René Descartes

Apesar do seu ar pomposo e da sua errônea doutrina do dualismo, René Descartes (1596-1650) foi um grande matemático cujo maior legado é A Geometria (La Géométrie), onde ele apresentou o seu sistema de coordenadas que permite descrever cada ponto num plano por dois números que fornecem a sua localização horizontal e vertical (veja abaixo). Descartes também se destacou pelo absoluto ceticismo em relação ao conhecimento existente, o que o fez reconstruir o mundo a seu redor através da lógica. Acreditava na superioridade do método científico como fonte de conhecimento. Pôs em dúvida a própria existência até deduzi-la por inferência na frase “penso, logo existo”.

As coordenadas cartesianas servem para medir localizações no eixo horizontal (x) e vertical (y) através de linhas perpendiculares (ou eixos) que se cruzam em um ponto chamado ‘origem’, gerando os quatro quadrantes do plano. Qualquer equação pode ser representada no plano, plotando sobre o mesmo o conjunto de soluções da equação. Por exemplo, a simples equação y = x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,1), (2,2), (3,3), etc. A equação y = 2x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,2), (2,4), (3,6), etc. Equações mais complexas envolvendo x2, x3, etc, geram diversos tipos de curvas no plano. À medida que um ponto muda ao longo da curva, as suas coordenadas mudam, mas uma equação pode ser escrita para descrever a mudança no valor das coordenadas em qualquer ponto na figura. O emprego dessa nova abordagem logo revelou que uma equação como x2 + y2 = 4, por exemplo, descreve um círculo; y2 – 16x uma curva chamada parábola; x2⁄a2 + y2⁄b2 = 1 uma elipse; x2⁄a2 – y2⁄b2 = 1 uma hipérbole; etc.

Em essência, a geometria analítica de Descartes permite converter a geometria em álgebra e vice-versa; portanto, um par qualquer de equações simultâneas pode ser resolvido tanto algebraicamente quanto graficamente (na interseção de duas linhas). Além se servir de base para a invensão do cálculo por Newton e Leibniz, a geometria analítica de Descartes abriu caminho para a o desenvolvimento de geometrias navegantes em dimensões mais elevadas, impossíveis de ser visualizadas fisicamente – um conceito que se tornaria central à física moderna ainda por ser descoberta.

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro encontra-se disponível em versão Kindle e em brochura nos portais da Amazon.

Anúncios

O viés da autoavaliação: o efeito Dunning-Krueger

O efeito Dunning-Krueger descreve o viés da autoavaliação, onde os indivíduos mais ignorantes se superestimam enquanto os mais competentes se subestimam. O termo surgiu em decorrência de um artigo artigo publicado em 1999 na revista Journal of Personality and Social Psichology por dois pesquisadores acadêmicos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, Justin Kruger e David Dunning. O título do artigo é “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments”. Tradução para o português: “Sem qualificações e ignorante disso: Como as dificuldades de reconhecer a própria incompetência leva a autoavaliações inflacionadas”. O viés da autoavaliação decorre dá má calibragem da cognição, a capacidade de adquirir conhecimento e um dos três tipos da função mental juntamente com afeto e volição.

Delineado para compreender melhor a capacidade cognitiva, isto é, a somatória das inteligências do indivíduo, o experimento de Dunning e Krueger envolveu 140 voluntários que eram alunos de graduação da universidade de Cornell os quais fizeram quatro estudos envolvendo humor, raciocínio lógico, e gramática. Logo depois de fazer os testes, os participantes foram pedidos que estimassem o número de seus acertos, gerando os dados de ‘capacidade percebida’ que foram comparados com a ‘capacidade atual’, resultante dos testes aplicados. Em todos os testes os indivíduos que acertaram mais se subestimaram enquanto os que erraram mais se superestimaram. No quarto estudo onde eles manipularam a competência dos indivíduos para ver se isso alterava as habilidades metacognitivas que afetam a autoavaliação. Para tanto eles deram um treinamento em meta cognição na metade dos participantes antes de eles serem pedidos que estimassem o número de seus acertos. O fenômeno da subestimação e superestimação dos percentis superiores e inferiores também apareceu nesse quarto experimento. Dentro do segmento que recebeu o treinamento em meta cognição os indivíduos dos percentis superiores reduziram as suas subestimações mas nenhum efeito significativo foi notado entre os indivíduos dos percentis inferiores. Dunning e Krueger concluíram que a superestimação da capacidade é mais problemática do que a subestimação pois esta não só se trata de uma incompetência mas é também acompanhada da incapacidade de enxergar o próprio mal desempenho.

Desde a publicação do artigo acima mencionado, o termo efeito Dunning-Krueger passou a designar o fenômeno pelo qual os indivíduos menos qualificados são os que mais inflacionam as suas capacidades. Tal termo entrou para a terminologia técnica da psicologia cognitiva, definida como sendo o estudo interdisciplinar da mente e da inteligência, abarcando as disciplinas da filosofia, psicologia, inteligência artificial, neurociência, linguística, e antropologia. Outros estudos subsequentes da psicologia cognitiva confirmaram o efeito Dunning-Krueger como sendo um viés do raciocínio cognitivo.

Conclusão

Todas as pessoas se autoavaliam mas a autoavaliação depende da capacidade cognitiva de cada um, isto é, da função mental. Este é o resultado da pesquisa conduzida por Justin Kruger e David Dunning, na qual as pessoas com uma função mental superior tendiam a se subestimar enquanto que as com função mental inferior tendiam a se superestimar. Tal comportamento passou a ser conhecido como o efeito Dunning-Krueger. O efeito Dunning-Krueger já havia sido deduzido intuitivamente pelo poeta Alexander Pope (1688-1744) quando escreveu que “os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar” e “o conhecimento pequeno é uma coisa perigosa” (Poema: Ensaio Sobre a Crítica). A incoerência entre capacidade e confiança pode ser notada em todos os caminhos da sociedade, embora seja mais proeminente na esfera da política. Os indivíduos de melhor preparo tendem a se esquivar da política, e só aceitam entrar no páreo mediante uma boa dose de encorajamento. Todavia, os indivíduos menos preparados tendem a ser oferecidos e a esbanjar confiança. A pesquisa de Dunning e Krueger apenas confirmou o que já era sabido: a pior ignorância que existe é a ignorância da própria ignorância.

 Nota. Dunning e Krueger mostraram também o paralelo que existe entre a incompetência e a doença neurológica conhecida como ‘anosognosia’, causada por certos tipos de danos ao lado direito do cérebro e que deixam o indivíduo paralisado no lado esquerdo. Quando os médicos colocam um copo na frente de tais pacientes e pedem a eles que apanhem o copo com a mão esquerda, os pacientes não só falham em obedecer mas também em entender porquê. Quando tais pacientes são pedidos a que expliquem porque falharam eles afirmam que estão cansados, que não ouviram direito as instruções do médico, ou que não estavam com vontade de obedecer, mas nunca que foi porque eles estão sofrendo de paralisa.

Bibliografia

Gregory, R.F. (2014). Café. Parthenon Books, Nova Iorque. Edição para Kindle.

Kruger, Justin & Dunning, David (1999). Unskilled and Unaware of it: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6):1121-1134.

Schmidt, Eric & Cohen, Jahed (2013). The New Digital Age. Reshaping the Future of People, Nations and Business. John Murray, London.

                                                                                                                                   

Joaquina Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista bianual sobre assuntos da atualidade, cultura e política, centrada na cultura ibérica na Europa e no mundo. Acesso: http://portvitoria.com/index.html

O conhecimento do indivíduo. II.

Joaquina Pires-O’Brien

Conclusão.

A Subversão da Opinião Pública pelas Massas

Durante o período entre guerras do século XX, o Ocidente foi assolado pelas massas que apoiaram o fascismo e suas diversas variantes, como o nazismo alemão. Tal fenômeno tem sido o objeto de muitos estudos pelos especialistas. O grande problema das massas que os especialistas identificaram é a subversão da opinião pública. Mas o que é opinião pública? A opinião pública é o resultado do debate construtivo e racional conduzido na esfera pública, isto é, a esfera situada entre a sociedade civil e o Estado, e cujos atores são os indivíduos que se reúnem para discutir a política, e, a mídia, através dos jornais de ampla circulação e da indústria da publicidade. Tal definição é dada pelo sociólogo e filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-). Em que situação a opinião pública é subvertida? Quais os fatores que propiciam tal subversão? Habermas também responde a essas perguntas. No seu livro The Structural Transformation of the Public Sphere (A transformação estrutural da esfera pública; título original: Strukturwandel der Öffenlichet), inicialmente publicado em 1962, Habermas sublinha a importância do debate construtivo e racional para a manutenção da sociedade democrática. Ele também aponta as falhas do Estado que propiciam a manipulação da esfera pública, como a elevada burocracia, a ausência de estímulo à autossuperação e a inexistência de igualdade de oportunidades nos cargos públicos e privados.

Os indivíduos dotados de conhecimento geral tendem a ter uma maior sensibilidade em relação à esfera pública, e por essa razão, eles são os principais formadores da opinião pública genuína, resultante do debate público. As massas do período entre guerras foram formadas pela manipulação da esfera pública. Nessa manipulação, a opinião dos indivíduos é anulada, e a única opinião que conta, é a do controlador da massa. Três estudiosos se destacaram no estudo do fenômeno das massas do período entre guerras do século XX: o espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o alemão Teodoro Adorno (1903-69) e o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94).

Ortega identificou a subversão da opinião pública pelos movimentos coletivistas, dando lugar à ‘sociedade circunstancial ao poder das massas’. O seu livro A rebelião das massas (1929) mostra como era a relação entre o conhecimento e a opinião pública no século XIX. Para ele, embora no século XIX os donos do conhecimento ainda fossem uma minoria, a população era possuidora de uma razoável sensibilidade para entender isso. Havia um público sensível que buscava o conhecimento da minoria e procurava debater os mais diversos assuntos nos cafés e noutros recintos públicos. A explicação que Ortega oferece para o fenômeno das massas baseia-se na desigualdade intelectual das pessoas. Ortega identifica dois tipos de pessoa: o ‘homem vulgar’ e o ‘homem excelente’. O ‘homem vulgar’ é o indivíduo que é suscetível à massa; ele não impõe sobre si próprio nenhum esforço voltado à busca da perfeição, pois já se sente satisfeito consigo mesmo. O ‘homem excelente’ é um tipo superior de indivíduo, capaz de impor enormes demandas sobre si próprio, incluindo tarefas difíceis e árduas responsabilidades.

Adorno atribuiu o surgimento da massa à criação da ‘sociedade de consumo’ pela indústria publicitária apoiada nos potentes meios de comunicação do rádio e do cinema. No seu livro Dialética do Esclarecimento (Dialektik der Aufklarung), em co-autoria com Max Horkheimer, publicado em 1947, Adorno mostrou os efeitos colaterais da cultura de massa como a substituição gradual da individualidade pela pseudo-individualidade, e a própria negação da biologia natural do homem.

Canetti fez um apanhado histórico do fenômeno das massas e cogitou a possibilidade de haver um elemento catalisador da massa, que ele denomina ‘cristal de massa’, metáfora que ele buscou na química, a sua disciplina de estudo na universidade. No seu livro Masse und Macht (Massa e poder, publicado em português em 1995 ), Canetti afirma que a massa resulta de uma reação social que ocorre na presença do ‘cristal de massa’. A metáfora do ‘cristal de massa’ de Canetti embute a ideia de que a massa, por ser um produto de uma reação social, é reversível da mesma forma que certas reações químicas também são.

A partir da segunda metade do século XX, a população do mundo cresceu de uma forma sem precedentes, especialmente em determinados países de fora do eixo do Ocidente. O fenômeno da massa reapareceu nesses países com problemas semelhantes àqueles que o Ocidente teve no período entre guerras. Embora, no final do século XX, o Ocidente não tenha tido outros movimentos de massas comparáveis àqueles do período entre guerras, a manipulação da esfera pública continuou, seja em torno do consumo seja em torno de causas xenofóbicas. Entretanto, a Idade Digital, surgida no final do século XX, introduziu poderosos elementos na esfera pública, como, as gravações de vídeo, o stream on line e as redes sociais. Pode-se argumentar que todos esses elementos são meras ferramentas: o que tais ferramentas fazem ou podem fazer depende da maneira como são usadas.

A Idade Digital e o Conhecimento

Muitos observadores sociais já apontaram que Idade Digital supervalorizou a informação e trivializou a cultura. Mas as incursões à Idade Digital também ocorrem no terreno da ficção, como a do personagem ‘Morador do Café’ criado pelo escritor americano, nascido no Egito, R. F. Georgy, que compara a internet a um palácio de cristal e este à caverna de Platão, o reduto da ignorância humana absoluta, no seu livro Notes from the Café (2014). Sofrendo de câncer e com pouco tempo de vida o Morador do Café vive a sua grande crise existencial. As suas reflexões e críticas sobre a Idade Digital aparecem em diálogos imaginários com ex-colegas da academia e outras pessoas. O Morador do Café é um velho que, além de indignado e contraditório, encontra-se desmemoriado. Ele tem uma vaga lembrança de ter sido um professor de filosofia, embora não consiga lembrar o próprio nome. Suas colocações são mais um esbravejamento de um velho opinioso tentando passar a vida a limpo. Eis algumas citações (tradução minha) do Morador do Café acerca da Idade Digital:

‘Eu me lembro de uma época quando a informação se curvava perante a sabedoria. Hoje, a informação tornou-se pomposa e arrogante.’

‘Vocês sabiam que nós vivemos numa era na qual os peritos e os especialistas se tornaram os profetas da nossa época, na qual os atores e os jogadores de esportes são heróis mitológicos, e a mediocridade é virtude.’

‘A idade digital não sabe o que fazer dos professores…// Então, vocês não sabiam que hoje em dia os professores são controlados e manipulados pelas empresas de publicação que têm um interesse em passar todas as atividades de ensino para o palácio de cristal virtual?’

‘A idade digital não precisa de professores; não senhores, a idade digital precisa de gestores de informação para manter o nosso palácio virtual se movendo. Esses gestores de informação logo serão substituídos por professores digitais que irão ‘facilitar’ a aprendizagem.’

‘Os cafés não são mais para engajarmos em conversação estimulante. Não senhores, eles são feitos para as pessoas irem lá, com os seus laptops e telefones inteligentes,  encontrar um canto a fim de escapar do mundo.’

‘Nós confundimos a informação com o conhecimento, e o conhecimento resultante da informação de alguma forma passa por sabedoria.’

‘O homem moderno não é menos uma criatura de conhecimento do que um escravo da informação. Vocês não perceberam que nós nos tornamos viciados na informação.’’

O homem é estúpido por natureza. Ele é estúpido ao extremo e o pior é que ele não sabe da própria estupidez.’

‘Digam-me, do que a idade digital nos liberou? Nós mudamos da convivência com as sombras para tornar-nos prisioneiros das nossas cavernas privadas. É isso o que a idade digital nos trouxe.’

‘Quem é que precisa de pessoas quando temos essa caixa mágica para nos ocupar por toda a vida? Nós não fomos liberados, senhores, nos fomos aprisionados pela nossa própria arrogância.’

A Idade Digital é apenas um tentáculo do monstro da modernidade, segundo o Morador do Café. Na citação abaixo, ele conta porque acredita em Deus, embora o alvo do seu ódio seja a ciência:

‘Você quer saber se eu creio em Deus?… Eu acredito em Deus por raiva. É isso, não fique tão espantado. De raiva da ciência eu acredito em Deus. Veja você, o mundo moderno me dá duas opções: acreditar num constructo que já foi completamente desmascarado e exposto como um conto de fadas, ou submeter à fria indiferença da ciência. Eu escolho o conforto do constructo. Eu escolho acreditar num conto de fadas ao invés de ser enganado pela sedutora lógica da ciência.’

Os Intelectuais

Costumamos entender os intelectuais como sendo indivíduos obviamente cultivados e dotados de uma extraordinária capacidade de explicar as coisas para o público leigo. A designação correta desses indivíduos é ‘intelectuais públicos’, termo que os separam dos demais intelectuais oriundos tanto das artes quanto das ciências e que não escrevem para o grande público.

Desde os últimos duzentos anos muitos intelectuais públicos têm se posicionado como guias e mentores da humanidade. A influência deles aumenta sempre que acontece alguma calamidade. Uma análise isenta de qualquer calamidade deve apontar o conjunto completo de alternativas possíveis, que deve incluir a opção ‘não fazer nada por enquanto’. Entretanto, não foi o que aconteceu nos Estados Unidos logo depois da quebra da bolsa de valores de 1929 que levou à Grande Depressão. Muitos intelectuais norte-americanos condenaram precipitadamente o capitalismo e formaram uma liga de apoio ao socialismo soviético e ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Eles criaram o termo ‘progressivismo’ para servir de manta a esse movimento, e assim, camuflar o que poderia ser interpretado como uma traição aos costumes da liberal democracia da nação norte-americana. E, quando os intelectuais norte-americanos descobriram as atrocidades do regime soviético já no final da década de 30, eles não demonstraram o mesmo interesse em revelá-las a um público já cativo da ideologia socialista.

Os intelectuais públicos são críticos por excelência, mas, raramente, são criticados. No século XX apareceram duas críticas de peso aos intelectuais. A primeira é a do escritor inglês Samuel Johnson, cujo livro Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky, de 2007, faz um apanhado das vidas de doze dos mais importantes intelectuais dos últimos duzentos anos. A segunda é o livro The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes (Os melhores anjos da nossa natureza: o declínio da violência na História e suas causas), do psicólogo experimental Steven Pinker, de 2011. Johnson e Pinker mostraram diversos exemplos de comportamentos indignos por parte dos intelectuais públicos como doutrinamento, alarmismo, extrapolação indevida e a profunda incoerência entre aquilo que afirmam para o público e aquilo que fazem na vida privada.

Johnson faz um apanhado histórico da ascensão dos intelectuais desde os últimos duzentos anos, aproveitando o espaço deixado pelos clérigos e pela crescente especialização das disciplinas. Segundo ele, assim como os antigos clérigos, os novos intelectuais assumiram uma posição quase evangélica e ditaram normas de agir. Numa alegoria a Prometeu, o semideus mitológico dos gregos que roubou o fogo celestial e o trouxe para a terra, Johnson chamou esses primeiros intelectuais modernos de ‘Prometeanos’, pois eles se veem como substitutos dos deuses.

A amostragem de intelectuais que Johnson analisou revelou que a boa imagem do intelectual nem sempre condiz com a realidade e que os intelectuais podem ser instáveis, irracionais, ilógicos, supersticiosos, egoístas, vãos e desonestos. Muitos intelectuais públicos vêm da academia, e aproveitam a fama adquirida para dar palpite em tudo quanto é assunto. É claro que eles têm o direito de fazer isso. Entretanto, as pessoas comuns necessitam ter conhecimento suficiente para enxergar as incoerências dos intelectuais e perceber as implicações não explícitas contidas nas suas asserções. Do nazismo à eugenia e à limpeza étnica, muitas das atrocidades cometidas por líderes políticos ocorreram em resultado de esquemas apontados por intelectuais, afirma Johnson, para quem os intelectuais públicos possuem a aura que encobre os seus preconceitos, enganos e incoerências. Nós costumamos ver os intelectuais como indivíduos não conformistas, mas eles são ultraconformistas quando se encontram dentro de grupos que eles aprovam, diz Johnson. Uma das incoerências mais comuns dos intelectuais analisados por Johnson é o apego ao dinheiro e à riqueza dos intelectuais socialistas.

Pinker concentrou a sua crítica nos intelectuais que vivem atacando o presente e pregando o apocalipse. Muitos desses ataques são injustificados e mesmo que não sejam eles raramente contribuem para encontrar soluções para os problemas apontados. Conforme mostrou Pinker, o intelectualismo desse tipo corrói as instituições modernas como a democracia, a ciência, e o cosmopolitismo que tornaram as nossas vidas não só mais ricas, mas também mais seguras. Finalmente, Pinker descreve as regras que ele gostaria de impor aos ‘entendedores’: ‘Ninguém poderá lamentar qualquer decadência, declínio, ou degeneração sem fornecer (1) uma medida de como é o mundo de hoje; (2) uma medida de como o mundo era em algum ponto no passado; e (3) uma demonstração de que (1) é pior do que (2)’. Segundo Pinker, ‘tais regras acabariam com os enfadonhos vaticínios apocalípticos que abundam em todo o canto’.

As pessoas ordinárias precisam pensar por si próprias e desenvolver uma dose saudável de ceticismo às ideias e aos ensinamentos de terceiros, mesmo que sejam famosos.

Conclusão

A crítica situação do mundo no final do século XX e início do século XXI tem sido encarada das mais diversas maneiras. A maior parte das visões caracteriza-se pelo pessimismo em relação à humanidade e seu futuro. Uma dessas visões é a de que, no tocante ao conhecimento a humanidade, consiste apenas de minoria e massa. Tal visão pessimista aponta que o conhecimento evoluiu, mas a compreensão das coisas continua igual. Trocando em miúdos, o conhecimento teve, sim, uma revolução, só que no sentido de dar uma volta completa na História. A humanidade do século XXI voltou ao ponto de partida da Antiguidade.

Uma sociedade cuja parcela de indivíduos cultivados é insignificante não tem opinião pública, e é incompreensível e caótica. Os três estudiosos do fenômeno das massas no século XX, Ortega, Adorno e Canetti, reconheceram que os diversos desatinos sociais do século XX, como o fascismo e o nazismo, ocorreram devido à subversão da opinião pública. O conhecimento geral habilita o indivíduo para compor a massa crítica e, por conseguinte, a opinião pública, uma condição essencial da boa governança e da democracia. As pessoas não sabem pensar? A internet e as redes sociais bitolam? Em vez de maldizer a situação, é preciso arranjar um modo de fazer com que cada vez mais indivíduos aceitem o desafio do desenvolvimento pessoal, seja dentro do ensino oficial ou fora dele. A educação ao longo da vida é uma promissora terceira via.

 

Notas

  1. Regime antigo europeu. Embora a Revolução Francesa costume ser usada como o marco divisor entre o regime feudal antigo e o regime moderno, o surgimento dos Estados modernos europeus foi um processo que levou diversos séculos, tendo começado com a Magna Carta inglesa, assinada em junho de 1215, na qual o rei dava certos direitos e garantias aos barões medievais e prometia governar a Inglaterra segundo os costumes da lei feudal.

Bibliografia

Adorno, T. W. & Horkheimer, M. (1997). Dialetic of Enlightenment. Copyright 1944, reprinted 2010. Verso, London.

Canetti, E. (2011). Massa e Poder. Tradução de Sérgio Tellaroli. 3ª reimpressão. Companhia das Letras, São Paulo.

Canetti, E. (1984). Crowds and Power. Copyright 1960. Translated from the German by Carol Stewart. Farrar, Straus and Giroux, New York.

Darwin, C. (1986). The Descent of Man and Sexual Selection (A origem do homem e a seleção sexual). In Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 49. 1ª edição 1871. William Benton, Publisher, Chicago.

Gregory, R. F. (2014). Notes from the Café. Parthenon Books, Nova Iorque. Edição para Kindle.

Habermas, J. (2011). The Structural Transformation of the Public Sphere. Copyright 1989 MIT. Polity Press, Cambridge.

Hume, D. (2002). A Treatise of Human Nature. Oxford University Press, Second edition 1978 (First edition 1888). Reprints 1980, 1981, 1983, 1985, 1987.

Johnson, Paul (2007). Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky. HarperCollins e-books.

Locke, J. (1986). Essay concerning Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano). In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 35. 1ª edição 1690. William Benton, Publisher, Chicago.

Kruger, Justin & Dunning, David (1999). Unskilled and Unaware of it: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6):1121-1134.

Ortega y Gasset, J. (1930). La Rebelión de las Massas. Google electronic books.

Pinker, S. (2011). The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes. Viking, New York.

Plato (1986). The Dialogues of Plato, translated by Benjamin Jowett. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 7, Plato. William Benton, Publisher, Chicago.

Pope, A. (1709). An Essay on Criticism. Fonte: http://poetry.eserver.org/essay-on-criticism.html

Shakespeare, W. (1986). As You Like it. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 26(I), 1ª edição 1690. William Benton, Publisher, Chicago.

Snow, CP (1998). The Two Cultures. With Introduction by Stefan Collini. Cambridge University Press. First published in 1959.

Vargas Llosa, M. (2012). A Civilização do Espetáculo. Quetzal Editores, Lisboa.

                                                                                                    

Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira residente no Reino Unido e a editora de PortVitoria, revista bianual sobre a cultura Ibero-Americana na Europa e no mundo.

 

Revisão: Carlos Pires e Débora Finamore

O artigo completo foi publicado originalmente em PortVitoria 10, 2015:

Pires-O’Brien, J. (2015). O Conhecimento das Pessoas. PortVitoria, 10, Jan-Jun 2014. Fonte: http://www.portvitoria.com/

Anísio Teixeira e Paulo Freire: asas direita e esquerda da educação

Dentre os diversos educadores brasileiros, dois deles se destacaram pelas suas visões da educação como libertação do indivíduo: Anísio Teixeira (1900-1971) e Paulo Freire (1921-1997). Teixeira foi um democrata liberal que lutou pela educação pública de qualidade; Freire foi um democrata social que se destacou na área da educação de adultos. Apesar de suas diferentes ideologias, as suas visões sobre a educação eram muito parecidas: viam a educação como um meio para a liberdade e abominavam o elitismo da educação formal.

Basta ler a biografia de Teixeira para perceber que ele era um autodidata por excelência, que aprendia de tudo com tudo o que via e ouvia, inclusive com a experiência de ter vivido durante duas ditaduras, a do Estado Novo e a ditadura militar de 1964. Baiano de Caetité, Teixeira iniciou a sua carreira como educador aos vinte e dois anos de idade, logo depois de se formar em Ciências Jurídicas e Sociais, no Rio de Janeiro. Teixeira era reconhecido e respeitado tanto pela sua inteligência e elevada cultura geral quanto pela sua decência e integridade. Após ter viajado pela Europa, em 1927 ele fez a sua primeira viagem aos Estados Unidos, voltando da mesma com um caderno de anotações cheio. No ano seguinte, em 1928, ele retornou aos Estados Unidos para fazer um mestrado no Teachers College da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu as ideias do filósofo americano John Dewey (1859-1952), então professor emérito daquela universidade. Dewey foi um dos mais prolíficos acadêmicos da filosofia da educação e tinha uma grande empatia com intelectuais estrangeiros que haviam sofrido perseguições nos seus países. De volta ao Brasil, Teixeira tornou-se um pioneiro em promover a educação para a democracia. No final da década de cinquenta Teixeira participou dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases, e no início da década de sessenta ele colaborou com Darcy Ribeiro na criação da Universidade de Brasília. Teixeira foi um incansável defensor da educação pública e da ideia da educação para a democracia.Anísio Teixeira morreu em 1971, em circunstâncias consideradas obscuras, a despeito do laudo de morte acidental no seu atestado de óbito. O seu corpo foi achado num elevador, na Avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Cogita-se que ele tenha sido morto pelas forças de repressão da ditadura militar.

A biografia de Paulo Freire também joga luz sobre o seu autodidatismo. Nascido no Recife, Freire começou a lecionar enquanto cursava a faculdade de direito da mesma cidade. Ele teve o primeiro contato com a alfabetização de adultos quando tinha apenas vinte anos, ao ser contratado para dirigir o departamento de educação e cultura do Sesi. No início de 1964 Freire foi convidado pelo Presidente João Goulart para coordenar o programa nacional de alfabetização que estava para deslanchar. Entretanto, o programa não foi adiante devido ao golpe militar de 1964. Perseguido pelas suas ideias consideradas subversivas Freire chegou a ser preso, e ao sair da prisão ele se exilou no Chile e depois na Suíça. O seu livro Pedagogia dos oprimidos (1968), escrito no Chile, representa o somatório das suas ideias de pedagogia crítica ou pedagogia libertadora, baseada no questionamento do aprendizado e da sua ligação com a sociedade, assim como na ideia de que o aprendizado beneficia tanto o aluno quanto o professor.

Em 1969 Freire lecionou na Universidade de Harvard, e na década de 1970, serviu ao Conselho Mundial das Igrejas (CMI), com base em Genebra, na Suíça, como consultor para assuntos educacionais, através do qual ele visitou a Zâmbia, a Tanzânia e os países africanos de língua portuguesa. Nessa época ele tomou conhecimento do educador dinamarquês Nikolai Frederik Severin Gruntvig, que inspirou as suas duas obras mais importantes: Pedagogia da esperança (1992) e À sombra desta mangueira (1995). A longa barba que Freire exibiu nos dez anos anteriores à sua morte fez com que se parecesse um Gruntvig brasileiro. Freire foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em 1989 foi o Secretário de Educação do Município de São Paulo, na gestão de Luísa Erundina. Para Freire, a chave da qualidade do ensino é a autonomia da escola, pois permite que se desenvolva de acordo com o seu meio social. Freire serviu de inspiração para os programas educacionais direcionados a  adultos nos Estados Unido, Portugal, Espanha, Argentina e Taipe.

As influências de Freire e de Teixeira estão por trás dos diversos modelos de escolas que surgiram na década de oitenta no Rio de Janeiro e São Paulo, como os Centros Integrados de Apoio à Criança (CIACs) e as diversas variantes do mesmo.


 

A aprendizagem ao longo da vida

A aprendizagem ao longo da vida  (APV), do inglês life long learning (LLL), refere-se a um sistema de educação aberta, contínua e voluntária, que complementa a educação formal que cada indivíduo recebeu. A expressão foi articulada primeiramente por Basil Yeaxlee (1883-1967), um pastor e missionário inglês que trabalhou no YMCA (Young Men Christian Association), num livro de 1929 sobre a educação de adultos. No seu contexto moderno a APV apoia-se largamente no filósofo norte americano John Dewey (1859-52) que se empenhou em mostrar que a educação deve integrar a mente e o corpo a fim de preparar o indivíduo para a vida, enquanto que o ensino das escolas deve levar em contra a realidade de cada aluno.

A APV tanto pode ser voltada para alguma coisa prática como música, artes plásticas, trabalhos manuais, atividades Faça Você Mesmo (FVM), quanto para coisas intangíveis como o puro prazer de aprender alguma coisa nova. A APV pode ser encontrado nos mais diversos lugares como bibliotecas, teatros, museus, centros comunitários, etc. Como a APV é individual, cada qual escolhe o seu próprio caminho educacional pelas razões que julgar convenientes para si próprio.

Buscar o equilíbrio e entre a mente e o corpo é um dos objetivos da APV pois as circunstâncias da vida e do mercado de trabalho em geral impelem as pessoas para um ou outro polo de atuação. Ao programar nossa APV devemos incluir atividades que são difíceis e que representam um desafio para nós pois assim estaremos cultivando alguma parte do nosso cérebro que é subutilizada.

Embora muitas pessoas sejam altamente motivadas e buscar novos conhecimentos onde quer que estejam disponíveis, muitas outras não têm tal motivação. Para este último grupo de pessoas os cursos de extensão oferecidos pelas universidades ou organizações de ensino à distância são excelentes ponto de partida para o desenvolvimento da APV.

As Escolas ‘Folk’ da Dinamarca

Muito antes da emergência do conceito da APV no final do século vinte, o grande problema era a falta total de oportunidades educacionais para a diversos segmentos da população como os trabalhadores rurais. Na Dinamarca, no século dezenove, Nikolai Frederik Severin Gruntvig (1783-1872), um pastor luterano que pelo seu didatismo se tornou também autor, poeta, filósofo, historiador, professor e político. Tendo notado a própria evolução em termos de pensamento, Gruntvig reconheceu a necessidade de oferecer educação para os trabalhadores rurais a fim de que pudessem se engajar melhor como membros da sociedade.

As escolas ‘Folk’ (de ‘Folkehøjskole’) da Dinamarca, fundadas por Christian Flor em 1844 com base no modelo de Gruntvig, foram os primeiros cursos colegiais (high school) do mundo voltadas à educação de adultos. O treinamento dos colégios Folk é feito em regime de internato, com a duração de um ano, onde diversas disciplinas são oferecidas aos alunos. Ao contrário das escolas tradicionais, as escolas ‘Folk’ não têm exames finais. O modelo da escola ‘Folk’ espalhou-se para a Suécia, Noruega, Finlândia, Alemanha, França e Suíça.

O Ensino à Distância

O ensino à distância popularizou na segunda metade do século vinte, quando houve uma enorme oferta de cursos profissionalizantes por correspondência. Entretanto, o exemplo mais bem conhecido e admirado de ensino à distância é o da Open University – OU (Universidade Aberta) da Inglaterra, que começou a oferecer seus cursos em 1926, que podem ou não levar a um diploma universitário. A clientela da OU é formada essencialmente por adultos que trabalham e não têm tempo de frequentar uma universidade durante o dia.

O surgimento da internet no final do século vinte alavancou o ensino à distância, multiplicando o o número de organizações educativas especificamente voltadas à APV. Um dos modelos de APV nos Estados Unidos são os 117 Institutos Osher de APV baseados na Universidade do Sul do Maine (USM), espalhados pelos Estados Unidos. O Canadá é outro país onde o sistema da APV já é bastante popular. O Transformative Learning Centre, baseado na Universidade de Toronto, foi estabelecido em 1993 por um grupo de professores, alunos e membros da comunidade voltado a oferecer uma educação respeitante ao ambiente e à diversidade cultural da população.

A Internet e o Autodidatismo

A internet alavancou o autodidatismo, especialmente depois do crescimento da banda larga. Com esta, um indivíduo pode visitar museus inteiros, ouvir música de todos os gêneros e acessar as grandes obras que anteriormente só podiam ser acessadas através das bibliotecas acadêmicas. Entretanto, o potencial da internet é tão grande –ou tão pequeno– quanto o potencial do seu usuário. Isso significa que o simples acesso à internet de banda larga não garante que o indivíduo possa tirar proveito da mesma.

O autodidatismo é um excelente aliado da APV embora ainda existe muito preconceito contra o mesmo gerado pelas diversas agendas de manutenção do status quo dos que aprenderam a mesma coisa em cursos formais. A fim de facilitar o reingresso de adultos no mercado de trabalho a União Europeia introduziu um esquema para fornecer certificados de capacitações profissionais para indivíduos que aprenderam seus ofícios no próprio trabalho. Possivelmente o preconceito maior contra o autodidatismo seja para atividades intelectuais. Na década de noventa no Brasil o congresso brasileiro aprovou uma lei tornando obrigatório o diploma de jornalismo para a prática desta profissão. Grupos contrários à esta medida entraram com recurso junto ao Supremo Tribunal Federal, que decidiu contra tal legislação.

A leitura de bons livros é talvez a melhor maneira de desenvolver a mente e o gosto pela leitura. Uma enorme quantidade de livros de domínio público estão disponíveis gratuitamente sob a forma eletrônica. A maior e mais antiga organização sem fins lucrativos que distribui livros eletrônicos gratuitamente é o Projeto Gutenberg (PG), cujo acervo em julho de 2012 chegou a mais de 40 mil títulos. Embora uma boa parte desse acervo seja de livros em inglês, há também muitos títulos em francês, Alemão, espanhol, português e outras línguas. Fundado por Michael Heart em 1971, o Projeto Gutenberg é uma fundação cujo nome completo em inglês é ‘Project Gutenberg Literary Archive Foundation’. a mais antiga biblioteca digital do mundo. Desde a sua criação o Projeto Gutenberg cresceu e formou um consórcio com outras bibliotecas digitais possuidoras de coleções especializadas. O lema do PG de ‘derrubar as barreiras da ignorância e da iliteracia’ é uníssono a intenção da APV.


 

O que é educação liberal

Segundo o educador John Dewey, a separação da educação liberal da profissional e industrial veio dos antigos gregos, e era formulada na divisão de classes que separava aqueles que precisavam de trabalhar para viver e os que não tinham essa necessidade. A educação liberal, que consistia do aprendizado de conhecimentos gerais e da prática do esporte, era então presumida como sendo superior simplesmente por estar ligada à classe dos homens livres. No mundo atual onde todas as pessoas adultas são esperadas a se engajar em algum trabalho produtivo, não há lugar para esse tipo de preconceito.

A educação liberal foi preservada na Civilização Ocidental por ser o melhor modo de cultivo da razão, o elemento essencial da vida equilibrada. A vida equilibrada significa não ser nem escravo nem escravista. Significa compatibilizar o trabalho com a liberdade. E o exercício da liberdade requer o cultivo da mente através da educação liberal. Stringfellow Barr (1897-1982), um professor de História que foi reitor de uma universidade americana afirmou que ‘a sociedade democrática depende de que uma boa parte dos seus indivíduos tenha uma boa educação liberal, sem a qual as pessoas são levadas a interpretar erradamente o passado, julgar erradamente o presente e negar a própria esperança de futuro’.

Nas universidades norte-americanas ditas liberais, a educação liberal é obrigatória para todos os tipos de diplomas oferecidos através dos ‘breath requirements’ ou pré-requisitos de amplitude de conhecimentos. Isso significa que um aluno que queira se especializar em química, física ou outra ciência qualquer, também tem que adquirir conhecimentos nas áreas humanas, e um aluno que queira se especializar nas áreas humanas é obrigado a adquirir conhecimentos sobre as ciências.

Um dos pilares da educação liberal é o estudo das obras dos grandes pensadores e cujo conjunto é conhecido como o cânone da civilização ocidental. A grande vantagem do cânone é permitir uma visão sem as mantas nacionalistas ou ideológicas dos historiadores. Mesmo assim, nas décadas de setenta e oitenta, nos Estados Unidos, os militantes da Nova Esquerda passaram a atacar o cânone como sendo uma tática de manutenção da hegemonia ocidental. Tais ataques e a defesa aos mesmos levaram à chamada ‘guerra de culturas’.

Nos Estados Unidos, a ‘guerra de culturas’ das décadas de setenta e oitenta, não foi a primeira investida contra a educação liberal. Os fatores econômicos de costume sempre colocaram pressão nos orçamentos do ensino superior e quase sempre terminam com um encolhimento da educação liberal.

A ‘guerra de culturas’ também chegou ao Brasil, na ideia de que a expectativa de saber falar e escrever corretamente é uma tirania das elites. Assim como nos Estados Unidos essa provocação é causada por militantes da Nova Esquerda dentro de certas universidades.


Jo Pires-O’Brien é uma brasileira residente na Inglaterra e editora da revista eletrônica PortVitoria, sobre a cultura ibérica:  www.portvitoria.com