A dominação política das massas. A brutalidade da hiperdemocracia

A Rebelião das Massas, obra prima de José Ortega y Gasset (1883-1955), começou a ser publicada em 1926 no jornal madrilenho El Sol. Neste livro Ortega y Gasset retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Estas não têm ligação a nenhuma classe social tradicional, sendo caracterizadas pela sua dominância social e pela sua brutalidade para com as minorias formadas pelos indivíduos cultos e capacitados. Neste livro, Ortega y Gasset chama de hiperdemocracia o regime da hegemonia das massas. O autor deixa claro que o acréscimo prefixo ‘hiper’ à palavra democracia, não é uma caracterização positiva mas sim negativa, pois a verdadeira democracia implica na manutenção do Estado de Direito, o que não acontece quando a sociedade é dominada pelas massas (grupos, maltas etc.).

As consequências do fenômeno das massas observado por Ortega y Gasset estão registradas na história: elas incluem o antissemitismo e o Holocausto, outros crimes contra a humanidade e a Segunda Guerra Mundial.

Os cidadãos amantes da democracia precisam ficar atentos aos sinais do surgimento e crescimento das massas pois trata-se de fenômeno universal e recorrente. O texto abaixo, extraído do primeiro capítulo do livro A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset, é uma contribuição para o aumento da conscientização sobre a ameaça das massas.

Pequeno trecho do livro A Rebelião das Massas de José Ortega y Gasset*

A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é, portanto, uma divisão em classes sociais, mas em classes de homens, e não pode coincidir com a hierarquização em classes superiores e inferiores. Claro está que nas superiores, quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o “grande veículo”, enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. Mas, a rigor, dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. Como veremos, é característico do tempo o predomínio, ainda nos grupos cuja tradição era seletiva, da massa e do vulgo. Assim, na vida intelectual, que por sua própria essência requer e supõe a qualificação, adverte-se o progressivo triunfo dos pseudointelectuais não qualificados, inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. 0 mesmo nos grupos sobreviventes da “nobreza” masculina e feminina. A seu turno, não é raro encontrar hoje entre os obreiros, que antes podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos “massa”, almas egregiamente disciplinadas.

Ora bem: existem na sociedade operações, atividades, funções da ordem mais diversa, que são, por sua mesma natureza, especiais, e, consequentemente, não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso, ou bem as funções de governo e de juízo politico sobre os assuntos públicos. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas – qualificadas, pelo menos, em pretensão -. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social.

Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio, eles nos aparecerão inequivocamente como anúncios de uma mudança de atitude na massa. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. É evidente que, por exemplo, os locais não estavam premeditados para as multidões, posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles, demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa, que, sem deixar de sê-lo, suplanta as minorias.

Ninguém, creio eu, deploraria que as pessoas gozem hoje em maior medida e numero que antes, já que tem para isso os apetites e os meios.
O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias, não se manifesta, nem pode manifestar-se, só na ordem dos prazeres, mas que é uma maneira geral do tempo. Assim – antecipando o que logo veremos -, creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. Democracia e Lei, e convivência legal, eram sinônimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. Pelo contrário. Isso era o que antes acontecia, isso era a democracia liberal. A massa presumia que, no final das contas, com todos os seus defeitos e vícios, as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Agora, por sua vez, a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei à concepções [cruas] de cafés. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. Por isso falo de hiperdemocracia.

O mesmo acontece nas demais ordens, muito especialmente na intelectual. Talvez cometa eu um erro; mas o escritor, ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente, deve pensar que o leitor médio, que nunca se ocupou do assunto, se o lê, não é com o fim de aprender algo dele, mas, pelo contrário, para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados, teríamos não mais que um caso de erro pessoal, mas não uma subversão sociológica. O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não seja como todo o mundo, quem não pense como todo o mundo, corre o risco de ser eliminado. E claro está que esse “todo o mundo” não é “todo o mundo”. “Todo o mundo” era, normalmente, a unidade complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora todo o mundo e só a massa.

*José Ortega y Gasset, J.(1930). Capítulo 1, pp 64-68. A Rebelião das Massas. Tradução para o português de Herrera Filho. Editora Ridendo Castigat More. Versão para eBook: eBooksBrasil.com.


PS. Há alguns problemas na tradução do texto de Ortega. Entretanto, o tema é bastante relevante principalmente para a governança pública e a administração do bem público. O ‘domínio da malta’, que no inglês é conhecida pelo termo ‘mob rule’,  é um fenômeno que continuou a crescer no século XX e ainda se manifesta no século XXI. O ‘domínio da malta’ é um lobo vestido de cordeiro: usa uma manta de democracia para esconder seus vícios e a própria incompetência.

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