O estoicismo

O estoicismo é uma das quatro grandes escolas de filosofia da antiga Grécia, juntamente com a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles e o Jardim de Epicuro, sendo caracterizada pela atenção especial que dava à filosofia da mente. Muitos consideram a escola Estoica como pioneira da ciência cognitiva. O termo ‘estoico’ vem de ‘stoa poikile’, designação da ‘colunada’ onde Zenão do Chipre (c. 335-263 AEC) costumava ensinar.

Os ensinamentos de Zenão giravam em torno da natureza da alma, que era entendida como sinônimo da mente. Juntamente com Cleante de Assos (c. 331-232 AEC), seu seguidor imediato, Zenão enfatizou a natureza ativa da alma, identificando-a pelo seu fogo interno ou calor vital. O estoicismo atingiu o seu ponto maior com Crysipo (c. 280-207 AEC), nascido em Soli ou Tarsus, na Cilícia, o qual propôs a ideia da substância semelhante ao ar da respiração designada pneuma, cujas atividades específicas definiam as faculdades cognitvas do indivíduo. O pneuma era também o princípio organizador do cosmos, a alma do mundo, que os estoicos reconheciam como sendo algo vivo. O estoicismo é centrado em quatro ideias: valor, emoções, natureza e controle. Os estoicos dividiam a lógica em duas: a retórica, ‘a ciência da mão aberta’ e a dialética, ‘a ciência da mão fechada’. Os estoicos viam a filosofia como um meio de aprendizagem; seus objetivo finais eram ética e a física.

Os estóicos entendiam a sensação com sendo o resultado de um impulso externo, que quando combinado com um assente interno, gerava um estado mental que revelava o objeto que o produziu. Por essa razão, os estóicos procuram não se deixar levar por sensações, e buscavam cultivar a fortitude e o auto-controle a fim de vencer as emoções que consideravam destrutivas.

Os estoicos rejeitavam a ideia de que a alma fosse uma entidade incorpórea, que podia existir sem o corpo. Para eles, a alma era como um sopro quente [pneuma] e altamente sensível, infuso no corpo das pessoas. Eles analisavam a atividade da alma tanto pelo nível físico quanto pelo nível lógico, utilizando o pensamento e a linguagem em tal análise. Eles negavam que a alma tinha faculdades racionais ou irracionais, e, afirmavam que as paixões humanas não decorriam da irracionalidade e sim de erros de julgamento. Reconheciam como bens absolutos a sabedoria, a justiça, a coragem e a temperança. Todas as outras coisas como vida, saúde, prazer, beleza, força, riqueza, reputaçãom descendência, assim como os seus opostos, tanto podem ser empregados para o bem quanto para o mal. Os estóicos reconheciam que o mal do mundo e a infelicidade resultavam da ignorância. Eles aceitavam como natural o direito de se retirar da vida, isto é, cometer suicído. Para os estóicos o viver bem era viver em harmonia com a natureza e praticando as quatro virtudes cardeais ensinadas por Platão: a sabedoria (sophia), a coragem (andreia), a justiça (dikaiosyne) e a temperança (sophrosyne).

O estoicismo teve a sua maior influência no mundo greco-romano, em especial entre pessoas de instrução, tendo produzido diversos pensadores de peso como Paneto de Rodes (185 – 109 AEC), Posidônio (c.135 – 50 AEC), Cato o Jovem (94 – 46 AEC), Sêneca o Jovem (4 AEC – EC 65), Epicteto e Marco Aurélio.

O estoicismo é considerado ainda o precursor do solipsismo ético, a ideia de que todos os julgamentos são centrados no ‘eu’ o que torna impossível julgar o comportamento moral dos outros.

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

A Polícia no Brasil e no Reino Unido

No Brasil, cada estado da União é responsável pela própria segurança. A manutenção da segurança pública é uma tarefa conjunta de duas forças policiais: uma Polícia Militar, encarregada do policiamento ostensivo, e uma Polícia Civil, encarregada de investigar crimes. As duas forças prestam contas aos governos dos estados através de suas Secretarias de Segurança. A constituição brasileira proíbe que ambas forças policiais façam greves, por considerar o policiamento ostensivo e a investigação de crimes como sendo tarefas essenciais para a segurança pública e para a defesa social.

No Reino Unido a polícia é inteiramente civil mas a carreira policial é diversificada a fim de acomodar as diferentes funções diretas e indiretas da polícia. Cada condado, isolado ou em associações com outros condados vizinhos) possui sua própria força policial. Com a exceção das forças policiais de Londres e Manchester, que prestam contas aos respectivos Prefeitos, as demais prestam contas aos Comissários de Polícia e Crime (Police and Crime Commissioners ou PCCs), eleitos pelas diversas comunidades. A Lei da Polícia de 1919 criou a Federação de Polícia da Inglaterra e Gales, proibiu greves na polícia e criou uma maneira alternativa de resolver disputas trabalhistas envolvendo membros das forças policiais.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é autora do e-book O homem razoável e outros ensaios, 2016, à venda no portal www.amazon.com.br  (R$24). A versão em espanhol, El hombre razonable y otros ensayos, também está à venda nos portais da Amazon.

 

Reseña del libro de Joaquina Pires-O’Brien, El hombre razonable y otros ensayos (Port-Vitoria, 2016)

Fernando R. Genovés

El título del libro que tengo el gusto de reseñar en las líneas que siguen, en su aparente y genérica convencionalidad, denota una gran precisión. Según leemos en la misma portada, se trata de una colección de ensayos. Y ensayos contiene, en efecto, en su sentido más estricto. ¿Normal? Sí, mas no habitual. Se dirá caso de esta acotación que es una obviedad más. Obvio sí, mas no usual. He aquí la cuestión.

Ocurre que el pensamiento concentrado en el ensayo se caracteriza, según tradición, por reparar (en) aquellos usos erróneos y creencias ordinarias que suelen aceptarse como evidentes —y aun repetirse, una y otra vez—, sin pasar por la prueba del examen crítico y la reflexión ponderada. Sucede que la opinión común (la vox populi) da por hecho aquello que, antes de ser deglutido, necesita ser intelectualmente triturado. Nos hallamos, en fin, en un contexto dominado por el relativismo ramplón y la mixtura de géneros literarios, la intertextualidad de salón y el multiculturalismo de callejón, en el cual una narración en prosa vertida en un papel o en un archivo electrónico de textos recibe, sin más, el diploma de «ensayo», sin distinguirlo de un relato, un crónica periodística, una fábula o un cuento. O al contrario…

Rasgo identificador del ensayo es también que afronta y examina asuntos particulares (e incluso personales) y de actualidad para, a continuación, ser elevados a la categoría de universales. ¿Sobre qué trata El hombre razonable y otros ensayos? Léase los primeros párrafos del Prefacio:

«Algunos de los temas atemporales abordados son la “gran conversación”, la utopía, la educación liberal, la libertad, el totalitarismo y el contrato social, mientras que las “dos culturas”, el instinto de la masa, la guerra de las culturas, el postmodernismo, la creencia religiosa, el jihad islámico y el 9/11 son algunos de los temas contemporáneos abordados. Cuatro grandes pensadores del siglo XX fueron objeto de ensayos específicos: Friedrich Hayek, Elias Canetti, Stefan Zweig y George Orwell. El repertorio de los temas abordados ya es bien conocido en los países situados en el centro de la Civilización Occidental pero no en los países de la periferia. La presente recopilación tiene por objetivo contribuir a corregir esa distorsión.»

Atemporalidad, contemporaneidad y propósito de universalidad, empeño por corregir malentendidos y falsas creencias. ¿Puede alguien negarle corrección a la presente empresa intelectual? Y, con todo, si a alguien le quedan dudas acerca de la exploración de ideas que se propone en las páginas siguientes, sólo le invito a recorrerlas.

El hombre razonable y otros ensayos ha sido compuesto según cabal criterio y sagaz selección, como demuestra el listado de la cita previa. Un acierto acreditado en la misma elección del ensayo que lo titula, encabeza y sirve de guía al mismo. El hombre se ve abocado a aventurarse en una selva oscura y tenebrosa en el momento en que desaprovecha o desatiende la llamada civilizadora de la razonabilidad, el principio de actuar como un ser racional y justo, prudente e íntegro, sensato y honesto. He aquí un horizonte de conducta nada extraordinario, excepcional o superlativo; de lo contrario, no hablaríamos de un ser y un quehacer razonables. Sus rasgos son factibles y depende tan sólo de la voluntad y el coraje de cada cual. ¿Cómo es ello posible?: «Dejar de ser rebaño y recuperar nuestra individualidad es un buen comienzo. Después, es vivir el aquí y ahora de la mejor manera posible.»

Joaquina Pires-O’Brien, autora del libro objeto de la presente reseña, acierta al relacionar aspectos de su vida personal y cotidiana con la meditación y análisis a propósito de determinados asuntos tratados. Demuestra así tener bien aprendida la lección sobre el sentido y fin del ensayo, sintetizados en la siguiente declaración del principal inspirador del ensayo moderno, Michel de Montaigne: «Yo soy el tema de mi libro».

No se confunda esto con un volumen de memorias. Los textos ofrecidos en los ensayos tienen que ver con la vida, porque son vitales, porque no se pierden en especulaciones ni circunloquios (tampoco en meras anécdotas), sino que nos hablan sobre aquellas cuestiones (sean intemporales, sean contemporáneas) que nos ocupan y nos preocupan. Y no para hacer de ellas una crónica, sino una indagación.

La condición profesional de la autora, concentradas en tareas de traducción y edición (está al frente del magazine PortVitoria) favorece en gran manera tal empeño. El lector encontrará así un permanente interés por esclarecer al máximo la significación de los conceptos abordados, así como una constante atención por dilucidar las más variadas cuestiones desde una óptica didáctica y un discurso comprensible. Es decir, razonables.


Publicado por Fernando R. Genovés     en 11:23: http://fernandorgenoves.blogspot.co.uk/2016/11/el-hombre-razonable-y-otros-ensayos.html Etiquetas: CRITICA DE LIBROS

Fernando Rodríguez Genovés es escritor, ensayista, crítico literario y analista cinematográfico. Doctor en Filosofía. Profesor funcionario de carrera en excedencia voluntaria, se ocupa en la actualidad, con dedicación profesional exclusiva, a escribir. Premio Juan Gil-Albert de Ensayo, Ciudad de Valencia, 1999. Colaborador en medios de comunicación: ABC, Las Provincias, Libertad Digital, Factual. Creador y mantenedor de la sección «La buhardilla» en la revista El Catoblepas. Autor, hasta la fecha, de trece libros, así como de varios centenares de artículos y reseñas en revistas especializadas. Su línea de investigación y sus trabajos están relacionados preferentemente con el ámbito de la filosofía moral y política.

Epicteto e Marco Aurélio: Dois estoicos extraordinários

Joaquina Pires-O`Brien

Epicteto e Marco Aurélio foram dois extraordinários pensadores estoicos da Antiguidade cujos ensinamentos sobre a melhor maneira de viver bem ainda são relevantes nos dias de hoje. Os estoicos eram os seguidores do Estoicismo, escola grega de filosofia fundada em Atenas por Zenão de Cita (no atual Chipre; 344 – 262 AEC), a qual ensinava que o maior bem de todos é a virtude baseada no conhecimento e que os indivíduos sábios vivem em harmonia com a razão divina (também chamada Destino ou Providência divina), que governa a natureza. A palavra ‘estoico’ vem do grego stoa poikilê, que significa pórtico ou varanda, mas usada em referência ao pórtico que existia no mercado (Agora) da antiga Atenas, o qual era um ponto de encontro. A característica marcante dos estoicos é sua indiferença às vicissitudes da sorte e às sensações de prazer e dor.

Epicteto (55-135 EC), cujo nome significa ‘ganho’ ou ‘adquirido’, nasceu escravo em Hierápolis, na Frígia (atual Pamukkale, na Turquia), e, foi levado ainda jovem para Roma, como escravo de Epaphroditos, que foi secretário de Nero. Com a permissão desse, Epicteto frequentou as aulas do filósofo estoico Gaius Musonio Rufus (c. 25 – c. 101 CE). Por volta de 90 EC, o imperador Domiciano baniu-o, juntamente com outros filósofos, quando ele foi viver em Nikopolis, no Épiro (no noroeste da Grécia), onde fundou uma escola de filosofia que alcançou grande sucesso. Os seus ensinamentos, que seguem a escola estoica, foram compilados pelo seu aluno Flavio Arriano, em oito volumes de Diatribes (Discursos ou Dissertações), dos quais quatro sobreviveram. Os ensinamentos de Epicteto são quase sempre em forma de máximas que ensinam a cultivar a liberdade interior através da autoabnegação, do amor aos inimigos e da submissão aos acontecimentos do destino. Tais ensinamentos até hoje fazem sentido. Um exemplo é a neurose moderna causada pela ansiedade decorrente de não termos o controle sobre certas coisas. Epicteto ensina que o bem e o mal residem nas coisas que estão em nosso poder, que devemos concentrar as nossas escolhas de vida nas coisas que estão dentro do nosso controle, e não nos angustiar por coisas que estão fora do nosso controle. Para Epictero, o alcance da felicidade depende das opções de vida que cada pessoa faz.

Marco Aurélio foi filósofo e imperador de Roma. Nasceu em Roma em 26 de abril de 121 EC, numa família aristocrática. Aos dezessete anos de idade, Marco Aurélio foi adotado, juntamente com Lúcio Cômodo, pelo imperador Tito Aurélio Antonino (conhecido como Antonino Pio), que era casado com sua tia paterna. Foi cônsul, ou líder do senado, durante três mandatos, em 145 EC casou-se com Faustina, a filha do imperador, e, após a morte de Lúcio Cômodo, passou a ser o primeiro nome na sucessão do império. Marco Aurélio jamais desejou ser imperador, cargo que eventualmente assumiu por dever e não por opção. Enquanto convivia com a fortuna e o poder, Marco Aurélio buscou a companhia de mestres gregos, obteve uma excelente educação humanística e tornou-se um seguidor da escola Estoica. Assumiu o trono de Roma em 161 EC, após o falecimento de Antonino, posição que ele compartilhou com seu irmão germano Lúcio Aurélio Verus Augustus, conhecido como Verus, o qual foi comandar o exército romano na guerra contra o império Pártio. Apesar de Verus ter vencido, os soldados romanos que retornaram a Roma trouxeram algum tipo de doença que dizimou uma boa parte da população. Quando Verus morreu em 169 EC, diversas levas de tribos bárbaras germânicas já haviam começado a invadir a parte leste do império romano. Devido aos falsos rumores de que Marco Aurélio estava à beira da morte, o general romano Avidio Cássio tomou para si o título de imperador, obrigando Marco Aurélio a viajar até a fronteira leste do império, juntamente com sua esposa Faustina, a fim de reestabelecer a sua autoridade. Faustina faleceu durante essa viagem. Marco Aurélio foi ferido em batalha contra as tribos germânicas e faleceu em 17 de março de 180, em Viena. Marco Aurélio deixou o livro Meditações, pequeno porém profundo. Fala das prioridades de sua vida: do ofício de imperador ser secundário ao ofício de ser bom; de preferir a filosofia à política; da luta diária para manter a serenidade e não perder a calma por coisas que estão fora do seu controle.

O fato de Marco Aurélio ter abraçado Epitecto como mestre é uma mostra da irrelevância da posição social em relação ao saber. Epicteto e Marco Aurélio foram os últimos grandes filósofos da Antiguidade.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar o ebook O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO está disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

 

O viés da autoavaliação: o efeito Dunning-Krueger

O efeito Dunning-Krueger descreve o viés da autoavaliação, onde os indivíduos mais ignorantes se superestimam enquanto os mais competentes se subestimam. O termo surgiu em decorrência de um artigo artigo publicado em 1999 na revista Journal of Personality and Social Psichology por dois pesquisadores acadêmicos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, Justin Kruger e David Dunning. O título do artigo é “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments”. Tradução para o português: “Sem qualificações e ignorante disso: Como as dificuldades de reconhecer a própria incompetência leva a autoavaliações inflacionadas”. O viés da autoavaliação decorre dá má calibragem da cognição, a capacidade de adquirir conhecimento e um dos três tipos da função mental juntamente com afeto e volição.

Delineado para compreender melhor a capacidade cognitiva, isto é, a somatória das inteligências do indivíduo, o experimento de Dunning e Krueger envolveu 140 voluntários que eram alunos de graduação da universidade de Cornell os quais fizeram quatro estudos envolvendo humor, raciocínio lógico, e gramática. Logo depois de fazer os testes, os participantes foram pedidos que estimassem o número de seus acertos, gerando os dados de ‘capacidade percebida’ que foram comparados com a ‘capacidade atual’, resultante dos testes aplicados. Em todos os testes os indivíduos que acertaram mais se subestimaram enquanto os que erraram mais se superestimaram. No quarto estudo onde eles manipularam a competência dos indivíduos para ver se isso alterava as habilidades metacognitivas que afetam a autoavaliação. Para tanto eles deram um treinamento em meta cognição na metade dos participantes antes de eles serem pedidos que estimassem o número de seus acertos. O fenômeno da subestimação e superestimação dos percentis superiores e inferiores também apareceu nesse quarto experimento. Dentro do segmento que recebeu o treinamento em meta cognição os indivíduos dos percentis superiores reduziram as suas subestimações mas nenhum efeito significativo foi notado entre os indivíduos dos percentis inferiores. Dunning e Krueger concluíram que a superestimação da capacidade é mais problemática do que a subestimação pois esta não só se trata de uma incompetência mas é também acompanhada da incapacidade de enxergar o próprio mal desempenho.

Desde a publicação do artigo acima mencionado, o termo efeito Dunning-Krueger passou a designar o fenômeno pelo qual os indivíduos menos qualificados são os que mais inflacionam as suas capacidades. Tal termo entrou para a terminologia técnica da psicologia cognitiva, definida como sendo o estudo interdisciplinar da mente e da inteligência, abarcando as disciplinas da filosofia, psicologia, inteligência artificial, neurociência, linguística, e antropologia. Outros estudos subsequentes da psicologia cognitiva confirmaram o efeito Dunning-Krueger como sendo um viés do raciocínio cognitivo.

Conclusão

Todas as pessoas se autoavaliam mas a autoavaliação depende da capacidade cognitiva de cada um, isto é, da função mental. Este é o resultado da pesquisa conduzida por Justin Kruger e David Dunning, na qual as pessoas com uma função mental superior tendiam a se subestimar enquanto que as com função mental inferior tendiam a se superestimar. Tal comportamento passou a ser conhecido como o efeito Dunning-Krueger. O efeito Dunning-Krueger já havia sido deduzido intuitivamente pelo poeta Alexander Pope (1688-1744) quando escreveu que “os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar” e “o conhecimento pequeno é uma coisa perigosa” (Poema: Ensaio Sobre a Crítica). A incoerência entre capacidade e confiança pode ser notada em todos os caminhos da sociedade, embora seja mais proeminente na esfera da política. Os indivíduos de melhor preparo tendem a se esquivar da política, e só aceitam entrar no páreo mediante uma boa dose de encorajamento. Todavia, os indivíduos menos preparados tendem a ser oferecidos e a esbanjar confiança. A pesquisa de Dunning e Krueger apenas confirmou o que já era sabido: a pior ignorância que existe é a ignorância da própria ignorância.

 Nota. Dunning e Krueger mostraram também o paralelo que existe entre a incompetência e a doença neurológica conhecida como ‘anosognosia’, causada por certos tipos de danos ao lado direito do cérebro e que deixam o indivíduo paralisado no lado esquerdo. Quando os médicos colocam um copo na frente de tais pacientes e pedem a eles que apanhem o copo com a mão esquerda, os pacientes não só falham em obedecer mas também em entender porquê. Quando tais pacientes são pedidos a que expliquem porque falharam eles afirmam que estão cansados, que não ouviram direito as instruções do médico, ou que não estavam com vontade de obedecer, mas nunca que foi porque eles estão sofrendo de paralisa.

Bibliografia

Gregory, R.F. (2014). Café. Parthenon Books, Nova Iorque. Edição para Kindle.

Kruger, Justin & Dunning, David (1999). Unskilled and Unaware of it: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6):1121-1134.

Schmidt, Eric & Cohen, Jahed (2013). The New Digital Age. Reshaping the Future of People, Nations and Business. John Murray, London.

                                                                                                                                   

Joaquina Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista bianual sobre assuntos da atualidade, cultura e política, centrada na cultura ibérica na Europa e no mundo. Acesso: http://portvitoria.com/index.html

Os cavaleiros lá fora

O ano passado (2015) foi perturbante em todo o mundo, particularmente para as pessoas afetadas por governos falidos e guerras civis. O lado positivo é que existe grandes mentes iluminando os problemas da humanidade, embora o emprego dessa luz esteja condicionado à existência de uma boa opinião pública. Cada um de nós pode contribuir para a boa opinião pública aprendendo a pensar por si próprio e praticando essa capacidade nas nossas vidas quotidianas. A boa opinião pública é também essencial para saber distinguir entre os cavaleiros e os capangas da intelectualidade. Sem ela, a sociedade é vulnerável aos líderes desequilibrados e seus radicalismos. Conquanto a boa opinião pública seja um elemento definidor em todas as democracias amadurecidas, uma característica que aparece em todas as democracias imaturas é a incapacidade de reconhecer a inteligência, seja ela da casa ou de onde for.

Há mais ou menos dois séculos e meio atrás, o Ocidente abraçou o secularismo1, atendendo ao chamado das grandes mentes do Iluminismo. Agora, as grandes mentes do século XXI estão tentando persuadir a humanidade acerca da necessidade de defender a vida aqui e agora, e a considerar a alternativa de uma moralidade pós-teísta. Duas das mentes excepcionais que estão na vanguarda desse movimento são Anthony C. Grayling e Daniel Dennett. Grayling é Professor de Filosofia e Reitor do New College of the Humanities, em Londres, enquanto que Dennett é cientista cognitivo aposentado e filósofo. As suas ideias altamente relevantes para os problemas do século XXI estão contidas no (meu) ensaio O Caminho do Humanismo (The Path to Humanism), publicado na presente edição.

Os dois livros resenhados nesta edição são individualmente sobre os persas e os turcos, duas culturas orientais situadas no âmago dos problemas globais. Eles são ambos do autor Warwick Ball, um arqueólogo australiano-britânico especializado em culturas antigas, e fazem parte da série de quatro livros intitulada Asia in Europe and the making of the West (A Ásia na Europa e a Invenção do Ocidente), publicados pela East & West Publishing. O primeiro livro é Towards one world: Ancient Persia and the West (Em direção a um só mundo. A Pérsia antiga e o Oeste), e o segundo é Sultans of Europe: The Turkish world expansion (Os sultões de Roma. A expansão turca no mundo). A ideia principal de Warwick Ball é de que hiato que separa o Ocidente do Oriente é mais psicológico do que real e quanto mais cedo o mundo entender isso melhor será em termos do bom relacionamento entre o Ocidente e o Oriente. Fico na expectativa de que gostem das resenhas e quem sabe se disponham a ler os livros em questão. Janeiro de 2016.

Notas

Artigo reproduzido da revista transnacional PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo. http://www.portvitoria.com/index.html

  1. Secularismo. Para entender melhor o secularismo, visite o Glossário de Secularização disponível em PortVitoria http://www.portvitoria.com/Documents/12_Glossário%20de%20Secularizacao.pdf