Sobre a identidade cultural

 

Sobre a identidade cultural

“Todo miserável imbecil que não possui nada com o quê se orgulhar, adota como último recurso o orgulho pela nação à qual pertence; ele está pronto e disposto a justificar a unhas e dentes todos os seus defeitos, assim, pagando a si mesmo com a própria inferioridade.” Arthur Schopenhauer, Aphorisms

A partir das variáveis individualismo, liberalismo, constitucionalismo, direitos humanos, igualdade perante a lei, liberdade, estado de direito, democracia, livre mercado e separação entre Igreja e Estado, o cientista político Samuel Huntington (1927-2008) subdividiu o mundo político do período pós-Guerra Fria em nove civilizações. Nessa classificação, o Ocidente é bem menor do que as pessoas costumam imaginar pois exclui a América Latina, que ele classificou como uma civilização separada. Embora existam muitas críticas à classificação de Huntington, não há como negar que cada sociedade humana tem um conjunto de atributos culturais caracterizadores como língua, costumes, valores, comportamentos, tecnologias e instituições. Em outras palavras, cada sociedade possui uma identidade cultural definida pelo seu conjunto de atributos culturais.

Os elementos caracterizadores da cultura como língua, costumes, valores, comportamentos, tecnologias, e instituições que definem a sociedade são os mesmos que definem os indivíduos. Entretanto, cada indivíduo possui uma identidade cultural que é ímpar, devido à singularidade de seu genoma e das suas interações sociais e ambientais. Trocando em miúdos, cada indivíduo possui uma identidade cultural formada por dois tipos de atributos: aqueles que lhe foram conferidos ao nascimento, como etnia, língua, religião e nacionalidade, e aqueles que o próprio indivíduo desenvolveu em sua jornada de descobrimento.

A identidade cultural do indivíduo pertence à categoria das coisas ‘presumidas como certas’, muito bem expressa na expressão inglesa ‘taken for granted’. Muitas pessoas passam uma existência inteira sem pensar sobre sua identidade cultural. A condição de estranho ou estrangeiro gera a necessidade desse conhecimento. Um indivíduo começa a perceber a importância da identidade cultural quando ele sai do seu lugar de nascimento para ir morar noutra região ou noutro país.
Nenhum outro grupo de pessoas necessita mais da identidade cultural do que os expatriados, pois eles precisam ter sempre uma resposta pronta para a pergunta ‘quem é você’. E o expatriado bem sucedido é aquele que procura entender a sociedade hospedeira e utiliza a própria identidade com parcimônia. Em outras palavras, o expatriado bem sucedido não procura ressaltar em que ele é diferente mas sim os pontos em comum.

A distância da terra natal dá ao expatriado uma perspectiva que parece facilitar o entendimento da identidade cultural. Entretanto, o expatriamento físico não é uma condição obrigatória para se encontrar a própria identidade. O desenvolvimento intelectual é outro caminho. No seu livro O Prisioneiro, Marcel Proust (1871-1922) disse que a jornada de descobrimento que optamos por fazer nas nossas vidas não consiste de ver novas paisagens mas de adquirir novos olhos. Proust referia-se aos olhos dos artistas, isto é, à maneira como a arte consegue transportar um indivíduo para as maravilhosas terras estranhas dos artistas.

Referências
Huntington, S. (1996) The Clash of Civilizations and Remaking of World Order.
Proust, M. (1923). The Prisoner (La Prisonnière, Volume 5). In: Remembrance of Things Past (À la recherche du temps perdu (1913–27)), 7 volumes. Translated into English by C. K. Moncrief.


Joaquina Pires-O’Brien é a editora e fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo: www.portvitoria.com. O seu e-book O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas atemporais e contemporâneos, está disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo.

 

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