A religião e a seleção natural

Todas as sociedades da civilização Ocidental e algumas da civilização Oriental já estão secularizadas. Isso significa que muitas coisas que já estiveram sob o domínio religioso, como a participação da Igreja nos governos e o conhecimento da natureza encontram-se agora no domínio laico. Mas o que é curioso nas sociedades secularizadas é o fato de que elas ainda têm um segmento grande de sua população que não consegue imaginar a possibilidade de uma moralidade fora da religião. Tal fato representa um problema para a ciência em geral e a psicologia em particular. Os especialistas estão interessados em descobrir se a religião ou os seus ritos foram objetos da seleção natural. Qual seria a vantagem da religião em termos de contribuir para a sobrevivência? Afinal de contas, as proibições religiosas suprimem as liberdades do indivíduo e subtraem os seus recursos de tempo e dinheiro. Outro problema que os especialistas estão procurando entender é que como a seleção natural teria favorecido ao mesmo tempo um cérebro capaz de usar a razão e as crenças em coisas que obviamente não podem são verdadeiras como espíritos, bruxas, santos, fadas, anjos, demônios e deuses.

A tese de que, durante o processo evolutivo, as crenças religiosas ajudaram o homem a sobreviver e por isso foram selecionadas pela seleção natural, é alvo de um estudo multidisciplinar que inclui a psicologia experimental, a antropologia e a biologia evolutiva. Enquanto a resposta científica não chega, podemos usar o senso comum para especular algumas possibilidades de resposta. O ditado popular ‘nem só de pão vive o homem’, no seu sentido mais literal, significa que as pessoas precisam também das coisas inessenciais como a associação, o riso, a dança, a música, a arte , a poesia e até a reflexão sobre a vida e o mundo. O mais provável é que as coisas inessenciais dão prazer, e a sensação de prazer deixa impressões químicas e fisiológicas no cérebro, e isso as tornam objetos da seleção natural. A religião entrou nesse circuito oferecendo um pacote completo das coisas imateriais que o homem precisa. O problema da religião é que quando um indivíduo aceita tal pacote ele deixa de usar a própria capacidade mental de buscar tais coisas. A capacidade mental está ligada ao cérebro do indivíduo: ‘use-o ou perca-o’, diz um outro ditado popular. Ninguém duvida que as religiões de maior sucesso são as que oferecem mais em termos de rituais, música, prescrições morais e comunidade. Dois grandes pensadores Saint-Beuve (1804-69) e George Santayana (1863-1952), nascidos de famílias católicas, comentaram isoladamente sobre a força especial que o catolicismo exerce sobre as pessoas, incluindo para as pessoas que já perderam a fé no cristianismo.
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Jo Pires-O’Brien is the editor of PortVitoria, a cultural internet magazine dedicated to Spanish and Portuguese speakers: http://www.portvitoria.com/

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