A Guerra das Culturas: Terry Eagleton e Roger Scruton

Na quinta-feira dia 13 de setembro passado, em Londres, eu tive a chance de assistir ao debate sobre a Guerra das Culturas, entre o crítico literário Terry Eagleton e o filósofo Roger Scruton, promovido pela organização Intelligence Squared. Eagleton tem sessenta e nove anos de idade e ocupa o cargo de distinguished professor da Universidade de Lancaster, tendo lecionado em Oxford de 1992 a 2001, bem como em diversas outras universidades de todo o mundo. É autor de mais de quarenta livros, sendo os mais importantes: Literary Theory: An Introduction (1983), The Ideology of the Aesthetic (1990), e The Illusions of Postmodernism (1996). Scruton tem sessenta e oito anos e é conhecido pelo seu conservadorismo. É um visiting scholar do American Enterprise Institute, pesquisador sênior do Blackfriars Hall, em Oxford, e Professor-Pesquisador Visitante da Universidade de Saint Andrews. Ele também lecionou no Birbeck College – conhecido como uma universidade para alunos mais velhos devido ao fato de oferecer cursos noturnos, e também pela cultura esquerdista dos seus alunos – entre1971 e 1992. Escreveu mais de trinta livros tais como Art and Imagination (1974), Sexual Desire (1986), The West and the Rest (2002), A Political Philosophy: Arguments for Conservatism (2006), bem como romances e duas óperas. A escolha de Eagleton e Scruton para esse evento é óbvia: o primeiro é o queridinho e o segundo é o verdugo do ativismo de esquerda de todo o mundo.

O evento ocorreu na Royal Institution, às dezenove horas. Eu cheguei em cima da hora e logo que me acomodei no único assento vago que havia  a mediadora tomou o microfone.  Cada palestrante teria seis minutos para expor seu ponto de vista, o que seria seguido de um debate e de perguntas do auditório. O primeiro a tomar o microfone foi Eagleton.  Ele começou fazendo um breve apanhado sobre a evolução da cultura durante o último século. Segundo Eagleton, a transformação da cultura começou mais ou menos na metade do século passado. Durante um bom tempo a cultura virou um substituto da religião, sendo vista como uma espécie de salvadora da humanidade, quando a cultura foi acusada de ter causado a morte de Deus. A cultura perdeu o lugar elevado da moral quando se aproximou da política. Isso ocorreu quando a universidade rendeu-se ao capitalismo e a cultura fez o mesmo. E ao capitular ao capitalismo, a cultura deixou de ser uma solução e passou a ser problema, ou seja, se inviabilizou. E finalmente, quando a cultura se misturou a outras práticas sociais ela perdeu a função crítica. E é por tudo isso que hoje a cultura se tornou aquela coisa pela qual as pessoas estão dispostas a matar.

No seu turno, Scruton declarou que iria mover o foco do tópico para como ensinar cultura, acrescentando que para falar sobre como ensinar cultura era preciso falar sobre a razão para ensinar cultura. Existem duas visões contrastantes sobre a razão para o ensino da cultura nas universidades. A primeira visão é que a cultura deve ser ensinada pelo fato de ser uma forma de sabedoria que contém muitos elementos de conhecimento. A segunda visão, que Eagleton defende, é uma visão negativa pois se baseia na importância de desconstruir, desacreditar e subverter.  Essa segunda visão da cultura começou no período entre as duas grandes guerras e culminou em 1968. Entretanto, Scruton afirmou discordar de que a universidade tenha capitulado ao capitalismo. O número de grupos de esquerda parece ter aumentado, e não diminuído, nas universidades. Mas, a cultura tem conhecimento prático. Tirando a ciência, a cultura foi o fator que mais contribuiu para o conhecimento prático, aquele que nos orienta sobre o que devemos fazer, o que devemos sentir e como aumentar a nossa competência emocional. Um dos melhores exemplos disso é a música. E a música é um bom exemplo, pelo simples fato de não ter nada em que o Marxismo possa se atrelar.

Scruton deixa o microfone e retorna ao assento ao lado de Eagleton. Daí para a frente o debate prossegue com os debatedores sentados aao lado um do outro. A descrição que dou a seguir sobre os assuntos tratados, não significa que apareceram necessariamente nessa ordem. Eagleton afirmou que embora reconhecesse que as décadas de setenta e oitenta tivessem sido demasiadamente negativas, ele discorda que a desconstrução da cultura tenha sido puramente negativa. Segundo Eagleton, “A cultura existe dentro de um contexto histórico que precisa ser reconhecido’’. Continuando, ele afirmou que talvez o que Scruton não goste seja da teoria da cultura e da sua função de afiliação (membership) esquerdista. Mas a ciência também tem uma forma de afiliação.  Os cientistas tendem a trabalhar juntos uns dos outros, ao contrário de pessoas como ele, que trabalham sós.

Mas a comunidade esquerdista das universidades nem deveria existir, afirmou Scruton. Você menciona a importância da situação de pertencer a um grupo; mas a existência de um esquerdismo [na universidade] não significa que exista um direitismo equivalente; ninguém de sã consciência admitiria tal coisa; e também não existe uma afiliação entre cientistas. Quando Scruton afirmou ser contra cursos de graduação em negócios, Eagleton aproveitou para dizer que nesse caso, Scruton deve concordar com ele sobre o problema das universidades. Eagleton insistiu no ponto já feito, que a desvalorização da cultura foi causada pela universidade, quando passou a ser dominada pelo tipo de administração que junta o político ao econômico. E no final das contas, continuou Eagleton, ‘’a culpa da vulgarização da cultura é do capitalismo que tomou conta da universidade’’.

Scruton contestou, afirmando que o problema da perda da função crítica foi devido à falta de priorização da cultura pelas universidades. Para recuperar a função crítica é necessário retornar às coisas básicas como a natureza humana. Eagleton retrucou afirmando que Marx havia se preocupado com a natureza humana, que ele chamava de o modo de ser da espécie (species being), completando que – Marx deve ter sido um Aristoteliano de armário –, uma referência à noção de que os pensadores são por natureza aristotélicos ou platonistas, onde o grupo platonista descreve a tendência ao coletivismo e ao socialismo. Após mais algumas trocas de asserções, os debatedores concordaram entre si em encerrar o debate, a fim de dar ao público presente a oportunidade de fazer perguntas.

Cerca de seis pessoas do auditório tomaram o microfone para fazer perguntas, embora tais perguntas tivessem sido mais assertivas do que perguntas propriamente ditas. Por exemplo, uma pergunta sobre as torres de marfim da academia foi feita com a inferência embutida de que eram uma coisa ruim. Eagleton aproveitou para criticá-las. Scruton procurou mostrar que a universidade não podia cuidar de tudo que fosse considerado cultura e que tinha a obrigação de priorizar o tipo de cultura que deve ensinar, e que a função das torres de marfim era fazer essa separação. Eagleton criticou o cânon do Oeste como uma imposição das torres de marfim da unversidade. Scruton retrucou que o cânon se impõe por si próprio porque são obras que venceram a prova do tempo.

Uma jovem de aparência indiana de uns vinte e cinco anos de idade perguntou porque  a alta cultura do Oeste se chocava contra outras altas culturas. Retrucando que a jovem que fez a pergunta deveria estar se referindo à cultura indiana, Scruton respondeu que quando a cultura do Oeste conheceu a cultura Indiana, ainda na época da Companhia das Índias Ocidentais, William Jones, um especialista na língua Persa, reconheceu logo a importância do sânscrito e sua ligação com as línguas do ocidente, e agiu para que os documentos importantes da cultura indiana fossem resgatados e preservados. A jovem não pareceu convencida e continuou atacando a arrogância da cultura britânica durante o colonialismo, fugindo ao escopo do evento. Scruton ancedeu que o governo britânico interferiu em certos casos, como quando proibiu a queima de bruxas. E reafirmando a abertura da cultura do Oeste a outras culturas, ele citou como exemplo o sucesso do livro Kim do escritor Rudyard Kipling, sobre a cultura indiana.

Outra pergunta feita foi sobre a falta de reconhecimento [sem esclarecer por quem]  sobre certas formas de cultura popular como o hip hop.  Scruton lembrou que na primeira metade do século até os grandes musicais e a cultura do jazz foram acusados de desvirtuar a cultura musical; Scruton também lamentou o desaparecimento da genuína música folclórica, que numa época passada serviu de inspiração para os grandes compositores clássicos, como Mozart.

Embora Scruton tivesse se esforçado para se ater ao tema central da Guerra das Culturas, que trata do papel da universidade no ensino da cultura, Eagleton, gastou tempo em pilhérias, como quando afirmou que era de esquerda porque caso contrário iria ter que trabalhar e também porque sabe que isso incomodava as pessoas. Em resultado disso, o evento esteve longe de ser um debate no sentido restrito. O contrário teria ocorrido se a mediadora tivesse sido mais firme para manter a discussão dentro do tema da Guerra das Culturas e insistido que as perguntas da audiência fossem perguntas e não declarações aparentemente preparadas de antemão. Lamentavelmente, o debate foi uma oportunidade perdida de mostrar com clareza as visões desses dois importantes condutores do pensamento moderno.


Bergen, Segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Agradecimento: Carlos Pires, revisor.

Joaquina Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista cultural eletrônica dedicada à comunidade mundial de falantes de português, espanhol e inglês: http://www.portvitoria.com/

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