A secularização do conhecimento e o fio da meada

Os escolásticos da Idade Média europeia procuravam conciliar a filosofia clássica e o aprendizado direto da Natureza com a Escritura e os outros textos da fé cristã controlados pela Igreja. O cogito ergo sum (penso, logo existo) do filósofo René Descartes (1596-1650) representou o grito de independência dos sábios, que completou o processo de secularização do conhecimento. O racionalismo Cartesiano consistiu do emprego da indução à lógica e à matemática para fazer inferências, criando a filosofia moderna que serviu de base para a ciência moderna. O processo de secularização do conhecimento levou cerca de quatro séculos e pode ser ilustrado através da obra de dois pensadores ingleses de mesmo sobrenome: Roger Bacon (1214/1220-1292) e Francis Bacon (1561-1626) .Roger Bacon tinha um pé no escolasticismo e outro no secularismo. Francis Bacon foi inteiramente secularista além de um importante precursor do Século das Luzes.

O escolástico Roger Bacon (RB) era um monge franciscano que, sem se dar conta, deu os primeiros passos na direção da secularização. Na sua obra principal, Opus Majus,  uma síntese de todos os seus estudos, críticas filosóficas e especulações, reunida em 1266-67, ele mostrou que a filosofia era um caminho válido para a verdade, além dos caminhos das Escrituras e da lei canônica. Bacon não imaginava que suas ideias poderiam ser rejeitadas pelo Papa, pois se a verdade era uma só, então não importava qual o método usado para se chegar à mesma. Assim, ele estudou filosofia, reintroduziu o método empírico e a prova matemática, fez especulações de ficção científica envolvendo máquinas voadoras mais leves que o ar, o transporte mecânico por terra e por mar, a circunavegação do globo e a construção de microscópios e telescópios. A ética de Bacon em Opus Majus inclui uma discussão das quatro causas da ignorância humana: a autoridade indigna, o mau hábito, os preconceitos da cultura popular e a presunção infundada. Opus Majus é comensurável com o escolasticismo característico da Idade Média, pois foi escrito para o papa num estilo altamente deferente. Apesar disso, os colegas de ordem ficaram indignados com o conteúdo da Opus Majus e denunciaram Bacon ao Papa Clemente IV, que eventualmente mandou prendê-lo.

Dois séculos e meio mais tarde, Francis Bacon comparou a percepção humana a um espelho que ao refratar a luz incidente, projeta uma imagem distorcida e não fiel do verdadeiro objeto, e apontou as causas dos erros de percepção. Francis Bacon parece ter retomado o fio da meada sobre as quatro causas da ignorância humana deixado pelo outro Bacon, quando ele analisa os quatro tipos de ‘ídolos’ perpetuadores da falsidade humana: (i) os ídolos da tribo, representados pelos os erros e incoerências causados pelas falhas da compreensão humana, dada a tendência natural de buscar evidência para aquilo que já acreditamos ser a verdade; (ii) os ídolos da caverna, representados pelos preconceitos e os precondicionamentos naturais das pessoas; (iii) os ídolos do mercado, representados pelos preconceitos e os precondicionamentos derivados dos meios de comunicação formais e informais; e (iv) os ídolos do teatro, representados pelos dogmatismos e preconceitos que são repassados através dos sofismas embutidos nos sistemas de conhecimentos tradicionais, embora os mesmos nunca tenham passado por testes científicos de verificação.

A palavra organon, do título da obra mais importante de Bacon, Novum OrganumDireções Verdadeiras sobre a Interpretação da Natureza, é usada no sentido de ‘ferramenta’ ou ‘instrumento’ voltado a reconhecer as falácias e outros artefatos que costumam distorcer a verdade da natureza. A Novum Organum traz neologismos como ‘pseudociência’ e críticas às falsas ciências da astrologia, magia e alquimia. O estilo da Novum Organum é completamente diferente do estilo da Opus Majus de Roger Bacon, pois foi escrito para o público e não para o papa. Empregando a palavra ciência no sentido de conhecimento, Francis Bacon afirma que o conhecimento como uma forma de poder: Nam et ipsa scientia potestas est. A secularização do conhecimento havia sido completada.

A evolução do conhecimento é comparável ao fio da meada de ideias que passa de um sábio para outro. Os quatro ídolos de Francis Bacon vêm da mesma meada de Roger Bacon e as suas quatro causas da ignorância humana. Francis Bacon mostrou o caminho das artes e das ciências para um mundo melhor, e quem tomou o fio dessa meada foi Thomas Hobbes (1588-1679), que reavaliou o papel do Estado e alertou quanto aos seus excessos. E depois de Hobbes, o mesmo fio foi retomado por John Locke (1632-1704), que pavimentou a via da tradição liberal, da sociedade formada por indivíduos livres que se submetem ao desejo da maioria. CiênciaOs escolásticos da Idade Média europeia procuravam conciliar a filosofia clássica e o aprendizado direto da Natureza com a Escritura e os outros textos da fé cristã controlados pela Igreja. O cogito ergo sum (penso, logo existo) do filósofo René Descartes (1596-1650) representou o grito de independência dos sábios, que completou o processo de secularização do conhecimento. O racionalismo Cartesiano consistiu do emprego da indução à lógica e à matemática para fazer inferências, criando a filosofia moderna que serviu de base para a ciência moderna. O processo de secularização do conhecimento levou cerca de quatro séculos e pode ser ilustrado através da obra de dois pensadores ingleses de mesmo sobrenome: Roger Bacon (1214/1220-1292) e Francis Bacon (1561-1626) .Roger Bacon tinha um pé no escolasticismo e outro no secularismo. Francis Bacon foi inteiramente secularista além de um importante precursor do Século das Luzes.

O escolástico Roger Bacon (RB) era um monge franciscano que, sem se dar conta, deu os primeiros passos na direção da secularização. Na sua obra principal, Opus Majus,  uma síntese de todos os seus estudos, críticas filosóficas e especulações, reunida em 1266-67, ele mostrou que a filosofia era um caminho válido para a verdade, além dos caminhos das Escrituras e da lei canônica. Bacon não imaginava que suas ideias poderiam ser rejeitadas pelo Papa, pois se a verdade era uma só, então não importava qual o método usado para se chegar à mesma. Assim, ele estudou filosofia, reintroduziu o método empírico e a prova matemática, fez especulações de ficção científica envolvendo máquinas voadoras mais leves que o ar, o transporte mecânico por terra e por mar, a circunavegação do globo e a construção de microscópios e telescópios. A ética de Bacon em Opus Majus inclui uma discussão das quatro causas da ignorância humana: a autoridade indigna, o mau hábito, os preconceitos da cultura popular e a presunção infundada. Opus Majus é comensurável com o escolasticismo característico da Idade Média, pois foi escrito para o papa num estilo altamente deferente. Apesar disso, os colegas de ordem ficaram indignados com o conteúdo da Opus Majus e denunciaram Bacon ao Papa Clemente IV, que eventualmente mandou prendê-lo.

Dois séculos e meio mais tarde, Francis Bacon comparou a percepção humana a um espelho que ao refratar a luz incidente, projeta uma imagem distorcida e não fiel do verdadeiro objeto, e apontou as causas dos erros de percepção. Francis Bacon parece ter retomado o fio da meada sobre as quatro causas da ignorância humana deixado pelo outro Bacon, quando ele analisa os quatro tipos de ‘ídolos’ perpetuadores da falsidade humana: (i) os ídolos da tribo, representados pelos os erros e incoerências causados pelas falhas da compreensão humana, dada a tendência natural de buscar evidência para aquilo que já acreditamos ser a verdade; (ii) os ídolos da caverna, representados pelos preconceitos e os precondicionamentos naturais das pessoas; (iii) os ídolos do mercado, representados pelos preconceitos e os precondicionamentos derivados dos meios de comunicação formais e informais; e (iv) os ídolos do teatro, representados pelos dogmatismos e preconceitos que são repassados através dos sofismas embutidos nos sistemas de conhecimentos tradicionais, embora os mesmos nunca tenham passado por testes científicos de verificação.

A palavra organon, do título da obra mais importante de Bacon, Novum OrganumDireções Verdadeiras sobre a Interpretação da Natureza, é usada no sentido de ‘ferramenta’ ou ‘instrumento’ voltado a reconhecer as falácias e outros artefatos que costumam distorcer a verdade da natureza. A Novum Organum traz neologismos como ‘pseudociência’ e críticas às falsas ciências da astrologia, magia e alquimia. O estilo da Novum Organum é completamente diferente do estilo da Opus Majus de Roger Bacon, pois foi escrito para o público e não para o papa. Empregando a palavra ciência no sentido de conhecimento, Francis Bacon afirma que o conhecimento como uma forma de poder: Nam et ipsa scientia potestas est. A secularização do conhecimento havia sido completada.

A evolução do conhecimento é comparável ao fio da meada de ideias que passa de um sábio para outro. Os quatro ídolos de Francis Bacon vêm da mesma meada de Roger Bacon e as suas quatro causas da ignorância humana. Francis Bacon mostrou o caminho das artes e das ciências para um mundo melhor, e quem tomou o fio dessa meada foi Thomas Hobbes (1588-1679), que reavaliou o papel do Estado e alertou quanto aos seus excessos. E depois de Hobbes, o mesmo fio foi retomado por John Locke (1632-1704), que pavimentou a via da tradição liberal, da sociedade formada por indivíduos livres que se submetem ao desejo da maioria.

Joaquina Pires-O’Brien

 Agradecimento: Carlos Pires, revisor

Termos de utilização: Favor citar a fonte ao reproduzir

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