O mercado da tradução e seu ídolo

Uma das seções do Flipside 2013 a que tive a oportunidade de comparecer foi a ‘Dictionaries at Dawn’, onde Daniel Hahn mediou dois tradutores do inglês para o português, Margaret Jull Costa e Stefan Tobler. Esta seção consistiu da análise comparativa das traduções de dois curtos textos feitas pelos dois tradutores e serviu para demonstrar não só a individualidade da leitura mas também como esta individualidade afeta a tradução. Entretanto, quando em resposta a uma pergunta da audiência logo no início, Margaret Jull Costa afirmou que os tradutores somente traduzem para suas línguas nativas, eu não resisti e comentei que isso era um fenômeno recente no mercado da tradução.

Na realidade o que determina a capacidade de escrever bem é um conjunto de fatores e o fator da língua nata é apenas um dentre muitos outros. Séculos atrás o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) identificou o ‘ídolo do mercado’ como um dos quatro grandes ídolos da ignorância, sendo representado pelos desentendimentos de linguagem e as mentiras inerentes à atividade do comércio. A ortodoxia da língua nativa é o grande ídolo do mercado da tradução.

O tradutor estrangeiro que eu tinha em mente na reunião do Flipside acima mencionada é Paulo Rónai, um intelectual nascido na Hungria que se refugiou no Brasil no início da Segunda Guerra Mundial. Rónai traduziu para o português não só o húngaro, mas também o francês. E não era só isso. Ele era solicitado a que prefaciasse traduções feitas por outras pessoas. Publicou também o livro ‘Pois é’, uma colcha de retalhos sobre os seus interesses na literatura, nas ideias e valores e na vida pessoal. Em sua homenagem a Fundação Biblioteca Nacional criou o Prêmio Paulo Rónai de tradução.

Mas Rónai não é o único que traduziu para uma língua diferente da sua língua nata. Outro exemplo é Otto Maria Carpeaux, um austríaco nascido em Viena que chegou ao Brasil em 1939. Carpeaux tinha enorme facilidade para línguas pois além do alemão, sua língua nata, ele falava flamengo, inglês, francês, italiano, espanhol, latim, catalão, galego, provençal e servo-croata. Depois de ter chegado ao Brasil ele aprendeu o português em tempo recorde, pois em 1941 publicou seu primeiro artigo no jornal Correio da Manhã. As traduções de Carpeaux não estão na forma de livros mas nas citações contidas na sua monumental História da Literatura Ocidental, escrita entre 1944 e 1945, e publicada no final da década de 50.

Outro exemplo é Jenny Klabin Segall (1899- 1967), que apesar de ter nascido no Brasil, tinha o russo como língua nata, pois tanto o seu pai quanto a sua mãe eram imigrantes judeus de origem russa. Jenny Segal desenvolveu uma longa carreira como tradutora de obras primas da literatura para o português.

Tenho certeza de que há muitos outros exemplos de tradutores bem sucedidos que traduziram para uma língua que não a sua língua nata.


Agradecimento: Carlos Pires, revisor

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