Como encontrar significado

Como encontrar significado

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos (12 regras para a vida: um antídoto para o caos), de Jordan B. Peterson. Allen Lane, UK, 2018. 409 pp. ISBN 978-0-241-45163- 5.

Eu só ouvi falar de Jordan B. Peterson, o psicólogo canadense cujas aparições no YouTube são assistidas por milhares de pessoas de todo o mundo, ano início de junho deste ano, quando uma amiga me falou sobre um debate acerca do tema ‘politicamente correto’ no qual Jordan participou com Stephen Fry, um escritor e comediante britânico. Aprendi muito assistindo a esse debate no YouTube, inclusive o motivo pelo qual Peterson é descrito pelos jornalistas como o tipo de pessoa que as pessoas amam ou odeiam. Apesar de me situar logo de início entre os primeiros, eu ainda estava relutante em comprar o seu livro 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos (12 regras para a vida: um antídoto para o caos) simplesmente porque o título me lembrava aqueles livros com a expressão “For Dummies” ou “para imbecis” no título. Eu mudei de ideia depois de assistir a uma discussão sobre o pós-modernismo que Peterson teve com Camille Paglia, uma mordaz autora e crítica social americana, publicado no YouTube em outubro do ano passado.

Este é o segundo livro de Jordan, o resultado de uma epifania que ele teve durante uma reunião brainstorming com um amigo e sócio no final de 2016, quando ele imaginou que a caneta lanterna-LED que seu amigo lhe presenteou como sendo uma “caneta de luz” “com a qual ele seria capaz de escrever palavras iluminadas na escuridão”.

Considerando-se que 12 Rules for Life, um livro de 409 páginas foi publicado na primeira parte de 2018, esse é um tempo extraordinário, mesmo para um gênio. A explicação está no primeiro livro de Jordan, Maps of Meaning: The Architecture of Belief (Mapas de significado: a arquitetura da crença),  publicado em 1999, “um livro muito denso” segundo as próprias palavras de Peterson, o qual levou 10 anos para ser escrito, e cujas ideias foram expandidas no 12 Rules. As 12 regras da vida são:

Regra 1. Fique de pé ereto e com os ombros para trás.

Regra 2. Cuide de si como cuida de alguém a quem você é responsável por ajudar.

Regra 3. Faça amizade com as pessoas que querem o melhor para você.

Regra 4. Compare-se com quem você foi ontem, não com outra pessoa de hoje.

Regra 5. Não permita que os seus filhos façam qualquer coisa que faça você desgostar deles.

Regra 6. Deixe a sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo.

Regra 7. Busque o que é significativo (não o que é conveniente).

Regra 8. Diga a verdade – ou, pelo menos, não minta.

Regra 9. Presuma que a pessoa que você está ouvindo possa saber algo que você não sabe.

Regra 10. Seja preciso na sua fala.

Regra 11. Não incomode as crianças quando elas estão fazendo skateboard.

Regra 12. Acarinhe um gato quando você encontrar um na rua.

Ao explicar a regra 1, “Fique de pé ereto e com os ombros para trás”, o autor mostra que essa é uma característica que evoluiu, associada ao status e à posição social, não apenas no homem, mas em outros animais, como as lagostas. O capítulo inteiro é uma lição de biologia sobre as hierarquias intraespecíficas do reino animal, que resultam da competição por recursos limitados. Existem substâncias químicas corporais específicas associadas à hierarquia das galinhas e à maneira como as aves canoras estabelecem a dominância. Embora a evidência biológica aponte a existência de hierarquias em humanos, admitir isso tornou-se politicamente incorreto. Talvez a noção de hierarquia humana tenha se tornado uma espécie de ‘monstro’ para indivíduos com uma determinada personalidade, o que provavelmente é o motivo pelo qual Peterson gosta de repetir que os monstros existem, afinal de contas. Mas faz sentido que as pessoas fiquem eretas quando estão bem, e se curvam quando não estão, mas a mensagem é que alguém pode se recompor e ficar eretas novamente. “Fique de pé ereto e   com os ombros para trás” é uma metáfora para aceitar as muitas responsabilidades da vida, mesmo as mais terríveis e difíceis. A aceitação da responsabilidade equivale a uma intenção de encontrar sentido na vida e respeitar a si mesmo. A brutal distribuição de recursos na palavra de hoje, onde um por cento da população tem até 50 por cento, é o que torna difícil aceitar a responsabilidade:

A maioria dos artigos científicos é publicada por um grupo muito pequeno de cientistas. Uma pequena proporção de músicos produz quase toda a música comercial gravada. Apenas um punhado de autores vendem todos os livros. Um milhão e meio de títulos de livros (!) são vendidos todos os anos nos EUA. No entanto, apenas quinhentos deles vendem mais de cem mil cópias. Da mesma forma, apenas quatro compositores clássicos (Bach, Beethoven, Mozart e Tchaikovsky) escreveram quase toda a música tocada pelas orquestras modernas. Bach, por sua vez, compôs de maneira tão prolífica que levaria décadas de trabalho apenas para copiar as suas partituras, mas apenas uma pequena fração dessa prodigiosa produção é comumente executada. O mesmo se aplica à produção dos outros três membros deste grupo de compositores hiperdominantes: apenas uma pequena fração de seus trabalhos é amplamente tocada. Assim, quase toda a música clássica que o mundo conhece e ama representa uma pequena fração da música composta por uma pequena fração de todos os compositores clássicos que já compuseram algo.

A situação acima é descrita por um gráfico em forma de ‘L’ conhecido como lei de Price, onde o eixo vertical representa o número de pessoas e o eixo horizontal representa a produtividade ou os recursos. É também é conhecido como ‘Princípio de Mateus’, devido a uma citação do Novo Testamento (Mateus 25:29), onde Cristo disse “àqueles que têm tudo, mais será dado; para aqueles que não têm nada; tudo será levado.” Esta citação vem da Parábola dos Talentos, onde Cristo reconhece que as pessoas não são iguais em termos de iniciativa e diligência. O principal ponto que Jordan está tentando fazer é que as hierarquias são parte da vida. As hierarquias evoluíram durante longos períodos de tempo no reino animal, não apenas no homem. Da perspectiva darwiniana, o que importa é a permanência. A hierarquia social não é um conceito novo; já existe há meio bilhão de anos e é real e permanente. A natureza é o que ‘seleciona’, e algo selecionado é tanto mais permanente quanto mais antigo for. A natureza não é tão harmoniosa, equilibrada e perfeita como é imaginada pelas mentes românticas. Há muito mais neste capítulo, por exemplo, como o fato de que todo indivíduo tem dentro de si uma ideia de sua posição na sociedade. Os status baixo e alto são reais. Há ansiedade em ambas as realidades. Sem dúvida, isso é intragável para muitos, mas é a realidade. Agir com responsabilidade no mundo de hoje exige aceitar a realidade e trabalhar com ela. Finalmente, existem formas autodestrutivas e maneiras inteligentes de viver com responsabilidade: “Procure a sua inspiração na vitoriosa lagosta, com os seus 350 milhões de anos de sabedoria prática. Fique de pé ereto e com os ombros para trás.”

Eu fiquei particularmente atraída pela regra 9: “Presuma que a pessoa que você está ouvindo possa saber algo que você não sabe”. Nesta regra, Peterson explica a ciência das interações humanas, enfatizando a atenção e a conversação. Muitas das ideias que Peterson apresenta a respeito dessa regra vêm de sua prática como psicólogo clínico, a qual lhe deu uma grande amostra do isolamento moderno e seus efeitos colaterais secundários. Ele escreve:

As pessoas que eu escuto precisam conversar, porque é assim que as pessoas pensam. As pessoas precisam pensar. Caso contrário, eles vagam cegamente em dentro de fossas. Quando as pessoas pensam, elas simulam o mundo e planejam como agir nele. Se eles fizerem um bom trabalho de simulação, eles poderão descobrir quais as coisas idiotas eles não deveriam fazer. Então eles não irão fazê-las. Então eles não precisarão sofrer as consequências. Esse é o propósito de pensar. Mas não podemos fazer isso sozinhos. Simulamos o mundo e planejamos nossas ações nele. Somente os seres humanos fazem isso. Nós somos brilhantes nisso. Nós fazemos pequenos avatares de nós mesmos. Colocamos esses avatares em mundos fictícios. Então nós assistimos o que acontece. Se o nosso avatar prospera, então agimos como ele, no mundo real. Então nós prosperamos (é o que esperamos). Se o nosso avatar falhar, nós não vamos lá, se tivermos algum juízo. Nós o deixamos morrer no mundo fictício, para que não tenhamos que realmente morrer no mundo real.

A conversação é uma coisa fundamental na vida humana mas mesmo assim ainda não sabemos como conversar corretamente; a conversação é muitas vezes é dificultada por não ouvirmos corretamente ou por não sermos completamente honestos. Peterson chama de “posição de jóquei” a situação em uma conversa em que as pessoas pensam mais na resposta que querem dar do que no que está sendo dito. Uma boa conversa, do tipo em que as pessoas trocam opiniões entre si, está se tornando algo raro. A alternativa à conversação padrão envolvendo dois ou mais interlocutores é a reflexão, que involve pensar com circunspecção e e profundidade. Podemos criar uma conversa em nossas mentes, refletindo profundamente e representando nosso ponto de vista e o de outra pessoa. A autocrítica frequentemente passa por reflexão, mas não é pois não tem o necessário diálogo. Como Peterson mostra, a conversação é uma ótima oportunidade para organizar pensamentos de forma eficaz e limpar as nossas mentes. Colocando de outra maneira, a conversação é a chave para uma boa saúde mental.

A simplicidade é uma característica de todas as 12 regras para a vida prescritas por Peterson. Essa simplicidade vem da visão da ponta de um iceberg de significado. Entretanto, é preciso esforço para entender por completo o iceberg de significado. Há muito significado por trás de cada uma dessas 12 regras de vida. Todas as 12 regras baseiam-se em descobertas científicas ou na sabedoria de narrativas antigas e seus arquétipos, ou em ambas as coisas. O significado, segundo Jordan, é a coisa mais importante que alguém poderia desejar na vida, pois nos permite encontrar o equilíbrio entre a ordem e o caos. Uma condição necessária para o significado é a verdade. Muitas pessoas são incapazes de aceitar o mundo como ele é, e em vez disso, preferem manter a ideia de como o mundo deveria ser. Esse é o tipo de pessoa que odeia Jordan e tenta difamá-lo.

O livro 12 Rules for Life de Jordan B. Peterson situa-se no topo da lista dos livros de autoajuda e a razão para isso é a clareza com que o autor retrata os problemas da vida e as formas como as pessoas lidam com eles, o que, por sua vez, se deve ao fato de que Jordan é um intelectual público e um psicólogo de classe mundial, bem como um indivíduo que já experimentou uma boa dose de problemas em sua própria vida. O livro de Peterson oferece maneiras inteligentes de lidar com os problemas da vida moderna, do isolamento social e abuso de álcool ou substâncias químicas, ao niilismo e à incapacidade de aceitar a verdade sobre o mundo; podemos incluir nesta lista uma gama de distúrbios mentais que vão da ansiedade à depressão. Significado, e  não felicidade, é o objetivo dessas 12 regras. Felicidade é um termo que deriva de ‘feliz’, mas ‘feliz’ não é sinônimo de ‘bom’. Bom inclui uma série de coisas como autorrespeito e a ‘Regra de Ouro’ em relação ao tratamento das outras pessoas; aquilo que nos permite viver nossas vidas com integridade e com esperança de melhorias é  ‘bom’, enquanto o oposto disso é ‘inferno’. Somente através de significado podemos escapar do ‘inferno’ e ter coragem necessária para enfrentar as tragédias da vida.

                                                                                                                                       

Joaquina Pires-O’Brien é tradutora, ensaísta e ex-botânica e bióloga brasileira, residente na Inglaterra. O seu livro de ensaios O homem razoável (2016) foi também publicado em espanhol e encontra-se disponível na Amazon em edições brochura e Kindle. Em 2010 ela criou a revista digital PortVitoria, voltada para cultura ibérica no mundo, em inglês, português e espanhol.

Nota. O livro de Jordan Peterson 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos está para ser lançado em português pela Alta Books Editora, como  “12 regras para a vida: um antídoto para o caos”.

Anúncios

Jaron Lanier e a máquina Bummer de fazer cabeças

Jaron Lanier e a máquina Bummer de fazer cabeças

Um tecnólogo de informação americano chamado Jaron Lanier é também autor de diversos livros de crítica da Idade Digital, como You are not a Gadget: A manifesto (Você não é um gadget: Um Manifesto; 2010), Who Owns the Future? (Quem é dono do futuro?; 2013), Dawn of the New Everything: A Journey Through Virtual Reality (O nascer do novo tudo: uma jornada através da realidade virtual; 2017). Lanier acaba de publicar seu quarto livro, intitulado Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now (Dez argumentos para deletar já as suas contas de mídia social; 2018), no qual denuncia o Vale do Silício de um modo geral, e o FaceBook, em particular, como uma verdadeiras máquinas de fazer cabeças.

Lanier batizou a máquina de fazer cabeças de ‘Bummer’, um acrônimo da frase “Comportamento de Terceiros, Modificado e Transformado num Império para Alugar” (do inglês  “Behaviour of Others, Modified, and Made into an Empire for Rent”).

O texto abaixo foi extraído da matéria de Danny Fortson publicada na The Sunday Times Magazine, de 19.05.2018, acerca do novo livro de Lanier Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now:

 

No coração de sua preocupação está o acoplamento do smartphone, um supercomputador sempre ligado, e dispositivo de rastreamento, e propaganda, que foi completamente transformado de um aborrecimento periódico que se materializaria em lugares definidos – durante o seu programa de televisão favorito, em um outdoor, em uma revista – em outra coisa completamente. “Todo mundo que está na mídia social está recebendo estímulos individualizados e continuamente ajustados, sem interrupção, desde que usem seus smartphones”, ele escreve. “O que poderia ter sido chamado de publicidade agora deve ser entendido como modificação contínua de comportamento em uma escala titânica.”

Ainda mais alarmante: a máquina Bummer está ficando mais forte a cada dia, porque o que os algoritmos precisam mais que tudo são dados para analisar e comportamentos para analisar. … Quanto mais matéria-prima os algoritmos têm para trabalhar, mais eficazes eles se tornam. Daí o pedido de Lanier para a exclusão em massa: “O arco da história se inverteu com a chegada da máquina Bummer”, diz ele. “Parar é a única maneira, por enquanto, de aprender o que pode substituir nosso grande erro.”

O argumento é o seguinte: os algoritmos são otimizados para criar engajamento e funcionam extremamente bem. O milênio médio verifica seu telefone 150 vezes por dia. É tipicamente a primeira coisa que eles fazem quando se levantam e a última coisa antes de irem dormir. Mais de 2 bilhões de pessoas estão no FaceBook, aproximadamente o mesmo número de seguidores do cristianismo.

O resultado é que a sociedade “escureceu alguns tons”, argumenta Lanier. “Se você não vê os anúncios obscuros, os queixosos do ambiente, os memes frios que alguém vê, essa pessoa vai parecer louca. E esse é o nosso novo mundo Bummer. Parecemos loucos um ao outro porque Baummer está nos roubando as teorias da maioria das mentes uns dos outros.”

A nossa solução é ser como um gato, isto é, ser imune à instrução ou controle. Abandonar a mídia social é a maneira mais objetiva de resistir à insanidade de nossos tempos.

Aqui estão os 10 motivos de Lanier por que as pessoas devem excluir suas contas de mídia social:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio;
  2. Abandonar as mídias socialisé a maneira mais objetiva de resistir à insanidade de nossos tempos;
  3. As mídias sociais estão transformando você em um idiota;
  4. As mídias sociais estão minando a verdade;
  5. As mídias sociais estão fazendo o que você diz sem sentido;
  6. As mídias sociais estão destruindo a sua capacidade de empatia;
  7. As mídias sociais estão deixando você infeliz;
  8. As mídias sociais não querem que você tenha dignidade econômica;
  9. As mídias sociais estão tornando a política impossível;
  10. As mídias sociais odeiam a sua alma;

***

O texto acima foi tirado da entrevista de Danny Fortson a Jaron Lanier, publicada no The Sunday Times Magazine, 19.05.2018, sobre o recente livro de Lanier Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now

Armadilhas do Liberalismo?

Por que eu não escrevo um blog mostrando as armadilhas do liberalismo? Porque a meu ver o liberalismo já tem excelentes depreciadores. Um depreciador do liberalismo bastante reconhecido no século XXI é o filósofo alemão Carl Schmitt (1888-1985), jurista e teorista do direito e da política. Embora Schmitt só tivesse apoiado o Nazismo depois que Hitler chegou ao poder, em 1933, ele gozou de um enorme prestígio nos primeiros anos do governo de Hitler, quando costumava defender políticas nazistas que iam contra as leis, como as execuções extrajudiciais. Schmitt era um conservador que detestava os liberais e os judeus. Em 1936 ele defendeu a ideia nazista de remover os livros de autores judeus das bibliotecas, mas apesar de seus esforços no sentido de ganhar a simpatia dos nazistas, ele acabou caindo em desgraça junto aos mesmos, e acabou sendo demitido da universidade onde lecionava Direito. Depois da Guerra, Schmitt usou esse particular para tecer a sua defesa, quando foi inquirido pelos promotores do Tribunal de Nuremberg. Schmitt escapou das acusações e retornou à sua cidade natal de Plettenberg, na Westfália, lá ficando até a sua morte em 1985, aos 96 anos.

Por que o liberalismo* é odiado tanto pela extrema Esquerda quanto pela extrema Direita?  Por acaso seria porque consideram a crença dos liberais, de que as pessoas são essencialmente racionais e capazes de resolver as suas disputas políticas através do diálogo e da mútua transigência, uma utopia? Seria porque Marx disse que o liberalismo é a ideologia do capitalismo? Ou seria o resultado de um ressentimento típico da mentalidade do escravo descrita por Nietzsche no ensaio ‘A genealogia da moral’? Embora seja impossível saber os motivos do ódio que os extremistas de Esquerda e de Direita têm pelo liberalismo, a afirmação de Schmitt de que “o liberalismo é uma fachada útil da elite dominante” sugere velho motivo do ressentimento de classe.

 

* O ideal do liberalismo é  um contínuo global tolerante a seres humanos de individualidades diversas, mas com direitos iguais, e cujos direitos de identidade são protegidos por leis baseadas em valores universais.

 

O que é Humanismo?

“Um sistema de pensamento racionalista que atribui importância primordial ao humano ao invés do divino ou das questões supernaturais.” (Oxford English Dictionary)

“A rejeição da religião a favor do progresso da humanidade pelos seus próprios esforços.” (Collins Concise Dictionary)

“…uma filosofia não religiosa, baseada em valores humanos liberais.” (Little Oxford Dictionary)

“…a busca, sem a religião, do melhor nos seres humanos, e para os mesmos.” (Chambers Pocket Dictionary)

“…um apelo à razão em contraposição à revelação ou autoridade religiosa como um meio de descobrir o mundo natural e o destino do homem, fornecendo ainda um alicerce para a moralidade… A ética humanista é também distinguível pela colocação do fim da ação moral no bem-estar da humanidade ao invés de no cumprimento da vontade de Deus.” (Oxford Companion to Philosophy)

Diferentemente dos religionários, os humanistas não têm fé. Ter ‘fé’ significa ter uma forte crença em algo sem prova. Os humanistas são essencialmente céticos. Enquanto as pessoas religiosas podem oferecer respostas supernaturais a das questões fundamentais acerca da vida, do universo, e de todas as coisas, os humanistas preferimos deixar um ponto de interrogação. Os humanistas são ateístas (o que significa ‘sem deus’), ou agnósticos (um termo criado no século XIX pelo biólogo Thomas Henry Huxley, para designar ‘sem conhecimento’, pois Huxley afirmou uma vez que ninguém pode provar ou desprovar a existência de Deus).

Os humanistas rejeitam a noção da pós-vida; nós achamos que essa vida é a única que temos, e que precisamos aproveitá-la ao máximo.

Os humanistas não têm o equivalente da Bíblia ou do Corão, ou um livro de regras para guiar-nos pela vida, embora nós podemos nos referir às grandes obras da história, da filosofia e da literatura. Não é necessário ter lido a história das ideias humanistas, mas a maioria dos humanistas, que é formada por pessoas curiosas e inquisitivas, irá investigar as ideias que nos interessam.

Podemos traçar as influências humanistas a mais de 2.500 anos atrás, ao sábio chinês Confucius e aos filósofos, cientistas e poetas da antiguidade. Um deles foi o filósofo grego Epicuro, que, partindo do princípio de Aristóteles de que a felicidade humana depende da boa conduta, definida como ter uma vida boa, de prazeres e amizades, ausência de dor e paz na mente. Os seus discípulos incluíam mulheres e escravos, algo que na época era quase impensável. Epicuro afirmou, “De todos os fins pelos quais a sabedoria traz felicidade na vida, de longe o mais importante é ter amizades”.

Por muitos séculos, não era seguro expressar abertamente pontos de vista não ortodoxos acerca da religião, mas o surgimento da Idade da Razão e do Iluminismo, nos séculos XVII e XXVIII, gradualmente permitiu que isso se tornasse possível, embora com cautela. Algumas pessoas descreveram-se como sendo ‘racionalistas’, ‘secularistas’ ou ‘livre pensadores’, termos que ainda são empregados pelos humanistas de hoje.

Charles Darwin, cuja teoria da evolução causou um enorme impacto na nossa compreensão acerca de onde viemos, foi uma forte influência no humanismo. A cientista Marie Curie, a feminista do século XVIII Mary Wollstonecraft, os autores Thomas Hardy e George Eliot, o Primeiro Ministro da Índia independente, Jawaharlal Nehru, e o criador americano do seriado de TV Star Trek, Gene Roddenberry, são apenas algumas das pessoas influentes que viveram pelos princípios humanistas.

O professor Richard Dawkins, um incansável advogado do secularismo, afirmou, “Eu cheguei às minhas crenças, como todo mundo devia fazer, pelo exame das evidências”. Muitos humanistas resolveram as suas próprias crenças e se encantam ao descobrir que outras pessoas chegaram a conclusões semelhantes. Porque somos pensadores independentes, os humanistas discordamos acerca de muitas coisas, mas a maioria de nós concorda com alguns princípios básicos. Nós acreditamos que devemos assumir a responsabilidade pelo nosso comportamento e pela maneira como o mesmo afeta as outras pessoas e o mundo onde vivemos. Porque nós acreditamos que essa é a única vida que nós temos, nós acreditamos que é importante tentar viver uma vida plena e feliz, e ajudar os outros a fazer o mesmo.

Os humanistas estiveram envolvidos na criação das Nações Unidas; nós valorizamos os direitos humanos, a liberdade de comunicação, a liberdade do medo, da carência e do sofrimento, e uma educação livre de preconceitos e da influência das poderosas organizações religiosas ou políticas.

No seu livro ‘Humanism, an introduction’ (Humanismo, uma introdução), Jim Herrick escreveu, “O humanismo é a mais humana filosofia de vida. A sua ênfase é no humano, no aqui e agora, o humanitarismo. Não se trata de uma religião e não possui nenhum credo formal, embora os humanistas tenham crenças. Os humanistas são ateístas ou agnóstico e não esperam uma pós-vida. É essencial para o humanismo trazer valores e significação à vida”.

Em 1996, a Assembleia Geral da União Humanista & Ética Internacional (IHEU) adotou a seguinte resolução. Qualquer organização que desejar tornar-se um membro da IHEU é doravante obrigada a validar a sua aceitação da declaração abaixo:

O humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e de moldar suas próprias vidas. Significa ser a favor da construção de uma sociedade mais humanitária através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais à luz da razão e da livre inquirição através das capacitações humanas. Não é teísta, e não aceita visões supernaturais da realidade.

Nota: Fonte: http://suffolkhands.org.uk/humanism/, 27.09.2017. Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK).

PS. A autora edita a revista digital PortVitoria, centrada na cultura ibérica no mundo.

***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world, in Portuguese, Spanish & English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.

A república enferma

Joaquina Pires-O’Brien

Aqueles que não conseguem se lembrar da História estão condenados a repeti-la. George Santayana

A República de Roma surgiu em torno de 509 AEC com a destituição dos reis de toda a região. No início Roma era pequena, mas aos poucos foi conquistando outros territórios e países. No ano 44 AEC, marcado pelo assassinato de Júlio César no ides de março, dia 15, a República de Roma já era um Estado rico e poderoso. Acontece que o poder corrompe sem distinção de classes e a história de Júlio César e do seu assassinato é uma lição ainda válida sobre o jogo do poder e as nefastas consequências.

Roma era governada pelo Senado Romano, que era a sua figura representativa. Mas o poder do Senado era concentrado no executivo e no judiciário. Assim, quem propunha legislações não eram os senadores e sim os cônsules, que eram magistrados. O Senado apenas avaliava tais legislações, juntamente com os Tribunos da Plebe. A entidade chamada ‘Senado e o Povo Romano’ (SPQR, ou Senatus Populusque Romanus), distinguia os membros do Senado dos demais cidadãos em termo de classes. Os próprios membros do Senado eram separados entre aristocratas e conscritos (conscripti) da plebe. Internamente o dono do poder era o Povo Romano, através da Comissão Centúria (Comitia Centuriata), da Comissão dos Povos Tribais (Comitia Populi Tributa), e do Conselho do Povo People (Concilium Plebis). A legislação era obtida em diversas assembleias que elegiam os magistrados e agiam segundo as recomendações do Senado.

O Senado enviava e recebia embaixadores, nomeava os governadores das províncias, oficiais militares, declarava guerras, negociava paz e apropriava fundos para obras públicas. Mais ou menos no final da República de Roma o Senado começou a dar o título ‘ditador’ em caráter excepcional como durante crises graves. Como medida de precaução contra ditaduras, o próprio Senado declarou os seus membros defensores da República (senatus consultum ultimum). O Senado era presidido por 2 cônsules eleitos que se alternavam a cada mês.

Os senadores eram apontados pelos equitos (equites), e selecionados pelos Cônsules, Tribunos e mais tarde pelos Censores. Eles também podiam ser selecionados dentre os cidadãos nomeados para a magistratura. Os senadores não tinham os mesmos poderes. Nem todos tinham direito a votar e dos que votavam nem todos tinham o direito de falar. E dentre os que podiam falar, o patrício sempre tinha prerrogativa em relação ao plebeu. Os senadores votavam nos assuntos ordinários por aclamação ou levantando a mão. Quando o assunto em questão era importante, então o quorum era demandado e os senadores se aglomeravam em setores diferentes.

Na época de Júlio César, a República Romana já se encontrava enferma e há muito havia esquecido os antigos valores da virtude e da honra. O Senado Romano encontrava-se dividido por facções que não se entendiam, e as famílias da nobreza se consumiam para ganhar cada vez mais poder, mais terras e mais despojos de guerra. Mas é um engano pensar que todos os romanos pertenciam ou à aristocracia corrupta ou à plebe manipulada. Roma tinha também cidadãos que se preocupavam em cultivar a virtude e a honra, como os seguidores de Epicuro, mas esse grupo minoritário era ignorado pela República.

***

Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world, in Portuguese, Spanish & English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.

Colóquio: Richard Dawkins: o revolucionáro racional

Colóquio: Richard Dawkins: o revolucionáro racional

Joaquina Pires-O’Brien

‘Richard Dawkins:The Rational Revolutionary’, ou, em português, ‘Richard Dawkins: o revolucionáro racional’, é o título do colóquio que eu tive a oportunidade de assistir em 14 de julho de 2016, em Londres, promovido pela Intelligence Squared (intelligence2; Inteligência ao Quadrado), um fórum mundial de debates inteligentes fundado em 2002 em Londres, com o objetivo de celebrar os 75 anos do cientista bem como os 40 anos da publicação de O gene egoísta (The Selfish Gene, 1976) e os 10 anos de Deus, um delírio (The God Delusion, 2006). O colóquio teve lugar no auditório do Immanuel Centre, em Londres, não muito distante do Parlamento. Em adição ao próprio Dawkins, havia outros seis palestrantes: o jornalista e autor Jonathan Freedland (1967 -), que atuou como Presidente, a psicóloga, professora universitária e escritora Susan Blackmore (1951 -), o ilusionista e autor Derren Brown (1971 -), o dramaturgo e escritor Michael Frayn (1933 -), e através de ligação por vídeo, o filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett (1942 -) e o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker (1954 -).

É interessante notar que dentre os palestrantes havia três não-cientistas, todos três confiantes na própria capacidade de discutir ciência com Dawkins, Dennett, Pinker e Blackmore. Dentre os não-cientistas, o que mais atraiu a curiosidade foi o ilusionista Deren Brown, que notabilizou-se pela prática da sugestão psicológica, com a qual ele é capaz de desbancar as pretensões de espiritualistas e milagreiros. Michael Frayn é o autor da peça de teatro ‘Coppenhagen’ que foi atuada com sucesso em Londres e Nova Iorque, e que trata da física quântica e do desenvolvimento da bomba atômica. Jonathan Freedland, o Presidente, é um jornalista e radialista premiado, crítico literário, e autor de diversos livros de não-ficção e de ficção.

O presente ensaio é a minha versão desse evento, compilado a partir das anotações que fiz durante o mesmo. Reconheço que não é uma transcrição completa mas sim um esboço daquilo que consegui capturar. Peço desculpas adiantadas por falhas eventuais que possa ter cometido.

Abertura do Colóquio

O colóquio ‘Richard Dawkins: The Rational Revolutionary’ ocorrido em 14 de julho de 2016, no auditório principal do Emmanuel Centre, na Marsham Street, Westminster, contou com a participação de cerca de 600 pessoas. Os palestrantes sentavam-se em cadeiras voltadas ao público: Frayn, Dawkins, Freedland, Blackmore e Brown. Acima desses ficava um telão, onde as imagens de vídeo dos outros dois participantes Dennett e Pinker seriam projetadas.

Dois painéis com citações bíblicas, localizados em ambos os lados do telão acima mencionado, mostravam que o local se tratava de uma igreja cristã. O do lado esquerdo tinha a inscrição ‘I am that they might have light and that they might have it more abundantly. John 10:10’, enquanto que a do lado direito dizia ‘Immanuel: God with us. Matt. 1:23’. Os presentes no colóquio certamente notaram a ironia de evento de ateístas ser realizado numa igreja cristã.

De início, Hanna, a representante da Intelligence Squared, apresentou cada um dos participantes, e, em seguida, ela deu a palavra ao jornalista, radialista e ator Stephen Fry, o qual falou através de vídeo, louvando o homenageado Dawkins. Dando início ao colóquio propriamente dito, o seu Presidente, Jonathan Freedland, começou afirmando que o evento daquela noite seria mais uma conversação do que um debate, mas uma conversação especial pois envolveria alguns dos mais influentes pensadores da atualidade.

O gene egoísta

Freeland começou pedindo a Dawkins que explicasse o porquê dele ter se arrependido de ter usado a expressão ‘gene egoísta’. Dawkins respondeu que era porque muita gente julga os livros pelos seus títulos, e, no caso do livro O gene egoísta, muita gente interpretou a palavra ‘egoísta’ ao pé da letra e não metaforicamente como ele havia intencionado. Segundo Dawkins, o seu livro O gene egoísta chegou a ser associado com a ascensão de Margareth Thatcher ao cargo de Primeira Ministra, cuja política de privatizações e defesa do livre mercado fez com que fosse vista por muitos como uma pessoa egoísta. Dawkins disse ter cogitado o título ‘The Immortal Gene’ (O gene imortal), mas que o seu editor tinha preferido ‘O gene egoísta’. Os outros participantes concordaram que o título ‘O gene egoísta’ era por si provocante, mas afirmaram que isso era uma boa razão para mantê-lo.

Genes como replicadores e os memes

Blackmore falou que o sentido da palavra ‘egoísmo’ no livro O gene egoísta tinha a ver com a tremenda capacidade de autorreplicação do gene, a qual envolve copiar informação e passá-la a um novo organismo através da reprodução sexuada; falou dos erros que podem ocorrer durante a cópia das informações genéticas, e, que tais erros levam às variações que costumam aparecer.

Blackmore abordou o tópico dos ‘memes’ palavra criada por Richard Dawkins a partir da palavra grega ‘mimeme’, que quer dizer ‘imitar’, e introduzida no seu livro O gene egoísta. Os ‘memes’ de Dawkins são outras coisas auto-replicáveis, podendo ser ideias ou qualquer coisa cultural; os ‘memes’ podem advir da ciência, da arte e da música, e até de coisas como a moda. Assim como os genes, os memes também sofrem alterações durante esse processo de propagação. Conforme Blackmore, a religião é uma fonte poderosa de memes. “Se você acredita que seja uma boa pessoa, você não consegue acreditar que seja uma má pessoa, e assim sendo, continua a agir de uma mesma forma”.

A ideia perigosa de Darwin

Dennett falou acerca do processo de adaptação dos organismos através da seleção natural descoberta por Charles Darwin, e, porque tal processo foi e ainda é considerado uma ideia perigosa. Conforme ele próprio descreveu no seu livro Darwin’s Dangerous Idea (A Ideia Perigosa de Darwin; 1995), a explicação natural para o surgimento das espécies, através do processo de adaptação ao ambiente, contraria as explicações sobrenaturais contidas nos livros de revelação religiosa.

Por que a seleção natural demorou tanto para ser descoberta

Dawkins afirmou que o fato da seleção natural só ter sido descoberta no século XIX é algo que sempre o intrigou. Por que não Aristóteles ou outro que veio depois dele? Uma possível explicação dele para tal atraso é que a enorme beleza do mundo possivelmente predispôs o homem a aceitar a explicação supernatural da existência do universo.

Fayn apontou que tanto Darwin quanto Wallace (Alfred Russell W.) eram naturalistas de campo, e que esse pode ter sido o fator crítico da descoberta da seleção natural. Blackmore completou que a descoberta da seleção natural tirou o homem do pedestal que antes ocupava. Segundo Pinker, a descoberta da seleção natural decorreu tanto da intuição de Darwin quanto do fato dele ter ligado a riqueza da vida na Terra à reprodução dos organismos. Retomando a palavra, Dawkins levantou a possibilidade de que a ‘forma ideal’ do essencialismo platonista – a ideia de que cada entidade específica possui um conjunto de atributos tal,  necessário para a sua identidade e função – possivelmente teria dificultado imaginar formas em mutação.

A fé e o poder psíquico

Derren Brown, um conhecido ilusionista inglês que iniciou uma carreira na televisão em dezembro de 2000 com a série Mind Control (Controle da mente), é também um desmascarador da arte da manipulação psicológica. Para Brown, o poder psíquico costuma ser empregado por pregadores religiosos para demonstrar o poder do divino, quando na verdade é um fenômeno inteiramente natural. Brown falou que embora ele sempre tivesse deixado isso claro para as suas audiências, que ocasionalmente as pessoas pedem a ele que se comuniquem com indivíduos já falecidos, o que mostra que muita gente não consegue abrir mão do supernatural.

Novos ateístas

Foi colocado a Dennett que ele faz parte do grupo conhecido como ‘novos ateístas’ (autores do início do século XXI que escreveram livros promovendo o ateísmo, os quais incluem Dennett, Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris). Dennett é autor de Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (Quebrando o encanto. A religião como fenômeno natural; 2007) e Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind (Apanhado no púlpito: deixando para trás a crença; 2013), com Linda LaScola. Dennett falou que o termo ‘novos ateístas’ simplesmente se refere a ateístas declarados, pois são muitas as pessoas que não revelam que são ateístas. Ele acha que o número de ateístas declarados nos Estados Unidos cresceu desde a publicação do seu livro (Breaking the Spell). Segundo ele, era comum na classe dos professores universitários não desejar impor seus ateísmos, mas que agora muitos já decidiram não mais continuar no papel de ‘acadêmicos ateístas gentis’.

A visão antiga do ateísmo

Frayn lembrou como era a visão antiga do ateísmo na época que ele havia se alistado no exército britânico. Ele conta que, quando escreveu que era um ateísta no formulário de dados pessoais, o seu supervisor imediato não entendeu o que ele havia escrito e presumiu que ele era ‘essayist’ (ensaísta). Frayn confessou que embora ele tivesse se declarado ateísta desde jovem, que hoje em dia ele já não gosta de ser rotulado um ateísta, pois ser ateísta significa simplesmente alguém que não crê em Deus, enquanto que existe muitas outras coisas que ele também não acredita, o que faz dele ‘a-cinderelista’, ‘a-papainoelista’ e mais um monte de ‘a-coisistas’.

O grande tecido da religião

Frayn disse ter dificuldade de entender não apenas por que as pessoas creem mas também por que muitas pessoas não conseguem mudar de ideia seja qual for o motivo. A explicação dele é que as pessoas desejam fazer parte do ‘grande tecido da religião’ e, consequentemente, não refletem acerca dos motivos para seguir determinada religião. Uma evidência disso é o fato dos congressistas americanos serem em sua maioria religiosos.

O consolo da religião

Frayn levantou a questão de que a religião dá consolo, e portanto, se seria uma boa coisa tirar do povo esse consolo. Blackmore respondeu que no seu caso, ela preferiria sempre a verdade sobre qualquer outra coisa. Frayn assumiu o papel de advogado do diabo e perguntou: ‘Que mal pode fazer se as pessoas vão à igreja e se sentem bem com isso?’ Dawkins respondeu afirmando que a fé religiosa leva ao sentimento anti-ciência e contra os cientistas. Entretanto, alguém mostrou que há muitos cientistas que declaram ter fé religiosa. Como explicar isso? O fato de alguém declarar ter fé religiosa não significa que esteja falando a verdade. Muita gente pensa que não existe outra fonte de moralidade senão a religião, e isso é um motivo para afirmar ter crença religiosa mesmo sem ter. As pessoas têm as mais diversas razões para frequentar igrejas: lealdade, comunidade tribal, gostar dos hinos, gostar do vigário etc. Entretanto, há muitas outras fontes de consolo sem ser a religião como a amizade e o amor.

Vigários que não creem

Dennett falou que existe muitos vigários (pastores protestantes) que não são crentes mas mesmo assim continuam desempenhando o papel de crente. Tal afirmação é o resultado de entrevistas confidenciais realizadas com clérigos de diversas denominações, o qual foi publicado no livro que ele escreveu junto com Linda LaScuola: Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind; 2013.

O Islã como fonte atual do mal

O próximo tema discutido foi a religião islâmica. Dawkins afirmou que embora outras religiões tivessem cometido atrocidades no passado, no presente é o islamismo que as tem cometido. O próprio islamismo é a fonte de poder para tais atrocidades. A sua escritura sagrada, o Corão, ordena cortar cabeças, chicoteamentos, apedrejamentos, jogar homossexuais em abismos, etc. Não há como negar que o islamismo seja uma fonte atual do mal.

Relação entre as ciências e as artes

Freedland perguntou se o hiato identificado entre as ciências e as artes ainda existe ou se tem diminuído. A seu ver, ainda há muitas pessoas oriundas das artes que não conseguem entender as ciências, e muitos cientistas que não entendem as artes. Dawkins lembrou que Frayn, um oriundo das artes, escreveu a peça teatral Copenhague, para a qual ele precisou compreender bem a física quântica, uma das mais difíceis áreas da ciência. Abrindo um parêntese, a peça de Frayn é centrada em dois encontros fictícios entre os físicos quânticos teóricos, Werner Heisenberg (1901-76) e Niels Bohr (1885-1962), um em setembro de 1941, quando ambos trabalhavam aconselhando o governo dos Estados Unidos acerca da bomba atômica, e outro em 1947, após o fim da Primeira Guerra e no início da Guerra Fria. Frayn explicou que precisou ler muitos livros escritos por cientistas a fim de entender o suficiente de física quântica para escrever Copenhague.

Os novos sumos-sacerdotes do conhecimento

Dawkins usou a analogia do ‘sumo-sacerdote’, os clérigos mais importantes das religiões antigas, para se referir ao papel dos cientistas no conhecimento humano. “Como os indivíduos que atuam nas artes normalmente não entendem de ciência, os cientistas eram os ‘sumo-sacerdotes do conhecimento’”, afirmou. Em seguida, Dawkins abriu um espaço para afirmar que o entendimento de ciência de Michael Frayn, um homem oriundo das artes, era uma exceção. Conforme visto anteriormente, Frayn é o autor da peça Copenhagen, que requereu conhecimentos de física quântica, uma área da ciência de notória dificuldade.  Dawkins  então fez um desabafo ligado ao ataque que sofreu de certos colegas cientistas, quando afirmou que “os novos sumo-sacerdotes do conhecimento são os cientistas que vilificam outros cientistas simplesmente porque explicam a ciência ao público leigo”.

A fé na ciência

A fé não é exclusiva da religião mas também ocorre na ciência, cuja amplitude impede que os cientistas entendam tudo acerca das disciplinas que não são as deles. Blackmore, que atua no campo da psicologia, admitiu que muitas vezes aceita afirmações da física quântica e de outros tópicos complexos da ciência, pela fé e não pelo entendimento. Entretanto, ela completou o argumento afirmando que a fé na ciência não é a mesma coisa do que a fé na religião, pois a ciência possui métodos de procedimentos que incluem a repetição do experimento.

A batalha do significado

Brown apontou o fato de que a religião dá significado às pessoas, como sendo a derradeira dificuldade para eliminar a religião. Em meio às suas ambiguidades impossíveis acerca da morte, a religião oferece um significado macio ao qual as pessoas se agarram, e, sem o qual, se atirariam das pontes. Mesmo baseando-se em coisas impossíveis, a religião dá às pessoas o significado que precisam. Portanto, há uma batalha pelo significado entre a ciência e a religião.

Perguntas do público

Ao fim da conversação entre os sábios presentes, teve início a parte em que membros da audiência fizeram perguntas, algumas das principais sendo listadas a seguir.

  • Há lugar para a serendipidade nesse mundo do ateísmo?
  • Como explicar casos em que uma pessoa sonha com outra e essa outra pessoa morre logo em seguida?
  • O mundo seria um lugar melhor se não existisse a religião?
  • Por que não tratar as declarações de fé como sendo um assunto pessoal?
  • Por que a religião ainda existe?
  • Onde e como as pessoas podem encontrar significado fora da religião?
  • Por que o Oriente Médio não teve uma revolução ateísta assim como o Ocidente?
  • Pode a ciência desprovar Deus?
  • O que acham os palestrantes acerca do determinismo e do livre arbítrio?

Respostas dadas

Os participantes responderam às respostas do público, embora sem seguir a ordem exata em que foram formuladas. Brown falou que as pessoas querem que haja uma narrativa em torno de si próprias, e, por essa razão, se agarram à crenças e à religião. As pessoas anseiam por serendipidade, isto é, que coisas boas aconteçam uma depois da outra. Entretanto, o acontecimento de coisas felizes ou úteis está ligado à lei das probabilidades. O fato de uma pessoa ter morrido logo depois de alguém ter sonhado tal evento, não significa que a morte da mesma ocorreu devido ao sonho. Há coisas cuja chance de acontecer é de um para muitos milhões, mas mesmo assim acontecem.

Dennett explicou que a religião continua existindo porque é um replicador de si própria. O valor para um replicador significa um valor que seja útil ao próprio replicador. Portanto, a religião não precisa ser boa para que sobreviva, pois foi programada para sobreviver.

Pinker acha que o mundo seria melhor sem a religião. A seu ver, o problema em julgar a crença religiosa como sendo meramente uma questão pessoal não se limita ao fato da religião tratar de inverdades; há também o fato de que é muito difícil manter o espaço privado separado do espaço público. A verdade é bela, elegante e gloriosa, e, por essas razões, deve ter primazia sobre qualquer inverdade.

Dawkins aponta outro problema da crença religiosa que é o abuso de crianças. Ele reconhece duas formas desse tipo de abuso, quando um adulto fala do inferno com uma criança, e a rotulação de crianças com a religião de seus pais.

Dawkins gostaria que as pessoas parassem para pensar nos pontos incompatíveis ensinados pela religião. A teoria evolutiva de Darwin já mostrou que Adão e Eva não existiram, e se não existiram, também o pecado original nunca existiu.

Perguntado sobre o que pensa das outras crenças das crianças como a crença no Papai Noel, Dawkins afirmou que sua filha acreditava no Papai Noel, mas que logo deixou de acreditar, assim como as outras crianças. Entretanto, ele lembrou que a crença em Papai Noel é diferente das crenças religiosas por ser algo temporário. As crianças eventualmente param de acreditar no Papai Noel, mas continuam acreditando em Deus.

Para Dawkins, o mundo ligado à religião é um mundo empobrecido. É também repleto de obscenidades como a narrativa em torno do pecado original. Como é que o Deus que é o inventor de tudo, precisou empregar tortura e morte para redimir o suposto pecado da humanidade? Por que não encontrou uma maneira melhor para redimir tal pecado? A religião não é a única fonte de significado para a vida das pessoas. Basta olhar à volta no mundo para encontrar significados. A arte e a música são excelentes fontes de significado.

Dennett falou sobre como as pessoas podem encontrar significado fora da religião. Primeiro você procurar algo admirável que seja muito maior do que você mesmo, e depois, você se dedica ao mesmo.

Brown admitiu que embora a ciência não tenha como desprovar Deus, isso não significa que Deus exista. Ele explicar isso fazendo um paralelo entre Deus e outra coisa qualquer que alguém diz acreditar. “Um homem pode afirmar que em sua casa tem um rato verde, mas o fato de ser impossível provar que tal rato verde não existe não significa que o mesmo exista”. Portanto, o ônus da prova é do afirmador e não do negador.

Acerca da questão do determinismo e do livre arbítrio, três participantes deram três respostas diferentes. Blackmore negou acreditar no livre arbítrio e afirmou que o passado das pessoas e as suas situações ambientais determinam como as pessoas se comportam em determinado momento. Dennett critica o raciocínio determinista, afirmando que o mesmo pode levar um criminoso a não assumir a responsabilidade pelo seu crime, afirmando simplesmente ‘o meu cérebro me obrigou a fazer isso’. Dawkins optou em responder a pergunta citando a seguinte frase de Christopher Hitchens: “Eu não creio no livre arbítrio mas não tenho escolha”. As posições diferentes de Blackmore, Dennett e Dawkins, mais o paradoxo contido na resposta de Dawkins, mostram que o determinismo e o livre arbítrio são assuntos demasiadamente complexos para o momento e o local.

Dawkins encerrou o evento reafirmando a importância de repassar os bons memes. “Embora a nossa existência hoje deva-se a uma longa linha de ancestrais que tiveram sucesso em passar os seus genes para as gerações sucessivas, não é preciso ter filhos para passar os bons memes adiante”, concluiu o cientista.

Conclusão final

O colóquio acima descrito foi uma homenagem ao cientista e escritor Richard Dawkins, e, por essa razão, girou em torno dos temas mais chegados a Dawkins: ‘memes’ e ateísmo. É interessante notar que em nenhum ponto do colóquio o conceito dos ‘memes’ foi explicado. Tal fato sugere uma presunção de que a audiência presente entendia do que se tratava, e, portanto, uma explicação não era necessária. Para os que não familiarizados, Dawkins criou o conceito de ‘memes’ para designar “unidades hipotéticas de cultura e de comportamento que passam de um indivíduo a outro através da imitação”. Os ‘memes’ são análogos aos genes no sentido em que ambos são replicáveis. A diferença entre os dois está no modo de replicação: enquanto que os genes são replicados geneticamente, os memes são replicados pela imitação. Todos os três cientistas que participaram do colóquio, Daniel Dennett, Steven Pinker, e Suzan Blackmore, já haviam empregado o conceito de ‘memes’ em suas pesquisas. Todos os participantes do colóquio concordaram que o homem encontra consolo nas coisas que têm significado, e, que o significado obtido da verdade é melhor do que o obtido da inverdade. Concordaram ainda que existem boas coisas no mundo que merecem ser replicadas para o bem de toda a sociedade.


Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria sobra a cultura ibérica no mundo, de generalidades, cultura e política. Em 2016 ela publicou O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9.99.

***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world, in Portuguese, Spanish & English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.

O estoicismo

O estoicismo é uma das quatro grandes escolas de filosofia da antiga Grécia, juntamente com a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles e o Jardim de Epicuro, sendo caracterizada pela atenção especial que dava à filosofia da mente. Muitos consideram a escola Estoica como pioneira da ciência cognitiva. O termo ‘estoico’ vem de ‘stoa poikile’, designação da ‘colunada’ onde Zenão do Chipre (c. 335-263 AEC) costumava ensinar.

Os ensinamentos de Zenão giravam em torno da natureza da alma, que era entendida como sinônimo da mente. Juntamente com Cleante de Assos (c. 331-232 AEC), seu seguidor imediato, Zenão enfatizou a natureza ativa da alma, identificando-a pelo seu fogo interno ou calor vital. O estoicismo atingiu o seu ponto maior com Crysipo (c. 280-207 AEC), nascido em Soli ou Tarsus, na Cilícia, o qual propôs a ideia da substância semelhante ao ar da respiração designada pneuma, cujas atividades específicas definiam as faculdades cognitvas do indivíduo. O pneuma era também o princípio organizador do cosmos, a alma do mundo, que os estoicos reconheciam como sendo algo vivo. O estoicismo é centrado em quatro ideias: valor, emoções, natureza e controle. Os estoicos dividiam a lógica em duas: a retórica, ‘a ciência da mão aberta’ e a dialética, ‘a ciência da mão fechada’. Os estoicos viam a filosofia como um meio de aprendizagem; seus objetivo finais eram ética e a física.

Os estóicos entendiam a sensação com sendo o resultado de um impulso externo, que quando combinado com um assente interno, gerava um estado mental que revelava o objeto que o produziu. Por essa razão, os estóicos procuram não se deixar levar por sensações, e buscavam cultivar a fortitude e o auto-controle a fim de vencer as emoções que consideravam destrutivas.

Os estoicos rejeitavam a ideia de que a alma fosse uma entidade incorpórea, que podia existir sem o corpo. Para eles, a alma era como um sopro quente [pneuma] e altamente sensível, infuso no corpo das pessoas. Eles analisavam a atividade da alma tanto pelo nível físico quanto pelo nível lógico, utilizando o pensamento e a linguagem em tal análise. Eles negavam que a alma tinha faculdades racionais ou irracionais, e, afirmavam que as paixões humanas não decorriam da irracionalidade e sim de erros de julgamento. Reconheciam como bens absolutos a sabedoria, a justiça, a coragem e a temperança. Todas as outras coisas como vida, saúde, prazer, beleza, força, riqueza, reputaçãom descendência, assim como os seus opostos, tanto podem ser empregados para o bem quanto para o mal. Os estóicos reconheciam que o mal do mundo e a infelicidade resultavam da ignorância. Eles aceitavam como natural o direito de se retirar da vida, isto é, cometer suicído. Para os estóicos o viver bem era viver em harmonia com a natureza e praticando as quatro virtudes cardeais ensinadas por Platão: a sabedoria (sophia), a coragem (andreia), a justiça (dikaiosyne) e a temperança (sophrosyne).

O estoicismo teve a sua maior influência no mundo greco-romano, em especial entre pessoas de instrução, tendo produzido diversos pensadores de peso como Paneto de Rodes (185 – 109 AEC), Posidônio (c.135 – 50 AEC), Cato o Jovem (94 – 46 AEC), Sêneca o Jovem (4 AEC – EC 65), Epicteto e Marco Aurélio.

O estoicismo é considerado ainda o precursor do solipsismo ético, a ideia de que todos os julgamentos são centrados no ‘eu’ o que torna impossível julgar o comportamento moral dos outros.

___________________________________________________________

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your Facebook or blog.