El lector encontrará así un permanente interés por esclarecer al máximo la significación de los conceptos abordados, así como una constante atención por dilucidar las más variadas cuestiones desde una óptica didáctica y un discurso comprensible. Es decir, razonables.


Publicado por Fernando R. Genovés     en 11:23: http://fernandorgenoves.blogspot.co.uk/2016/11/el-hombre-razonable-y-otros-ensayos.html Etiquetas: CRITICA DE LIBROS

Fernando Rodríguez Genovés es escritor, ensayista, crítico literario y analista cinematográfico. Doctor en Filosofía. Profesor funcionario de carrera en excedencia voluntaria, se ocupa en la actualidad, con dedicación profesional exclusiva, a escribir. Premio Juan Gil-Albert de Ensayo, Ciudad de Valencia, 1999. Colaborador en medios de comunicación: ABC, Las Provincias, Libertad Digital, Factual. Creador y mantenedor de la sección «La buhardilla» en la revista El Catoblepas. Autor, hasta la fecha, de trece libros, así como de varios centenares de artículos y reseñas en revistas especializadas. Su línea de investigación y sus trabajos están relacionados preferentemente con el ámbito de la filosofía moral y política.

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Os cavaleiros lá fora

Jo Pires-O’Brien

O ano passado (2015) foi perturbante em todo o mundo, particularmente para as pessoas afetadas por governos falidos e guerras civis. O lado positivo é que existem grandes mentes iluminando os problemas da humanidade, embora o emprego dessa luz esteja condicionado à existência de uma boa opinião pública. Cada um de nós pode contribuir para a boa opinião pública aprendendo a pensar por si próprio e praticando essa capacidade nas nossas vidas quotidianas. A boa opinião pública é também essencial para saber distinguir entre os cavaleiros e os capangas da intelectualidade. Sem ela, a sociedade é vulnerável aos líderes desequilibrados e seus radicalismos. Conquanto a boa opinião pública seja um elemento definidor em todas as democracias amadurecidas, uma característica que aparece em todas as democracias imaturas é a incapacidade de reconhecer a inteligência, seja ela da casa ou de onde for.

Há mais ou menos dois séculos e meio atrás, o Ocidente abraçou o secularismo1, atendendo ao chamado das grandes mentes do Iluminismo. Agora, as grandes mentes do século XXI estão tentando persuadir a humanidade acerca da necessidade de defender a vida aqui e agora, e a considerar a alternativa de uma moralidade pós-teísta. Duas das mentes excepcionais que estão na vanguarda desse movimento são Anthony C. Grayling e Daniel Dennett. Grayling é Professor de Filosofia e Reitor do New College of the Humanities, em Londres, enquanto que Dennett é cientista cognitivo aposentado e filósofo. As suas ideias altamente relevantes para os problemas do século XXI estão contidas no (meu) ensaio O Caminho do Humanismo (The Path to Humanism), publicado na presente edição.

Os dois livros resenhados nesta edição são individualmente sobre os persas e os turcos, duas culturas orientais situadas no âmago dos problemas globais. Eles são ambos do autor Warwick Ball, um arqueólogo australiano-britânico especializado em culturas antigas, e fazem parte da série de quatro livros intitulada Asia in Europe and the making of the West (A Ásia na Europa e a Invenção do Ocidente), publicados pela East & West Publishing. O primeiro livro é Towards one world: Ancient Persia and the West (Em direção a um só mundo. A Pérsia antiga e o Oeste), e o segundo é Sultans of Europe: The Turkish world expansion (Os sultões de Roma. A expansão turca no mundo). A ideia principal de Warwick Ball é de que hiato que separa o Ocidente do Oriente é mais psicológico do que real e quanto mais cedo o mundo entender isso melhor será em termos do bom relacionamento entre o Ocidente e o Oriente. Fico na expectativa de que gostem das resenhas e quem sabe se disponham a ler os livros em questão. Janeiro de 2016.

Notas

Artigo reproduzido da revista transnacional PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo. http://www.portvitoria.com/index.html

  1. Secularismo. Para entender melhor o secularismo, visite o Glossário de Secularização disponível em PortVitoria http://www.portvitoria.com/Documents/12_Glossário%20de%20Secularizacao.pdf

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