O ser e o parecer

O ‘ser’ e o ‘parecer’ são facilmente separáveis em tudo menos na política. Cerca de dois mil e trezentos anos atrás Platão já havia questionado por que é que no exercício de ofícios ordinários apenas pessoas treinadas serviam mas na política havia uma presunção de que qualquer indivíduo capaz de angariar votos sabe administrar uma cidade ou um país. Hoje em dia, quando a política –ou a politicagem– estende-se muito além do poder de cargos eletivos, distinguir entre o ‘ser’ e o ‘parecer’ continua um problema, como ocorre na ‘política verde’ onde a aparência conta muito mais do que a competência. Numa paródia do questionamento de Platão, por que é que na escolha de alguém para pilotar um avião é preciso ter as credenciais de piloto, mas na escolha de alguém para dirigir alguma coisa relacionada ao meio-ambiente a fama de verde é o bastante? Mas essa pergunta já foi esclarecida por Nicolau Maquiavelli (1469-1527), um burocrata e diplomata a serviço da corte de Florença, quando mostrou a relação entre o poder e a opinião pública, aconselhando o aspirante ao poder a manter a aparência de virtuosidade perante o público ignorante.

O processo de massificação da cultura ocorrida a partir do século dezenove tem reduzido ainda mais a capacidade das pessoas de distinguir entre o ser e o parecer, ou seja, entre o genuíno e o falso. No seu livro A revolução das massas o filósofo espanhol Ortega y Gasset analisou o fenômeno da massificação e identificou o surgimento do ‘homem-massa’, aquele indivíduo que se despersonalizou e virou uma peça da engrenagem da massa. Segundo Ortega y Gasset, a sociedade encontra-se dividida em massas e minorias, e tal separação não se trata de uma divisão de classes sociais altas e baixas mas de classes de pressão. Segundo Ortega y Gasset, o problema das massas não reside nelas próprias, mas na degradação causada pelos seus manipuladores, que são verdadeiros lobos em pele de cordeiro. Conforme frisou o filósofo espanhol ‘as massas não dirigem nem a própria existência, muito menos a sociedade’. Trocando em miúdos, as massas não são o povo mas os seus manipuladores.

Na segunda metade do século vinte houve novas ondas massificadoras nas doutrinas relativistas e seus constructos sociais e no marketing. Isso pode ser visto nos comportamento de manada, no Big Brother da TV de realidade, no culto às celebridades e na ânsia de alcançar a fama.

A última onda massificadora é a das redes sociais, capazes de agregar multidões e deslanchar revoluções quase instantâneas. No seu livro The New Digital Age (A nova Idade Digital), publicado em 2013, Eric Schmidt e Jahed Cohen sugerem a necessidade de se estabelecer um sistema de verificação de dados capaz de separar o que os fatos das técnicas de marketing a fim de evitar mal entendidos. Segundo esses autores, as guerras de marketing já são um fenômeno recorrente e tendem a indicar a iminência de conflitos, tal qual o ataque ao sítio da BP na Tunísia por muçulmanos fundamentalistas, que reagiram contra o vídeo A Inocência dos Muçulmanos (Innocence of Muslims) divulgado com intenções manipuladoras em 2012.

O exemplo acima da divulgação do vídeo ‘A inocência dos muçulmanos’ com motivos escusos mostra que a má-informação, a informação incompleta e a desinformação costumam ser deliberadamente plantadas com o objetivo de gerar conflitos.

Mas o ser e o parecer costumam vir com acompanhamentos que facilitam identificá-los. O ‘ser’ tende a andar com o que é simples, genuíno e transparente enquanto que o ‘parecer’ tende a andar com o que é complicado, artificial e opaco. Entretanto, é bom lembrar que essa regra não é válida nem na política nem na politicagem, pois os que sucedem nesses campos são diplomados na arte de parecer genuíno.


Joaquina Pires-O’Brien is the editor of http://www.portvitoria.com, a general knowledge magazine dedicated to speakers of Portuguese, Spanish and English especially the Hispano-Lusophone diaspora and other transnationals.

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