A aprendizagem ao longo da vida

A aprendizagem ao longo da vida  (APV), do inglês life long learning (LLL), refere-se a um sistema de educação aberta, contínua e voluntária, que complementa a educação formal que cada indivíduo recebeu. A expressão foi articulada primeiramente por Basil Yeaxlee (1883-1967), um pastor e missionário inglês que trabalhou no YMCA (Young Men Christian Association), num livro de 1929 sobre a educação de adultos. No seu contexto moderno a APV apoia-se largamente no filósofo norte americano John Dewey (1859-52) que se empenhou em mostrar que a educação deve integrar a mente e o corpo a fim de preparar o indivíduo para a vida, enquanto que o ensino das escolas deve levar em contra a realidade de cada aluno.

A APV tanto pode ser voltada para alguma coisa prática como música, artes plásticas, trabalhos manuais, atividades Faça Você Mesmo (FVM), quanto para coisas intangíveis como o puro prazer de aprender alguma coisa nova. A APV pode ser encontrado nos mais diversos lugares como bibliotecas, teatros, museus, centros comunitários, etc. Como a APV é individual, cada qual escolhe o seu próprio caminho educacional pelas razões que julgar convenientes para si próprio.

Buscar o equilíbrio e entre a mente e o corpo é um dos objetivos da APV pois as circunstâncias da vida e do mercado de trabalho em geral impelem as pessoas para um ou outro polo de atuação. Ao programar nossa APV devemos incluir atividades que são difíceis e que representam um desafio para nós pois assim estaremos cultivando alguma parte do nosso cérebro que é subutilizada.

Embora muitas pessoas sejam altamente motivadas e buscar novos conhecimentos onde quer que estejam disponíveis, muitas outras não têm tal motivação. Para este último grupo de pessoas os cursos de extensão oferecidos pelas universidades ou organizações de ensino à distância são excelentes ponto de partida para o desenvolvimento da APV.

As Escolas ‘Folk’ da Dinamarca

Muito antes da emergência do conceito da APV no final do século vinte, o grande problema era a falta total de oportunidades educacionais para a diversos segmentos da população como os trabalhadores rurais. Na Dinamarca, no século dezenove, Nikolai Frederik Severin Gruntvig (1783-1872), um pastor luterano que pelo seu didatismo se tornou também autor, poeta, filósofo, historiador, professor e político. Tendo notado a própria evolução em termos de pensamento, Gruntvig reconheceu a necessidade de oferecer educação para os trabalhadores rurais a fim de que pudessem se engajar melhor como membros da sociedade.

As escolas ‘Folk’ (de ‘Folkehøjskole’) da Dinamarca, fundadas por Christian Flor em 1844 com base no modelo de Gruntvig, foram os primeiros cursos colegiais (high school) do mundo voltadas à educação de adultos. O treinamento dos colégios Folk é feito em regime de internato, com a duração de um ano, onde diversas disciplinas são oferecidas aos alunos. Ao contrário das escolas tradicionais, as escolas ‘Folk’ não têm exames finais. O modelo da escola ‘Folk’ espalhou-se para a Suécia, Noruega, Finlândia, Alemanha, França e Suíça.

O Ensino à Distância

O ensino à distância popularizou na segunda metade do século vinte, quando houve uma enorme oferta de cursos profissionalizantes por correspondência. Entretanto, o exemplo mais bem conhecido e admirado de ensino à distância é o da Open University – OU (Universidade Aberta) da Inglaterra, que começou a oferecer seus cursos em 1926, que podem ou não levar a um diploma universitário. A clientela da OU é formada essencialmente por adultos que trabalham e não têm tempo de frequentar uma universidade durante o dia.

O surgimento da internet no final do século vinte alavancou o ensino à distância, multiplicando o o número de organizações educativas especificamente voltadas à APV. Um dos modelos de APV nos Estados Unidos são os 117 Institutos Osher de APV baseados na Universidade do Sul do Maine (USM), espalhados pelos Estados Unidos. O Canadá é outro país onde o sistema da APV já é bastante popular. O Transformative Learning Centre, baseado na Universidade de Toronto, foi estabelecido em 1993 por um grupo de professores, alunos e membros da comunidade voltado a oferecer uma educação respeitante ao ambiente e à diversidade cultural da população.

A Internet e o Autodidatismo

A internet alavancou o autodidatismo, especialmente depois do crescimento da banda larga. Com esta, um indivíduo pode visitar museus inteiros, ouvir música de todos os gêneros e acessar as grandes obras que anteriormente só podiam ser acessadas através das bibliotecas acadêmicas. Entretanto, o potencial da internet é tão grande –ou tão pequeno– quanto o potencial do seu usuário. Isso significa que o simples acesso à internet de banda larga não garante que o indivíduo possa tirar proveito da mesma.

O autodidatismo é um excelente aliado da APV embora ainda existe muito preconceito contra o mesmo gerado pelas diversas agendas de manutenção do status quo dos que aprenderam a mesma coisa em cursos formais. A fim de facilitar o reingresso de adultos no mercado de trabalho a União Europeia introduziu um esquema para fornecer certificados de capacitações profissionais para indivíduos que aprenderam seus ofícios no próprio trabalho. Possivelmente o preconceito maior contra o autodidatismo seja para atividades intelectuais. Na década de noventa no Brasil o congresso brasileiro aprovou uma lei tornando obrigatório o diploma de jornalismo para a prática desta profissão. Grupos contrários à esta medida entraram com recurso junto ao Supremo Tribunal Federal, que decidiu contra tal legislação.

A leitura de bons livros é talvez a melhor maneira de desenvolver a mente e o gosto pela leitura. Uma enorme quantidade de livros de domínio público estão disponíveis gratuitamente sob a forma eletrônica. A maior e mais antiga organização sem fins lucrativos que distribui livros eletrônicos gratuitamente é o Projeto Gutenberg (PG), cujo acervo em julho de 2012 chegou a mais de 40 mil títulos. Embora uma boa parte desse acervo seja de livros em inglês, há também muitos títulos em francês, Alemão, espanhol, português e outras línguas. Fundado por Michael Heart em 1971, o Projeto Gutenberg é uma fundação cujo nome completo em inglês é ‘Project Gutenberg Literary Archive Foundation’. a mais antiga biblioteca digital do mundo. Desde a sua criação o Projeto Gutenberg cresceu e formou um consórcio com outras bibliotecas digitais possuidoras de coleções especializadas. O lema do PG de ‘derrubar as barreiras da ignorância e da iliteracia’ é uníssono a intenção da APV.


 

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