Irving Finkel e a escrita cuneiforme

 

Uma visita que fiz uns anos atrás à Galeria do Iluminismo (The Enlightenment Gallery) do Museu Britânico de Londres coincidiu com uma demonstração sobre a escrita antiga que permitia que os visitantes pegassem e tocassem tabletes antiquíssimos de inscrições cuneiformes da Babilônia. Percebendo a rara oportunidade à minha frente eu busquei imediatamente um lugar numa das mesas que haviam sido ali colocadas especialmente para a demonstração. Minutos depois de me sentar, um indivíduo de aparência peculiar, magro, alto, barba branca e longa e cabelos brancos amarrados num rabo na nuca, entrou na galeria a passos rápidos e foi ter com as duas funcionárias do Museu que ali estavam, desaparecendo logo em seguida. Uma das funcionárias do Museu com quem o indivíduo havia falado, veio até a mesa onde eu mais umas sete pessoas aguardavam, trazendo alguns estojos de uns 28 x 25 cm, contendo tabletes de barro de inscrições cuneiformes que lembravam jogos de carimbos de madeira e borracha. Assim que eu peguei um dos tabletes para examinar eu fui acometida pelas mais diversas sensações, que eu naturalmente procurei disfarçar. Como é que o Museu Britânico podia permitir que pessoas ordinárias como eu própria, pegar nessas relíquias de mais de três mil anos de idade? A funcionária do Museu parece que adivinhou os meus pensamentos pois logo explicou que aqueles tabletes eram simples registros de contabilidade, o tipo mais comum que existe, e continuam a ser encontrados aos montes nas escavações arqueológicas da Mesopotâmia. Mesmo assim, pegar nesses tabletes foi para mim uma experiência inesquecível.

Em janeiro de 2014 eu descobri quem era o indivíduo acima descrito que eu tinha avistado na Galeria do Iluminismo do Museu Britânico. Seu nome é Irving Finkel, e ele acaba de publicar o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio, tradução livre para o português), um substancial volume que narra as versões babilônicas da arca e do dilúvio gravadas em escrita cuneiforme sobre tabletes de barros, escritas séculos antes do surgimento da bíblia dos israelitas (ou judeus). Finkel é Diretor Assistente (Assistant Keeper) do Departamento do Oriente Médio do Museu Britânico, e o curador encarregado da maior coleção de tabletes de barro de escrita cuneiforme do mundo.

Nesse livro Finkel explica a versão do tablete Gilgamesh, que já era conhecida desde a segunda metade do século dezenove, e as demais versões e cópias que existem no arquivo cuneiforme. O primeiro tablete Gilgamesh foi encontrado entre 1845 e 1851 no sítio do antigo palácio de Assurbanipal, o rei da Assíria entre 668 e 627 a.C. e decifrado em 1872 por George Smith, outro especialista em escrita cuneiforme do Museu Britânico. A sua referência completa é Gilgamesh XI, pois trata-se do segmento XI que narra uma inundação ou dilúvio que teria ocorrido na Suméria há quase quatro milênios, e que faz parte do épico babilônico Gilgamesh, rei de Uruk na Suméria, que reinou entre 2700 e 2600 a.C. Desde a sua decifração em 1872 outros tabletes cuneiformes apareceram não apenas sobre o épico Gilgamesh mas também sobre outras lendas da antiguidade.

Mas a narrativa principal de Finkel baseia-se num outro tablete datado de cerca de 1750 b.C., que traz uma versão bem mais pormenorizada da narrativa babilônica da arca, que inclui as instruções do deus mesopotâmio sobre como a arca deveria ser construída. A embarcação deveria ser redonda e seu tamanho deveria ser de cerca de dois terços de um campo de futebol. Em termos de material, ela deveria ser feita de corda, revorçada com vigas de madeira e impermeabilizada com betume. O texto também especifica que os animais devem entrar na arca de dois a dois. Segundo a descrição de Finkel, ‘quando os deuses decidiram exterminar a humanidade com um dilúvio, o deus Enki, que tinha senso de humor, vazou a informação para um homem chamado Atra-hasis, ‘o Noé babilônio,’ que deveria construir a Arca’. Finkel também descreve outras narrativas antiquíssimas em escrita cuneiforme que têm remarcáveis semelhanças com certas narrativas da bíblia1. Para quem tiver a oportunidade de ir a Londres, o tablete que Finkel decifrou encontra-se à mostra na Sala 56 do Museu Britânico.

As diversas resenhas que apareceram nos jornais britânicos sobre o livro The ark before Noah de Finkel me persuadiram a comprar o livro que eu li com enorme interesse. O livro de Finkel é sério mas num estilo simples e cativante.

Nota

1. Versões em português e inglês da lenda babilônica de Sargão, que teria inspirado a história de Moisés.

A Lenda de Sargão
SARGÃO, poderoso rei, o Rei da Acádia, eu sou.
A minha mãe era humilde, o meu pai eu não conheço.
O irmão do meu pai morava na montanha.
A minha cidade era Azupirani, situada na beira do Eufrates.
(A minha) humilde mãe me concebeu; em segredo ela me teve.
Ela me colocou num cesto-barco de junco; e com piche ela
fechou a minha porta.
Ela me deu ao rio que não subiu sobre mim.
O rio me levou para Akki, o irrigador, ele me carregou.
Akki, o irrigador do * * * levou-me para a terra.

Akki, o irrigador, me criou como seu próprio filho.
Akki, o irrigador, me fez seu jardineiro.
Quando eu era jardineiro, Ishtar me olhou com amor
[e] * * * * * * quatro anos eu governei o reino.
[Resquícios de cinco linhas bastante danificadas para permitir uma tradução.]

Legend of Sargon
SARGÃO, the powerful king, King of Agade, am I.
My mother was of low degree, my father I did not know.
The brother of my father dwelt in the mountain.
My city was Azupirani, situate on the bank of the Euphrates.
(My) humble mother conceived me; in secret she brought me forth.
She placed me in a basket-boat of rushes; with pitch she closed my door.
She gave me over to the river which did not (rise) over me.
The river bore me along; to Akki, the irrigator, it carried me.
Akki, the irrigator in the * * * brought me to land.

Akki, the irrigator, reared me as his own son.
Akki, the irrigator, appointed me his gardener.
While I was gardener, Ishtar looked on me with love
[and] * * * * * * four years I ruled the kingdom.
[Remnants of five lines too badly mutilated for translation.]

***

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