O camaradismo

O camaradismo – ou a parcialidade aos camaradas – é um produto da malta. A malta é uma horda ou grupo em estado de excitação coletiva. Tal definição foi dada pelo pensador Elias Canetti no seu livro Massa e Poder (1960). Neste livro, Canetti reconhece a malta como o antecedente da massa, que ele define pelas suas quatro propriedades: crescimento, igualdade, densidade e direcionamento, embora duas das quatro propriedades da massa, o crescimento e a densidade, são fictícias na malta.

O camaradismo é o oposto da meritocracia. É um problema grave tanto no setor privado quanto no público. No setor privado, o camaradismo é uma violação das leis do mercado e quase sempre envolve também violações de normas reguladoras. Mas é no setor público onde o camaradismo faz os piores estragos. O camaradismo nas nomeações para posições no governo visa apenas o interesse do nomeador e do seu círculo, quando deveria visar o melhor interesse da sociedade.

Uma insidiosa variedade do camaradismo é aquele que ocorre no meio acadêmico, pois solapa a qualidade do ensino, comprometendo não só a lei e a ordem mas também o futuro da própria sociedade. O camaradismo no meio acadêmico é uma chaga que aflige sociedades de todos os níveis de desenvolvimento. Entretanto, o camaradismo acadêmico é mais insidioso nos países onde inexiste uma estrutura capaz de amortecer os seus enormes prejuízos financeiros e morais, naqueles onde os acadêmicos gozam de empregos vitalícios em instituições custeadas inteiramente pelo Estado.

O camaradismo acadêmico é sempre cometido de uma forma sutil, e isto mostra que seus praticantes sabem que estão agindo erradamente. Uma das evidências mais notáveis do camaradismo acadêmico é a linguagem. No final do século vinte, a expressão ‘gate-keepers’, nos Estados Unidos, denotava acadêmicos estrategicamente posicionados para para impedir a contratação de pessoas que não partilhavam de determinado clube ideológico. Entretanto, a língua portuguesa é campeã no vocabulário do camaradismo acadêmico, com muito mais expressões indicadoras como: apadrinhamento, nepotismo, clientelismo, panelinha, ‘um dos nossos’, ‘joga no nosso time’, ‘carta boa’, ‘carta fora do baralho’ etc.

Assim como na caverna de Platão, nas academias modernas, grupos de camaradas projetam imagens de democracia e de consenso. E quando algum indivíduo decide contestar, ele é submetido ao teste do ‘nós e os outros’:‘Ou você é um dos nossos ou é nosso inimigo.’ O terror que as pessoas têm do isolamento social faz com que se submetam ao grupo, mesmo quando não concordam com as suas práticas.



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