A biblioteca da Alexandria

Quando Alexandre o Magno ainda era menino e aluno de Aristóteles, ele certamente conheceu Homero e a descrição de ‘uma ilha no mar que se avista na costa do Egito, designada Faros’ contida na sua Odisseia. Foi precisamente na Ilha de Faros, na desembocadura do Nilo, que Alexandre construiu a nova capital do Egito em substituição a Mênfis. O local escolhido para a construção de Alexandria foi precisamente a Ilha de Faros, na desembocadura do Nilo. A nova cidade teria amplas avenidas e ganharia pelo menos dois monumentos que ficariam na história: um grande farol e um Templo das Musas. O ‘Mouseion’, como este era chamado, seria uma verdadeira instituição de ensino inspirada no Liceu de Aristóteles, em Atenas, onde ficaria uma grande biblioteca, o repositório do saber do mundo.

Alexandre que tinha um enorme respeito pelo antigo mestre, para quem ele enviava regularmente espécimes de minerais e plantas durante as suas campanhas militares. Alexandre morreu aos trinta e dois anos de idade, presumivelmente envenenado por alguém do seu círculo mais chegado, e portanto, não viu a cidade concluía. Foi enterrado lá num local provisório, até a construção do mausoléu em sua homenagem. Após a morte de Alexandre, o império Greco-macedônico foi dividido pelos generais macedônios que o acompanharam nas suas conquistas. Quem ficou com o Egito foi o general Ptolomeu (323-283 a.C.), que era meio-irmão de Alexandre, sendo filho de Felipe com Arsinoe, uma de suas concubinas. Ptolomeu não só conseguiu restaurar a ordem do país mas também ganhar a afeição dos egípcios, que lhe atribuíram o título de Soter, ou ‘o Salvador’. No reinado de Ptolomeu I Soter a Alexandria era um canteiro de obras repleto de trabalhadores de todas as nacionalidades. Ele foi substituído pelo seu filho Ptolomeu II, designado de Philadelphus, que foi quem conseguiu terminar o Mouseion, com a sua grande biblioteca mais alojamentos, áreas para palestras, jardins e um zoológico. Uma segunda biblioteca foi construída posteriormente no Templo de Serapis, conhecida como Serapiana.

Ptolomeu II continuou os esforços do pai e eventualmente ganhou a simpatia dos egípcios através do cultivo das tradições egípcias e restauração das construções dos faraós, que haviam sido destruídos pelos persas. Um exemplo é o Templo de Serapis, num ponto elevado da cidade onde gregos e egípcios veneravam num só altar Zeus e Osíris. Ptolomeu II era instruído e ficou conhecido pelo valor que dava às artes, à história e às ciências. Ele mandou compilar uma história do Egito, uma versão grega da bíblia dos hebreus e é de sua autoria o relato mais crível sobre as campanhas de Alexandre. Durante o seu reinado, a cidade de Alexandria já estava dividida em três distritos administrativos: (i) Rhakotis, o dos egípcios natos; (ii) Bruchium, o da realeza Greco-macedônica, onde ficava o grande Templo das Musas, ou Mouseion, com sua famosa biblioteca real, o Mausoléu de Alexandre e o teatro; e (iii) o distrito dos judeus, que era quase tão vasto quanto o dos gregos.

Toda a dinastia dos Ptolomeus zelou pela manutenção do Mouseion e de suas atividades. Estima-se que a biblioteca tenha chegado a ter entre 500.000 e 700.000 rolos de pergaminhos e manuscritos de todas as partes do mundo incluindo a Grécia, a Pérsia a Assíria e a Índia. Durante o seu apogeu, a Alexandria foi uma das mais importantes cidades do mundo antigo, além de ser também um dos maiores centros culturais do mundo civilizado. Era uma cidade altamente cosmopolita, onde diversas culturas conviviam pacificamente, incluindo uma extensiva comunidade de judeus. Os estudiosos iam para lá a fim de encontrar outros estudiosos. Dentre os seus famosos pesquisadores estão Euclides, Erastóstenes e Aristarco de Samos. Lá ocorreu ainda a mistura da herança egípcia, helênica e judaica que influenciou a nova seita cristã.

Segundo diversas narrativas históricas a Biblioteca principal foi destruída acidentalmente no ano 48 a.C. por um incêndio causado por Júlio César, e que a biblioteca Serapeiana tomou o lugar da primeira até ser ela própria destruída no ano 391 durante a guerra civil que ocorreu no governo do imperador Aureliano. Infelizmente a história do desaparecimento da grande biblioteca da Alexandria foi incorretamente narrada durante muitos séculos. No seu recente livro Alexandria, City of Western Mind (2001), Theodore Vretos esclarece o erro da imputação da destruição da grande biblioteca ao incêndio causado por Júlio César em 48 a.c. Uma súmula dos fatos descritos no livro de Vretos é fornecida na minha postagem Júlio Cesar e a Destruição da Biblioteca de Alexandria.

Quem Destruiu a Biblioteca?
Se Júlio César não teve nada a ver com a destruição da biblioteca real da Alexandria, quem destruiu-a? A história não identifica culpados individuais, apenas relata ações coletivas depredadoras motivadas pelo fanatismo religioso.

Em 391, o Templo de Serápis, que ficava no ponto mais alto da cidade de Alexandria, foi destruído e uma igreja erguida no mesmo local. Outros palácios ou templos considerados pagãos foram demolidos. Quanto aos livros da biblioteca real e da biblioteca serapiana, quem pode dizer ao certo? O que se sabe é que as tentativas de organizar o cristianismo em torno de uma igreja universal, primeiro por Irineu e depois pelo concílio de Niceia, foram acompanhadas de incitações à destruição dos livros contendo doutrinas e evangelhos apócrifas.

Em 641, dez anos depois da morte do profeta Maomé, o Egito foi invadido pelo exército árabe sob o comando do general Amru. A implantação do islamismo no Egito foi acompanhada da predisposição para destruir tudo aquilo que fosse considerado contrário aos ensinamentos do Corão. Os livros que ainda restavam em Alexandria eram os alvos mais fáceis dos novos fanáticos.
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Joaquina Pires-O’Brien é a editora da revista eletrônica bianual PortVitoria, dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês:

Referências
Venettos, Theodore (2001). Alexandria. City of Western Mind. The Free Press. New York. 247 pp.

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