‘Civilização’: Termo politicamente incorreto?

Durante o início do século vinte, um grupo de antropólogos e sociólogos, ou cientistas sociais, como são comumente referidos na língua inglesa, decidiram que o termo ‘civilização’ levava à rotulação das pequenas sociedades humanas como sendo ‘não civilizadas’. Na segunda metade do século os cientistas sociais decidiram empregar a palavra ‘cultura’ no lugar de ‘civilização’ e geraram um sistema de bullying acadêmico para coibir o emprego da palavra ‘civilização’. Ao definir a cultura como ‘o padrão de conduta comum a qualquer agrupamento humano os cientistas sociais deram à esta palavra um novo sentido pluralista. Isso foi uma decorrência da doutrina conhecida como ‘relativismo cultural’, segundo o qual as crenças e atividades de um indivíduo qualquer devem ser entendidas pelos outros nos termos da própria cultura do mesmo indivíduo.

Um dos primeiros a notar a introdução da nova acepção da palavra ‘cultura’ e o surgimento do relativismo cultural foi Leo Srauss (1899-1973), um filósofo norte-americano nascido na Alemanha. Ainda na década de cinquenta, Strauss criticou a nova acepção da palavra ‘cultura’, usando a raiz etimológica desta palavra para mostrar que ‘cultura’ tinha apenas um sentido singular. “Cultura’, afirmou Strauss, significa ‘cultivo’, enquanto que ‘cultivo’ descreve tanto o cultivo das plantas no solo quanto o cultivo das mentes. Segundo Strauss, o novo sentido pluralista de ‘cultura’ é a causa das dificuldades geradas em torno desta palavra: ‘nós não hesitamos em falar da cultura suburbana ou das culturas das gangues juvenis tanto de não delinquentes quanto de delinquentes. Conforme mostrou Strauss, a palavra ‘cultura’ no sentido plural não seve como medida de cultivo da mente de ninguém pois ‘todo ser humano fora de um manicômio é um ser de cultura, pois participa de uma cultura’.

Antes da onda relativista transformar-se num tsunami, Scott Nearing (1883-1983), um intelectual norte-americano cuja advocacia da vida simples fez com que fosse considerado um radical, definiu ‘civilização como um nível de ‘cultura’ criado em cima de alicerces construídos durante longos períodos de vida não civilizada. Nearing descreveu a cultura humana como sendo a soma total das ideias, relações, artefatos, instituições, propósitos e ideais em funcionamento corrente em qualquer comunidade; ele descreveu a civilização como sendo uma aglomeração de povos, nações e impérios inter-relacionados no tempo e no espaço pelo compartilhamento de ideias, práticas, instituições e modos de proceder e de sobreviver.

Apesar das pressões contrárias, o termo ‘civilização’ continuou e ainda continua a ser usado pelos estudiosos. Samuel Huntington usou-o no título de um ensaio publicado em 1993 na revista Foreign Affairs, e no livro correspondente publicado 1997. Neste livro, Huntington descreveu o mundo político do período pós-guerra Fria através da sua múlti polaridade, identificando nove civilizações: Ocidental, Latino Americana, Africana, Islâmica, Sínica, Hindu, Ortodoxa, Budista e a Japonesa, as quais se interpõem e se misturam umas com as outras dando origem a diversas supercivilizações.

Evitar rotulações inapropriadas e agressões gratuitas foi o objetivo do relativismo cultural, a doutrina por detrás do bullying contra o emprego da palavra ‘civilização’ e da mudança de sentido da palavra ‘cultura’. Entretanto, há duas consequências não planejadas da tese relativista de que a palavra ‘civilização’ é politicamente incorreta. Num cenário social em que não existe civilização e onde a ‘cultura’ perdeu o antigo significado singular que a tornava uma medida do nível do cultivo da mente, a necessidade natural de afirmação do indivíduo é impossível de ser satisfeita. E quando o indivíduo já não consegue se afirmar através do conhecimento de si próprio e da civilização à qual pertence, ele sofre um downgrade. E o downgrade do indivíduo, é um golpe mortal a qualquer processo democrático.

Bibliografia

Huntington, Samuel (1993). The Clash of Civilizations? Foreign Affairs 72 (3):22-49.

Huntington, Samuel (1997). The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. Simon & Schurster UK Ltd, London. © 1996. ISBN 0-684-81987-2

Nearing, Scott (2004). Civilization and Beyond. Learning from History. Project Gutenberg Literary Archive Foundation. May 10, 2004. Ebook #12320.

Pinker, Stephen (2004). Tabula Rasa. Tradução de Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, São Paulo. © 2002. ISBN 85-359-0494-8.

Strauss, L. (2014). Discurso Sobre a Educação Liberal. Tradução de Joaquina Pires-O’Brien. PortVitoria, 8, Janeiro 2014. Fonte: http://www.portvitoria.com/

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