Adeus, Roger Scruton

Adeus, Roger Scruton

Joaquina Pires-O’Brien

Foi com muita tristeza que soube da morte do filósofo Roger Scruton, em 12 de janeiro de 2020, aos 75 anos.

Scruton foi desprezado em seu próprio país por expor as loucuras e falácias dos semideuses da esquerda, como Foucault, Derrrida, Althusser e Gramisci. Apesar de todas as dificuldades que teve que lidar, ele conseguiu obter ‘a vida bela’, que é a marca de todos os verdadeiros filósofos. Que a sua vida sirva como um aviso para todas as sociedades, de quão fácil é julgar mal as pessoas, elevando os indignos e desprezando os que têm mérito. A calamidade do pós-modernismo exacerbou consideravelmente esse erro de julgamento.

Tive a honra de conhecer Scruton em 2012 em Londres, durante a seção de assinatura de livros que ocorreu após um debate entre ele e o teórico e crítico literário Terry Eagleton, promovido pela Intelligence Squared. Depois de me apresentar brevemente, eu disse a ele que havia criado uma revista chamada PortVitoria, de direcionamento liberal clássico, para falantes de português e espanhol. Falei que gostaria de traduzir alguns dos seus ensaios para republicá-los em PortVitoria, e, que ali havia publicado a resenha do seu livro Green Philosophy: How to think seriously about the planet (A Filosofia Verde: Como pensar seriamente sobre o planeta). Quando expliquei que o PortVitoria era uma revista iniciante e ainda desconhecida, ele me tranquilizou dizendo que também havia editado uma revista que tinha apenas uns mil e duzentos assinantes. Ele se referia à The Salisbury Review, uma revista trimestral de pensamento conservador, fundada em 1982, da qual ele havia sido o editor-chefe por 18 anos. Embora The Salisbury Review tenha uma edição digital (https://www.salisburyreview.com/), a edição original, em papel, sobrevive até hoje. Fiquei muito feliz quando ele me disse que eu poderia traduzir o seu ensaio ‘The Green and the Blue’ para o português e o espanhol, para publicar em PortVitoria. Guardo com carinho o meu exemplar assinado do livro The Face of God (2012), onde escreveu: “To Jo, with best wishes”.  Adeus, grande filósofo.

E um feliz Ano Novo pós-moderno para você também

E um feliz Ano Novo pós-moderno para você também

Stuart Parker (Escritor convidado)

Tudo bem. Então, neste mundo pós-verdade, a resolução do seu Ano Novo é tornar-se um pós-modernista, mas você não tem certeza de como proceder? Estou aqui para ajudar.

Agora você pode ficar tentado a se sobrecarregar com Derrida ou tomar uma overdose de Wittgenstein, mas apenas se sente. Tudo isso é divertido, mas é um trabalho árduo e você não quer quebrar essa sua resolução, não é mesmo? Não precisa se preocupar. Aqui estão algumas dicas para você se familiarizar com seus novos tópicos pós–modernos.

Primeiro passo: comece a pensar em termos de metáforas.

No seu livro Metaphors We Live By (As metáforas em que vivemos), Lakoff e Johnson descrevem como as metáforas moldam a maneira como vemos o mundo. Tendemos, por exemplo, a ver ‘positivo’ como positivo, ‘negativo’ como negativo. Mesmo com ‘frente’ versus ‘atrás’, ‘reto’ versus ‘torcido’. O ‘argumento’ é facilmente descrito através da linguagem de guerra. Observe a nossa Câmara dos Comuns e pense em como o parlamento seria diferente se o argumento fosse visto como dança, relacionamento ou amor.

Nós os pós-modernistas apenas damos um passo extra para nos livrarmos do literal completamente. Tudo é metáfora. Para fins específicos, algumas metáforas são mais estáveis ​​do que outras. Aí está o seu literal.

Próximo passo: Ouça mais música.

A música é a mais claramente metafórica das artes. Pensar no ‘significado’ da música o ajudará a enfraquecer o domínio do literal em sua visão de mundo. Pense em como o significado da letra de uma música depende de sua configuração em um contexto de melodia e harmonia. Quantas boas letras de músicas são simplesmente poesia ruim quando arrancadas de suas melodias?

Experimente o famoso jogo ‘I’m Sorry I Haven’t a Clue’ (Sinto mas não tenho a menor ideia), cantando a letra de uma música na melodia de outra. O resultado é geralmente ridículo, e, certamente, envolve uma mudança no significado. Aquela coisa que a música ‘Land of Hope and Glory’ (Terra da esperança e da glória) desperta em você. Isso não é literal. Mas não apenas brinca com seus sentimentos, com a sua imaginação e com o seu senso de identidade; faz isso de uma maneira que é comum a muitas outras pessoas.

Tudo isso é relativo, é claro. Os não britânicos podem perceber algo completamente diferente. Sem problemas. Essa é outra coisa que você se acostumará a adotar como um pós-modernista. Relativismo. Grande momento!

Neste ponto, precisamos esclarecer algo. Os pós-modernistas não valorizam o estilo em detrimento da substância. Ou melhor, sim, mas apenas porque vemos a substância como uma consequência do estilo. Isso pode parecer um pouco estranho no começo. Fui criticado por filósofos realistas da tradição analítica por dizer que o que é realmente ruim sobre os nazistas é que eles ofendem o nosso gosto literário; o nosso senso de estilo narrativo.

Isso é bom. Deixe os analíticos se debaterem com noções absolutas de mal, essência e ética, sustentadas por alguma realidade externa (alerta sobre os estraga prazeres: eles não conseguem). Somos relativistas, certo? Se algo ofende nosso gosto literário, então é suficiente (e podemos justificar a nossa ofensa com letras usando palavras como mal, cruel imoral, para as quais o nosso estilo dará sentido).

Veja como um penteado, roupas ou maquiagem diferentes ajudam a fazer a diferença em como você se sente, como é visto, em sua personalidade e em sua identidade. Ei! Você precisa perder aquela noção de essência central, de um eu essencial. Não há nada a ser descoberto. Você é um pós–modernista agora e tudo é estilo. Esqueça o resto!

Isso é assustador e libertador. Lembre-se, você é um personagem das narrativas de outras pessoas. Identidade não é coisa privada (como você pode ter um estilo particular quando o estilo é sobre ser diferente?) Você não é o árbitro final de si mesmo. Mas você é um jogador. Então, comece a trabalhar no controle das narrativas nas quais você está incorporado.

Já mencionei as narrativas, não? Poderíamos chamá-las ‘textos’. Derrida faz isso. E ele diz que não há nada fora do texto. Tudo o que temos como recurso são as nossas narrativas – os ‘jogos de linguagem’, como Wittgenstein os chamava – e não há mundo independente de texto para arbitrar entre textos rivais. Como poderia haver? Nós nos livramos do literal alguns parágrafos atrás.

Alguns textos combinam-se facilmente. Os romances da Jane Austen poderiam todos coexistir alegremente. Jane Austen e William Borroughs? Bem … Seria um choque, mas é realmente nossa a responsabilidade de criar um estilo favorável; uma metanarrativa (exceto pelo fato de que o abrangente meta papel é ele próprio relativo ao texto …) O ponto é que os textos são feitos pelo homem (há um pouco de falocentrismo derridiano nisso). Eles são um empreendimento humano e cabe a nós, se um estilo é ou não construído de forma a que narrativas irritantes e conflitantes possam ser misturadas suavemente. Ou, pelo menos, coexistirem. Possivelmente, apenas dentro de contextos particulares.

Assim, no Natal, podemos abraçar a verdade da natividade e a verdade do Papai Noel. Nós os pós-modernistas abraçamos as contradições e não temos nenhum problema em aceitar a realidade de cada uma delas. Você só precisa reconhecer que elas são feitas pelo homem e que a realidade deles é relativa aos contextos nos quais são úteis. Sim, como pós-modernista, você rapidamente se acostumará também a ser pragmático.

Alguma lição de política? Bem, eu acho que os conservadores tropeçaram em uma abordagem pós-moderna com seus slogans, na sua reescrita da história e nas suas diversas narrativas patrióticas, desajeitadas porém eficazes. É uma mão na roda se você possui uma máquina de narrativas como, por exemplo, a maior parte da imprensa.

E as mentiras? O pós-modernismo não permite mentiras. As mentiras, assim como a verdade, são relativas ao texto. Não tenho certeza de que tipo de narrativa surreal e cômica tornaria Boris Johnson honesto, mas, bem, você entende.

Quanto ao Partido Trabalhista, tudo o que eu diria é: fique pós-moderno antes que seja tarde demais. Você está pedindo que uma banalizada narrativa pré-histórica dos anos 70 seja imposta a você. Corbyn como estilo? Quão passé. Retome o controle de sua textualidade. Adquira alguma agilidade estilística. Convença-nos com a força da sua criatividade. Lembre-se, é tudo sobre avançar com elegância, e não sobre retornar às bocas de sino! A menos que elas voltem.

Quanto a você, querido leitor, dentro em breve você estará pronto para Derrida. E pra a desconstrução. Feliz Ano Novo. 


Artigo publicado na revista The Article, sábado, 28 de dezembro de 2019. Tradução de Joaquina Pires-O’Brien (UK).

Stuart Parker é um jornalista britânico, ex-professor de filosofia e de educação, e autor do livro Reflective Teaching in the Postmodern World. (O ensino refletivo no mundo pós-moderno).

O Pós-modernismo, incluindo os seus efeitos deletérios no Brasil, é o tema da última edição de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo, para falantes de português, espanhol e inglês.  Leia e repasse o link.

Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e ‘Ambientalista’

Conheça Maurice Strong: Globalista, Oligarca do Petróleo e  ‘Ambientalista’

James Corbett

O desonrado cleptocrata Maurice Strong morreu no final do ano passado[1], aos 86 anos. Ele foi banido da sociedade refinada e forçado a uma vida de exilado, em Pequim, depois que as suas décadas de chicanices comerciais, crimes contra a humanidade e destruição ambiental foram reveladas. A sua desumanidade culminou com uma tentativa de lucrar com a morte de crianças iraquianas famintas. O seu funeral foi uma cerimônia tranquila, com a participação de apenas dos poucos familiares que não conseguiam livrar-se dele completamente. Ex-amigos e parceiros de negócios como Paul Martin, James Wolfensohn, Kofi Annan, Conrad Black e Al Gore, todos evitaram pedidos de comentários sobre a morte do amigo em desgraça.

… é assim que a memória de Maurice Strong deveria seria lembrada em qualquer mundo razoável. Em vez disso, o que obtivemos foi isso:

Na quarta-feira, centenas de pessoas irão se reunir em frente ao Parliament Hill para uma comemoração extraordinária. O Governador Geral, o Primeiro Ministro, o Ministro do Meio Ambiente, o ex-presidente do Banco Mundial – entre outros dignitários, tanto no exercício de cargos quanto fora deles – prestarão homenagem a um dos grandes canadenses de sua geração. Eles celebrarão a vida de Maurice Frederick Strong, que morreu em 27 de novembro [de 2015]. A sua morte trouxe os obituários obrigatórios e homenagens pessoais. Mas em um país que muitas vezes esconde a sua luz sob um celeiro, e a vida consequente e exaltada de Maurice Strong, em casa e no exterior, não deve passar em branco.

E os elogios continuam chegando.

Do Primeiro Ministro canadense Justin Trudeau: “Maurice Strong foi um pioneiro do desenvolvimento sustentável que fez do nosso país e do mundo um lugar melhor.”

Do cofundador do Fórum Econômico Mundial em Davos: “Ele foi um grande visionário, sempre à frente dos nossos tempos em seu pensamento.”

De John Ralston Saul, autor e filósofo: “Ele mudou o mundo.”

De fato, toda uma multidão de globalistas apareceu no início desta semana em Ottawa para prestar homenagem à memória de Strong, desde o ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ao subsecretário-geral da ONU, Achim Steiner, e o ex-secretário-geral do clube de Roma, Martin Lees. Chegaram também uma enxurrada de condolências escritas de outros proeminentes globalistas, incluindo Mikhail Gorbachev, Gro Harlem Bruntland e Kofi Annan.

Então, por que exatamente Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista?

Ah, está certo:

ENTREVISTADOR: “O Maurice Strong não tem nenhuma ambição para tornar a ONU (Organização das Nações Unidas) o governo do mundo?”

STRONG: “Não, e não é necessário, não é viável e, certamente, estamos longe de algo assim. Mas precisamos – se queremos ter um mundo mais pacífico, um mundo mais seguro – precisamos de um sistema de cooperação mais eficaz, que é o que chamo de ‘sistema de governança’. E as Nações Unidas, com todas as suas dificuldades , é o melhor jogo da cidade.” (Entrevista)

Presidente da Power Corp. Presidente da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional. Presidente da Petro Canadá. Presidente da Ontario Hydro. Chefe do Programa Ambiental das Nações Unidas. Membro fundador do Fórum Econômico Mundial em Davos. Pai do IPCC. Globalista dedicado.

Não, não é difícil entender por que os globalistas amam o arquiglobalista Maurice Strong. Mas, como foi que esse homem, um jovem pobre que abandonou o ensino médio em Oak Lake, Manitoba, tornou-se no estrategista de bastidor responsável por moldar as nossas instituições globais modernas? A história é tão improvável quanto instrutiva, e nos leva do coração do universo do petróleo à criação do IPCC[2].

Dada a notável ascensão de Strong através das fileiras do poder político para se tornar um chefão globalista, não será surpreendente saber que ele tinha conexões políticas em sua família. Mas pode ser surpreendente ouvir onde se encontravam essas conexões. Uma tia dele, Anna Louise Strong, era uma comunista convicta que fez amizade com Lenine e Trotsky (que lhe pediu que lhe ensinasse inglês) antes que ela finalmente se estabelecesse na China, onde tinha familiaridade com Mao Zedong. Ela se aproximou de Zhou Enlai, que chorou abertamente quando ela foi enterrada com honras completas no cemitério revolucionário de Babaoshan, em Beijing.

Infelizmente para a humanidade, a o cavaco não caiu muito longe do pau com o jovem Maurice. Nascido na zona rural de Manitoba, em 1929, e sofrendo o pior da Grande Depressão, Maurice Strong abandona a escola aos 14 anos em busca de trabalho. Ele trabalha como auxiliar de convés em navios e, aos 16 anos, como comprador de peles da Hudson’s Bay Company, no norte do Canadá. Lá ele conhece O ‘Wild’ [Selvagem] Bill Richardson, cuja esposa, Mary McColl, vem da família McColl-Frontenac, que está por trás da uma das maiores empresas de petróleo do Canadá.

Através de Richardson, Strong faz contatos que o impulsionam a sua improvável carreira. A Wikipédia explica enigmaticamente:

“Strong se encontrou pela primeira vez com um importante funcionário da ONU em 1947, que providenciou uma nomeação temporária e de baixo nível, para servir como oficial de segurança júnior na sede da ONU em Lake Success, Nova York. Ele logo retornou ao Canadá e, com o apoio de Lester B. Pearson, dirigiu a fundação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional em 1968”.

No que diz respeito a grandes lacunas narrativas e encobrimentos enigmáticos de pormenores, esse parágrafo é uma obra-prima. A verdade é ainda mais estranha. Aquele ‘funcionário da ONU’ sendo referido pela Wiki? Aquele não era outro senão o próprio tesoureiro da ONU, Noah Monod. De fato, Monod não apenas arranja um emprego para ele, mas lhe dá também um lugar para morar; as duas salas juntas durante o tempo de Strong na Big Apple. Mas o mais importante é que Monod lhe apresenta ao homem que mais do que qualquer outro estará por trás de sua ascensão meteórica ao estrelato internacional: David Rockefeller.

Maurice Strong gostava de contar a história de que ele havia enfrentado Rockefeller no início. De acordo com Strong, algumas de suas primeiras palavras para David foram: “Eu sou profundamente contrário a você e a tudo o que a sua família representa”. Estranhamente, David não se lembra do encontro dessa maneira, dizendo que os dois tinham “uma forte relação de trabalho.”

De qualquer maneira, a partir daquele momento, Strong era um homem feito. E a partir daquele momento, onde quer que Strong fosse, Rockefeller e seus associados estavam lá em algum lugar nos bastidores.

Foi um veterano da Standard Oil, Jack Gallagher, que deu a Strong sua grande oportunidade na indústria de petróleo de Alberta quando este deixou o seu emprego seguro na ONU para voltar ao Canadá. Gallagher havia sido contratado por Henrie Brunie, uma amiga íntima de John J. McCloy, um associado de Rockefeller, para criar uma nova empresa de exploração de petróleo e gás. Strong entrou como assistente de Gallagher.

Quando, de repente, Maurice Strong decidiu deixar o emprego, vender sua casa e viajar para a África, encontrou um emprego no CalTex de Rockefeller, em Nairobi.

Quando ele deixou o cargo em 1954 e fundou sua própria empresa no Canadá, contratou Brunie para administrá-lo e nomeou dois representantes da Standard Oil de Nova Jersey para seu conselho. A essa altura, ele estava no final da casa de 20 anos e já era um multimilionário.

Após criar uma considerável rede de contatos junto à elite política do Canadá, Strong foi nomeado chefe da Power Corporation, uma nova cria da poderosa família Desmarais, os ‘Rockefellers do Canadá”. A Power Corp é um importante ‘criador de caciques políticos’ no meio político canadense, e, sob a administração de Strong, continuou a desempenhar esse papel. Um de seus escolhidos: um MBA de Harvard de cara nova chamado James Wolfensohn, futuro presidente do Banco Mundial. Outra escolha dele: Paul Martin, futuro CEO da Canada Steamship Lines e futuro Primeiro Ministro do Canadá.

Strong deixou a Power Corp para liderar o programa de ajuda externa do Canadá. Ele supervisionou a criação da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e do Centro Internacional de Pesquisa em Desenvolvimento (IDRC). Como a jornalista Elaine Dewar, que entrevistou Strong para seu livro inovador Cloak of Green (Capa Verde), explica:

“A IDRC tinha uma cláusula em sua legislação de habilitação que lhe permitia doar dinheiro diretamente a indivíduos, governos e organizações privadas. Foi criada como uma corporação, reportando ao Parlamento através do ministro de Assuntos Externos. Seu conselho de governadores foi projetado para incluir pessoas privadas e até estrangeiras. […] Como o IDRC não foi criado como um agente da Coroa (como é a CIDA), pôde receber doações de caridade de empresas e indivíduos, bem como fundos do governo”.

Essas “empresas e indivíduos” generosamente “doaram” seu dinheiro ao IDRC, e, naturalmente, incluíram o Chase Manhattan Bank, do Rockefeller, e a própria Fundação Rockefeller. Strong admitiu a Dewar que o IDRC foi capaz de vender influência política no terceiro mundo sob seu disfarce de organização quase governamental.

No entanto, a sua carreira quase empresarial / quase governamental / quase “filantrópica” atingiu um novo nível em 1969. Isso se deu quando o embaixador sueco na ONU telefonou para Strong para ver se ele queria liderar a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que deveria ocorrer em 1972. Ele recebeu a ligação não pelo seu suposto amor ao meio ambiente, mas porque, mesmo naquela época, Strong já era conhecido como um ‘Fichário de Rolo’ humano de conexões políticas, comerciais e financeiras em todo o mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

E naturalmente, ele foi devidamente nomeado administrador da Fundação Rockefeller, que depois financiou o seu escritório para a cúpula (cimeira) de Estocolmo, e forneceu a pesquisadora da Carnegie, Barbara Ward, e o ecólogo da Rockefeller, René Dubos, para a sua equipe. Strong os encomendou a escrever ‘Only One Earth’ (Uma só Terra), um texto fundamental no campo do desenvolvimento sustentável, o qual é fortemente apontado pelos globalistas como sendo chave na promoção da gestão global de recursos.

A Cúpula (Cimeira) de Estocolmo, de 1972, ainda é reconhecida como um momento marcante na história do movimento ambiental moderno, pois levou não apenas aos primeiros planos de ação ambiental administrados por governos na Europa, mas também a criação de uma burocracia totalmente nova da ONU: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNDP/PNUMA). Diretor fundador do PNUMA: Maurice Strong. Como Dewar explica:

“Como muitas das organizações que Strong criou, essa também teve vários usos. Em 1974, o PNUMA emergiu do solo não cultivado de Nairóbi, no Quênia, antigo território de Strong. A colocação do PNUMA na África foi explicada como uma ‘migalha’ para os países em desenvolvimento, e que suspeitavam das intenções ocidentais. Mas também porque era útil para as grandes potências ter outra organização internacional em Nairóbi. Após a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Nairóbi havia se transformado na principal capital de espiões da África”.

A Guerra do Yom Kippur e o consequente embargo da OPEP (previsto magicamente pela Conferência de Bilderberg na Suécia no início do ano e organizado pelo agente de David Rockefeller, Henry Kissinger) tiveram outro efeito derivado que acabou beneficiando Strong. O embargo atingiu com força o leste do Canadá, levando o primeiro-ministro Trudeau a criar uma companhia de petróleo nacional. O resultado: a Petro-Canada nasceu em 1975 e Trudeau naturalmente nomeou Strong, agora o membro mais poderoso do movimento ambiental globalista, como seu primeiro presidente.

David Rockefeller esteve lá com Strong no Colorado em 1987 para o ‘Quarto Congresso Mundial da Vida Selvagem’, um encontro de importância histórica mundial que quase ninguém ouviu falar. Com a participação de Rockefeller, Strong, James Baker e o próprio Edmund de Rothschild, a conferência acabou girando em torno da questão do financiamento para o crescente movimento ambientalista que Strong formou do zero através de seu trabalho no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Foi nessa conferência (gravações da mesma estão disponíveis on-line graças ao denunciante George Hunt) que Rothschild pediu a criação de um Banco Mundial de Conservação, para o qual que ele bolou como mecanismo de financiamento um ‘segundo Plano Marshall’,  que seria usado para ‘alívio de dívidas’ do terceiro mundo e para esse favorito apito de cão globalista, o ‘desenvolvimento sustentável’.

O sonho de Rothschild tornou-se realidade quando Strong presidiu outra cúpula ambiental de alto nível da ONU: a “Cúpula da Terra”, no Rio de Janeiro, em 1992. Embora talvez melhor conhecida como a conferência que deu origem à Agenda 21, o que é muito menos conhecido é que foi a Cúpula da Terra que permitiu que o Banco Mundial de Conservação se tornasse uma realidade.

Iniciado às vésperas da Cúpula da Terra do Rio como um programa piloto de US $ 1 bilhão do Banco Mundial, o banco, agora conhecido como “Global Environment Facility” (GEF), ou Fundo Mundial para o Meio Ambiente, é o maior financiador público de projetos ambientais globais, tendo feito mais de US $ 14,5 bilhões em doações e cofinanciou outros US $ 75,4 bilhões. O banco é o mecanismo financeiro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a convenção organizadora que dirige o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Com a Agenda 21 em seu currículo, o banco de sonhos do GEF de Rothschild dentro da lata e o IPCC já brilhando nos olhos, a notável carreira de Strong não mostrou sinais de parada. Depois de encerrar a Cúpula do Rio, assumiu uma série de compromissos tão desconcertantes que quase desafia a credulidade. De seu site oficial, vem a seguinte lista:

“Após a Cúpula da Terra, Strong continuou a assumir um papel de liderança na implementação dos resultados obtidos no Rio através da criação do Conselho da Terra, do movimento da Carta da Terra, de sua presidência do Instituto de Recursos Mundiais, de membro do Conselho do Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, o Instituto Afro-Americano, o Instituto de Ecologia da Indonésia, o Instituto Beijer da Real Academia Sueca de Ciências e outros. Strong era um diretor de longa data da Fundação do Fórum Econômico Mundial, consultor sênior do presidente do Banco Mundial, membro da Assessoria Internacional da Toyota Motor Corporation, Conselho Consultivo do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, o Conselho de Empresas Mundiais para o Desenvolvimento Sustentável, a União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN), o Fundo Mundial para a Vida Selvagem, Recursos para o Futuro e as Bolsas Eisenhower”.

Não resta dúvida de que Strong levou uma vida encantada. E, dada a presença persistente dos interesses de Rockefeller naquela vida desde seus primeiros anos, não há dúvida de por que as portas pareciam se abrir para ele onde quer que ele fosse.

Mas, ainda assim, é preciso perguntar como e por que um abandono do ensino médio que se tornou grande no ramo do petróleo graças às suas grandes conexões com o petróleo se tornaria a figura mais importante do movimento ambiental internacional. Ele estava realmente interessado em proteger o meio ambiente?

Considere a aquisição de Strong da Arizona Land & Cattle Company, do traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, em 1978. Como parte dessa aquisição, Strong ganhou controle sobre um rancho no vale de San Luis, no Colorado, chamado Baca Grande. Como Henry Lamb explica em um artigo de 1997:

“O rancho, chamado Baca Grande, ficava no maior aquífero de água doce do continente. Strong pretendia canalizar a água para o sudoeste do deserto, mas as organizações ambientais protestaram e o plano foi abandonado. Strong terminou com um acordo de US $ 1,2 milhão da companhia de água, uma concessão anual de US $ 100.000 da Laurance Rockefeller, e ainda manteve os direitos sobre a água”.

Não, o interesse de Strong no sítio não teve nada a ver com a preservação do ambiente primitivo do vale de San Luis. Seu interesse era totalmente estranho. Como observa o Quadrant Online:

“Maurice Strong tinha sido informado por um místico que:

O Baca se tornaria o centro de uma nova ordem planetária que evoluiria do colapso econômico e das catástrofes ambientais que varreriam o mundo nos próximos anos.

Como resultado dessas revelações, Strong criou a Fundação Manitou, uma instituição Nova Era (New Age)[3] localizada no rancho de Baca – acima das águas sagradas às quais a permissão para bombear foi negada a Strong. Esse hocus-pocus continuou com a fundação do The Conservation Fund (com a ajuda financeira de Laurance Rockefeller) para estudar as propriedades místicas da montanha Manitou. No rancho de Baca, há um templo circular dedicado aos movimentos místicos e religiosos do mundo”.

De fato, o zelo missionário de Strong por espalhar sua mensagem ambiental de desastre e destruição por tantas décadas pode ser mais facilmente explicado como um zelo quase religioso por preparar o caminho para a ‘Nova Ordem Mundial’ que esta destruição ambiental supostamente prediz.

Uma visão mais aprofundada das místicas crenças da Nova Era de Strong, pode ser encontrada naquilo que ele considerou ser sua conquista mais importante: a criação da Carta da Terra. A Carta da Terra foi fruto do Instituto do Conselho da Terra de Strong, que ele fundou em 1992 com a ajuda de Mikhail Gorbachev, David Rockefeller (obviamente), Al Gore, Shimon Peres e um punhado de amigos globalistas de Strong.

O próprio portal de Strong descreveu a Carta da Terra como ‘uma declaração de consenso global amplamente reconhecida sobre ética e valores para um futuro sustentável’, mas o próprio Strong estruturou o documento em termos religiosos, dizendo que espera que seja tratado como um novo Dez Mandamentos.

Então, o que a Carta da Terra diz? Além das previsíveis bobagens esperadas sobre ‘justiça social e econômica’ e outras chavões políticos, o documento termina como uma carta de amor ao governo mundial:

“Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional juridicamente vinculativo em meio ambiente e desenvolvimento”.

A própria Carta da Terra repousa na “Arca da Esperança”, uma arca literal que foi construída especificamente para abrigar o documento original em uma referência óbvia à arca da aliança. A arca foi inaugurada em 9 de setembro de 2001 e depois transportou 350 milhas para as Nações Unidas após o 11 de setembro. O membro da Comissão da Carta da Terra que presidiu a inauguração não passou de Steven C. Rockefeller.

Embora essa busca quase religiosa pelo governo global esteja sempre envolvida em uma linguagem de bem-estar sobre o fortalecimento de comunidades e a preservação do planeta, a realidade subjacente é sobre uma agenda maquiavélica muito mais. Como observa Dewar em Cloack of Green  (Manto Verde) acerca da Cúpula do Rio:

“Anunciada como a maior cúpula do mundo, a do Rio foi descrita publicamente como uma negociação global para reconciliar a necessidade de proteção ambiental com a necessidade de crescimento econômico. Os conhecedores entendiam que havia outros objetivos mais profundos. Isso envolveu a mudança dos poderes reguladores nacionais para vastas autoridades regionais; a abertura de todas as economias nacionais fechadas restantes a interesses multinacionais; o fortalecimento das estruturas de tomada de decisão muito acima e muito abaixo do alcance das democracias nacionais recém-criadas; e, acima de tudo, a integração dos impérios soviético e chinês no sistema de mercado global. Não havia nome para essa agenda tão grande que eu já ouvira alguém usar, então, mais tarde, eu mesmo a nomeei – a Agenda de Governança Global”.

O próprio Strong deu uma ideia do que essa agenda realmente implicava para o homem ou mulher comum em uma entrevista da BBC em 1972 antes do início da cúpula de Estocolmo. Discutindo o ‘problema de superpopulação’ então em voga como a causa ambiental do dia, Strong admitiu em suas reflexões sobre o potencial de licenças de reprodução:

“Licenças para ter filhos por acaso é algo que eu tive problemas por alguns anos atrás por sugerir, mesmo no Canadá, que isso pode ser necessário em algum momento, pelo menos alguma restrição ao direito de ter um filho. Não estou propondo isso, estava simplesmente prevendo isso como um dos possíveis cursos que a sociedade teria que considerar seriamente se nos envolvêssemos nesse tipo de situação”.

Que Strong teve tanto sucesso em promover sua agenda de ‘governança global’ por tantas décadas é um testemunho não de sua própria liderança visionária, como muitos globalistas professam, mas dos incríveis recursos dos Rockefellers, dos Rothschilds e outros que estão financiando essa agenda. à existência e empurrando-o a cada passo.

É por alguma medida de boa sorte, então, que as décadas de fraude de Strong finalmente tenham chegado ao fim (mais ou menos) em 2005, quando, como observa o Quadrant Online, ele foi finalmente pego ‘com a mão no caixa’:

“Investigações sobre o Programa Petróleo por Alimentos da ONU descobriram que Strong havia endossado um cheque de 988.885 dólares para M. Strong – emitido por um banco jordaniano. O homem que deu o cheque, o empresário sul-coreano Tongsun Park, foi condenado em 2006 em um tribunal federal dos EUA por conspirar para subornar funcionários da ONU. Strong renunciou e fugiu para o Canadá e daí para a China, onde vive desde então”.

Embora ainda aparecendo em vários eventos ao redor do mundo, Strong liderou uma existência muito mais baixa na última década, provavelmente desacelerada pelos estragos da idade avançada. Mas agora que ele finalmente faleceu, somos deixados a receber elogios ainda mais nauseantes a esse homem e às muitas instituições globalistas que compõem seu legado.

Não, não é difícil entender por que Maurice Strong era tão amado pelo jet set globalista. Só não espere que nenhum dos membros desse jet set conte essa história em detalhes.

Ilustrações:

Foto de Maurice Strong tendo ao fundo uma paisagem ressecada e um selo da ONU.

Foto de Anna Louise Strong, tia de Maurice Strong, ao lado de Mao Zedong e outros dignitários chineses. Anna Strong era uma comunista comprometida que fez amizade com Lenine e Trotsky.

Imagem do sítio de petróleo de Alberta, onde Maurice Strong trabalhou depois de ter deixado o seu primeiro emprego na ONU.

Foto do jovem Maurice Stong em frente à mesa presidencial, em uma conferência da ONU.

Foto de George Bush, presidente dos Estados Unidos, discursando na Cúpula da Terra de 1992 no Rio.

Imagem da placa externa do rancho Baca Grande, no vale de San Luis, no Colorado, adquirido por Maurice Strong, que se tornou o local da Fundação Manitou, uma instituição ‘Nova Era’ (New Age).

Foto de Maurice Strong falando durante uma conferência em que anunciou a criação da Carta da Terra.

Foto de um cheque de US $ 988.885 concedido a M. Strong, emitido por um banco jordaniano, e endossado com a assinatura de Maurice Srong.

Publicado originalmente em TheInternationalForecaster.com, em 31 de janeiro de 2016

James Corbett é um jornalista e editor do portal ‘The Corbett Report’, Open Source Intelligence News, https://www.corbettreport.com/about/

James Corbett has been living and working in Japan since 2004. He started The Corbett Report website in 2007 as an outlet for independent critical analysis of politics, society, history, and economics. Since then he has written, recorded and edited thousands of hours of audio and video media for the website, including a podcast and several regular online video series. He is the lead editorial writer for The International Forecaster, the e-newsletter created by the late Bob Chapman.

His work has been carried online by a wide variety of websites and his videos have garnered over 50,000,000 views on YouTube alone. His satirical piece on the discrepancies in the official account of September 11th, “9/11: A Conspiracy Theory” was posted to the web on September 11, 2011 and has so far been viewed nearly 3 million times.

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For more information about Corbett and his background, please listen to Episode 163 of The Corbett Report podcast, Meet James Corbett: Episode 163 – Meet James Corbett

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK, 4 set 2019)


[1] Maurice Frederick Strong faleceu em 28 de novembro de 2015, em Ottawa, Canadá, aos 86 anos de idade.

[2] IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change / Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

[3] New Age ou Nova Era é definida pelo dicionário Cambridge online como sendo “um modo de vida e pensamento desenvolvido no final dos anos 80, com base em ideias que existiam antes das teorias científicas e econômicas modernas.” Essa definição coloca a Nova Era dentro da doutrina pósmodernista.

Armadilhas do Liberalismo?

Jo Pires-O’Brien

Devido ao meu blog intitulado ‘Armadilhas do Marxismo’, um trolador da esquerda me perguntou por que eu não escrevo um blog mostrando as armadilhas do liberalismo.

Por que eu não escrevo sobre as ‘armadilhas do liberalismo’? Porque, a meu ver, o liberalismo já tem excelentes depreciadores. Um depreciador do liberalismo bastante reconhecido no século XXI é o filósofo alemão Carl Schmitt (1888-1985), jurista e teorista do direito e da política. Embora Schmitt só tivesse apoiado o Nazismo depois que Hitler chegou ao poder, em 1933, ele gozou de um enorme prestígio nos primeiros anos do governo de Hitler, quando costumava defender políticas nazistas que iam contra as leis, como as execuções extrajudiciais. Schmitt era um conservador que detestava os liberais e os judeus. Em 1936 ele defendeu a ideia nazista de remover os livros de autores judeus das bibliotecas, mas apesar de seus esforços no sentido de ganhar a simpatia dos nazistas, ele acabou caindo em desgraça junto aos mesmos, e acabou sendo demitido da universidade onde lecionava Direito. Depois da Guerra, Schmitt usou esse particular para tecer a sua defesa, quando foi inquirido pelos promotores do Tribunal de Nuremberg. Schmitt escapou das acusações e retornou à sua cidade natal de Plettenberg, na Westfália, lá ficando até a sua morte em 1985, aos 96 anos.

Por que o liberalismo* é odiado tanto pela extrema Esquerda quanto pela extrema Direita?  Por acaso seria porque consideram a crença dos liberais, de que as pessoas são essencialmente racionais e capazes de resolver as suas disputas políticas através do diálogo e da mútua transigência, uma utopia? Por acaso seria porque Marx disse que o liberalismo é a ideologia do capitalismo? Ou por acaso seria o resultado de um ressentimento típico da mentalidade do escravo descrita por Nietzsche em A genealogia da moral? Embora seja impossível saber os motivos do ódio que os extremistas de esquerda e de direita têm pelo liberalismo, a afirmação de Schmitt de que “o liberalismo é uma fachada útil da elite dominante” sugere velho motivo do ressentimento de classe.


* O ideal do liberalismo é  um contínuo global tolerante a seres humanos de individualidades diversas, mas com direitos iguais, e cujos direitos de identidade são protegidos por leis baseadas em valores universais.


Jo Pires-O’Brien é editora de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo.

As leis da antiga Grécia – as primeiras leis do Ocidente

Nota: O texto abaixo foi adaptado do texto “Law of Ancient Greece”, do portal Canadian Law, fonte: http://www.canadianlawsite.ca/AncientGreek.htm

As Leis da Antiga Grécia – As Primeiras Leis

No período que vai mais ou menos de 1200 – 900 AEC (Antes da Era Comum), os antigos gregos não tinham nem leis e, nem punições oficiais. Os homicídios eram resolvidos pelas próprias famílias das vítimas, que procuravam capturar e matar o homicida. Isso frequentemente gerava intermináveis e sangrentos feudos. Mais ou menos no meio do século VII AEC os gregos começaram a estabelecer leis oficiais.

Draco

Em torno de 620 AEC, Draco, o legislador, estabeleceu as primeiras leis escritas da Antiga Grécia. Essas leis eram tão severas que o nome ‘Draco’ é empregado na expressão moderna  ‘lei draconiana’, que significa uma lei excessivamente severa.

Sólon

Sólon (640-558 AEC) foi um estadista e famoso legislador de Atenas. Como estadista, Sólon reformou o sistema de governo da cidade-Estado de Atenas, criando um sistema democrático de governo, baseado numa assembleia de quinhentos membros*. Como legislador, Sólon aperfeiçoou as leis de Draco e democratizou a justiça ao tornar as cortes (tribunais) acessíveis aos cidadãos. Sólon criou muitas novas leis que se encaixam em quatro categorias básicas (veja abaixo). A única lei de Draco que Sólon manteve após ter sido apontado legislador, por volta do ano 594 AEC, foi a lei que estabelecia o exílio como punição para o crime de homicídio.

*A democracia ateniense foi consolidada aos poucos, por outros estadistas como Clistenes (565-492 AEC) e Péricles (494-429 AEC).

Leis dos Agravos

Um agravo ocorre quando alguém comete um dano contra uma pessoa ou contra a propriedade de alguém.

O crime de homicídio fica sob a lei de Agravos, e a punição era o exílio conforme determinado na legislação de Draco que Sólon manteve.

De acordo com as leis criadas por Sólon, a multa por um estupro era de 100 dracmas, e a punição por um crime de furto era a restituição da quantia furtada. Outros crimes e penas incluíam coisas como ‘mordida de cão’, cuja pena era entregar o cão numa coleira de madeira de três côvados. Sólon escreveu leis até para servir como regras para a construção de casas, muros, valas, poços, colmeias, e plantações de certos tipos de árvores.

Leis de Família

Sólon criou ainda diversas leis de família, legislações que regulavam a conduta de homens e mulheres. Ele escreveu leis sobre os dotes de casamento e de adoção, bem como leis sobre heranças e sobre o papel de suporte dos pais.

Não havia penas prescritas para essas leis de família;  a decisão ficava com cada chefe de família.

Leis Públicas

As leis públicas tratavam do funcionamento dos serviços públicos. Sólon contribuiu para algumas dessas leis. Por exemplo, ele escreveu as leis que requeriam que as pessoas que viviam a uma certa distância das fontes ou poços públicos que cavassem seus próprios poços, as leis que proibiam a exportação de produtos agrícolas com exceção do azeite de oliva, leis que restringiam a quantidade de terras que alguém podia possuir, leis que permitiam que os mercadores cobrassem qualquer juro que quisessem, e até leis que proibiam o comércio de perfumes.

Leis Processuais

Leis processuais eram diretrizes que esclareciam aos juízes (no sentido de julgadores) como deveriam usar as demais leis. Essas leis especificavam passo a passo os pormenores de como a lei deveria ser cumprida. As leis processuais incluíam minúcias tipo como as testemunhas deveriam ser chamadas a juízo para que alguém pudesse ser condenado por homicídio.

Os Legisladores

Os legisladores não eram os reis ou governantes mas oficiais designados para o posto de escrever leis. A maior parte dos legisladores eram pessoas de classe média oriundos da aristocracia. Para que as leis não fossem injustas, os governantes oficiais procuravam assegurar que os legisladores não tomassem partido, isto é, que não fizessem parte de nenhum grupo isolado. Devido a essa restrição, os legisladores não participavam normalmente do governo, e eram considerados forasteiros políticos.

As Cortes (ou Tribunais) e o Sistema Judicial

A fim de fazer cumprir as punições previstas pela lei, os antigos gregos precisavam de algum sistema para ‘processar’, ‘julgar’ e ‘sentenciar’ os culpados. Assim, eles criaram um sistema judicial. Os oficiais da corte ganhavam pouco, se é que ganhavam alguma remuneração. Os julgamentos eram conduzidos num único dia, sendo que os casos particulares eram ainda mais expeditos.

Na corte ou tribunal não havia oficiais profissionais tipo advogados e juízes. Um caso normal consistia de dois ‘litigantes’, um reclamante que alegava que um ato ilícito havia sido cometido, e um respondente que argumentava a própria defesa. Os ‘jurados’ eram a própria audiência da corte. Cada pessoa votava a favor de uma parte ou da outra. O resultado do julgamento era de ‘culpado’ ou ‘não culpado’. Após o julgamento a audiência votava outra vez para decidir a punição.

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A república enferma

Joaquina Pires-O’Brien

Aqueles que não conseguem se lembrar da História estão condenados a repeti-la. George Santayana

A República de Roma surgiu em torno de 509 AEC com a destituição dos reis de toda a região. No início Roma era pequena, mas aos poucos foi conquistando outros territórios e países. No ano 44 AEC, marcado pelo assassinato de Júlio César no ides de março, dia 15, a República de Roma já era um Estado rico e poderoso. Acontece que o poder corrompe sem distinção de classes e a história de Júlio César e do seu assassinato é uma lição ainda válida sobre o jogo do poder e as nefastas consequências.

Roma era governada pelo Senado Romano, que era a sua figura representativa. Mas o poder do Senado era concentrado no executivo e no judiciário. Assim, quem propunha legislações não eram os senadores e sim os cônsules, que eram magistrados. O Senado apenas avaliava tais legislações, juntamente com os Tribunos da Plebe. A entidade chamada ‘Senado e o Povo Romano’ (SPQR, ou Senatus Populusque Romanus), distinguia os membros do Senado dos demais cidadãos em termo de classes. Os próprios membros do Senado eram separados entre aristocratas e conscritos (conscripti) da plebe. Internamente o dono do poder era o Povo Romano, através da Comissão Centúria (Comitia Centuriata), da Comissão dos Povos Tribais (Comitia Populi Tributa), e do Conselho do Povo (Concilium Plebis). A legislação era obtida em diversas assembleias que elegiam os magistrados e agiam segundo as recomendações do Senado.

O Senado enviava e recebia embaixadores, nomeava os governadores das províncias, oficiais militares, declarava guerras, negociava paz e apropriava fundos para obras públicas. Mais ou menos no final da República de Roma o Senado começou a dar o título ‘ditador’ em caráter excepcional como durante crises graves. Como medida de precaução contra ditaduras, o próprio Senado declarou os seus membros defensores da República (senatus consultum ultimum). O Senado era presidido por 2 cônsules eleitos que se alternavam a cada mês.

Os senadores eram apontados pelos equitos (equites), e selecionados pelos Cônsules, Tribunos e mais tarde pelos Censores. Eles também podiam ser selecionados dentre os cidadãos nomeados para a magistratura. Os senadores não tinham os mesmos poderes. Nem todos tinham direito a votar, e dos que votavam, nem todos tinham o direito de falar. E dentre os que podiam falar, o patrício sempre tinha prerrogativa em relação ao plebeu. Os senadores votavam nos assuntos ordinários por aclamação ou levantando a mão. Quando o assunto em questão era importante, então o quorum era demandado e os senadores se aglomeravam em setores diferentes.

Na época de Júlio César, a República Romana já se encontrava enferma, e há muito já havia esquecido os antigos valores da virtude e da honra. O Senado Romano encontrava-se dividido por facções que não se entendiam, e as famílias da nobreza se consumiam para ganhar cada vez mais poder, mais terras e mais despojos de guerra. Mas é um engano pensar que todos os romanos pertenciam  à aristocracia corrupta ou à plebe manipulada. Roma tinha também cidadãos que se preocupavam em cultivar a virtude e a honra, como os seguidores de Epicuro, mas esse grupo minoritário era ignorado pela República.


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Sobre o individualismo

“Ser você mesmo num mundo que está constantemente tentando fazer outra coisa de você é a maior realização.” Ralph Waldo Emerson

Jo Pires-O’Brien

O individualismo é entendido diferentemente por socialistas e liberais. Para os socialistas, o individualismo é a primazia dos valores ligados ao indivíduo e ao seu bem-estar sobre os valores ligados à comunidade e ao bem-estar comunitário. Para os liberais, individualismo é a visão moral, política e social que prega a independência humana e a importância da autoconfiança e da liberdade. Essas duas definições de individualismo são contrárias e não podem estar ambas corretas. Por acaso o individualismo é uma forma de egoísmo, como afirmam os socialistas, ou é uma simples preferência pelo indivíduo, em contraposição ao coletivo, como afirmam os liberais?

O primeiro passo no processo de entendimento de qualquer palavra terminada em ‘ismo’ é procurar descobrir a mensagem por detrás desse sufixo, que indica tendência, viés ou preconceito. O segundo passo é entender a palavra sem o ‘ismo’. A palavra  ‘individualismo’ surgiu na década de 1820, entre os seguidores franceses do socialismo de Claude-Henri Saint-Simon (1760–1825), sendo logo exportada para a Inglaterra, Alemanha e outros países.

O significado da palavra sem o ‘ismo’ pode elucidar o sentido verdadeiro da mesma palavra com o ‘ismo’. A palavra ‘indivíduo’ vem do latim (indīviduus), cujo significado é ‘indivisível’ ou ‘inseparável’, e nos remete à palavra grega para ‘átomo’ (άτομο), cujo significado é o mesmo. Na doutrina do ‘individualismo’, a palavra indivíduo refere-se à pessoa humana  (antropos) considerada a unidade básica da sociedade. Como o contrário de ‘indivíduo’ é o ‘coletivo’, o contrário do individualismo é o coletivismo. Portanto, ‘individualismo’ significa valorizar o ‘indivíduo’ em preferência ao ‘coletivo’. Um possível motivo da conotação negativa imputada ao individualismo está na visão ultrassimplificada do mundo como um jogo de somatório zero, no qual o ganho de um representa sempre uma perda para o outro. Finalmente, podemos perguntar se o ‘individualismo’ não seria um direito natural das pessoas, considerando-se que desde tempos imemoriais a sociedade reconhece indivíduos, ainda que que a palavra ‘individualismo’ só tenha aparecido no século XIX.

Os liberais acreditam no individualismo devido ao fato de que a responsabilidade e a responsabilização – os ingredientes essenciais da boa cidadania e da boa governança –, residem no indivíduo e não no grupo. Acreditam,  ainda que a corruptibilidade e a incorruptibilidade são atributos do indivíduo, pois é o indivíduo e não o grupo, que pode ser chamado a juízo. Finalmente, individualismo é acompanhado da regra dourada a qual afirma que devemos tratar o outro da forma como desejamos que o outro nos trate. Tal regra implica no reconhecimento dos direitos do outro, o que é suficiente para desfazer a conotação de egoísmo do individualismo.

O individualismo é, portanto, a preferência pelo hábito de ser e agir independente e com iniciativa própria. Ser um ‘individualista’ significa ter o hábito de cultivar a própria mente, de refletir sobre ideias e, se necessário, desafiar as normas ou padrões da sociedade. Sobre as raízes do individualismo, embora alguns cientistas sociais as tenham colocado no cristianismo e o seu entendimento acerca da individualidade da vida e da salvação, a maioria aceita que o individualismo tem raízes mais profundas, incluindo o estoicismo.

Alguém poderia argumentar que o reconhecimento de talentos natos e das capacidades implica, também, no reconhecimento dos individualismos psicopatológicos como o autismo, a sociopatia e a megalomania. Tal não é o caso, e o motivo é a  diminuição de responsabilidade dessas pessoas, a qual é normalmente levada em contra pela legislação de cada país.

Liberdade e igualdade

Liberdade e igualdade são valores atrelados, o que significa necessariamente que o aumento de um requer uma diminuição do outro. A discrepante visão acerca da liberdade e da igualdade entre socialistas e liberais também atrapalha o entendimento do individualismo. Enquanto os socialistas enxergam a igualdade como algo que tende para o absoluto, para os liberais a igualdade é simplesmente ser tratado igual pela lei. Conforme já visto, a visão dos socialistas de que o ganho de uns resulta sempre na perda de outros costuma ser usada como justificativa para aumentar o valor da igualdade em detrimento da liberdade.

As visões díspares dos socialistas e liberais tanto sobre o individualismo quanto sobre a liberdade e a igualdade têm diversas implicações importantes para a sociedade. A facilidade com que os socialistas sacrificam a liberdade a fim de ganhar mais igualdade, é conducente ao Estado grande e oneroso. A desconfiança dos socialistas no individualismo é acompanhada da desconfiança da excelência, que para eles é uma forma de elitismo. Enquanto que, pela ótica socialista, o indivíduo é coagido a curvar-se ao denominador comum da maioria, que é a própria mediocridade, pela ótica liberal, o indivíduo é encorajado a desenvolver ao máximos seus talentos natos e suas capacidades. O individualismo, e não o coletivismo, é o melhor caminho para a boa governança, pois além de favorecer a boa cidadania, favorece o bom desenvolvimento do homem razoável do direito inglês, que é mais conducente à excelência do indivíduo, da qual toda a sociedade se beneficia.

Declarações de direitos do homem nos Estados Unidos e França

Os primeiros estados a adotar declarações de direitos do homem foram os Estados Unidos e a França. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso norte-americano, em 4 de julho de 1776, sublinhou os direitos do homem junto ao direito de se revoltar contra o domínio político. Em 1787, a Constituição dos Estados Unidos da América foi aprovada, e, em 15 de dezembro de 1791, recebeu dez emendas, chamadas coletivamente de ‘Bill of Rights’, garantindo uma relação de direitos do indivíduo, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade. Na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada em 1789, pela Assembleia Constituinte, poucos meses depois da tomada da Bastilha. O problema dessa Declaração é que a mesma interpretou a lei como uma “expressão da vontade do povo”, cuja intenção era promover tal igualdade de direitos e proibir “apenas as ações danosas à sociedade”. A interpretação ao pé da letra do termo “vontade do povo” levou à ditadura da facção majoritária dos jacobinos.

O primeiro crítico de peso das declarações de direitos do homem dos Estados Unidos e da França foi o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-59) que, em sua viagem aos Estados Unidos em 1831, feita com o objetivo de pesquisar o sistema prisional deste país, estudou os mais diversos aspectos da sociedade norte-americana. Tocqueville publicou as suas observações, feitas a partir desta viagem, no livro Democracy in America (1835 e 1440; A Democracia na América), dividido em dois volumes.

Antes mesmo de viajar para os Estados Unidos, Tocqueville havia reconhecido os problemas causados pela democracia direta, implementada na França pós-revolucionária, e acreditava que era possível aperfeiçoar o regime através de reformas. Mais tarde, durante a crise da Segunda República Francesa, ele apoiou o Partido da Ordem (Parti d’Ordre) contra os socialistas, mas, em dado momento, desencantou-se com a política e com os jogos dos arrivistas do poder.

Qual deve ser a esfera do governo?

A extensão da esfera do governo é a maneira de decidir como deve ser o equilíbrio entre liberdade e igualdade. Um dos primeiros pensadores modernos que se preocupou com isso foi Karl Wilhelm von Humboldt (1767-1835), pensador alemão e irmão mais velho do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), que viajou pela América do Sul e fez a primeira descrição científica de suas paisagens. É mister notar que os dois irmãos foram educados por pensadores do Iluminismo como o médico kantista Marcus Herz e o botânico Karl Ludwig Willdenow.

Karl Humboldt foi o grande visionário da unificação da Alemanha ocorrida em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi elevado a Imperador da Alemanha. O seu livro The Sphere and Duties of Government (1854; A esfera e os deveres do governo), escrito em 1791 e publicado postumamente em 1852, trata dos dois objetos da política, a questão de quem deve governar e ser governado; e a questão da demarcação das esferas do governo e dos governados. Para Von Humboldt, a segunda é mais importante do que a primeira, pois a delimitação da esfera do cidadão abarca a sua vida privada e os limites de sua liberdade.

…existem dois grandes objetos, a mim me parece, que devem ser mantidos distintamente sob a vista, nenhum dos quais podendo ser ignorado ou ser subordinado sem causar um dano grave ao modelo comum; esses são – primeiro, determinar, no tocante à nação em questão, quem deve governar, quem deve ser governado, e organizar o funcionamento do poder constituído; e segundo, prescrever a esfera exata à qual o governo, uma vez construído, deve estender ou confinar as suas atuações. O último objeto, o qual abraça mais imediatamente as vidas privadas do cidadão, e de uma maneira mais especial determina os limites de sua atividade livre e espontânea, é, estritamente falando, o propósito verdadeiro e final; o primeiro é apenas um meio necessário de como chegar à esse importante fim. Contudo, por mais estranho que possa parecer, é no alcance do primeiro desses objetivos que o homem direciona a sua melhor atenção; e, como nos cabe mostrar, esta busca exclusiva de um propósito definido coincide apenas com a manifestação usual da atividade humana.

A comparação entre a modernidade e a antiguidade era o grande debate da época pós-revolucionária em que Humboldt viveu. Muitos tomaram partido da modernidade e, em muitos aspectos, cogitaram colocar a antiguidade na lata de lixo da história. Essa não era a postura de Humboldt, o qual reconhecia o quanto os antigos valorizavam a individualidade. Ele ilustrou isso com a seguinte citação da Ética de Aristóteles:  “Pois aquilo que peculiarmente pertence a cada um por natureza é o melhor e o mais prazeroso para cada um; consequentemente, para o homem constituído especialmente pelo intelecto, a vida (mais prazerosa) é aquela de acordo com o intelecto. Essa é, portanto, a vida mais feliz.”

Nessa mesma época pós-revolucionária, quando os primeiros Estados Modernos eram criados, Humboldt entendeu que a pergunta relevante acerca do papel do Estado era: ‘deve este fornecer apenas a seguridade ou deve fornecer a totalidade do bem-estar físico e moral da nação?’. Quem tem apreço pela liberdade na vida privada optaria pela primeira premissa. Infelizmente, os que acham que o Estado deve prover mais do que segurança não pensam na potencial injúria que tal política pode causar à liberdade.

Humboldt reconhece que o Estado Moderno, com sua solicitude de agir pelo indivíduo e prover o seu bem-estar, cria uma necessidade de impostos, enquanto que as legislações criadas nesse sentido acabam limitando a liberdade do indivíduo e valorizando menos o que o indivíduo é e mais o que ele possui. O capítulo II do seu livro The Sphere and Duties of Government trata especificamente do indivíduo e da individualidade. Seu título éof the individual man, and the highest ends of his existence’ (Do homem individual e os objetivos mais elevados de sua existência).

O verdadeiro propósito do homem, ou aquele que é prescrito pelo eterno e imutável ditame da razão, e não sugerido por anseios vagos e transientes, é o mais alto e mais harmonioso desenvolvimento de seus poderes no tocante a um todo completo e consistente. A liberdade é a grande e indispensável condição que a possibilidade de tal desenvolvimento pressupõe; mas ao lado dessa há uma outra que é essencial, – intimamente conectada com a liberdade, na verdade –,  uma variedade de situações. Mesmo o mais livre e autoconfiante dos homens é frustrado e impedido no seu desenvolvimento pela uniformidade de posições. Mas se por um lado é evidente que uma diversidade desse tipo é o resultado constante da liberdade, por outro lado, existe um tipo de opressão que, sem impor restrições no homem em si, gera uma impressão peculiar de suas próprias circunstâncias circundantes; essas condições de liberdade e variedade de situações, podem ser tomadas, num determinado sentido, como sendo uma mesma coisa. Ainda assim, pode contribuir à perspicuidade capaz de apontar a distinção entre elas.

… a razão não pode desejar para o homem nenhuma outra condição do que aquela em que cada indivíduo desfrute da mais absoluta liberdade de se desenvolver por suas próprias energias, em sua perfeita individualidade, mas cuja natureza externa é deixada sem qualquer agência humana, apenas recebendo a impressão de si própria e da autodeterminação que é dada a cada indivíduo, segundo a medida de seus desejos e instintos, e limitado apenas pelos limites de seus poderes e seus direitos.

Humboldt conclui que a razão deve ser a base de cada sistema político e o ponto de partida de toda investigação acerca do mesmo. A razão deve ser usada, a fim de salvar o que é necessário para preservar a liberdade, e nunca deve ceder a pressões para abrir mão da liberdade.

As visões de John Stuart Mill e Bertrand Russell

A visão de Humboldt sobre a esfera do governo impressionou o pensador britânico John Stuart Mill (1806-73), um dos nomes mais importantes do liberalismo britânico, o qual, por sua vez, influenciou seu afilhado Bertrand Russell (1872-1970), o grande divulgador do individualismo no século XX.

No seu famoso ensaio intitulado ‘Da individualidade’, Mill reconhece que a individualidade, isto é, o caráter de uma pessoa, é o principal ingrediente do progresso social, inspirado no livro The Sphere and Duties of Government (1854; A Esfera e os Deveres do Governo) de Humbolt. O ensaio de Mill começa mostrando que, se todas as pessoas do mundo menos uma, tivessem determinada opinião, tal maioria não justificaria silenciar o indivíduo de opinião divergente. Tirar a liberdade de expressão é sempre condenável, não importa que a opinião seja minoritária ou até errada. Mill concorda com Von Humboldt ser uma pena que a maioria tenda a ver o indivíduo que insiste em sua individualidade como um causador de problemas. Não obstante, as faculdades humanas da percepção, do julgamento, do sentimento discriminador, da atividade mental e da preferência moral, só são exercitadas fazendo-se escolhas. Portanto, o privilégio de ser um ser humano reside em experimentar ser ele próprio a fim de amadurecer as suas faculdades humanas e, com elas, interpretar a experiência de sua própria maneira.

Para Mill, o indivíduo de caráter autêntico é aquele que tem desejos e impulsos próprios que expressam a sua natureza. O homem cujos desejos e impulsos não são dele próprio tem o mesmo caráter que o de uma locomotiva a vapor.  Diz-se que uma pessoa tem um caráter forte quando, além de ter impulsos próprios, tais impulsos são encontram-se sob o controle de uma determinação forte. O indivíduo que desenvolve o seu caráter torna-se mais rico, diversificado e  animado; e, por se tornar mais valioso para si mesmo, é capaz de ser mais valioso para os outros, através de ideias que alimentam o tipo de pensamento elevado que enriquece a sociedade. Como Von Humboldt, Mill também reflete sobre o debate acerca dos antigos versus modernos e reconhece a importância dada pelos primeiros não apenas à individualidade mas também à capacidade intelectual. Identifica que os antigos valorizavam as mentes superiores enquanto que a tendência moderna é dar ascendência à mediocridade pelo fato de a mesma refletir melhor a maioria.

Russell abordou o individualismo na série de palestras intitulada ‘Reith Lectures’ feitas para a BBC, que ele mais tarde transformou em ensaios e publicou no livro Authority and the Individual (1950; A autoridade e o indivíduo)1. Na primeira palestra, intitulada ‘Social Cohesion and Human Nature’ (A coesão social e o indivíduo), Russell fez a pergunta de como conciliar a iniciativa individual que é necessária para o progresso com a coesão social que é necessária para a sobrevivência. Na palestra ‘The role of individuality’ (O papel da individualidade) Russell reafirma a ideia de Mill (seu padrinho), ao sublinhar a importância dos indivíduos não conformes ao progresso social e a própria sobrevivência da sociedade.

Praticamente todo progresso artístico, moral e intelectual depende desse tipo de indivíduos, os quais foram um fator decisivo na transição do barbarismo para a civilização. Se uma comunidade quiser progredir, precisa de indivíduos excepcionais, cujas atividades, embora úteis, não são necessariamente do tipo genérico. Na sociedade altamente organizada há sempre uma tendência para que as atividades de tais indivíduos sejam indevidamente tolhidas; por outro lado, se a comunidade não exercer nenhum controle, o mesmo tipo de iniciativa individual capaz de produzir uma inovação valiosa pode também produzir um criminoso. O problema, como todos aqueles com os quais nós nos preocupamos, é uma questão de equilíbrio; a liberdade de menos traz estagnação, e em excesso, o caos.

Russell termina reclamando da homogeneização da sociedade e da falta de espaço para a espontaneidade e a iniciativa, e portanto, para a individualidade. Para ele, a melhor maneira de as crianças aprenderem é seguindo os seus próprios instintos.

Conclusão

O presente ensaio procurou explicar o individualismo mostrando o que é e o que não  é. O individualismo é a primazia pelo indivíduo em contraposição ao grupo. A razão por detrás do individualismo é o reconhecimento de que os direitos e as responsabilidades humanas são imputáveis apenas a indivíduos. O individualismo não é uma forma de egoísmo, o amor exagerado aos próprios valores e interesses, como ocorre no tipo de comportamento que sacrifica o dever ao interesse particular. O contrário de egoísmo é altruísmo, definido como a inclinação a preocupar-se com o outro sem uma expectativa de ser retribuído. O egoísmo, assim como os outros vícios ou virtudes, independem de ideologias. O individualismo se opõe à conformidade inquestionável do grupo. Ser individualista não significa ignorar as comunidades, mas sim, refletir sobre os seus valores antes de aceitá-los. Conforme Mill e Russell reconheceram, as pessoas diferentes têm uma capacidade maior de descobrir coisas e de reconhecer a originalidade, e, por essa razão, são mais úteis à sociedade.

O individualismo floresceu no século XVIII na Europa e nos Estados Unidos, mas perdeu prestígio durante o século XIX em razão do Movimento Romântico e do avanço do socialismo. O Movimento Romântico enalteceu o espírito comunitário do povo, assim como a sua língua e cultura, e, influenciou o processo de criação de nações durante o século XIX e o início do século XX. Também serviu de suporte para os regimes fascistas, surgidos após a Primeira Guerra Mundial, bem como para a indústria de publicidade e da propaganda. O movimento da contracultura das décadas de 1960 e 1970 teve um veio de liberalismo na promoção da liberdade sexual e da autenticidade do indivíduo. Infelizmente tal movimento não concretizou seu apoio ao individualismo, pois era bem mais simpático coligar-se ao socialismo ou a sua forma mais diluida, o progressismo. Por fim, no que diz respeito à revolução digital do final do século XX , ainda não se sabe se a mesma favoreceu, ou não, o individualismo. O que é sabido é que essa revolução criou as massas do espaço cibernético, que giram em torno de sexo, moda, celebridades e as mais diversas aspirações.

O homem é ao mesmo tempo um indivíduo e um animal social. Tanto a individualidade quanto a coesão social são fatores importantes na configuração da sociedade. Entretanto, conforme Russell e outros identificaram, a conformação social pode acarretar a perda da capacidade de pensar por si próprio, e portanto, a perda da criatividade necessária à sobrevivência da própria  sociedade. Para Russell, é importante conciliar a iniciativa individual à participação na comunidade. A melhor justificativa do individualismo é que o desenvolvimento das capacidades do indivíduo e da excelência beneficia a toda a sociedade. Outra justificativa considerável é que ninguém consegue ser feliz sem ser ele próprio.

[1] Publicou também o livro Unpopular Essays (1950; Ensaios Impopulares).

Referências

Von Humboldt, Baron Wilhelm (1852). The Sphere and Duties of Government. Translated by Joseph Coultlhard Jr. London, John Chapman, 1854. (Ideen zu einem Versuch, die Gränzeen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen).

Mill, J. S. Of individuality. In: Boaz, David, editor. The Libertarian Reader, 1997. New York, Simon & Schuster.

Russell, Bertrand (1950). Authority and the Individual. London, Simon and Schuster. 79 pp.

Tocqueville, Alexis de (1835, 1840). Democracy in America. Volume I. Translated by Henry Reeve. Guttenberg, eBook, released Jan 21 2006, last updated Feb 7 2013.

                                                                                                                                               

O presente ensaio foi publicado na revista eletrônical PortVitoria , sobre generalidades, cultura e política, dedicada a falantes de português e espanhol (15, Jul-Dec 2017), fundada pela própria autora em 2010. Joaquina Pires-O’Brien publicou o O homem razoável (2016), uma compilação de 23 ensaios sobre a Civilização Ocidental e a educaçção liberal, disponível exclusivamente pela Amazon.

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