Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e ‘Ambientalista’

Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e  ‘Ambientalista’

James Corbett

O desonrado cleptocrata Maurice Strong morreu no final do ano passado[1], aos 86 anos. Ele foi banido da sociedade refinada e forçado a uma vida de exilado, em Pequim, depois que as suas décadas de chicanices comerciais, crimes contra a humanidade e destruição ambiental foram reveladas. A sua desumanidade culminou com uma tentativa de lucrar com a morte de crianças iraquianas famintas. O seu funeral foi uma cerimônia tranquila, com a participação de apenas dos poucos familiares que não conseguiam livrar-se dele completamente. Ex-amigos e parceiros de negócios como Paul Martin, James Wolfensohn, Kofi Annan, Conrad Black e Al Gore, todos evitaram pedidos de comentários sobre a morte do amigo em desgraça.

… é assim que a memória de Maurice Strong deveria seria lembrada em qualquer mundo razoável. Em vez disso, o que obtivemos foi isso:

Na quarta-feira, centenas de pessoas irão se reunir em frente ao Parliament Hill para uma comemoração extraordinária. O Governador Geral, o Primeiro Ministro, o Ministro do Meio Ambiente, o ex-presidente do Banco Mundial – entre outros dignitários, tanto no exercício de cargos quanto fora deles – prestarão homenagem a um dos grandes canadenses de sua geração. Eles celebrarão a vida de Maurice Frederick Strong, que morreu em 27 de novembro [de 2015]. A sua morte trouxe os obituários obrigatórios e homenagens pessoais. Mas em um país que muitas vezes esconde a sua luz sob um celeiro, e a vida consequente e exaltada de Maurice Strong, em casa e no exterior, não deve passar em branco.

E os elogios continuam chegando.

Do Primeiro Ministro canadense Justin Trudeau: “Maurice Strong foi um pioneiro do desenvolvimento sustentável que fez do nosso país e do mundo um lugar melhor.”

Do cofundador do Fórum Econômico Mundial em Davos: “Ele foi um grande visionário, sempre à frente dos nossos tempos em seu pensamento.”

De John Ralston Saul, autor e filósofo: “Ele mudou o mundo.”

De fato, toda uma multidão de globalistas apareceu no início desta semana em Ottawa para prestar homenagem à memória de Strong, desde o ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ao subsecretário-geral da ONU, Achim Steiner, e o ex-secretário-geral do clube de Roma, Martin Lees. Chegaram também uma enxurrada de condolências escritas de outros proeminentes globalistas, incluindo Mikhail Gorbachev, Gro Harlem Bruntland e Kofi Annan.

Então, por que exatamente Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista?

Ah, está certo:

ENTREVISTADOR: “O Maurice Strong não tem nenhuma ambição para tornar a ONU (Organização das Nações Unidas) o governo do mundo?”

STRONG: “Não, e não é necessário, não é viável e, certamente, estamos longe de algo assim. Mas precisamos – se queremos ter um mundo mais pacífico, um mundo mais seguro – precisamos de um sistema de cooperação mais eficaz, que é o que chamo de ‘sistema de governança’. E as Nações Unidas, com todas as suas dificuldades , é o melhor jogo da cidade.” (Entrevista)

Presidente da Power Corp. Presidente da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional. Presidente da Petro Canadá. Presidente da Ontario Hydro. Chefe do Programa Ambiental das Nações Unidas. Membro fundador do Fórum Econômico Mundial em Davos. Pai do IPCC. Globalista dedicado.

Não, não é difícil entender por que os globalistas amam o arquiglobalista Maurice Strong. Mas, como foi que esse homem, um jovem pobre que abandonou o ensino médio em Oak Lake, Manitoba, tornou-se no estrategista de bastidor responsável por moldar as nossas instituições globais modernas? A história é tão improvável quanto instrutiva, e nos leva do coração do universo do petróleo à criação do IPCC[2].

Dada a notável ascensão de Strong através das fileiras do poder político para se tornar um chefão globalista, não será surpreendente saber que ele tinha conexões políticas em sua família. Mas pode ser surpreendente ouvir onde se encontravam essas conexões. Uma tia dele, Anna Louise Strong, era uma comunista convicta que fez amizade com Lenine e Trotsky (que lhe pediu que lhe ensinasse inglês) antes que ela finalmente se estabelecesse na China, onde tinha familiaridade com Mao Zedong. Ela se aproximou de Zhou Enlai, que chorou abertamente quando ela foi enterrada com honras completas no cemitério revolucionário de Babaoshan, em Beijing.

Infelizmente para a humanidade, a o cavaco não caiu muito longe do pau com o jovem Maurice. Nascido na zona rural de Manitoba, em 1929, e sofrendo o pior da Grande Depressão, Maurice Strong abandona a escola aos 14 anos em busca de trabalho. Ele trabalha como auxiliar de convés em navios e, aos 16 anos, como comprador de peles da Hudson’s Bay Company, no norte do Canadá. Lá ele conhece O ‘Wild’ [Selvagem] Bill Richardson, cuja esposa, Mary McColl, vem da família McColl-Frontenac, que está por trás da uma das maiores empresas de petróleo do Canadá.

Através de Richardson, Strong faz contatos que o impulsionam a sua improvável carreira. A Wikipédia explica enigmaticamente:

“Strong se encontrou pela primeira vez com um importante funcionário da ONU em 1947, que providenciou uma nomeação temporária e de baixo nível, para servir como oficial de segurança júnior na sede da ONU em Lake Success, Nova York. Ele logo retornou ao Canadá e, com o apoio de Lester B. Pearson, dirigiu a fundação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional em 1968”.

No que diz respeito a grandes lacunas narrativas e encobrimentos enigmáticos de pormenores, esse parágrafo é uma obra-prima. A verdade é ainda mais estranha. Aquele ‘funcionário da ONU’ sendo referido pela Wiki? Aquele não era outro senão o próprio tesoureiro da ONU, Noah Monod. De fato, Monod não apenas arranja um emprego para ele, mas lhe dá também um lugar para morar; as duas salas juntas durante o tempo de Strong na Big Apple. Mas o mais importante é que Monod lhe apresenta ao homem que mais do que qualquer outro estará por trás de sua ascensão meteórica ao estrelato internacional: David Rockefeller.

Maurice Strong gostava de contar a história de que ele havia enfrentado Rockefeller no início. De acordo com Strong, algumas de suas primeiras palavras para David foram: “Eu sou profundamente contrário a você e a tudo o que a sua família representa”. Estranhamente, David não se lembra do encontro dessa maneira, dizendo que os dois tinham “uma forte relação de trabalho.”

De qualquer maneira, a partir daquele momento, Strong era um homem feito. E a partir daquele momento, onde quer que Strong fosse, Rockefeller e seus associados estavam lá em algum lugar nos bastidores.

Foi um veterano da Standard Oil, Jack Gallagher, que deu a Strong sua grande oportunidade na indústria de petróleo de Alberta quando este deixou o seu emprego seguro na ONU para voltar ao Canadá. Gallagher havia sido contratado por Henrie Brunie, uma amiga íntima de John J. McCloy, um associado de Rockefeller, para criar uma nova empresa de exploração de petróleo e gás. Strong entrou como assistente de Gallagher.

Quando, de repente, Maurice Strong decidiu deixar o emprego, vender sua casa e viajar para a África, encontrou um emprego no CalTex de Rockefeller, em Nairobi.

Quando ele deixou o cargo em 1954 e fundou sua própria empresa no Canadá, contratou Brunie para administrá-lo e nomeou dois representantes da Standard Oil de Nova Jersey para seu conselho. A essa altura, ele estava no final da casa de 20 anos e já era um multimilionário.

Após criar uma considerável rede de contatos junto à elite política do Canadá, Strong foi nomeado chefe da Power Corporation, uma nova cria da poderosa família Desmarais, os ‘Rockefellers do Canadá”. A Power Corp é um importante ‘criador de caciques políticos’ no meio político canadense, e, sob a administração de Strong, continuou a desempenhar esse papel. Um de seus escolhidos: um MBA de Harvard de cara nova chamado James Wolfensohn, futuro presidente do Banco Mundial. Outra escolha dele: Paul Martin, futuro CEO da Canada Steamship Lines e futuro Primeiro Ministro do Canadá.

Strong deixou a Power Corp para liderar o programa de ajuda externa do Canadá. Ele supervisionou a criação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e do Centro Internacional de Pesquisa em Desenvolvimento (IDRC). Como a jornalista Elaine Dewar, que entrevistou Strong para seu livro inovador Cloak of Green (Capa Verde), explica:

“A IDRC tinha uma cláusula em sua legislação de habilitação que lhe permitia doar dinheiro diretamente a indivíduos, governos e organizações privadas. Foi criada como uma corporação, reportando ao Parlamento através do ministro de Assuntos Externos. Seu conselho de governadores foi projetado para incluir pessoas privadas e até estrangeiras. […] Como o IDRC não foi criado como um agente da Coroa (como é a CIDA), pôde receber doações de caridade de empresas e indivíduos, bem como fundos do governo”.

Essas “empresas e indivíduos” generosamente “doaram” seu dinheiro ao IDRC, e, naturalmente, incluíram o Chase Manhattan Bank, do Rockefeller, e a própria Fundação Rockefeller. Strong admitiu a Dewar que o IDRC foi capaz de vender influência política no terceiro mundo sob seu disfarce de organização quase governamental.

No entanto, a sua carreira quase empresarial / quase governamental / quase “filantrópica” atingiu um novo nível em 1969. Isso se deu quando o embaixador sueco na ONU telefonou para Strong para ver se ele queria liderar a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que deveria ocorrer em 1972. Ele recebeu a ligação não pelo seu suposto amor ao meio ambiente, mas porque, mesmo naquela época, Strong já era conhecido como um ‘Fichário de Rolo’ humano de conexões políticas, comerciais e financeiras em todo o mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

E naturalmente, ele foi devidamente nomeado administrador da Fundação Rockefeller, que depois financiou o seu escritório para a cúpula (cimeira) de Estocolmo, e forneceu a pesquisadora da Carnegie, Barbara Ward, e o ecólogo da Rockefeller, René Dubos, para a sua equipe. Strong os encomendou a escrever ‘Only One Earth’ (Uma só Terra), um texto fundamental no campo do desenvolvimento sustentável, o qual é fortemente apontado pelos globalistas como sendo chave na promoção da gestão global de recursos.

A Cúpula (Cimeira) de Estocolmo, de 1972, ainda é reconhecida como um momento marcante na história do movimento ambiental moderno, pois levou não apenas aos primeiros planos de ação ambiental administrados por governos na Europa, mas também a criação de uma burocracia totalmente nova da ONU: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNDP/PNUMA). Diretor fundador do PNUMA: Maurice Strong. Como Dewar explica:

“Como muitas das organizações que Strong criou, essa também teve vários usos. Em 1974, o PNUMA emergiu do solo não cultivado de Nairóbi, no Quênia, antigo território de Strong. A colocação do PNUMA na África foi explicada como uma ‘migalha’ para os países em desenvolvimento, e que suspeitavam das intenções ocidentais. Mas também porque era útil para as grandes potências ter outra organização internacional em Nairóbi. Após a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Nairóbi havia se transformado na principal capital de espiões da África”.

A Guerra do Yom Kippur e o consequente embargo da OPEP (previsto magicamente pela Conferência de Bilderberg na Suécia no início do ano e organizado pelo agente de David Rockefeller, Henry Kissinger) tiveram outro efeito derivado que acabou beneficiando Strong. O embargo atingiu com força o leste do Canadá, levando o primeiro-ministro Trudeau a criar uma companhia de petróleo nacional. O resultado: a Petro-Canada nasceu em 1975 e Trudeau naturalmente nomeou Strong, agora o membro mais poderoso do movimento ambiental globalista, como seu primeiro presidente.

David Rockefeller esteve lá com Strong no Colorado em 1987 para o ‘Quarto Congresso Mundial da Vida Selvagem’, um encontro de importância histórica mundial que quase ninguém ouviu falar. Com a participação de Rockefeller, Strong, James Baker e o próprio Edmund de Rothschild, a conferência acabou girando em torno da questão do financiamento para o crescente movimento ambientalista que Strong formou do zero através de seu trabalho no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Foi nessa conferência (gravações da mesma estão disponíveis on-line graças ao denunciante George Hunt) que Rothschild pediu a criação de um Banco Mundial de Conservação, para o qual que ele bolou como mecanismo de financiamento um ‘segundo Plano Marshall’,  que seria usado para ‘alívio de dívidas’ do terceiro mundo e para esse favorito apito de cão globalista, o ‘desenvolvimento sustentável’.

O sonho de Rothschild tornou-se realidade quando Strong presidiu outra cúpula ambiental de alto nível da ONU: a “Cúpula da Terra”, no Rio de Janeiro, em 1992. Embora talvez melhor conhecida como a conferência que deu origem à Agenda 21, o que é muito menos conhecido é que foi a Cúpula da Terra que permitiu que o Banco Mundial de Conservação se tornasse uma realidade.

Iniciado às vésperas da Cúpula da Terra do Rio como um programa piloto de US $ 1 bilhão do Banco Mundial, o banco, agora conhecido como “Global Environment Facility” (GEF), ou Fundo Mundial para o Meio Ambiente, é o maior financiador público de projetos ambientais globais, tendo feito mais de US $ 14,5 bilhões em doações e cofinanciou outros US $ 75,4 bilhões. O banco é o mecanismo financeiro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a convenção organizadora que dirige o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Com a Agenda 21 em seu currículo, o banco de sonhos do GEF de Rothschild dentro da lata e o IPCC já brilhando nos olhos, a notável carreira de Strong não mostrou sinais de parada. Depois de encerrar a Cúpula do Rio, assumiu uma série de compromissos tão desconcertantes que quase desafia a credulidade. De seu site oficial, vem a seguinte lista:

“Após a Cúpula da Terra, Strong continuou a assumir um papel de liderança na implementação dos resultados obtidos no Rio através da criação do Conselho da Terra, do movimento da Carta da Terra, de sua presidência do Instituto de Recursos Mundiais, de membro do Conselho do Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, o Instituto Afro-Americano, o Instituto de Ecologia da Indonésia, o Instituto Beijer da Real Academia Sueca de Ciências e outros. Strong era um diretor de longa data da Fundação do Fórum Econômico Mundial, consultor sênior do presidente do Banco Mundial, membro da Assessoria Internacional da Toyota Motor Corporation, Conselho Consultivo do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, o Conselho de Empresas Mundiais para o Desenvolvimento Sustentável, a União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN), o Fundo Mundial para a Vida Selvagem, Recursos para o Futuro e as Bolsas Eisenhower”.

Não resta dúvida de que Strong levou uma vida encantada. E, dada a presença persistente dos interesses de Rockefeller naquela vida desde seus primeiros anos, não há dúvida de por que as portas pareciam se abrir para ele onde quer que ele fosse.

Mas, ainda assim, é preciso perguntar como e por que um abandono do ensino médio que se tornou grande no ramo do petróleo graças às suas grandes conexões com o petróleo se tornaria a figura mais importante do movimento ambiental internacional. Ele estava realmente interessado em proteger o meio ambiente?

Considere a aquisição de Strong da Arizona Land & Cattle Company, do traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, em 1978. Como parte dessa aquisição, Strong ganhou controle sobre um rancho no vale de San Luis, no Colorado, chamado Baca Grande. Como Henry Lamb explica em um artigo de 1997:

“O rancho, chamado Baca Grande, ficava no maior aquífero de água doce do continente. Strong pretendia canalizar a água para o sudoeste do deserto, mas as organizações ambientais protestaram e o plano foi abandonado. Strong terminou com um acordo de US $ 1,2 milhão da companhia de água, uma concessão anual de US $ 100.000 da Laurance Rockefeller, e ainda manteve os direitos sobre a água”.

Não, o interesse de Strong no sítio não teve nada a ver com a preservação do ambiente primitivo do vale de San Luis. Seu interesse era totalmente estranho. Como observa o Quadrant Online:

“Maurice Strong tinha sido informado por um místico que:

O Baca se tornaria o centro de uma nova ordem planetária que evoluiria do colapso econômico e das catástrofes ambientais que varreriam o mundo nos próximos anos.

Como resultado dessas revelações, Strong criou a Fundação Manitou, uma instituição Nova Era (New Age)[3] localizada no rancho de Baca – acima das águas sagradas às quais a permissão para bombear foi negada a Strong. Esse hocus-pocus continuou com a fundação do The Conservation Fund (com a ajuda financeira de Laurance Rockefeller) para estudar as propriedades místicas da montanha Manitou. No rancho de Baca, há um templo circular dedicado aos movimentos místicos e religiosos do mundo”.

De fato, o zelo missionário de Strong por espalhar sua mensagem ambiental de desastre e destruição por tantas décadas pode ser mais facilmente explicado como um zelo quase religioso por preparar o caminho para a ‘Nova Ordem Mundial’ que esta destruição ambiental supostamente prediz.

Uma visão mais aprofundada das místicas crenças da Nova Era de Strong, pode ser encontrada naquilo que ele considerou ser sua conquista mais importante: a criação da Carta da Terra. A Carta da Terra foi fruto do Instituto do Conselho da Terra de Strong, que ele fundou em 1992 com a ajuda de Mikhail Gorbachev, David Rockefeller (obviamente), Al Gore, Shimon Peres e um punhado de amigos globalistas de Strong.

O próprio portal de Strong descreveu a Carta da Terra como ‘uma declaração de consenso global amplamente reconhecida sobre ética e valores para um futuro sustentável’, mas o próprio Strong estruturou o documento em termos religiosos, dizendo que espera que seja tratado como um novo Dez Mandamentos.

Então, o que a Carta da Terra diz? Além das previsíveis bobagens esperadas sobre ‘justiça social e econômica’ e outras chavões políticos, o documento termina como uma carta de amor ao governo mundial:

“Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional juridicamente vinculativo em meio ambiente e desenvolvimento”.

A própria Carta da Terra repousa na “Arca da Esperança”, uma arca literal que foi construída especificamente para abrigar o documento original em uma referência óbvia à arca da aliança. A arca foi inaugurada em 9 de setembro de 2001 e depois transportou 350 milhas para as Nações Unidas após o 11 de setembro. O membro da Comissão da Carta da Terra que presidiu a inauguração não passou de Steven C. Rockefeller.

Embora essa busca quase religiosa pelo governo global esteja sempre envolvida em uma linguagem de bem-estar sobre o fortalecimento de comunidades e a preservação do planeta, a realidade subjacente é sobre uma agenda maquiavélica muito mais. Como observa Dewar em Cloack of Green  (Manto Verde) acerca da Cúpula do Rio:

“Anunciada como a maior cúpula do mundo, a do Rio foi descrita publicamente como uma negociação global para reconciliar a necessidade de proteção ambiental com a necessidade de crescimento econômico. Os conhecedores entendiam que havia outros objetivos mais profundos. Isso envolveu a mudança dos poderes reguladores nacionais para vastas autoridades regionais; a abertura de todas as economias nacionais fechadas restantes a interesses multinacionais; o fortalecimento das estruturas de tomada de decisão muito acima e muito abaixo do alcance das democracias nacionais recém-criadas; e, acima de tudo, a integração dos impérios soviético e chinês no sistema de mercado global. Não havia nome para essa agenda tão grande que eu já ouvira alguém usar, então, mais tarde, eu mesmo a nomeei – a Agenda de Governança Global”.

O próprio Strong deu uma ideia do que essa agenda realmente implicava para o homem ou mulher comum em uma entrevista da BBC em 1972 antes do início da cúpula de Estocolmo. Discutindo o ‘problema de superpopulação’ então em voga como a causa ambiental do dia, Strong admitiu em suas reflexões sobre o potencial de licenças de reprodução:

“Licenças para ter filhos por acaso é algo que eu tive problemas por alguns anos atrás por sugerir, mesmo no Canadá, que isso pode ser necessário em algum momento, pelo menos alguma restrição ao direito de ter um filho. Não estou propondo isso, estava simplesmente prevendo isso como um dos possíveis cursos que a sociedade teria que considerar seriamente se nos envolvêssemos nesse tipo de situação”.

Que Strong teve tanto sucesso em promover sua agenda de ‘governança global’ por tantas décadas é um testemunho não de sua própria liderança visionária, como muitos globalistas professam, mas dos incríveis recursos dos Rockefellers, dos Rothschilds e outros que estão financiando essa agenda. à existência e empurrando-o a cada passo.

É por alguma medida de boa sorte, então, que as décadas de fraude de Strong finalmente tenham chegado ao fim (mais ou menos) em 2005, quando, como observa o Quadrant Online, ele foi finalmente pego ‘com a mão no caixa’:

“Investigações sobre o Programa Petróleo por Alimentos da ONU descobriram que Strong havia endossado um cheque de 988.885 dólares para M. Strong – emitido por um banco jordaniano. O homem que deu o cheque, o empresário sul-coreano Tongsun Park, foi condenado em 2006 em um tribunal federal dos EUA por conspirar para subornar funcionários da ONU. Strong renunciou e fugiu para o Canadá e daí para a China, onde vive desde então”.

Embora ainda aparecendo em vários eventos ao redor do mundo, Strong liderou uma existência muito mais baixa na última década, provavelmente desacelerada pelos estragos da idade avançada. Mas agora que ele finalmente faleceu, somos deixados a receber elogios ainda mais nauseantes a esse homem e às muitas instituições globalistas que compõem seu legado.

Não, não é difícil entender por que Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista. Só não espere que nenhum dos membros desse jet set conte essa história em detalhes.

Ilustrações:

Foto de Maurice Strong tendo ao fundo uma paisagem ressecada e um selo da ONU.

Foto de Anna Louise Strong, tia de Maurice Strong, ao lado de Mao Zedong e outros dignitários chineses. Anna Strong era uma comunista comprometida que fez amizade com Lenine e Trotsky.

Imagem do sítio de petróleo de Alberta, onde Maurice Strong trabalhou depois de ter deixado o seu primeiro emprego na ONU.

Foto do jovem Maurice Stong em frente à mesa presidencial, em uma conferência da ONU.

Foto de George Bush, presidente dos Estados Unidos, discursando na Cúpula da Terra de 1992 no Rio.

Imagem da placa externa do rancho Baca Grande, no vale de San Luis, no Colorado, adquirido por Maurice Strong, que se tornou o local da Fundação Manitou, uma instituição ‘Nova Era’ (New Age).

Foto de Maurice Strong falando durante uma conferência em que anunciou a criação da Carta da Terra.

Foto de um cheque de US $ 988.885 concedido a M. Strong, emitido por um banco jordaniano, e endossado com a assinatura de Maurice Srong.

Publicado originalmente em TheInternationalForecaster.com, em 31 de janeiro de 2016

James Corbett é um jornalista e editor do portal ‘The Corbett Report’, Open Source Intelligence News, https://www.corbettreport.com/about/

James Corbett has been living and working in Japan since 2004. He started The Corbett Report website in 2007 as an outlet for independent critical analysis of politics, society, history, and economics. Since then he has written, recorded and edited thousands of hours of audio and video media for the website, including a podcast and several regular online video series. He is the lead editorial writer for The International Forecaster, the e-newsletter created by the late Bob Chapman.

His work has been carried online by a wide variety of websites and his videos have garnered over 50,000,000 views on YouTube alone. His satirical piece on the discrepancies in the official account of September 11th, “9/11: A Conspiracy Theory” was posted to the web on September 11, 2011 and has so far been viewed nearly 3 million times.

****

For more information about Corbett and his background, please listen to Episode 163 of The Corbett Report podcast, Meet James Corbett: Episode 163 – Meet James Corbett

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK, 4 set 2019)


[1] Maurice Frederick Strong faleceu em 28 de novembro de 2015, em Ottawa, Canadá, aos 86 anos de idade.

[2] IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change / Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

[3] New Age ou Nova Era é definida pelo dicionário Cambridge online como sendo “um modo de vida e pensamento desenvolvido no final dos anos 80, com base em ideias que existiam antes das teorias científicas e econômicas modernas.” Essa definição coloca a Nova Era dentro da doutrina pósmodernista.

A idade da desonestidade. O pós-modernismo é errado porque é falso

Jo Pires-O’Brien

Modernidade e a pós-modernidade

A modernidade e a pós-modernidade são concepções diferentes do mundo. Enquanto que a modernidade baseia-se no Iluminismo e nos avanços do racionalismo e da ciência, a pós-modernidade baseia-se na ruptura com o Iluminismo e com o rigor do racionalismo e da ciência. Dentro da concepção da modernidade surgiu a escola linguística estruturalista, que ao ser absorvida por outras disciplinas das humanidades e das ciências sociais gerou uma visão geral do mundo baseada no conhecimento e na realidade, a qual passou a ser chamada de estruturalismo.  Dentro do estruturalismo surgiram dissidências, as quais não lograram criar uma visão explícita que merecesse o nome de escola filosófica, mas mesmo assim passou a identificar-se como pós estruturalismo. A abordagens respectivas da modernidade e da pós-modernidade confundem-se com essas, e por essa razão, modernidade e estruturalismo viraram sinônimos, assim como pós-modernidade e pós-estruturalismo.

Pós-modernismo, descontrucionismo e construtivismo

O pós-modernismo é uma ideologia ambígua e difícil de definir, a não ser pelo seu objetivo de destruir a modernidade e substituí-la pela pós-modernidade marxista. O motivo pelo qual o pós-modernismo é ambíguo é esconder a sua falsidade. É por essa mesma razão que Jordan Peterson descreveu o pós-modernismo como sendo o marxismo com pele nova.

A falsidade do pós-modernismo está tanto no seu método de destruir a civilização ocidental moderna, através da destruição de suas metanarrativas como o Iluminismo, a racionalidade, a ciência, etc., quanto no seu método de falsificar realidades. Esses dois métodos são chamados deconstrucionismo e construtivismo. Os seus respectivos alvos são a modernidade e a pós-modernidade.

Desconstrucionismo é o processo de aviltamento das coisas características do modernismo através do ataque às suas metanarrativas, reduzindo-as a sequências arbitrárias de sinais linguísticos ou palavras, e em seguida substituindo significados originais por outros, para finalmente concluir que nenhuma interpretação dessas sequências de palavras é mais correta que outra.

Construtivismo é o processo de criar abstrações – constructos – através da retórica. Embora existam certos constructos que são normalmente aceitos, como por exemplo, Estado, dinheiro, lei, e identidades nacionais, o construtivismo da doutrina do pós-modernismo é radical, irracional e desonesto, pois baseia-se na premissa de que tudo é uma questão de semântica.

O desconstrucionismo começou no meio da intelectualidade francesa marxista, sendo Jacques Derrida (1930-2004) o pai reconhecido desse movimento.  Inicialmente o desconstrucionismo era uma forma de crítica literária, mas ao ser absorvido pelas humanidades e ciências sociais, passou a ter outras aplicações. Derrida acreditava que o pensamento ocidental foi viciado desde a época de Platão por um tumor que ele chamou de ‘logocentrismo’, referindo-se à suposição de que a linguagem descreve o mundo de maneira bastante transparente. Na visão de Derrida, a descrição do mundo através da linguagem é uma ilusão, e a própria linguagem não é imparcial e as palavras nos impedem de realmente experimentar a realidade diretamente. O que Derrida quer, é derrubar a crença em uma realidade externa objetiva que pode ser explorada através da linguagem, da racionalidade e da ciência, e mostrar que a grande narrativa do Iluminismo não passa de um conjunto de delírios. O método de Derrida para destruir a linguagem é a desconstrução – uma técnica que nos faz ver que os ‘significantes’ – as palavras em si no sistema saussureano – são tão ambíguos e mutáveis que podem significar alguma coisa ou nada.

A ideia original do construtivismo antecede a modernidade, mas o primeiro autor contemporâneo a empregá-la foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), para descrever o modo como as crianças criam um modelo mental do mundo. Embora os pós-modernos parecem gostar da ligação com Piaget, o construtivismo piageteano é positivo enquanto que o  construtivismo pós-moderno é negativo. O construtivismo piageteano afirma que o conhecimento é algo construído pelo indivíduo com base em suas interações com o mundo físico e o mundo social. O construtivismo dos pós-modernos afirma o conhecimento é algo socialmente construído. A fim de distinguir o construtivismo pósmodernista do construtivismo piageteano o primeiro passou a ser conhecido como construtivismo social ou socioconstrutivismo.

A que veio o pós-modernismo?

O pós-moderismo veio para fazer a revolução marxista por debaixo do pano.  As suas principais armas são o desconstrucionismo, usado para aviltar o racionalismo e a ciência, e o socioconstrutivismo, usado para criar grupos de identidades políticas e lideranças, através de imagens e figuras de retórica. A estratégia do pós-modernismo e criar subliminarmente uma disposição ou mentalidade pós-moderna, ou um Zeitgeist  pós-moderno.

O objetivo do marxismo era criar uma sociedade ideal, mas tal sociedade ideal só podia existir na prancheta, pois a tentativa de implementá-la gerou tiranias genocidas. O pós-modernismo também rejeita a realidade e anseia por uma realidade idealizada.

Na mentalidade pós-moderna, realidade é aquilo que é falado, e o melhor caminho para ser falado é aparecer na mídia. É daí que veio a obsessão com fama e famosos. A mentalidade pós-moderna anseia por identidades fortes pois são um caminho para o poder.  Entretanto, a identidade genuína do indivíduo, aquela baseada nas habilidades cognitivas e na bagagem cultural do indivíduo, nem sempre é forte, e por essa razão foi abandonada. Na mentalidade pós-moderna, a identidade e definida pela ‘persona’ – “uma espécie de máscara, desenhada com o duplo motivo de conferir uma impressão firme junto aos demais, e ocultar a verdadeira natureza do indivíduo,” conforme mostrada pelo psiquiatra suíço Carl Jung.

Consequências ruins do pós-modernismo

No Zeitgeist da pós-modernidade a autenticidade saiu de moda e as pessoas preocupam-se mais com aparência do que com substância.

No Zeitgeist pós-moderno, a perda da genuinidade do indivíduo veio acompanhada da perda da espontaneidade dos processos sociais, e uma das consequências não intencionadas disso é a diminuição da confiança social, que por sua vez leva a dois erros de julgamento: valoriza quem não merece ser valorizado, e deixar de valorizar quem merece. Tais erros de julgamento equivalem a enormes perdas para a sociedade, em termos de capital humano desperdiçado.

O começo do mundo pós-moderno

O começo do mundo pós-moderno pode ser traçado à década de 1960, quando as fronteiras entre alta e baixa cultura foram esfumadas. Isso permitiu a emergência da Pop Art e o seu assentamento como uma forma de poder popular. Um de seus líderes, Andy Warhol (1928-1987), prognosticou que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze minutos”.

Um dos alvos importantes do pós-modernismo foi o conceito de identidade nacional, que foi esfumado e largado de lado, e substituído pelas novas tribos formadas por grupos de identidade política. Não contente em destruir a identidade nacional, o pós-modernismo destruiu também a identidade civilizacional da América Latina. Muitos latino-americanos tomam por certo que a América Latina faz parte da Civilização Ocidental, uma vez que todos os seus países foram colonizados por europeus. Poucos latinoamericanos notaram que o cientista político Samuel Huntington (1927-2008) optou por listar a América Latina como uma civilização aparte ao invés de incluí-la na Civilização Ocidental, no seu livro Clash of Civilizations (A colisão das civilizações; 1997). A justificativa de Huntington é de que a América Latina não preencheu os critérios a priori para afiliação ao Ocidente. Em termos de identidade nacional, os países latinoamericanos sofrem de uma neurótica dissonância cognitiva formada pelo desejo simultâneo de pertencer à Civilização Ocidental e às suas respectivas culturas indígenas.

Em todo o lugar onde o pós-modernismo se encontra, a sua entrada ocorreu de forma sorrateira. Na América Latina, alojou-se inicialmente nas universidades, principalmente nas humanidades e ciências sociais, e de lá passou para as organizações não governamentais (ONGs) e para os grupos de identidade política.

O socioconstrutivismo

O socioconstrutivismo passou a ser um fenômeno comum na América Latina a partir da década de 1980, quando heróis e heroínas foram artificialmente criados. O método do  socioconstrutivismo consiste de cinco etapas principais: (i) escolher causas simpáticas como a defesa de florestas, de animais, e de grupos oprimidos; (ii) a cooptar lideranças a partir de bases conhecidas; (iii) aumentar os perfis dessas lideranças, persuadindo jornalistas a publicar matérias sobre as mesmas; (iv) indicar as lideranças escolhidas para participar de organizações de doadores de recursos; e (v) indicar as lideranças escolhidas para prêmios disponíveis e fazer lobby a favor das mesmas junto às instituições premiadoras.

A escolha da causa requer cuidado e atenção. Por exemplo, no caso de uma ONG ligada à causa dos indígenas, as tribos mais coloridas e que ainda praticam suas danças e cerimônias são mais promissores que aquelas que são menos coloridas e mais aculturadas. Uma vez escolhida a causa, o próximo passo é escolher os indivíduos mais promissores em termos de aparência e maleabilidade para serem promovidos junto à mídia.

As maquinações de bastidores para construir lideranças e para atrair o interesse de jornalistas são aéticas, o que gera o perigo de whistle blowers ou denunciantes, que não aceitam que um objetivo nobre justifica mentiras e meias verdades. Entretanto, o socioconstrutivismo tem uma capa de proteção contra denunciantes, fazendo com que qualquer crítica à administração financeira da ONG ou às suas mentiras e meias verdades sejam percebidas como um ataque vil à própria causa, isto é, ao grupo oprimido, à floresta, ou ao animal carismático, fazendo com que o crítico seja taxado de racista e coisas piores.

Um dos poucos exemplos que chegou a ser noticiado na imprensa internacional foi a história da jovem guatemalteca Rigoberta Menchú, que foi transformada numa heroína de sua tribo e que em 1992 ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Entretanto, quando o antropólogo David Stoll decidiu avaliar o mérito de Menchú, descobriu que a sua narrativa do genocídio do seu povo, no início da década de 1980, no livro autobiográfico I, Rigoberta Menchú (Verso, 1984), estava repleto de inconsistências e até mentiras, e que o mesmo livro, editado com a ajuda de diversas pessoas, tinha uma agenda, de ajudar a guerrilha à qual Menchú havia se juntado em 1981. Stoll publicou os seus achados no livro Rigoberta Menchú and the Story of All Poor Guatemalans (1999), mas a verdade que expôs foi ignorada e ele próprio acabou taxado de inimigo dos indígenas.  O que aconteceu a David Stoll passou a desencorajar qualquer denúncia semelhante. Foi uma evidência da capa de proteção do sociocontrutivismo, análoga à dos vírus.

As pessoas ordinárias, que subentendem aquilo que é conhecido como o público, têm o dever de manter-se atentas ao que acontece a seu redor. A pergunta que devem fazer é “o socioconstrutivsmo é bom para quem?”

i) O socioconstrutivsmo é bom para os indivíduos oprimidos a quem defendem?

O paternalismo do sociocontrutivismo faz com que o indivíduo oprimido continue oprimido, pois tira-lhe as chances de ser ele próprio, e de crescer e amadurecer.

ii) O socioconstrutivsmo é bom para a sociedade?

 Mentiras e meias verdades corroem a confiança dentro da sociedade, gerando uma sociedade de baixa confiança, a qual é extremamente desfavorável ao desenvolvimento econômico.

iii) Quem ganha com o socioconstrutivsmo?

Quem ganha com o socioconstrutivismo são os próprios sócioconstrutivistas, que ganham os ouvidos das autoridades e espaços nos círculos do poder.

Conclusão

O pós-modernismo é o próprio marxismo com outra pele. Os dois empregam a mesma linguagem de ressentimento, raiva e inveja. Enquanto que o marxismo tradicional exaltava a destruição do capitalismo que ocorreria em decorrência da revolução socialista, o pós-modernismo (ou neomarxismo), planejou e fez a sua revolução na surdina. A revolução do pós-modernismo foi um sucesso e a prova disso é que a própria civilização Ocidental é a sua prisioneira. O Zeitgeist pós-moderno onde vivemos pode ser descrito pelo relativismo cultural, o aviltamento da sociedade maior através de sua fragmentação em grupos de identidade políticas, a falta de genuinidade e espontaneidade, e as fabricações. As suas armas mais potentes, o desconstrucionismo e o socioconstrutivismo, servem às suas lideranças, que fingem servir às mais diversas causas sociais. A sociedade não ganhou nada com o pós-modernismo, mas perdeu muita coisa, desde a genuinidade das pessoas e a própria espontaneidade, até a confiança entre os seus cidadãos.  O pós-modernismo é errado por diversos motivos, mas o principal deles é a falsidade.


Jo Pires-O’Brien é brasileira e reside na Inglaterra. Desde 2010 é editora da revista cultural PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo, com conteúdo em português, espanhol e inglês. Acessar: www.portvtoria.com

A conversação dos sábios

Jo Pires-O’Brien

A arte da conversação é a arte de ouvir e ser ouvido, afirmou o escritor inglês William Hazlitt (1778-1830). Desde a Antiguidade a boa conversação é considerada um dos principais ingredientes da boa sociedade. ‘O banquete dos sete sábios’ é o título de um ensaio de Plutarco (45 – 120 EC)1 descrevendo um fictício diálogo entre os sete grandes sábios da Antiguidade Clássica reunidos num banquete oferecido por Periandro, de Corinto, que apreciava a companhia dos sábios, na vizinhança de Lequeum, próximo ao altar de Afrodite. Os sete sábios convidados eram: Tales, de Mileto; Bias, de Priene; Pítaco, de Mitilene; Sólon, de Atenas; Quílon, de Esparta; Cleóbulo, de Lindos; e Anacarsi, de Cítica. Apesar de conhecer a fama de déspota de Periandro, todos os convidados aceitaram de bom grado o convite, pois eles próprios gostavam de conversar em boa companhia. Durante o banquete os sábios discutem o que é necessário para o sucesso de um banquete desse tipo, concluindo que a responsabilidade pelo sucesso do banquete não é apenas do anfitrião, mas também dos convidados. Os bons convidados dão prazer pela boa conversação, enquanto que os maus convidados são descorteses e incomodam os demais. A preparação correta dos convidados a um banquete vai muito além do vestuário, pois o melhor ornamento do indivíduo é o seu caráter. Além disso, o convidado a um banquete tem a obrigação de saber conversar, o que requer uma longa preparação em termos de adquirir conhecimentos, ter opiniões e saber expressá-las e defendê-las.

A boa conversação continua importante no mundo moderno mas é dificultada pela superpopulação, pela hiper-especialização do conhecimento e por diversos outros fatores. Hoje em dia os sábios não se reúnem em banquetes oferecidos por ricos patronos, mas em encontros especiais organizados pelas mais diversas instituições de ensino e pesquisa, e, a partir da segunda metade do século XX, dos ‘think tanks’. A Revolução Digital do fim do século XX abriu um espaço universal para a conversação, mas é preciso vasculhar muito o espaço cibernético para encontrar conversações edificantes.

Os cientistas e os pensadores do século XXI competem com uma infinidade de néscios pela atenção do grande público. Os eventos de discussões e debates entre peritos, que os ‘think tanks’ costumam promover nas grandes cidades, ocupam um pequeno nicho na indústria do entretenimento. Uma organização que tem se destacado nesse nicho é a ‘Intelligence Squared’ (intelligence2, Inteligência ao Quadrado), um fórum de debates fundado em 2002 em Londres2.

Em 14 de julho de 2016 eu tive a oportunidade de assistir ao colóquio organizado pela Intelligence Squared em comemoração aos 75 anos do cientista Richard Dawkins, o qual contou com a participação de outros seis pensadores e cientistas Logo na abertura desse colóquio, o seu Presidente, Jonathan Freedland (1967 -), afirmou o evento daquela noite seria mais uma conversação do que um debate. E, de fato, cada um dos sete palestrantes falou no seu turno, e as discussões foram conduzidas com respeito e cortesia, sem levantar polêmicas, e, sem apontar bodes expiatórios.

O evento acima referido foi uma verdadeira conversação de sábios e uma oportunidade ímpar de aprendizagem. O evento confirmou algo que todos os que estudaram ciência já sabem: os sábios nem sempre concordam uns com os outros e às vezes se contradizem. Assim, quem deseja entender bem determinado assunto precisar ler o que diversos sábios escreveram sobre o mesmo. Ao absorver a pluralidade de opiniões dos sábios estaremos, de fato, conversando com eles.


1.Lucius Mestrius Plutarchus foi um intelectual e escritor grego que tornou-se cidadão romano.

2.Leia a minha postagem ‘Colóquio:Richard Dawkins: o revolucionário racional


Jo Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, dedicada a falantes de português e espanhol. Ajude PortVitoria colocando um link em seu blog ou na sua ágina do Facebook.

René Descartes

Jo Pires-O’Brien

Apesar do seu ar pomposo e da sua errônea doutrina do dualismo, René Descartes (1596-1650) foi um grande matemático cujo maior legado é A Geometria (La Géométrie), onde ele apresentou o seu sistema de coordenadas que permite descrever cada ponto num plano por dois números que fornecem a sua localização horizontal e vertical (veja abaixo). Descartes também se destacou pelo absoluto ceticismo em relação ao conhecimento existente, o que o fez reconstruir o mundo a seu redor através da lógica. Acreditava na superioridade do método científico como fonte de conhecimento. Pôs em dúvida a própria existência até deduzi-la por inferência na frase “penso, logo existo”.

As coordenadas cartesianas servem para medir localizações no eixo horizontal (x) e vertical (y) através de linhas perpendiculares (ou eixos) que se cruzam em um ponto chamado ‘origem’, gerando os quatro quadrantes do plano. Qualquer equação pode ser representada no plano, plotando sobre o mesmo o conjunto de soluções da equação. Por exemplo, a simples equação y = x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,1), (2,2), (3,3), etc. A equação y = 2x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,2), (2,4), (3,6), etc. Equações mais complexas envolvendo x2, x3, etc, geram diversos tipos de curvas no plano. À medida que um ponto muda ao longo da curva, as suas coordenadas mudam, mas uma equação pode ser escrita para descrever a mudança no valor das coordenadas em qualquer ponto na figura. O emprego dessa nova abordagem logo revelou que uma equação como x2 + y2 = 4, por exemplo, descreve um círculo; y2 – 16x uma curva chamada parábola; x2⁄a2 + y2⁄b2 = 1 uma elipse; x2⁄a2 – y2⁄b2 = 1 uma hipérbole; etc.

Em essência, a geometria analítica de Descartes permite converter a geometria em álgebra e vice-versa; portanto, um par qualquer de equações simultâneas pode ser resolvido tanto algebricamente quanto graficamente (na interseção de duas linhas). Além se servir de base para a invenção do cálculo por Newton e Leibniz, a geometria analítica de Descartes abriu caminho para a o desenvolvimento de geometrias navegantes em dimensões mais elevadas, impossíveis de ser visualizadas fisicamente – um conceito que se tornaria central à física moderna ainda por ser descoberta.


Jo Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro encontra-se disponível em versão Kindle e em brochura nos portais da Amazon.

***

Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world, in Portuguese, Spanish & English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.

O viés da autoavaliação: o efeito Dunning-Krueger

Jo Pires-O’Brien

O efeito Dunning-Krueger descreve o viés da autoavaliação, onde os indivíduos mais ignorantes se superestimam enquanto os mais competentes se subestimam. O termo surgiu em decorrência de um artigo artigo publicado em 1999 na revista Journal of Personality and Social Psichology por dois pesquisadores acadêmicos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, Justin Kruger e David Dunning. O título do artigo é “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments”. Tradução para o português: “Sem qualificações e ignorante disso: Como as dificuldades de reconhecer a própria incompetência leva a autoavaliações inflacionadas”. O viés da autoavaliação decorre dá má calibragem da cognição, a capacidade de adquirir conhecimento e um dos três tipos da função mental juntamente com afeto e volição.

Delineado para compreender melhor a capacidade cognitiva, isto é, a somatória das inteligências do indivíduo, o experimento de Dunning e Krueger envolveu 140 voluntários que eram alunos de graduação da universidade de Cornell os quais fizeram quatro estudos envolvendo humor, raciocínio lógico, e gramática. Logo depois de fazer os testes, os participantes foram pedidos que estimassem o número de seus acertos, gerando os dados de ‘capacidade percebida’ que foram comparados com a ‘capacidade atual’, resultante dos testes aplicados. Em todos os testes os indivíduos que acertaram mais se subestimaram enquanto os que erraram mais se superestimaram. No quarto estudo onde eles manipularam a competência dos indivíduos para ver se isso alterava as habilidades metacognitivas que afetam a autoavaliação. Para tanto eles deram um treinamento em meta cognição na metade dos participantes antes de eles serem pedidos que estimassem o número de seus acertos. O fenômeno da subestimação e superestimação dos percentis superiores e inferiores também apareceu nesse quarto experimento. Dentro do segmento que recebeu o treinamento em meta cognição os indivíduos dos percentis superiores reduziram as suas subestimações mas nenhum efeito significativo foi notado entre os indivíduos dos percentis inferiores. Dunning e Krueger concluíram que a superestimação da capacidade é mais problemática do que a subestimação pois esta não só se trata de uma incompetência mas é também acompanhada da incapacidade de enxergar o próprio mal desempenho.

Desde a publicação do artigo acima mencionado, o termo efeito Dunning-Krueger passou a designar o fenômeno pelo qual os indivíduos menos qualificados são os que mais inflacionam as suas capacidades. Tal termo entrou para a terminologia técnica da psicologia cognitiva, definida como sendo o estudo interdisciplinar da mente e da inteligência, abarcando as disciplinas da filosofia, psicologia, inteligência artificial, neurociência, linguística, e antropologia. Outros estudos subsequentes da psicologia cognitiva confirmaram o efeito Dunning-Krueger como sendo um viés do raciocínio cognitivo.

Conclusão

Todas as pessoas se autoavaliam mas a autoavaliação depende da capacidade cognitiva de cada um, isto é, da função mental. Este é o resultado da pesquisa conduzida por Justin Krueger e David Dunning, na qual as pessoas com uma função mental superior tendiam a se subestimar enquanto que as com função mental inferior tendiam a se superestimar. Tal comportamento passou a ser conhecido como o efeito Dunning-Krueger. O efeito Dunning-Krueger já havia sido deduzido intuitivamente pelo poeta Alexander Pope (1688-1744) quando escreveu que “os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar” e “o conhecimento pequeno é uma coisa perigosa” (Poema: Ensaio Sobre a Crítica). A incoerência entre capacidade e confiança pode ser notada em todos os caminhos da sociedade, embora seja mais proeminente na esfera da política. Os indivíduos de melhor preparo tendem a se esquivar da política, e só aceitam entrar no páreo mediante uma boa dose de encorajamento. Todavia, os indivíduos menos preparados tendem a ser oferecidos e a esbanjar confiança. A pesquisa de Dunning e Krueger apenas confirmou o que já era sabido: a pior ignorância que existe é a ignorância da própria ignorância.

 Nota. Dunning e Krueger mostraram também o paralelo que existe entre a incompetência e a doença neurológica conhecida como ‘anosognosia’, causada por certos tipos de danos ao lado direito do cérebro e que deixam o indivíduo paralisado no lado esquerdo. Quando os médicos colocam um copo na frente de tais pacientes e pedem a eles que apanhem o copo com a mão esquerda, os pacientes não só falham em obedecer mas também em entender porquê. Quando tais pacientes são pedidos a que expliquem porque falharam eles afirmam que estão cansados, que não ouviram direito as instruções do médico, ou que não estavam com vontade de obedecer, mas nunca que foi porque eles estão sofrendo de paralisa.

Bibliografia

Gregory, R.F. (2014). Café. Parthenon Books, New York. Kindle edition.

Krueger, Justin & Dunning, David (1999). Unskilled and Unaware of it: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6):1121-1134.

Schmidt, Eric & Cohen, Jahed (2013). The New Digital Age. Reshaping the Future of People, Nations and Business. John Murray, London.


Jo (Joaquina) Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista bianual sobre assuntos da atualidade, cultura e política, centrada na cultura ibérica na Europa e no mundo. Acesso: http://portvitoria.com/index.html

***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.

O conhecimento do indivíduo. II.

Jo Pires-O’Brien

Conclusão.

A Subversão da Opinião Pública pelas Massas

Durante o período entre guerras do século XX, o Ocidente foi assolado pelas massas que apoiaram o fascismo e suas diversas variantes, como o nazismo alemão. Tal fenômeno tem sido o objeto de muitos estudos pelos especialistas. O grande problema das massas que os especialistas identificaram é a subversão da opinião pública. Mas o que é opinião pública? A opinião pública é o resultado do debate construtivo e racional conduzido na esfera pública, isto é, a esfera situada entre a sociedade civil e o Estado, e cujos atores são os indivíduos que se reúnem para discutir a política, e, a mídia, através dos jornais de ampla circulação e da indústria da publicidade. Tal definição é dada pelo sociólogo e filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-). Em que situação a opinião pública é subvertida? Quais os fatores que propiciam tal subversão? Habermas também responde a essas perguntas. No seu livro The Structural Transformation of the Public Sphere (A transformação estrutural da esfera pública; título original: Strukturwandel der Öffenlichet), inicialmente publicado em 1962, Habermas sublinha a importância do debate construtivo e racional para a manutenção da sociedade democrática. Ele também aponta as falhas do Estado que propiciam a manipulação da esfera pública, como a elevada burocracia, a ausência de estímulo à autossuperação e a inexistência de igualdade de oportunidades nos cargos públicos e privados.

Os indivíduos dotados de conhecimento geral tendem a ter uma maior sensibilidade em relação à esfera pública, e por essa razão, eles são os principais formadores da opinião pública genuína, resultante do debate público. As massas do período entre guerras foram formadas pela manipulação da esfera pública. Nessa manipulação, a opinião dos indivíduos é anulada, e a única opinião que conta, é a do controlador da massa. Três estudiosos se destacaram no estudo do fenômeno das massas do período entre guerras do século XX: o espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o alemão Teodoro Adorno (1903-69) e o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94).

Ortega identificou a subversão da opinião pública pelos movimentos coletivistas, dando lugar à ‘sociedade circunstancial ao poder das massas’. O seu livro A rebelião das massas (1929) mostra como era a relação entre o conhecimento e a opinião pública no século XIX. Para ele, embora no século XIX os donos do conhecimento ainda fossem uma minoria, a população era possuidora de uma razoável sensibilidade para entender isso. Havia um público sensível que buscava o conhecimento da minoria e procurava debater os mais diversos assuntos nos cafés e noutros recintos públicos. A explicação que Ortega oferece para o fenômeno das massas baseia-se na desigualdade intelectual das pessoas. Ortega identifica dois tipos de pessoa: o ‘homem vulgar’ e o ‘homem excelente’. O ‘homem vulgar’ é o indivíduo que é suscetível à massa; ele não impõe sobre si próprio nenhum esforço voltado à busca da perfeição, pois já se sente satisfeito consigo mesmo. O ‘homem excelente’ é um tipo superior de indivíduo, capaz de impor enormes demandas sobre si próprio, incluindo tarefas difíceis e árduas responsabilidades.

Adorno atribuiu o surgimento da massa à criação da ‘sociedade de consumo’ pela indústria publicitária apoiada nos potentes meios de comunicação do rádio e do cinema. No seu livro Dialética do Esclarecimento (Dialektik der Aufklarung), em co-autoria com Max Horkheimer, publicado em 1947, Adorno mostrou os efeitos colaterais da cultura de massa como a substituição gradual da individualidade pela pseudo-individualidade, e a própria negação da biologia natural do homem.

Canetti fez um apanhado histórico do fenômeno das massas e cogitou a possibilidade de haver um elemento catalisador da massa, que ele denomina ‘cristal de massa’, metáfora que ele buscou na química, a sua disciplina de estudo na universidade. No seu livro Masse und Macht (Massa e poder, publicado em português em 1995 ), Canetti afirma que a massa resulta de uma reação social que ocorre na presença do ‘cristal de massa’. A metáfora do ‘cristal de massa’ de Canetti embute a ideia de que a massa, por ser um produto de uma reação social, é reversível da mesma forma que certas reações químicas também são.

A partir da segunda metade do século XX, a população do mundo cresceu de uma forma sem precedentes, especialmente em determinados países de fora do eixo do Ocidente. O fenômeno da massa reapareceu nesses países com problemas semelhantes àqueles que o Ocidente teve no período entre guerras. Embora, no final do século XX, o Ocidente não tenha tido outros movimentos de massas comparáveis àqueles do período entre guerras, a manipulação da esfera pública continuou, seja em torno do consumo seja em torno de causas xenofóbicas. Entretanto, a Idade Digital, surgida no final do século XX, introduziu poderosos elementos na esfera pública, como, as gravações de vídeo, o stream on line e as redes sociais. Pode-se argumentar que todos esses elementos são meras ferramentas: o que tais ferramentas fazem ou podem fazer depende da maneira como são usadas.

A Idade Digital e o Conhecimento

Muitos observadores sociais já apontaram que Idade Digital supervalorizou a informação e trivializou a cultura. Mas as incursões à Idade Digital também ocorrem no terreno da ficção, como a do personagem ‘Morador do Café’ criado pelo escritor americano, nascido no Egito, R. F. Georgy, que compara a internet a um palácio de cristal e este à caverna de Platão, o reduto da ignorância humana absoluta, no seu livro Notes from the Café (2014). Sofrendo de câncer e com pouco tempo de vida o Morador do Café vive a sua grande crise existencial. As suas reflexões e críticas sobre a Idade Digital aparecem em diálogos imaginários com ex-colegas da academia e outras pessoas. O Morador do Café é um velho que, além de indignado e contraditório, encontra-se desmemoriado. Ele tem uma vaga lembrança de ter sido um professor de filosofia, embora não consiga lembrar o próprio nome. Suas colocações são mais um esbravejamento de um velho opinioso tentando passar a vida a limpo. Eis algumas citações (tradução minha) do Morador do Café acerca da Idade Digital:

‘Eu me lembro de uma época quando a informação se curvava perante a sabedoria. Hoje, a informação tornou-se pomposa e arrogante.’

‘Vocês sabiam que nós vivemos numa era na qual os peritos e os especialistas se tornaram os profetas da nossa época, na qual os atores e os jogadores de esportes são heróis mitológicos, e a mediocridade é virtude.’

‘A idade digital não sabe o que fazer dos professores…// Então, vocês não sabiam que hoje em dia os professores são controlados e manipulados pelas empresas de publicação que têm um interesse em passar todas as atividades de ensino para o palácio de cristal virtual?’

‘A idade digital não precisa de professores; não senhores, a idade digital precisa de gestores de informação para manter o nosso palácio virtual se movendo. Esses gestores de informação logo serão substituídos por professores digitais que irão ‘facilitar’ a aprendizagem.’

‘Os cafés não são mais para engajarmos em conversação estimulante. Não senhores, eles são feitos para as pessoas irem lá, com os seus laptops e telefones inteligentes,  encontrar um canto a fim de escapar do mundo.’

‘Nós confundimos a informação com o conhecimento, e o conhecimento resultante da informação de alguma forma passa por sabedoria.’

‘O homem moderno não é menos uma criatura de conhecimento do que um escravo da informação. Vocês não perceberam que nós nos tornamos viciados na informação.’’

O homem é estúpido por natureza. Ele é estúpido ao extremo e o pior é que ele não sabe da própria estupidez.’

‘Digam-me, do que a idade digital nos liberou? Nós mudamos da convivência com as sombras para tornar-nos prisioneiros das nossas cavernas privadas. É isso o que a idade digital nos trouxe.’

‘Quem é que precisa de pessoas quando temos essa caixa mágica para nos ocupar por toda a vida? Nós não fomos liberados, senhores, nos fomos aprisionados pela nossa própria arrogância.’

A Idade Digital é apenas um tentáculo do monstro da modernidade, segundo o Morador do Café. Na citação abaixo, ele conta porque acredita em Deus, embora o alvo do seu ódio seja a ciência:

‘Você quer saber se eu creio em Deus?… Eu acredito em Deus por raiva. É isso, não fique tão espantado. De raiva da ciência eu acredito em Deus. Veja você, o mundo moderno me dá duas opções: acreditar num constructo que já foi completamente desmascarado e exposto como um conto de fadas, ou submeter à fria indiferença da ciência. Eu escolho o conforto do constructo. Eu escolho acreditar num conto de fadas ao invés de ser enganado pela sedutora lógica da ciência.’

Os Intelectuais

Costumamos entender os intelectuais como sendo indivíduos obviamente cultivados e dotados de uma extraordinária capacidade de explicar as coisas para o público leigo. A designação correta desses indivíduos é ‘intelectuais públicos’, termo que os separam dos demais intelectuais oriundos tanto das artes quanto das ciências e que não escrevem para o grande público.

Desde os últimos duzentos anos muitos intelectuais públicos têm se posicionado como guias e mentores da humanidade. A influência deles aumenta sempre que acontece alguma calamidade. Uma análise isenta de qualquer calamidade deve apontar o conjunto completo de alternativas possíveis, que deve incluir a opção ‘não fazer nada por enquanto’. Entretanto, não foi o que aconteceu nos Estados Unidos logo depois da quebra da bolsa de valores de 1929 que levou à Grande Depressão. Muitos intelectuais norte-americanos condenaram precipitadamente o capitalismo e formaram uma liga de apoio ao socialismo soviético e ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Eles criaram o termo ‘progressivismo’ para servir de manta a esse movimento, e assim, camuflar o que poderia ser interpretado como uma traição aos costumes da liberal democracia da nação norte-americana. E, quando os intelectuais norte-americanos descobriram as atrocidades do regime soviético já no final da década de 30, eles não demonstraram o mesmo interesse em revelá-las a um público já cativo da ideologia socialista.

Os intelectuais públicos são críticos por excelência, mas, raramente, são criticados. No século XX apareceram duas críticas de peso aos intelectuais. A primeira é a do escritor inglês Samuel Johnson, cujo livro Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky, de 2007, faz um apanhado das vidas de doze dos mais importantes intelectuais dos últimos duzentos anos. A segunda é o livro The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes (Os melhores anjos da nossa natureza: o declínio da violência na História e suas causas), do psicólogo experimental Steven Pinker, de 2011. Johnson e Pinker mostraram diversos exemplos de comportamentos indignos por parte dos intelectuais públicos como doutrinamento, alarmismo, extrapolação indevida e a profunda incoerência entre aquilo que afirmam para o público e aquilo que fazem na vida privada.

Johnson faz um apanhado histórico da ascensão dos intelectuais desde os últimos duzentos anos, aproveitando o espaço deixado pelos clérigos e pela crescente especialização das disciplinas. Segundo ele, assim como os antigos clérigos, os novos intelectuais assumiram uma posição quase evangélica e ditaram normas de agir. Numa alegoria a Prometeu, o semideus mitológico dos gregos que roubou o fogo celestial e o trouxe para a terra, Johnson chamou esses primeiros intelectuais modernos de ‘Prometeanos’, pois eles se veem como substitutos dos deuses.

A amostragem de intelectuais que Johnson analisou revelou que a boa imagem do intelectual nem sempre condiz com a realidade e que os intelectuais podem ser instáveis, irracionais, ilógicos, supersticiosos, egoístas, vãos e desonestos. Muitos intelectuais públicos vêm da academia, e aproveitam a fama adquirida para dar palpite em tudo quanto é assunto. É claro que eles têm o direito de fazer isso. Entretanto, as pessoas comuns necessitam ter conhecimento suficiente para enxergar as incoerências dos intelectuais e perceber as implicações não explícitas contidas nas suas asserções. Do nazismo à eugenia e à limpeza étnica, muitas das atrocidades cometidas por líderes políticos ocorreram em resultado de esquemas apontados por intelectuais, afirma Johnson, para quem os intelectuais públicos possuem a aura que encobre os seus preconceitos, enganos e incoerências. Nós costumamos ver os intelectuais como indivíduos não conformistas, mas eles são ultraconformistas quando se encontram dentro de grupos que eles aprovam, diz Johnson. Uma das incoerências mais comuns dos intelectuais analisados por Johnson é o apego ao dinheiro e à riqueza dos intelectuais socialistas.

Pinker concentrou a sua crítica nos intelectuais que vivem atacando o presente e pregando o apocalipse. Muitos desses ataques são injustificados e mesmo que não sejam eles raramente contribuem para encontrar soluções para os problemas apontados. Conforme mostrou Pinker, o intelectualismo desse tipo corrói as instituições modernas como a democracia, a ciência, e o cosmopolitismo que tornaram as nossas vidas não só mais ricas, mas também mais seguras. Finalmente, Pinker descreve as regras que ele gostaria de impor aos ‘entendedores’: ‘Ninguém poderá lamentar qualquer decadência, declínio, ou degeneração sem fornecer (1) uma medida de como é o mundo de hoje; (2) uma medida de como o mundo era em algum ponto no passado; e (3) uma demonstração de que (1) é pior do que (2)’. Segundo Pinker, ‘tais regras acabariam com os enfadonhos vaticínios apocalípticos que abundam em todo o canto’.

As pessoas ordinárias precisam pensar por si próprias e desenvolver uma dose saudável de ceticismo às ideias e aos ensinamentos de terceiros, mesmo que sejam famosos.

Conclusão

A crítica situação do mundo no final do século XX e início do século XXI tem sido encarada das mais diversas maneiras. A maior parte das visões caracteriza-se pelo pessimismo em relação à humanidade e seu futuro. Uma dessas visões é a de que, no tocante ao conhecimento a humanidade, consiste apenas de minoria e massa. Tal visão pessimista aponta que o conhecimento evoluiu, mas a compreensão das coisas continua igual. Trocando em miúdos, o conhecimento teve, sim, uma revolução, só que no sentido de dar uma volta completa na História. A humanidade do século XXI voltou ao ponto de partida da Antiguidade.

Uma sociedade cuja parcela de indivíduos cultivados é insignificante não tem opinião pública, e é incompreensível e caótica. Os três estudiosos do fenômeno das massas no século XX, Ortega, Adorno e Canetti, reconheceram que os diversos desatinos sociais do século XX, como o fascismo e o nazismo, ocorreram devido à subversão da opinião pública. O conhecimento geral habilita o indivíduo para compor a massa crítica e, por conseguinte, a opinião pública, uma condição essencial da boa governança e da democracia. As pessoas não sabem pensar? A internet e as redes sociais bitolam? Em vez de maldizer a situação, é preciso arranjar um modo de fazer com que cada vez mais indivíduos aceitem o desafio do desenvolvimento pessoal, seja dentro do ensino oficial ou fora dele. A educação ao longo da vida é uma promissora terceira via.

Notas

  1. Regime antigo europeu. Embora a Revolução Francesa costume ser usada como o marco divisor entre o regime feudal antigo e o regime moderno, o surgimento dos Estados modernos europeus foi um processo que levou diversos séculos, tendo começado com a Magna Carta inglesa, assinada em junho de 1215, na qual o rei dava certos direitos e garantias aos barões medievais e prometia governar a Inglaterra segundo os costumes da lei feudal.

Bibliografia

Adorno, T. W. & Horkheimer, M. (1997). Dialetic of Enlightenment. Copyright 1944, reprinted 2010. Verso, London.

Canetti, E. (2011). Massa e Poder. Tradução de Sérgio Tellaroli. 3ª reimpressão. Companhia das Letras, São Paulo.

Canetti, E. (1984). Crowds and Power. Copyright 1960. Translated from the German by Carol Stewart. Farrar, Straus and Giroux, New York.

Darwin, C. (1986). The Descent of Man and Sexual Selection (A origem do homem e a seleção sexual). In Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 49. 1ª edição 1871. William Benton, Publisher, Chicago.

Gregory, R. F. (2014). Notes from the Café. Parthenon Books, Nova Iorque. Edição para Kindle.

Habermas, J. (2011). The Structural Transformation of the Public Sphere. Copyright 1989 MIT. Polity Press, Cambridge.

Hume, D. (2002). A Treatise of Human Nature. Oxford University Press, Second edition 1978 (First edition 1888). Reprints 1980, 1981, 1983, 1985, 1987.

Johnson, Paul (2007). Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky. HarperCollins e-books.

Locke, J. (1986). Essay concerning Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano). In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 35. 1ª edição 1690. William Benton, Publisher, Chicago.

Kruger, Justin & Dunning, David (1999). Unskilled and Unaware of it: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6):1121-1134.

Ortega y Gasset, J. (1930). La Rebelión de las Massas. Google electronic books.

Pinker, S. (2011). The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes. Viking, New York.

Plato (1986). The Dialogues of Plato, translated by Benjamin Jowett. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 7, Plato. William Benton, Publisher, Chicago.

Pope, A. (1709). An Essay on Criticism. Fonte: http://poetry.eserver.org/essay-on-criticism.html

Shakespeare, W. (1986). As You Like it. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 26(I), 1ª edição 1690. William Benton, Publisher, Chicago.

Snow, CP (1998). The Two Cultures. With Introduction by Stefan Collini. Cambridge University Press. First published in 1959.

Vargas Llosa, M. (2012). A Civilização do Espetáculo. Quetzal Editores, Lisboa.


Jo (Joaquina) Pires-O’Brien é uma brasileira residente no Reino Unido e a editora de PortVitoria, revista bianual sobre a cultura Ibero-Americana na Europa e no mundo.

Revisão: Carlos Pires e Débora Finamore

O artigo completo foi publicado originalmente em PortVitoria 10, 2015: Pires-O’Brien, J. (2015). O Conhecimento das Pessoas. PortVitoria, 10, Jan-Jun 2014. Fonte: http://www.portvitoria.com/

Anísio Teixeira e Paulo Freire: asas direita e esquerda da educação

Dentre os diversos educadores brasileiros, dois deles se destacaram pelas suas visões da educação como libertação do indivíduo: Anísio Teixeira (1900-1971) e Paulo Freire (1921-1997). Teixeira foi um democrata liberal que lutou pela educação pública de qualidade; Freire foi um democrata social que se destacou na área da educação de adultos. Apesar de suas diferentes ideologias, as suas visões sobre a educação eram muito parecidas: viam a educação como um meio para a liberdade e abominavam o elitismo da educação formal.

Basta ler a biografia de Teixeira para perceber que ele era um autodidata por excelência, que aprendia de tudo com tudo o que via e ouvia, inclusive com a experiência de ter vivido durante duas ditaduras, a do Estado Novo e a ditadura militar de 1964. Baiano de Caetité, Teixeira iniciou a sua carreira como educador aos vinte e dois anos de idade, logo depois de se formar em Ciências Jurídicas e Sociais, no Rio de Janeiro. Teixeira era reconhecido e respeitado tanto pela sua inteligência e elevada cultura geral quanto pela sua decência e integridade. Após ter viajado pela Europa, em 1927 ele fez a sua primeira viagem aos Estados Unidos, voltando da mesma com um caderno de anotações cheio. No ano seguinte, em 1928, ele retornou aos Estados Unidos para fazer um mestrado no Teachers College da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu as ideias do filósofo americano John Dewey (1859-1952), então professor emérito daquela universidade. Dewey foi um dos mais prolíficos acadêmicos da filosofia da educação e tinha uma grande empatia com intelectuais estrangeiros que haviam sofrido perseguições nos seus países. De volta ao Brasil, Teixeira tornou-se um pioneiro em promover a educação para a democracia. No final da década de cinquenta Teixeira participou dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases, e no início da década de sessenta ele colaborou com Darcy Ribeiro na criação da Universidade de Brasília. Teixeira foi um incansável defensor da educação pública e da ideia da educação para a democracia.Anísio Teixeira morreu em 1971, em circunstâncias consideradas obscuras, a despeito do laudo de morte acidental no seu atestado de óbito. O seu corpo foi achado num elevador, na Avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Cogita-se que ele tenha sido morto pelas forças de repressão da ditadura militar.

A biografia de Paulo Freire também joga luz sobre o seu autodidatismo. Nascido no Recife, Freire começou a lecionar enquanto cursava a faculdade de direito da mesma cidade. Ele teve o primeiro contato com a alfabetização de adultos quando tinha apenas vinte anos, ao ser contratado para dirigir o departamento de educação e cultura do Sesi. No início de 1964 Freire foi convidado pelo Presidente João Goulart para coordenar o programa nacional de alfabetização que estava para deslanchar. Entretanto, o programa não foi adiante devido ao golpe militar de 1964. Perseguido pelas suas ideias consideradas subversivas Freire chegou a ser preso, e ao sair da prisão ele se exilou no Chile e depois na Suíça. O seu livro Pedagogia dos oprimidos (1968), escrito no Chile, representa o somatório das suas ideias de pedagogia crítica ou pedagogia libertadora, baseada no questionamento do aprendizado e da sua ligação com a sociedade, assim como na ideia de que o aprendizado beneficia tanto o aluno quanto o professor.

Em 1969 Freire lecionou na Universidade de Harvard, e na década de 1970, serviu ao Conselho Mundial das Igrejas (CMI), com base em Genebra, na Suíça, como consultor para assuntos educacionais, através do qual ele visitou a Zâmbia, a Tanzânia e os países africanos de língua portuguesa. Nessa época ele tomou conhecimento do educador dinamarquês Nikolai Frederik Severin Gruntvig, que inspirou as suas duas obras mais importantes: Pedagogia da esperança (1992) e À sombra desta mangueira (1995). A longa barba que Freire exibiu nos dez anos anteriores à sua morte fez com que se parecesse um Gruntvig brasileiro. Freire foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em 1989 foi o Secretário de Educação do Município de São Paulo, na gestão de Luísa Erundina. Para Freire, a chave da qualidade do ensino é a autonomia da escola, pois permite que se desenvolva de acordo com o seu meio social. Freire serviu de inspiração para os programas educacionais direcionados a  adultos nos Estados Unido, Portugal, Espanha, Argentina e Taipe.

As influências de Freire e de Teixeira estão por trás dos diversos modelos de escolas que surgiram na década de oitenta no Rio de Janeiro e São Paulo, como os Centros Integrados de Apoio à Criança (CIACs) e as diversas variantes do mesmo.


***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your blog or Facebook account.