Epicteto e Marco Aurélio: Dois estoicos extraordinários

Joaquina Pires-O`Brien

Epicteto e Marco Aurélio foram dois extraordinários pensadores estoicos da Antiguidade cujos ensinamentos sobre a melhor maneira de viver bem ainda são relevantes nos dias de hoje. Os estoicos eram os seguidores do Estoicismo, escola grega de filosofia fundada em Atenas por Zenão de Cita (no atual Chipre; 344 – 262 AEC), a qual ensinava que o maior bem de todos é a virtude baseada no conhecimento e que os indivíduos sábios vivem em harmonia com a razão divina (também chamada Destino ou Providência divina), que governa a natureza. A palavra ‘estoico’ vem do grego stoa poikilê, que significa pórtico ou varanda, mas usada em referência ao pórtico que existia no mercado (Agora) da antiga Atenas, o qual era um ponto de encontro. A característica marcante dos estoicos é sua indiferença às vicissitudes da sorte e às sensações de prazer e dor.

Epicteto (55-135 EC), cujo nome significa ‘ganho’ ou ‘adquirido’, nasceu escravo em Hierápolis, na Frígia (atual Pamukkale, na Turquia), e, foi levado ainda jovem para Roma, como escravo de Epaphroditos, que foi secretário de Nero. Com a permissão desse, Epicteto frequentou as aulas do filósofo estoico Gaius Musonio Rufus (c. 25 – c. 101 CE). Por volta de 90 EC, o imperador Domiciano baniu-o, juntamente com outros filósofos, quando ele foi viver em Nikopolis, no Épiro (no noroeste da Grécia), onde fundou uma escola de filosofia que alcançou grande sucesso. Os seus ensinamentos, que seguem a escola estoica, foram compilados pelo seu aluno Flavio Arriano, em oito volumes de Diatribes (Discursos ou Dissertações), dos quais quatro sobreviveram. Os ensinamentos de Epicteto são quase sempre em forma de máximas que ensinam a cultivar a liberdade interior através da autoabnegação, do amor aos inimigos e da submissão aos acontecimentos do destino. Tais ensinamentos até hoje fazem sentido. Um exemplo é a neurose moderna causada pela ansiedade decorrente de não termos o controle sobre certas coisas. Epicteto ensina que o bem e o mal residem nas coisas que estão em nosso poder, que devemos concentrar as nossas escolhas de vida nas coisas que estão dentro do nosso controle, e não nos angustiar por coisas que estão fora do nosso controle. Para Epictero, o alcance da felicidade depende das opções de vida que cada pessoa faz.

Marco Aurélio foi filósofo e imperador de Roma. Nasceu em Roma em 26 de abril de 121 EC, numa família aristocrática. Aos dezessete anos de idade, Marco Aurélio foi adotado, juntamente com Lúcio Cômodo, pelo imperador Tito Aurélio Antonino (conhecido como Antonino Pio), que era casado com sua tia paterna. Foi cônsul, ou líder do senado, durante três mandatos, em 145 EC casou-se com Faustina, a filha do imperador, e, após a morte de Lúcio Cômodo, passou a ser o primeiro nome na sucessão do império. Marco Aurélio jamais desejou ser imperador, cargo que eventualmente assumiu por dever e não por opção. Enquanto convivia com a fortuna e o poder, Marco Aurélio buscou a companhia de mestres gregos, obteve uma excelente educação humanística e tornou-se um seguidor da escola Estoica. Assumiu o trono de Roma em 161 EC, após o falecimento de Antonino, posição que ele compartilhou com seu irmão germano Lúcio Aurélio Verus Augustus, conhecido como Verus, o qual foi comandar o exército romano na guerra contra o império Pártio. Apesar de Verus ter vencido, os soldados romanos que retornaram a Roma trouxeram algum tipo de doença que dizimou uma boa parte da população. Quando Verus morreu em 169 EC, diversas levas de tribos bárbaras germânicas já haviam começado a invadir a parte leste do império romano. Devido aos falsos rumores de que Marco Aurélio estava à beira da morte, o general romano Avidio Cássio tomou para si o título de imperador, obrigando Marco Aurélio a viajar até a fronteira leste do império, juntamente com sua esposa Faustina, a fim de reestabelecer a sua autoridade. Faustina faleceu durante essa viagem. Marco Aurélio foi ferido em batalha contra as tribos germânicas e faleceu em 17 de março de 180, em Viena. Marco Aurélio deixou o livro Meditações, pequeno porém profundo. Fala das prioridades de sua vida: do ofício de imperador ser secundário ao ofício de ser bom; de preferir a filosofia à política; da luta diária para manter a serenidade e não perder a calma por coisas que estão fora do seu controle.

O fato de Marco Aurélio ter abraçado Epitecto como mestre é uma mostra da irrelevância da posição social em relação ao saber. Epicteto e Marco Aurélio foram os últimos grandes filósofos da Antiguidade.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar o ebook O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO está disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

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