Neoplatonismo, aristotelismo e escolasticismo

O neoplatonismo e o aristotelismo são ideologias criadas em torno das obras de Platão e Aristóteles, mas com outros ingredientes. As duas ideologias surgiram dentro do escolasticismo, uma ideologia ainda maior que surgiu dentro do Cristianismo, sendo caracterizada pela tentativa de conciliar duas coisas irreconciliáveis: a razão e a revelação. O escolasticismo dominou na Europa período compreendido entre a era clássica greco-românica e a era moderna, também conhecido como Idade Média.

A designação neoplatonismo foi dada no século dezenove ao sistema filosófico religioso formado por uma concocção da filosofia de Platão com outros elementos de misticismo e alguns conceitos judaicos e cristãos, que inclui a crença na existência de uma fonte única derivadora de toda a existência e com a qual a alma de um indivíduo pode ser unida misticamente. Plotinus (204-270 d.C.) é considerado o fundador do neoplatonismo, embora alguns historiadores reconheçam que Ammonius Saccas (160-242 d.C.), um místico especulativo que viveu no terceiro século na Alexandria, filho de pais cristãos, apresentou as mesmas ideias antes de Plotinus.

O neoplatonismo fez com que o cristianismo deixasse de ser uma seita judaica para ganhar adeptos entre a população falante de grego e latim. A trindade divina e a transubstanciação da alma que Platão foi buscar na antiga religião egípcia são exemplos de ideias Neoplatonistas que os filósofos cristãos introduziram no Cristianismo ligado a Roma. Outro exemplo é a noção de inferno, que veio tanto do ‘sheol’ do Judaísmo quanto do ‘hades’, ou o submundo, da religião grega.

Os Escolásticos e a Autoridade Eclesiástica

Os escolásticos cristãos continuaram a dar as suas interpretações nem sempre corretas sobre Aristóteles, Platão e outros filósofos da antiguidade clássica. Dessas interpretações surgiu, além do neoplatonismo, o aristotelismo. Francis Bacon (1561-1626), um estudioso inglês independente da Igreja fez críticas injustas a Aristóteles, com base na informação incorreta que ele tinha sobre o grande filósofo. E como se isso não bastasse, o método indutivo que Aristóteles inventou foi incorretamente atribuído a Bacon. A posterior crítica ao Novo Organum de Bacon mostrou uma deficiente compreensão de Aristóteles, causada pelos erros contidos no currículo escolástico que Bacon aprendera. Entretanto, Bacon não foi o único a cometer o erro de julgar Aristóteles pela versão do filósofo que recebera dos escolásticos.

À medida que o Cristianismo foi ganhando poder político também foi ficando mais intolerante com as ideias que não se encaixavam no seu catecismo. Não contente em controlar a interpretação dos filósofos clássicos, a autoridade eclesiástica cristã colocou-se em posição antagônica à ciência e decretou que as Escrituras eram a única fonte da verdade sobre o mundo. A interpretação literal das Escrituras levou a diversas falsidades como a existência de uma real abóbada celeste e a Terra como uma superfície plana e o próprio centro do universo. Aos poucos, a discrepância entre a verdade da ciência e as afirmações das Escrituras atingiu o ponto de ruptura.

Embora os astrônomos já soubessem há muitos séculos que a terra era globular e que girava ao redor do sol, Galileu Galilei (1564-1642) resolveu obter provas diretas julgando que assim iria conseguir persuadir as autoridades eclesiásticas. Ele construiu um telescópio bem mais possante do que aquele que costumava usar, e ao apontar o mesmo para o firmamento, ele viu claramente outros planetas e seus satélites, notou as manchas do Sol e as crateras da Lua. Se a Bíblia estava errada sobre o universo, em que outras coisas poderia estar errada? Esta pergunta foi o grande incentivo das pesquisas sobre a mecânica celeste que caracterizaram o Século das Luzes.


Jo Pires-O’Brien é uma brasileira que vive na Inglaterra e editora da revista cultural PortVitoria, dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês: http://www.portvitoria.com/: www.portvitoria.com

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