Sobre as ideologias

A palavra ‘ideologia’ foi cunhada por Antoine Destutt de Tracy para descrever o estudo sistemático das ideias, identificado como uma necessidade decorrente das rápidas mudanças políticas do período que seguiu a Revolução Francesa de 1789.  Entretanto, logo nas primeiras décadas do século XIX, o sentido da palavra ideologia mudou para a conotação atual de uma arma de controle do comportamento humano e da manutenção da ordem social. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) perceberam o poder da ideologia e a aplicaram no Manifesto Comunista de 1848. O Marxismo, a ideologia profética de Marx sobre a luta de classes e a revolução mundial dos trabalhadores, mais tarde acrescentaria à palavra ideologia a conotação de bullying doutrinário.

Podemos entender melhor as ideologias comparando-as com campanhas de marketing. Como essas últimas as ideologias promovem ideias a favor ou contra qualquer coisa, usando chavões ou frases feitas de descrições inspiradoras de certezas ostensivas que ocultam os conteúdos questionáveis. Também as ideologias se caracterizam por apresentar visões do mundo altamente simplificadas, girando em torno de alvos fáceis e persuasíveis. Quase sempre as ideologias coincidem com palavras que têm o sufixo ‘ismo’: ambientalismo, eurocentrismo, elitismo, liberalismo, chauvinismo masculino, feminismo, igualitarismo, utilitarismo, humanismo, universalismo. São exemplos de ideologias sem o ‘ismo’: escravidão e libertação.

Devido à precariedade da lógica das ideologias estas existem sob uma constante ameaça tanto por elementos externos quanto internos. Às vezes essa ameaça não é do presente mas de outra ideologia ainda por vir como ocorreu com a ideologia do Movimento Romântico, cujas ideias sobre o homem e a natureza, que no século XIX pareciam ser puras e inócuas, acabaram atreladas ao Nazismo. Os intelectuais que bolaram a cruel ‘solução final’ adotada por Adolf Hitler (1889-1945) foram buscar justifivativa na semiacabada ideia da supremacia Teutônica, atrelando ao Nazismo pensadores, estudiosos e artistas alemães que haviam morrido muitos anos antes do Partido Nazista ser formado. Dentre os intelectuais injustamente ligados ao Nazismo estão o filólogo Max Müller (1823-1900), o  filósofo Friederich Nietzsche (1844-1900), o filólogo Karl Wilhelm von Humboldt (1767-1835), o filósofo Johan Fichte (1762-1814), o crítico e poeta Johann Gottfried Herder (1744-1803), e até o grande poeta, dramaturgo e cientista Johann Wolfgang Goethe (1749-1832).

A própria democracia é também uma ideologia e como tal é vulnerável à ameaça interna causada por eventuais inconsistências intrínsecas. As democracias mais rudimentares, aquelas que não têm mecanismos de proteção das minorias, são as mais vulneráveis às ameaças internas, pois é dentre as minorias que está a inteligência crítica capaz de enxergar através da massa nebulosa das ideologias.


Revisor: Carlos Pires

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista cultural PortVitoria  dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês: http://www.portvitoria.com/: www.portvitoria.com

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