Platonistas e Aristotelistas. Duas Classes de Pessoas?

A divisão das pessoas em duas classes, a dos Platonistas e a dos Aristotelistas, de acordo com as predisposições de raciocínio é uma percepção já enraizada na inteligência europeia.  David Newsome, um professor de história eclesiástica, atribui o mito a Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), poeta, crítico e filósofo inglês. A citação recede o livro de Newsome sobre o assunto, intitulado Two Classes of Men (Duas Classes de Homens):

Every man is born an Aristotelian, or a Platonist. I do not think it possible that any one born an Aristotelian can become a Platonist; and I am sure no born Platonist can change into an Aristotelian. They are two classes of men, besides which is next to impossible to conceive a third.“ S. T. Coleridge, Specimens of the Table Talk, 2 July 1830.

“Todo homem nasce um Aristotelista ou um Platonista. Eu não penso que seja possível que uma pessoa que nasceu Aristotelista possa se tornar um Platonista; e eu estou certo de que nenhuma pessoa que nasceu Platonista pode se transformar em Aristotelista. São duas classes de pessoas, ao lado das quais é praticamente impossível conceber uma terceira.“ S. T. Coleridge, Specimens of the Table Talk, 2 July 1830.

A percepção de que as pessoas já nascem numa ou noutra das duas classes de pensar é um mito que decorreu da percepção errada do antagonismo entre o Iluminismo e o Movimento Romântico. Esse mito se sobrepõe ao mito de que os filósofos têm pedigrees baseados nas ideias que defendem e que podem ser retraçados até os filósofos da antiga Grécia.

As grandes descobertas da ciência e da filosofia no século XVIII feizeram com que este fosse chamado de o Século das Luzes ou Iluminismo. Apesar de ter sido um período altamente produtivo para a ciência e a filosofia o Iluminismo fomentou a gigantesca utopia conhecida como Universalismo. Defendida principalmente pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804), o Universalismo era uma crença de que o atual progresso científico não só iria revelar o plano inteligente da Divina Providência sobre a natureza mas também trazer um futuro promissor para a humanidade, incluindo a aceitação do seu projeto de paz universal. O Universalismo chegou a ser um sinônimo do Iluminismo, mas foi mais uma ideologia cheia de inconsistências que eventualmente causaram o seu colapso. A convulsão social causada pelas guerras Napoleônicas passou a favorecer uma outra ideologia ainda mais escapista: o Movimento Romântico, caracterizado pela tentativa de resgatar verdades mais antigas contidas na mitologia, nas lendas, nos cultos secretos, na alquimia, nas sagas do Norte e no ocultismo do Oriente.

O surgimento do Movimento Romântico como competidor e contrário ao Iluminismo criou o mito da predisposição de raciocínio que divide as pessoas em duas classes: Aristotelistas e Platonistas, onde os Aristotelistas eram vistos como sendo cientistas metódicos e os Platonistas como os luditas contrários à ciência e agarrados à ideia do ‘espírito dentro da máquina’. O Quadro 1 mostra tipos de comportamento que são associados as Platonistas e Aristotelistas, enquanto que a Quadro 2 mostra as principais diferenças entre as filosofias Platão e Aristóteles. Um dos argumentos contra o mito das duas classes de pessoas é mudança de posição que as pessoas têm em suas vidas, como os Cristãos que renasceram e os que abraçaram o ateísmo.

Quadro 1. Comportamentos Platonistas e Aristotelistas

Platonistas Aristotelistas
São idealistas São realistas
São holistas; priorizam o global; adotam o método dedutivo São meticulosos e atentos ao detalhe; adotam o método indutivo
Acreditam em abstrações fora da matéria; Aceitam apenas a verdade comprovada pelas observações através do sentido;
Aceitam a Providência Divina e a imortalidade da alma; Não aceitam a Providência Divina e a imortalidade da alma;
Vêm a razão como sendo única e absoluta Vêm dois tipos de razão, uma prática e outra científica
São ecléticos São especialistas
São adeptos do Movimento Romântico; São adeptos do Iluminismo;
Acreditam no mundo ‘numênico’ fora dos fenômenos do mundo Se atêm ao mundo real

 

Quadro 2. Contraste entre as filosofias de Platão e Aristóteles

  Platão Aristóteles
O conhecimento da realidade Depende do conhecimento daquilo que transcende Depende da coisa em si, ou da substância primária
O bem ÉÉuniversal e independente dos próprios interesses Está na própria natureza humana
O desejo do bem É racional e independe do ser humano Não é necessariamente racional e depende do ser humano
A ética É sempre ‘sim’ ou ‘não’; imutável e eterna É um ‘talvez’
O homem  Pertence a classes É um indivíduo único
A razão  É uma só Pode ser prática ou científica
A alma É imortal e transmigra de um indivíduo para outro É a parte criativa da razão humana porém mortal
Método usado Dedutivo; prioridade ao abstrato Indutivo; prioridade ao empírico
Filosofia  Idealista e chegada ao coletivismo Realista e chegada ao individualismo

O Iluminismo e o Movimento Romântico costumam ser descritos como contrários um ao outro; o primeiro como sendo baseado na ciência e no individualismo e o segundo como sendo baseado no espírito do povo e na mitologia ao mesmo associada. Os idealistas germânicos, que formaram o maior grupo do Movimento Romântico, levaram de volta para a natureza todo o espírito que dois mil anos de pensamento tentaram dissociar da mesma. Com o objetivo de restaurar a experiência autêntica eles  buscaram descobrir no espírito humano o último destilado da essência da natureza. Na década de 1780, Goethe, filósofo influenciado por Spinoza, escritor, poeta, artista e político, foi também um naturalista. Fausto, o seu mais importante personagem fictício é o arquétipo do homem moderno que se inventa e que inventa o mundo pela vontade, e atinge a perfeição individual tornando-se um absoluto cuja vontade é soberana.

Dois importantes estudiosos que foram influenciados pelo Idealismo alemão são o geógrafo Johann Gottfried Herder (1744-1803) e o filólogo Karl Wilhelm von Humboldt1 (1767-1835). disseminaram a ideia de que a língua dava sentido ao mundo pois estava no âmago daquilo que o Movimento Romântico considerava ser a experiência autêntica. Von Humboldt criou a disciplina da linguística histórico-comparativa voltada a descobrir o local na Europa que havia sido o ponto de entrada do Proto-Indo-Europeu, a língua mãe comum às antigas línguas europeias e o Sânscrito, a língua de origem persa usada nos textos sagrados hindus. A sugestão de Herder e Von Humboldt de que esse local era a planície alemã, deu origem à ideologia do Teutonismo que até hoje alimenta o fogo dos nacionalismos étnico-culturais que ameaçam a paz da civilização Ocidental.

No início do século XIX surgiu a ideia de que o Iluminismo – que havia aberto as portas da liberdade universal e da autodeterminação – havia sido derrotado pelo Movimento Romântico – atrelada aos mitos. Essa noção tem um paralelo na analogia da caverna de Platão onde um dos prisioneiros escapa e vê a verdade do mundo, e ao retornar à caverna para avisar os demais descobre que a verdade não era desejada. O que levaria as pessoas a trocar a ciência pela incerteza da revelação? A resposta a essa pergunta foi dada através do mito da dualidade de raciocínio, segundo o qual as pessoas são por natureza Platonistas ou Aristotelistas. Platão também aceitava que as pessoas pertenciam a classes ou categorias enquanto que Aristóteles notou a individualidade de cada ser humano.

O mito da dualidade de raciocínio foi expandido pelo filósofo Georg Hegel (1770-1831) para acomodar uma suposta genealogia das ideias e dos pensadores. Entretanto, essa ideia de Hegel foi apoderada pelos ideólogos do Nacional Socialismo do século XX que atrelaram à ideia da supremacia germânica a filósofos que já haviam morrido há muito tempo e que possivelmente não concordariam com seus objetivos e seus meios. As ideias atreladas à supremacia germânica voltaram a dividir as pessoas principalmente dentro da Alemanha e da Áustria. A necessidade de explicar porque tantas pessoas se deixaram convencer pela propaganda Nazista enquanto outras tantas ficaram em cima do muro desenterrou o mito da dualidade de raciocínio.

Em 1959 C. P. Snow descreveu uma dualidade parecida na sua teoria das duas culturas que servem para descrever os artistas e estudiosos das humanidades e os cientistas. As duas culturas de Snow são decorrentes de falhas da educação dos indivíduos e não características definitivas de comportamento e, portanto, não suportam a ideia da dualidade de raciocínio. Um mesmo cientista pode apresentar tanto o comportamento Aristotelista quanto o Platonista em fases diferentes de sua pesquisa. Durante a fase de prospecção de ideias e de especulações um cientista geralmente age como se fosse um Platonista, examinando o problema como um todo, mas quando procede para a fase de experimentação, esse mesmo cientista age como um Aristotelista.

A suposição de que o Movimento Romântico era contrário ao Iluminismo vem sendo questionada e diversos estudos mais recentes têm mostrado que o Movimento Romântico foi apenas uma nova fachada que o Iluminismo adquiriu quando os estudiosos resolveram incorporar às ciências físicas desenvolvidas no Século das Luzes, a natureza humana e os reinos vegetal, animal e mineral. Diversos cientistas do Iluminismo eram cristãos e desejavam permanecer cristãos, mesmo depois da exposição dos erros da Autoridade Eclesiástica, enquanto que o escapismo místico-religioso que havia sido apontado como uma característica do Movimento Romântico também esteve presente no Iluminismo. A atitude contrária à ciência, outra característica incorretamente atribuída ao Movimento Romântico, também está sendo reavaliada. A nova ideia é de que o chamado Movimento Romântico procurou apenas incluir outros aspectos da natureza dentro da ciência.

É um mito que as pessoas sejam Platonistas ou Aristotelistas. O mesmo David Newsome mencionado no primeiro parágrafo oferece essa resposta, embutida numa citação do político liberal inglês Edward Strachey: “Todas as crianças são Platonistas, e é a educação que recebem que as tornam Aristotelistas.”

1 Não confundir Alexander von Humbolt, seu irmão mais novo, o botânico e geógrafo que viajou pela América do Sul.

Joaquina Pires-O’Brien

Beccles, 21 de novembro de 2012

Revisor: Carlos Pires

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