Aristóteles: quem deve governar

Aristóteles deixou dois livros de elevada importância para o desenvolvimento da civilização ocidental: Ética a Nicômaco e Política. Em Política está sua famosa citação: ‘… é evidente que o estado é uma criação da natureza e que o homem é pela própria natureza um animal politico`. Aristóteles fez essa dedução a partir da percepção de que os seres humanos tinham uma compulsão para formar grupos.

Aristóteles reconhecia quatro formas de governo: (1) a monarquia – o governo de um só; (2) a oligarquia – o governo de vários; (3) a aristocracia – o governo de um punhado de pessoas; e (4) a democracia – o governo de muitos. Para Aristóteles, todas essas quatro forma de governo são falhas. A monarquia é falha porque busca o interesse de uma só pessoa, o monarca; a oligarquia é falha porque busca o interesse dos ricos; a democracia é falha porque busca o interesse dos mais carentes. A existência de interesses próprios nesses três sistemas torna-os incapazes de colocar o bem comum em primeiro lugar.

Entretanto, Aristóteles fez a pergunta sobre como saber quem se caracterizava entre os melhores? Essa é uma pergunta altamente pertinente pois a opinião pública raramente coincide. Na época de Aristóteles, por exemplo, era comum haver dois polos de preferências, um formado pelos muito ricos e outro formado pelos mais pobres, impossíveis de conciliar.

No seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles questiona as disposições (hexeis) das pessoas para fazer algo ou desejar uma coisa, afirmando que o homem virtuoso não almeja diretamente a felicidade mas sim a realização. Nesse livro Aristóteles procura mostrar que a felicidade é a vida plena, onde a alma (psyche) age de acordo com a virtude (arete). Esse tipo de felicidade é o bem supremo (summum bonum) que dá o objetivo e mede o valor de todas as atividades humanas, e somente está disponível aos indivíduos realmente livres.

É interessante notar que dois importantes filósofos do século vinte que valorizaram Aristóteles, Leo Strauss e Karl Popper, seguiam linhas políticas diferentes. Strauss, que era favorável à democracia social, adotou dois esteios aristotelianos: o direito natural do indivíduo e a existência de uma base natural para o julgamento sobre a moralidade política. Popper, que era favorável à democracia liberal, resgatou outros pontos da filosofia de Aristóteles, que ele julgou importantes, chamando-os de ‘essencialismo’.

Como é possível que os escritos de Aristóteles sirvam duas linhas políticas diferentes? A resposta está no espírito prático Aristóteles, que favorecia o meio termo e as políticas de centro. Isso vai de encontro à ideia do pensador político Francis Fukuyama, de que a existência de uma classe média forte é essencial para a sustentabilidade democrática, pois a classe média tente a defender as posições de centro. Fukuyama complementa a visão de Aristóteles do bom governante, afirmando que este deve saber pensar de uma forma independente, já que os que não têm tal capacidade são muito mais susceptíveis à tela de fumaça criada pelas artimanhas dos políticos raposa.

Assim como o seu antigo mestre, Platão, Aristóteles achava que o melhor governo ou administração para a busca do bem comum é aquele em que os administradores são também os melhores indivíduos. Mas Aristóteles também mostrou que os melhores indivíduos eram aqueles que não só eram preparados, virtuosos e incorruptíveis mas cujas ideias e opiniões também refletem os anseios da maioria.

Post Scriptum. O grande problema do nosso tempo, é que os indivíduos mais preparados e que são capazes de pensar de uma forma independente – quase nunca são escolhidos nos pleitos. Por que razão?

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