Tome cuidado com o idos de março!

No calendário romano o ‘idos de março’ correspondia ao dia 15 e era o dia da festa religiosa do lupercais (lupercalia), em homenagem à divindade Pã. Esta data entrou para a História por ser a data escolhida para o assassinato de Júlio César no ano 44 a.C. Shakespeare deu ao idos de março a conotação de mau agouro, conforme mostra o trecho a seguir (a tradução é minha) extraído da sua tragédia Júlio César.

Vidente: César!

César: Quem me chama?

Casca (conspirador contra César): Que todo o barulho cesse: que a calma retorne!

César: Quem é que me chama do meio do povo? Eu ouço uma fala, mais medonha que a música.

Um grito: César! (César volta-se para ouvir.)

Vidente: Tome cuidado com o idos de março!

César: Quem é aquele homem?

Brutus: É um vidente dizendo para tomar cuidado com o idos de março.

César: Traga-o para mim; deixe-me ver o seu rosto.

César: O que é que tu disseste para mim? Diga de novo.

Vidente: Tome cuidado com o idos de março!

Júlio César, Ato 1, cena 2, 13-25 (1599)

Shakespeare baseou este trecho e outros da sua tragédia na biografia de Júlio César escrita por Plutarco1. Segundo esta narrativa, no dia do idos de março, dia 15, do ano 44 a.C., Júlio César dirigiu-se ao fórum do Senado não só contra a vontade de sua esposa Calpurnia, que havia sonhado que ele havia sido morto, mas também contra a própria intuição, uma vez que ele era um homem supersticioso. Ao chegar no fórum, Júlio César foi abordado por um homem pedindo para falar com ele, e logo em seguida, ele foi cercado por um grupo de conspiradores que tirando as adagas escondidas em suas roupas, aplicaram-lhe 23 golpes. A inferência de Shakespeare é que Júlio César foi derrotado por ter deixado de seguir o seu próprio instinto.

  1. Plutarco (c.46-c.120 d.C.) era um grego altamente letrado e viajado que deixou escritos históricos e de caráter geral. O próprio Plutarco admitiu que não escrevia história e sim biografias e portanto os seus escritos supostamente factuais devem ser escrutinados pelos pesquisadores de história. Na minha postagem A Biblioteca da Alexandria eu cito o exemplo do engano de Plutarco ao creditar a Júlio César a destruição dessa famosa Biblioteca. No caso da biografia de Júlio César de Plutarco é possível que haja outros erros, visto que Júlio César e morreu cento e dois anos antes do nascimento de Plutarco.

PS. Quais as lições que podem ser tiradas do assassinato de Júlio César no idos de março? Essa pergunta foi feita por Edward Gibbon (1737-94), autor da gigantesca obra Ascensão e Queda do Império Romano. Gibbon mostrou a futilidade do evento para o motivo explícito de salvar a República. O que os conspiradores queriam era fama e vingança. Entretanto, eles ganharam a vingança e César ganhou a fama. Depois da sua morte Júlio César foi endeusado, o Senado perdeu poderes e Roma passou a ser governada por imperadores.

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