O indiciamento de Platão (c.428-c.348 a.C.)

No século vinte Platão foi indiciado como filósofo coletivista e inimigo da democracia, sendo Karl Popper o seu maior acusador. De fato, a imputação de Platão como coletivista e inimigo da democracia é escorada em A República, de cerca de 360 a.C., um retrato da sociedade perfeita idealizada, governada por um rei-filósofo. Os diálogos da República são diferentes dos outros diálogos de Platão, pois neles Sócrates é o narrador que expõe as diferentes visões sobre os temas relevantes da cidade como a justiça, o bem comum e a educação. O ataque de Popper é sobre o coletivismo embutido nas ideias de Platão de que as pessoas instruídas podiam governar bem melhor do que um punhado de pessoas sem instrução mesmo que eleitas pela população, que o governo da cidade (polis) deve controlar a arte e a educação e que cada indivíduo cidadão da cidade deve personificar a sociedade.

A crítica de Popper a Platão está ligada à noção de que as ideias têm um pedigree e que o pedigree do coletivismo totalitarista, como aquele que afetou diversas regiões do mundo no século vinte, pode ser traçado para trás através de uma série de pensadores como Karl Marx (1818-1883), Georg Hegel (1770-1831), Charles Fourier (1772-1837), Robert Owen (1771-1858), Claude Saint-Simon (1760-1825), Jean Jacques Rousseau (1712-78) e muitos outros.

Defendendo Platão
Popper estava certo em julgar que as ideias de Platão eram perigosas pois o século vinte foi marcado por diversas tentativas de estabelecer reis-filósofos, embora a partir de homens que se julgavam filósofos como Vladimir Lenin (1870-1924), Leon Trotsky (1879-1940), Joseph Stalin (1879-1953), Adolf Hitler (1889-1945), Mao Zedong (1893-1976), Pol Pot (1925-98) etc. Entretanto, o banimento de Platão ao mesmo rol de Lenin, Trotsky, Stalin, Hitler, Mao Zedong e Pol Pot é excessivamente severo. A incriminação de Platão como inimigo da democracia e promotor do coletivismo tem três importantes atenuantes: a juventude, a integridade pessoal e a mente aberta. No atenuante juventude, Platão tinha apenas seus vinte e poucos anos quando imaginou a utopia do rei-filósofo. Antes de se tornar aluno de Sócrates ele serviu na guerra do Peloponeso, que durou muitos anos e terminou com a derrota de Atenas. Ele tinha apenas 29 anos de idade quando no ano 399 a.C. ele testemunhou o julgamento e a condenação de Sócrates. Que democracia era aquela que condena a morte um indivíduo que além de nunca ter causado mal a ninguém era também um sábio? No atenuante integridade pessoal, Platão soube resistir à diversas pressão de seus pares, por exemplo para se associar aos Trinta Tiranos que governaram brevemente Atenas (404-403 a.C.) e para falar mal de Sócrates que havia sido ridicularizado na comédia As Nuvens de Aristófanes. No atenuante mente aberta, está a sua aplicação como aluno de Sócrates, de quem ele adotou o método do diálogo, ou dialética, que até hoje considerado um dos pilares da democracia.

A ambição desmedida pelo poder é apenas uma das duas perspectivas da ideia do rei-filósofo de Platão. Existe uma segunda perspectiva onde há uma motivação justificada para a busca do poder, na ideia de que um governante dotado de razão e conhecimentos reduziria incertezas típicas da sociedade. O fato de Platão ter, em duas ocasiões, aceito a tarefa de aconselhar Dionísio, o governante de Siracusa, na Sicília, mostra que o desejo dele era de ver a filosofia empregada pelos chefes de governo.
Platão teve uma vida repleta de aventuras, na tentativa de por em prática a sua ideia de que os governantes poderiam se beneficiar da filosofia, embora as intrigas da corte de Siracusa malograram ambas as suas tentativas de levar a filosofia aos governantes. Platão também viajou pelo Egito, onde estudou os documentos disponíveis e se convenceu de diversas crenças religiosas, e pela Itália, onde estudou matemática com ex-alunos de Pitágoras. De volta a Atenas, em 428/427 a.C., aos quarenta e um anos de idade, Platão fundou a sua Academia, primeira universidade do Ocidente, dedicada ao estudo da filosofia e da ciência.


Joaquina Pires-O’Brien
Beccles, 25 de outubro de 2013

***
Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your blog or Facebook account.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s