Anísio Teixeira e Paulo Freire: asas direita e esquerda da educação

Dentre os diversos educadores brasileiros, dois deles se destacaram pelas suas visões da educação como libertação do indivíduo: Anísio Teixeira (1900-1971) e Paulo Freire (1921-1997). Teixeira foi um democrata liberal que lutou pela educação pública de qualidade; Freire foi um democrata social que se destacou na área da educação de adultos. Apesar de suas diferentes ideologias, as suas visões sobre a educação eram muito parecidas: viam a educação como um meio para a liberdade e abominavam o elitismo da educação formal.

Basta ler a biografia de Teixeira para perceber que ele era um autodidata por excelência, que aprendia de tudo com tudo o que via e ouvia, inclusive com a experiência de ter vivido durante duas ditaduras, a do Estado Novo e a ditadura militar de 1964. Baiano de Caetité, Teixeira iniciou a sua carreira como educador aos vinte e dois anos de idade, logo depois de se formar em Ciências Jurídicas e Sociais, no Rio de Janeiro. Teixeira era reconhecido e respeitado tanto pela sua inteligência e elevada cultura geral quanto pela sua decência e integridade. Após ter viajado pela Europa, em 1927 ele fez a sua primeira viagem aos Estados Unidos, voltando da mesma com um caderno de anotações cheio. No ano seguinte, em 1928, ele retornou aos Estados Unidos para fazer um mestrado no Teachers College da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu as ideias do filósofo americano John Dewey (1859-1952), então professor emérito daquela universidade. Dewey foi um dos mais prolíficos acadêmicos da filosofia da educação e tinha uma grande empatia com intelectuais estrangeiros que haviam sofrido perseguições nos seus países. De volta ao Brasil, Teixeira tornou-se um pioneiro em promover a educação para a democracia. No final da década de cinquenta Teixeira participou dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases, e no início da década de sessenta ele colaborou com Darcy Ribeiro na criação da Universidade de Brasília. Teixeira foi um incansável defensor da educação pública e da ideia da educação para a democracia.Anísio Teixeira morreu em 1971, em circunstâncias consideradas obscuras, a despeito do laudo de morte acidental no seu atestado de óbito. O seu corpo foi achado num elevador, na Avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Cogita-se que ele tenha sido morto pelas forças de repressão da ditadura militar.

A biografia de Paulo Freire também joga luz sobre o seu autodidatismo. Nascido no Recife, Freire começou a lecionar enquanto cursava a faculdade de direito da mesma cidade. Ele teve o primeiro contato com a alfabetização de adultos quando tinha apenas vinte anos, ao ser contratado para dirigir o departamento de educação e cultura do Sesi. No início de 1964 Freire foi convidado pelo Presidente João Goulart para coordenar o programa nacional de alfabetização que estava para deslanchar. Entretanto, o programa não foi adiante devido ao golpe militar de 1964. Perseguido pelas suas ideias consideradas subversivas Freire chegou a ser preso, e ao sair da prisão ele se exilou no Chile e depois na Suíça. O seu livro Pedagogia dos oprimidos (1968), escrito no Chile, representa o somatório das suas ideias de pedagogia crítica ou pedagogia libertadora, baseada no questionamento do aprendizado e da sua ligação com a sociedade, assim como na ideia de que o aprendizado beneficia tanto o aluno quanto o professor.

Em 1969 Freire lecionou na Universidade de Harvard, e na década de 1970, serviu ao Conselho Mundial das Igrejas (CMI), com base em Genebra, na Suíça, como consultor para assuntos educacionais, através do qual ele visitou a Zâmbia, a Tanzânia e os países africanos de língua portuguesa. Nessa época ele tomou conhecimento do educador dinamarquês Nikolai Frederik Severin Gruntvig, que inspirou as suas duas obras mais importantes: Pedagogia da esperança (1992) e À sombra desta mangueira (1995). A longa barba que Freire exibiu nos dez anos anteriores à sua morte fez com que se parecesse um Gruntvig brasileiro. Freire foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em 1989 foi o Secretário de Educação do Município de São Paulo, na gestão de Luísa Erundina. Para Freire, a chave da qualidade do ensino é a autonomia da escola, pois permite que se desenvolva de acordo com o seu meio social. Freire serviu de inspiração para os programas educacionais direcionados a  adultos nos Estados Unido, Portugal, Espanha, Argentina e Taipe.

As influências de Freire e de Teixeira estão por trás dos diversos modelos de escolas que surgiram na década de oitenta no Rio de Janeiro e São Paulo, como os Centros Integrados de Apoio à Criança (CIACs) e as diversas variantes do mesmo.


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