Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar. Alexander Pope

Alexander Pope (1688-1744) foi um poeta e intelectual do Iluminismo europeu e do período neoclássico inglês cujos valores estão refletidos nas suas poesias, que enaltecem a genialidade dos antigos e as possibilidades da razão e da ciência.

Pope nasceu em Lombard Street, Londres em 1688, o mesmo ano da Revolução Gloriosa, assim chamada por ter mudado um regime monárquico sem derramamento de sangue, no caso, a remoção do trono do rei católico James II da Inglaterra e Irlanda (James VII da Escócia) e sua substituição por William III de Laranja e Mary II, que eram protestantes. Pope era filho de um próspero comerciante, que pelo fato de ser católico, sofreu a discriminação vigente na época, inclusive pela própria legislação. A mudança da família de Pope de Londres para Windsor Forest, em 1700, foi provavelmente devido à uma lei que proibia os católicos de morar dentro de 10 milhas de Londres. Pope foi educado em casa, o que, possivelmente, é também devido a alguma outra lei discriminatória contra os católicos. Mas o grande problema da infância de Pope foi de saúde. Enquanto criança Pope contraiu uma série de enfermidades que atrapalharam o seu crescimento e o deixaram corcunda. Em contrapartida às más circunstâncias, Pope tinha uma inteligência incomum, e acabou recebendo uma esmeradíssima educação. Aos doze anos ele já escrevia poesias e já traduzia Ovídio e Homero. A sua reputação literária firmou-se com a publicação do longo poema An Essay on Criticism (Ensaio sobre a Crítica) quando tinha apenas vinte e três anos de idade.

Pope ganhou segurança econômica graças ao sucesso da sua tradução da Ilíada de Homero. Entretanto, os críticos acusaram Pope de ter melhorado de tal forma o texto que este já não seria mais de Homero. Em resposta à essas críticas Pope escreveu o poema The Dunciad, publicado inicialmente em 1728, e republicado com revisões em 1742 e 1754, defendendo o elevado padrão literário de sua tradução e acusando os críticos de mal gosto e pedantismo.

A obra poética de Pope é extremamente importante pelo fato dela oferecer um panorama da cultura da época e do próprio século das luzes, incluindo o choque entre a alta cultura e as demais culturas. Fora da comunidade de língua inglesa Pope é conhecido pelas suas máximas, frases retiradas de seus poemas, que foram traduzidas para os mais diversos idiomas. Entretanto, a poesia de Pope é melhor lida no vernáculo, já que as suas elaboradas construções os torna difíceis de serem traduzidos.

O poema An Essay on Criticism, é uma crítica da crítica da poesia. De tamanho épico, o poema começa com uma discussão sobre as regras do bom gosto que a seu ver deveriam ser usadas para julgar adequadamente a qualidade da poesia. Entretanto, ao mostrar como deve ser o julgamento da poesia, inadvertidamente ou não, Pope transmite lições de crítica que são gerais, como mostra os dois epigramas a seguir:

‘Fools rush in where angels fear to tread.’
‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.’
e
‘A little learning is a dangerous thing.’
‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa.’

Na primeira citação ‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar’, o termo ‘tolos’ refere-se às pessoas cujas aspirações estão acima de suas capacidades, enquanto que o termo ‘anjos’ refere-se às pessoas esclarecidas, isto é, conhecedoras das próprias limitações.

Na segunda citação, ‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa’, Pope compara o conhecimento à mitológica fonte da sabedoria descrita por Hesíodo. Assim como a fonte de Piéria, a morada das musas das artes e das ciências, tem águas fundas e rasas, também o conhecimento pode ser profundo ou superficial. Para adquirir o verdadeiro conhecimento é preciso beber a água da parte funda da fonte de Piéria, ou seja, ir a fundo. Assim como na fonte da sabedoria os goles rasos embriagam, assim também o conhecimento pequeno embriaga e engana a mente.

O denominador comum das duas citações acima é a batalha constante entre o ímpeto de julgar e a resistência para não julgar. Os que enxergam melhor as coisas percebem as dificuldades e são mais propensas a resguardar-se de julgar. Os que se precipitam a julgar são os que pensam que enxergam mas não enxergam, pois suas mentes estão simplesmente embriagadas pelo seus limitados conhecimentos.

O tipo de julgamento onde as pessoas mais erram é o de si próprias. Podemos ver isso na política, onde é comum ver-se indivíduos subeducados que se julgam capazes de governar municípios, estados e até o próprio país. Uma das razões disso é que em geral são os indivíduos menos preparados que correm atrás dos cargos políticos, pois os mais bem preparados, justamente por se conhecerem melhor, tendem a se esquivar da política. Ou seja, os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.

Conforme mostrou Pope, assim como os poetas não nascem poetas mas fazem-se poetas, as nossas mentes podem ser cultivadas pelas boas leituras e pelas conversações relevantes. A grande lição que se pode tirar de Pope é a importância da educação ao longo da vida, a decisão consciente de cada um, de optar pelo questionamento constante e pelo conhecimento mais profundo das coisas.
***

Nota.Esta postagem foi reproduzida da edição atual da revista PortVitoria: www.portvitoria.com/

Veja ainda o meu posting https://jopiresobrien3.wordpress.com/page/4/

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