O conhecimento do indivíduo. II.

Joaquina Pires-O’Brien

Conclusão.

A Subversão da Opinião Pública pelas Massas

Durante o período entre guerras do século XX, o Ocidente foi assolado pelas massas que apoiaram o fascismo e suas diversas variantes, como o nazismo alemão. Tal fenômeno tem sido o objeto de muitos estudos pelos especialistas. O grande problema das massas que os especialistas identificaram é a subversão da opinião pública. Mas o que é opinião pública? A opinião pública é o resultado do debate construtivo e racional conduzido na esfera pública, isto é, a esfera situada entre a sociedade civil e o Estado, e cujos atores são os indivíduos que se reúnem para discutir a política, e, a mídia, através dos jornais de ampla circulação e da indústria da publicidade. Tal definição é dada pelo sociólogo e filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-). Em que situação a opinião pública é subvertida? Quais os fatores que propiciam tal subversão? Habermas também responde a essas perguntas. No seu livro The Structural Transformation of the Public Sphere (A transformação estrutural da esfera pública; título original: Strukturwandel der Öffenlichet), inicialmente publicado em 1962, Habermas sublinha a importância do debate construtivo e racional para a manutenção da sociedade democrática. Ele também aponta as falhas do Estado que propiciam a manipulação da esfera pública, como a elevada burocracia, a ausência de estímulo à autossuperação e a inexistência de igualdade de oportunidades nos cargos públicos e privados.

Os indivíduos dotados de conhecimento geral tendem a ter uma maior sensibilidade em relação à esfera pública, e por essa razão, eles são os principais formadores da opinião pública genuína, resultante do debate público. As massas do período entre guerras foram formadas pela manipulação da esfera pública. Nessa manipulação, a opinião dos indivíduos é anulada, e a única opinião que conta, é a do controlador da massa. Três estudiosos se destacaram no estudo do fenômeno das massas do período entre guerras do século XX: o espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o alemão Teodoro Adorno (1903-69) e o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94).

Ortega identificou a subversão da opinião pública pelos movimentos coletivistas, dando lugar à ‘sociedade circunstancial ao poder das massas’. O seu livro A rebelião das massas (1929) mostra como era a relação entre o conhecimento e a opinião pública no século XIX. Para ele, embora no século XIX os donos do conhecimento ainda fossem uma minoria, a população era possuidora de uma razoável sensibilidade para entender isso. Havia um público sensível que buscava o conhecimento da minoria e procurava debater os mais diversos assuntos nos cafés e noutros recintos públicos. A explicação que Ortega oferece para o fenômeno das massas baseia-se na desigualdade intelectual das pessoas. Ortega identifica dois tipos de pessoa: o ‘homem vulgar’ e o ‘homem excelente’. O ‘homem vulgar’ é o indivíduo que é suscetível à massa; ele não impõe sobre si próprio nenhum esforço voltado à busca da perfeição, pois já se sente satisfeito consigo mesmo. O ‘homem excelente’ é um tipo superior de indivíduo, capaz de impor enormes demandas sobre si próprio, incluindo tarefas difíceis e árduas responsabilidades.

Adorno atribuiu o surgimento da massa à criação da ‘sociedade de consumo’ pela indústria publicitária apoiada nos potentes meios de comunicação do rádio e do cinema. No seu livro Dialética do Esclarecimento (Dialektik der Aufklarung), em co-autoria com Max Horkheimer, publicado em 1947, Adorno mostrou os efeitos colaterais da cultura de massa como a substituição gradual da individualidade pela pseudo-individualidade, e a própria negação da biologia natural do homem.

Canetti fez um apanhado histórico do fenômeno das massas e cogitou a possibilidade de haver um elemento catalisador da massa, que ele denomina ‘cristal de massa’, metáfora que ele buscou na química, a sua disciplina de estudo na universidade. No seu livro Masse und Macht (Massa e poder, publicado em português em 1995 ), Canetti afirma que a massa resulta de uma reação social que ocorre na presença do ‘cristal de massa’. A metáfora do ‘cristal de massa’ de Canetti embute a ideia de que a massa, por ser um produto de uma reação social, é reversível da mesma forma que certas reações químicas também são.

A partir da segunda metade do século XX, a população do mundo cresceu de uma forma sem precedentes, especialmente em determinados países de fora do eixo do Ocidente. O fenômeno da massa reapareceu nesses países com problemas semelhantes àqueles que o Ocidente teve no período entre guerras. Embora, no final do século XX, o Ocidente não tenha tido outros movimentos de massas comparáveis àqueles do período entre guerras, a manipulação da esfera pública continuou, seja em torno do consumo seja em torno de causas xenofóbicas. Entretanto, a Idade Digital, surgida no final do século XX, introduziu poderosos elementos na esfera pública, como, as gravações de vídeo, o stream on line e as redes sociais. Pode-se argumentar que todos esses elementos são meras ferramentas: o que tais ferramentas fazem ou podem fazer depende da maneira como são usadas.

A Idade Digital e o Conhecimento

Muitos observadores sociais já apontaram que Idade Digital supervalorizou a informação e trivializou a cultura. Mas as incursões à Idade Digital também ocorrem no terreno da ficção, como a do personagem ‘Morador do Café’ criado pelo escritor americano, nascido no Egito, R. F. Georgy, que compara a internet a um palácio de cristal e este à caverna de Platão, o reduto da ignorância humana absoluta, no seu livro Notes from the Café (2014). Sofrendo de câncer e com pouco tempo de vida o Morador do Café vive a sua grande crise existencial. As suas reflexões e críticas sobre a Idade Digital aparecem em diálogos imaginários com ex-colegas da academia e outras pessoas. O Morador do Café é um velho que, além de indignado e contraditório, encontra-se desmemoriado. Ele tem uma vaga lembrança de ter sido um professor de filosofia, embora não consiga lembrar o próprio nome. Suas colocações são mais um esbravejamento de um velho opinioso tentando passar a vida a limpo. Eis algumas citações (tradução minha) do Morador do Café acerca da Idade Digital:

‘Eu me lembro de uma época quando a informação se curvava perante a sabedoria. Hoje, a informação tornou-se pomposa e arrogante.’

‘Vocês sabiam que nós vivemos numa era na qual os peritos e os especialistas se tornaram os profetas da nossa época, na qual os atores e os jogadores de esportes são heróis mitológicos, e a mediocridade é virtude.’

‘A idade digital não sabe o que fazer dos professores…// Então, vocês não sabiam que hoje em dia os professores são controlados e manipulados pelas empresas de publicação que têm um interesse em passar todas as atividades de ensino para o palácio de cristal virtual?’

‘A idade digital não precisa de professores; não senhores, a idade digital precisa de gestores de informação para manter o nosso palácio virtual se movendo. Esses gestores de informação logo serão substituídos por professores digitais que irão ‘facilitar’ a aprendizagem.’

‘Os cafés não são mais para engajarmos em conversação estimulante. Não senhores, eles são feitos para as pessoas irem lá, com os seus laptops e telefones inteligentes,  encontrar um canto a fim de escapar do mundo.’

‘Nós confundimos a informação com o conhecimento, e o conhecimento resultante da informação de alguma forma passa por sabedoria.’

‘O homem moderno não é menos uma criatura de conhecimento do que um escravo da informação. Vocês não perceberam que nós nos tornamos viciados na informação.’’

O homem é estúpido por natureza. Ele é estúpido ao extremo e o pior é que ele não sabe da própria estupidez.’

‘Digam-me, do que a idade digital nos liberou? Nós mudamos da convivência com as sombras para tornar-nos prisioneiros das nossas cavernas privadas. É isso o que a idade digital nos trouxe.’

‘Quem é que precisa de pessoas quando temos essa caixa mágica para nos ocupar por toda a vida? Nós não fomos liberados, senhores, nos fomos aprisionados pela nossa própria arrogância.’

A Idade Digital é apenas um tentáculo do monstro da modernidade, segundo o Morador do Café. Na citação abaixo, ele conta porque acredita em Deus, embora o alvo do seu ódio seja a ciência:

‘Você quer saber se eu creio em Deus?… Eu acredito em Deus por raiva. É isso, não fique tão espantado. De raiva da ciência eu acredito em Deus. Veja você, o mundo moderno me dá duas opções: acreditar num constructo que já foi completamente desmascarado e exposto como um conto de fadas, ou submeter à fria indiferença da ciência. Eu escolho o conforto do constructo. Eu escolho acreditar num conto de fadas ao invés de ser enganado pela sedutora lógica da ciência.’

Os Intelectuais

Costumamos entender os intelectuais como sendo indivíduos obviamente cultivados e dotados de uma extraordinária capacidade de explicar as coisas para o público leigo. A designação correta desses indivíduos é ‘intelectuais públicos’, termo que os separam dos demais intelectuais oriundos tanto das artes quanto das ciências e que não escrevem para o grande público.

Desde os últimos duzentos anos muitos intelectuais públicos têm se posicionado como guias e mentores da humanidade. A influência deles aumenta sempre que acontece alguma calamidade. Uma análise isenta de qualquer calamidade deve apontar o conjunto completo de alternativas possíveis, que deve incluir a opção ‘não fazer nada por enquanto’. Entretanto, não foi o que aconteceu nos Estados Unidos logo depois da quebra da bolsa de valores de 1929 que levou à Grande Depressão. Muitos intelectuais norte-americanos condenaram precipitadamente o capitalismo e formaram uma liga de apoio ao socialismo soviético e ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Eles criaram o termo ‘progressivismo’ para servir de manta a esse movimento, e assim, camuflar o que poderia ser interpretado como uma traição aos costumes da liberal democracia da nação norte-americana. E, quando os intelectuais norte-americanos descobriram as atrocidades do regime soviético já no final da década de 30, eles não demonstraram o mesmo interesse em revelá-las a um público já cativo da ideologia socialista.

Os intelectuais públicos são críticos por excelência, mas, raramente, são criticados. No século XX apareceram duas críticas de peso aos intelectuais. A primeira é a do escritor inglês Samuel Johnson, cujo livro Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky, de 2007, faz um apanhado das vidas de doze dos mais importantes intelectuais dos últimos duzentos anos. A segunda é o livro The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes (Os melhores anjos da nossa natureza: o declínio da violência na História e suas causas), do psicólogo experimental Steven Pinker, de 2011. Johnson e Pinker mostraram diversos exemplos de comportamentos indignos por parte dos intelectuais públicos como doutrinamento, alarmismo, extrapolação indevida e a profunda incoerência entre aquilo que afirmam para o público e aquilo que fazem na vida privada.

Johnson faz um apanhado histórico da ascensão dos intelectuais desde os últimos duzentos anos, aproveitando o espaço deixado pelos clérigos e pela crescente especialização das disciplinas. Segundo ele, assim como os antigos clérigos, os novos intelectuais assumiram uma posição quase evangélica e ditaram normas de agir. Numa alegoria a Prometeu, o semideus mitológico dos gregos que roubou o fogo celestial e o trouxe para a terra, Johnson chamou esses primeiros intelectuais modernos de ‘Prometeanos’, pois eles se veem como substitutos dos deuses.

A amostragem de intelectuais que Johnson analisou revelou que a boa imagem do intelectual nem sempre condiz com a realidade e que os intelectuais podem ser instáveis, irracionais, ilógicos, supersticiosos, egoístas, vãos e desonestos. Muitos intelectuais públicos vêm da academia, e aproveitam a fama adquirida para dar palpite em tudo quanto é assunto. É claro que eles têm o direito de fazer isso. Entretanto, as pessoas comuns necessitam ter conhecimento suficiente para enxergar as incoerências dos intelectuais e perceber as implicações não explícitas contidas nas suas asserções. Do nazismo à eugenia e à limpeza étnica, muitas das atrocidades cometidas por líderes políticos ocorreram em resultado de esquemas apontados por intelectuais, afirma Johnson, para quem os intelectuais públicos possuem a aura que encobre os seus preconceitos, enganos e incoerências. Nós costumamos ver os intelectuais como indivíduos não conformistas, mas eles são ultraconformistas quando se encontram dentro de grupos que eles aprovam, diz Johnson. Uma das incoerências mais comuns dos intelectuais analisados por Johnson é o apego ao dinheiro e à riqueza dos intelectuais socialistas.

Pinker concentrou a sua crítica nos intelectuais que vivem atacando o presente e pregando o apocalipse. Muitos desses ataques são injustificados e mesmo que não sejam eles raramente contribuem para encontrar soluções para os problemas apontados. Conforme mostrou Pinker, o intelectualismo desse tipo corrói as instituições modernas como a democracia, a ciência, e o cosmopolitismo que tornaram as nossas vidas não só mais ricas, mas também mais seguras. Finalmente, Pinker descreve as regras que ele gostaria de impor aos ‘entendedores’: ‘Ninguém poderá lamentar qualquer decadência, declínio, ou degeneração sem fornecer (1) uma medida de como é o mundo de hoje; (2) uma medida de como o mundo era em algum ponto no passado; e (3) uma demonstração de que (1) é pior do que (2)’. Segundo Pinker, ‘tais regras acabariam com os enfadonhos vaticínios apocalípticos que abundam em todo o canto’.

As pessoas ordinárias precisam pensar por si próprias e desenvolver uma dose saudável de ceticismo às ideias e aos ensinamentos de terceiros, mesmo que sejam famosos.

Conclusão

A crítica situação do mundo no final do século XX e início do século XXI tem sido encarada das mais diversas maneiras. A maior parte das visões caracteriza-se pelo pessimismo em relação à humanidade e seu futuro. Uma dessas visões é a de que, no tocante ao conhecimento a humanidade, consiste apenas de minoria e massa. Tal visão pessimista aponta que o conhecimento evoluiu, mas a compreensão das coisas continua igual. Trocando em miúdos, o conhecimento teve, sim, uma revolução, só que no sentido de dar uma volta completa na História. A humanidade do século XXI voltou ao ponto de partida da Antiguidade.

Uma sociedade cuja parcela de indivíduos cultivados é insignificante não tem opinião pública, e é incompreensível e caótica. Os três estudiosos do fenômeno das massas no século XX, Ortega, Adorno e Canetti, reconheceram que os diversos desatinos sociais do século XX, como o fascismo e o nazismo, ocorreram devido à subversão da opinião pública. O conhecimento geral habilita o indivíduo para compor a massa crítica e, por conseguinte, a opinião pública, uma condição essencial da boa governança e da democracia. As pessoas não sabem pensar? A internet e as redes sociais bitolam? Em vez de maldizer a situação, é preciso arranjar um modo de fazer com que cada vez mais indivíduos aceitem o desafio do desenvolvimento pessoal, seja dentro do ensino oficial ou fora dele. A educação ao longo da vida é uma promissora terceira via.

 

Notas

  1. Regime antigo europeu. Embora a Revolução Francesa costume ser usada como o marco divisor entre o regime feudal antigo e o regime moderno, o surgimento dos Estados modernos europeus foi um processo que levou diversos séculos, tendo começado com a Magna Carta inglesa, assinada em junho de 1215, na qual o rei dava certos direitos e garantias aos barões medievais e prometia governar a Inglaterra segundo os costumes da lei feudal.

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Canetti, E. (2011). Massa e Poder. Tradução de Sérgio Tellaroli. 3ª reimpressão. Companhia das Letras, São Paulo.

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Vargas Llosa, M. (2012). A Civilização do Espetáculo. Quetzal Editores, Lisboa.

                                                                                                    

Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira residente no Reino Unido e a editora de PortVitoria, revista bianual sobre a cultura Ibero-Americana na Europa e no mundo.

 

Revisão: Carlos Pires e Débora Finamore

O artigo completo foi publicado originalmente em PortVitoria 10, 2015:

Pires-O’Brien, J. (2015). O Conhecimento das Pessoas. PortVitoria, 10, Jan-Jun 2014. Fonte: http://www.portvitoria.com/

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