O conhecimento do indivíduo. I.

 

 O papel do conhecimento não é dar ao homem olhos, mas guiar, governar e direcionar os seus passos. Michel de Montaigne.

 A educação é a descoberta progressiva da nossa própria ignorância. Will Durant

O conhecimento habilita o indivíduo a contribuir positivamente para a opinião pública, considerada a condição necessária da boa governança e da democracia. O tipo de conhecimento ao qual eu me refiro é o ‘conhecimento geral’, que representa uma visão panorâmica de todo o conhecimento existente tanto das ciências quanto das artes, e que inclui o conhecimento da sociedade e da civilização. Neste ensaio, procurarei mostrar a evolução do conhecimento em termos de quantidade de saber acumulado e do número de pessoas que tem acesso ao mesmo o conhecimento. Procurarei, também, analisar o conhecimento a partir do século XX, em face a dois fenômenos apontados como aviltadores do conhecimento: o crescimento das massas, especialmente as do período entre guerras, e a Idade Digital.

O conhecimento e os seus donos evoluíram numa trajetória convoluta de avanços e retrocessos. Na Antiguidade, era um privilégio da elite controladora do poder enquanto que o povo comum era presumido como sendo ignorante. A partir da Renascença, a filiação ao estabelecimento já não era uma condição obrigatória para a busca do conhecimento. Durante o Iluminismo, período compreendido entre 1687 e 1750, o número de estudiosos na Europa Oeste cresceu vertiginosamente. Seus adeptos entenderam a necessidade da educação mínima para todos e do desenvolvimento da massa crítica da população. A criação da primeira Enciclopédia, reunindo todo o saber existente, foi uma das muitas contribuições do Iluminismo.

O conhecimento sofreu um retrocesso quando os revolucionários socialistas do século XIX decidiram que todas as elites de poder eram perniciosas, inclusive as cientistas e intelectuais, uma visão que foi mantida pelos promotores da correção politica do século XX. Essa questão é abordada por Mário Vargas Llosa no seu livro A Civilização do Espetáculo, 2012. Nesse livro, Vargas Llosa definiu a cultura como senso ‘a bússola da civilização’, ‘um guia que permite que as pessoas se orientem no espesso emaranhadoIluminismo de conhecimentos sem perder a direção, e que permite reconhecer o caminho principal e os desvios inúteis’. Os promotores da correção politica conseguiram fazer com que tudo virasse cultura. Entretanto, aponta Vargas Llosa, se tudo é cultura nada é cultura. O remédio contra o ar de superioridade das elites intelectuais acabou sendo pior do que a doença, pois agora somos obrigados a viver sem rumo e num mundo amorfo e confuso.

As revoluções socialistas, a ascensão da esquerda, a Guerra das Culturas, tudo isso atrapalhou o avanço do conhecimento no Ocidente. Pode-se dizer que no último quarto do século, pelo menos no Ocidente, o conhecimento já era algo totalmente aberto a quem quer que o desejasse. Essa época coincidiu com os avanços do metaconhecimento, ou seja, o conhecimento do conhecimento, o qual é uma área reconhecidamente interdisciplinar. E, por último, coincidiu, também, com o surgimento da revolução digital. O cenário do século XXI mostra que o conhecimento não tem mais o prestígio que outrora já teve. Os motivos disso são diversos, incluindo desde a competição com a tecnologia da informação até a mudança nos anseios da população maior.

O Conhecimento da Antiguidade ao Iluminismo

Na Antiguidade, o conhecimento estava associado à realeza e a ignorância ao povo. Um exemplo dessa associação são os boatos que corriam sobre Alexandre o Grande (356-323 a.C.). A própria mãe de Alexandre, para se vingar de Filipe II, por este ter arrumado outra esposa, espalhou o boato de que Alexandre não era filho de Felipe II, mas sim de Hércules. O boato de que Alexandre era filho de Hércules puxava outro boato, de que ele era invencível. Percebendo que tais boatos o ajudavam nas suas conquistas, Alexandre foi adiante com os mesmos, traindo a educação que havia recebido.

Outra característica da Antiguidade era a desconfiança que havia pelo detentor do conhecimento que não fosse um membro do estabelecimento. Aqui o exemplo mais contundente é o de Sócrates (469-399 a.C.), que em 399 a.C. foi oficialmente acusado de impiedade e de corrupção dos jovens, e, em seguida, condenado à morte. Sócrates era despojado, costumava andar descalço e mal vestido, e conversava com todos sem distinção, pobre ou rico, novo ou velho, livre ou escravo, homem ou mulher. Sabemos das conversas de Sócrates através da obra de Platão (427-347 a.C.), que as registrou nos seus livros. Conforme mostrou Platão, as conversas ou diálogos de Sócrates tinham sempre um caráter inquiridor, pois, segundo este último, “a vida não examinada não vale a pena ser vivida por um ser humano.” Sócrates tinha diversos seguidores jovens, que costumavam imitar a sua forma de questionar, irritando os mais velhos. O fato de Sócrates possuir conhecimento sem ser um membro do estabelecimento incomodou muitos atenienses de sua época, e em especial a classe dos professores já estabelecidos – os sofistas – que ensinavam aos jovens como obter sucesso na vida pública. Ao ser acusado de exercer a profissão de professor, Sócrates retrucou que nunca havia aceitado dinheiro pelo que fazia. Ao ser interpelado se ele concordava com os rumores de que ele era o homem de maior conhecimento de Atenas, Sócrates negou, dizendo “Quanto mais eu sei, menos eu sei”.

A morte de Sócrates tipificou a desconfiança que existia contra aqueles que têm conhecimentos, mas que não são afiliados do estabelecimento. Sócrates deixou um enorme legado que inclui o esclarecimento entre o saber e a ignorância. Na sua frase “Quanto mais eu sei, menos eu sei”, Sócrates quis dizer que o conhecimento pleno era impossível e que quem quer que julgasse tê-lo só poderia estar enganado. Sócrates era sábio porque conhecia a própria ignorância.

O regime antigo europeu (1), que perdurou da Antiguidade até o fim do Feudalismo medieval, não era muito diferente da Antiguidade Grega. A maioria da população era praticamente analfabeta, e o conhecimento existente concentrava-se na elite detentora do poder, que consistia na nobreza, formada pelo monarca reinante e pelos aristocratas, e no clero. A última fase do Feudalismo medieval europeu desenrolou-se concomitantemente à Renascença ou Renascimento. Na Europa, o Renascimento surgiu em épocas diferentes na França, Itália, Alemanha e Grã Bretanha, e com características próprias em cada país. A Renascença incomodou bastante o clero, que se sentiu ameaçado pela nova elite de humanistas e cientistas independentes do poder tradicional.

A elite de humanistas e cientistas independentes do poder tradicional que começou a surgir na Renascença expandiu-se enormemente no Iluminismo, período compreendido mais ou menos entre 1687 e 1750. Alguns historiadores optam por separar os Iluminismos pelos seus países de ocorrência, falando de Iluminismo britânico, francês, alemão, etc. Outros procuram mostrar que houve um Iluminismo bom e outro ruim. Entretanto, tais separações são falhas, uma vez que o Iluminismo foi um movimento universal voltado a reinterpretar o mundo à luz das novas descobertas científicas.

Três filósofos de destaque do iluminismo foram o inglês John Locke (1632-1704), o escocês David Hume (1711-76) e o prussiano Emanuel Kant (1724-1804). No seu livro Essay Concerning Human Understanding (Ensaio sobre o Entendimento Humano), publicado em 1690, Locke justapôs a razão humana aos avanços da ciência, concluindo que todo conhecimento é fundamentado e deriva-se do senso… ou sensação. As duas importantes implicações disso sobre o conhecimento são: (i) existe apenas um conhecimento; e (ii) como o conhecimento vem da consciência, é possível aplicar as leis da moral a todos, inclusive aos pagãos e ateístas. Hume levou adiante as ideias de Locke sobre o conhecimento. No seu livro A Treatise of Human Nature (Tratado sobre a natureza humana), 1739-40, Hume expressou a diferença que existe entre conhecimento e crença. Segundo Hume, como a crença vem da fé religiosa e a fé religiosa é uma revelação, então a crença não é uma forma legítima de conhecimento. Entretanto, o marco do início da filosofia moderna é o livro de Kant Crítica da Razão Pura, de 1781. A visão de Kant é entendida pelas suas duas fases, a primeira caracterizada pelo religioso imerso na teologia vigente e a segunda pelo filósofo maduro que procurou colocar a moral no vazio deixado pela religião. O seu livro Crítica da Razão Prática (1788), ou Segunda Crítica, contrasta o raciocínio científico e o raciocínio prático e mostra as interfaces entre a ciência e a filosofia.

O Iluminismo recebeu os mais diversos ataques por diversas doutrinas antimaterialistas, algumas de caráter bastante fundamentalista, como a do clérigo irlandês George Berkeley (1685-1753) o qual afirmou que o mundo e o conhecimento do mundo são idênticos, pois a única realidade física são os pensamentos ou ideias.

Quando a Certeza é Indevida

Diversos observadores notaram que as pessoas mais estúpidas são cheias de certeza enquanto que as pessoas mais inteligentes são cheias de dúvidas. É que a inteligência e a ignorância nem sempre são apartadas com a facilidade com que se separa o trigo do joio. O fenômeno da certeza indevida é complicado pela inabilidade das pessoas de entender os diversos tipos de conhecimentos que existem. Além dos conhecimentos que são específicos para o desempenho de uma arte ou profissão, existem ainda os conhecimentos gerais, que conferem o rumo existencial. Os conhecimentos gerais formam a base da educação liberal, que, por sua vez, contrasta com a educação vocacional ou profissional. Consequentemente, as duas coisas são necessárias para uma educação completa.

O filósofo inglês Sir Francis Bacon (1561-1626) reconheceu as armadilhas da certeza e afirmou que o avanço do conhecimento começa com dúvidas e não com certezas. Bacon, que é conhecido pela frase “Saber é poder” (Knowledge is power), apontou os quatro maiores ‘ídolos’ derivados da ignorância e que impedem a visão da razão. São eles: (i) os ídolos da tribo, representados pelos os erros causados pela tendência natural das pessoas de buscar evidência para aquilo que já acreditam ser a verdade; (ii) os ídolos da caverna, representados pelos preconceitos e pelos precondicionamentos que cada pessoa tem devidos ao seu distinto ambiente físico e intelectual; (iii) os ídolos do mercado, representados pelos desentendimentos de linguagem e as mentiras inerentes à atividade do comércio que induzem ao erro; (iv) os ídolos do teatro, representados pelos dogmatismos e preconceitos repassados através dos sofismas embutidos nos sistemas tradicionais de conhecimento, incluindo a filosofia.

William Shakespeare (1564-1616) aproveitou em suas peças o slogan ‘conhece-te a ti próprio’ (nosce teipsum) dos sábios da Antiguidade para demonstrar as fraquezas e imprevisibilidades da natureza humana. Em As You Like It (Como lhe aprouver), uma comédia pastoral escrita entre 1599 e 1600, o personagem Touchstone, um bobo da corte, diz: “O tolo pensa que é sábio, mas o sábio sabe que ele próprio é um tolo” (The fool doth think he is wise, but the wise man knows himself to be a fool.).

Na sua poesia ‘Ensaio Sobre a Crítica’ (An Essay on Criticism), uma metacrítica da poesia de tamanho épico, Alexander Pope (1688-1744) aborda os temas do conhecimento e da ignorância em diversos epigramas, como os dois abaixo:

  1. Fools rush in where angels fear to tread.

‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.’

e

  1. A little learning is a dangerous thing.

‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa.’

No primeiro epigrama o termo ‘tolos’ refere-se às pessoas cujas aspirações estão acima de suas capacidades, enquanto que o termo ‘anjos’ refere-se às pessoas esclarecidas e que conhecem as próprias limitações. No segundo epigrama Pope procura mostrar que o conhecimento pode ser profundo ou superficial e que, dessas duas formas, apenas o conhecimento superficial é perigoso, pois embriaga a mente e engana as pessoas. Pope mostra ainda o denominador comum desses dois epigramas: a batalha constante entre o ímpeto de julgar e a resistência para não julgar. Os que enxergam melhor as coisas percebem as dificuldades e são mais propensos a resguardar-se de julgar. Os que se precipitam a julgar são os que pensam que enxergam, mas não enxergam, pois suas mentes estão simplesmente embriagadas pelos seus limitados conhecimentos.

O naturalista britânico Charles Darwin (1809-82) também notou o comportamento de confiança nas pessoas e considerou a possibilidade de a confiança ser uma característica favorável à adaptação e portanto passível de ser selecionada pela seleção natural. No seu livro The Descent of Man and Sexual Selection (A origem do homem e a seleção sexual), publicado em 1871, Darwin afirmou que “a ignorância gera mais frequentemente a confiança do que o conhecimento”.

Muitos filósofos e pensadores que vieram depois de Darwin concordaram com a asserção do naturalista. O filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) afirmou: “O problema com o mundo é que os estúpidos são cheios de certeza e os inteligentes cheios de dúvidas” (The trouble with the world is that the stupid are cocksure and the intelligent are full of doubt.).

O método científico que envolve a falsificação de hipóteses com a finalidade de derrubá-las possibilitou testar cientificamente diversas ideias de Darwin. No campo da psicologia evolutiva, os pesquisadores têm examinado a possibilidade de certas características do ser humano como confiança, memória, percepção e língua serem objeto da seleção natural. A cognição ou capacidade de adquirir conhecimento é a variável que a psicologia evolutiva usa para medir o conhecimento e uma pesquisa que se destacou nesta área é a de Justin Kruger e David Dunning da Universidade de Cornell (1999).

Dunning e Krueger fizeram quatro estudos sobre humor, raciocínio lógico e gramática num experimento que envolveu 140 voluntários que eram alunos de graduação da universidade de Cornell. Logo depois de fazer os testes, foi pedido aos participantes que estimassem o número de seus acertos, gerando os dados de ‘capacidade percebida’ que foram comparados com a ‘capacidade atual’, resultante dos testes aplicados. Em todos os testes os indivíduos que acertaram mais se subestimaram, enquanto que os que erraram mais se superestimaram. No quarto estudo, eles manipularam a competência dos indivíduos para ver se isso alterava as habilidades metacognitivas que afetam a autoavaliação. Para tanto, eles deram um treinamento em metacognição para a metade dos participantes antes de pedirem a eles que estimassem o número de seus acertos. O fenômeno da subestimação e superestimação dos percentis superiores e inferiores também apareceu nesse quarto experimento. Dentro do segmento que recebeu o treinamento em metacognição, os indivíduos dos percentuais superiores reduziram as suas subestimações, mas nenhum efeito significativo foi notado entre os indivíduos dos percentuais inferiores. Dunning e Krueger provaram o viés da autoavaliação e o atribuíram à má calibração da cognição. Eles concluíram que a superestimação da capacidade é mais problemática do que a subestimação, pois esta não só se trata de uma incompetência mas é também acompanhada da incapacidade de enxergar o próprio mau desempenho. (Continua)

Nota

Artigo publicado originalmente na revista PortVitoria (10, Jan 2015)  – http://www.portvitoria.com.

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