Como encontrar significado

Como encontrar significado

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos (12 regras para a vida: um antídoto para o caos), de Jordan B. Peterson. Allen Lane, UK, 2018. 409 pp. ISBN 978-0-241-45163- 5.

Eu só ouvi falar de Jordan B. Peterson, o psicólogo canadense cujas aparições no YouTube são assistidas por milhares de pessoas de todo o mundo, ano início de junho deste ano, quando uma amiga me falou sobre um debate acerca do tema ‘politicamente correto’ no qual Jordan participou com Stephen Fry, um escritor e comediante britânico. Aprendi muito assistindo a esse debate no YouTube, inclusive o motivo pelo qual Peterson é descrito pelos jornalistas como o tipo de pessoa que as pessoas amam ou odeiam. Apesar de me situar logo de início entre os primeiros, eu ainda estava relutante em comprar o seu livro 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos (12 regras para a vida: um antídoto para o caos) simplesmente porque o título me lembrava aqueles livros com a expressão “For Dummies” ou “para imbecis” no título. Eu mudei de ideia depois de assistir a uma discussão sobre o pós-modernismo que Peterson teve com Camille Paglia, uma mordaz autora e crítica social americana, publicado no YouTube em outubro do ano passado.

Este é o segundo livro de Jordan, o resultado de uma epifania que ele teve durante uma reunião brainstorming com um amigo e sócio no final de 2016, quando ele imaginou que a caneta lanterna-LED que seu amigo lhe presenteou como sendo uma “caneta de luz” “com a qual ele seria capaz de escrever palavras iluminadas na escuridão”.

Considerando-se que 12 Rules for Life, um livro de 409 páginas foi publicado na primeira parte de 2018, esse é um tempo extraordinário, mesmo para um gênio. A explicação está no primeiro livro de Jordan, Maps of Meaning: The Architecture of Belief (Mapas de significado: a arquitetura da crença),  publicado em 1999, “um livro muito denso” segundo as próprias palavras de Peterson, o qual levou 10 anos para ser escrito, e cujas ideias foram expandidas no 12 Rules. As 12 regras da vida são:

Regra 1. Fique de pé ereto e com os ombros para trás.

Regra 2. Cuide de si como cuida de alguém a quem você é responsável por ajudar.

Regra 3. Faça amizade com as pessoas que querem o melhor para você.

Regra 4. Compare-se com quem você foi ontem, não com outra pessoa de hoje.

Regra 5. Não permita que os seus filhos façam qualquer coisa que faça você desgostar deles.

Regra 6. Deixe a sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo.

Regra 7. Busque o que é significativo (não o que é conveniente).

Regra 8. Diga a verdade – ou, pelo menos, não minta.

Regra 9. Presuma que a pessoa que você está ouvindo possa saber algo que você não sabe.

Regra 10. Seja preciso na sua fala.

Regra 11. Não incomode as crianças quando elas estão fazendo skateboard.

Regra 12. Acarinhe um gato quando você encontrar um na rua.

Ao explicar a regra 1, “Fique de pé ereto e com os ombros para trás”, o autor mostra que essa é uma característica que evoluiu, associada ao status e à posição social, não apenas no homem, mas em outros animais, como as lagostas. O capítulo inteiro é uma lição de biologia sobre as hierarquias intraespecíficas do reino animal, que resultam da competição por recursos limitados. Existem substâncias químicas corporais específicas associadas à hierarquia das galinhas e à maneira como as aves canoras estabelecem a dominância. Embora a evidência biológica aponte a existência de hierarquias em humanos, admitir isso tornou-se politicamente incorreto. Talvez a noção de hierarquia humana tenha se tornado uma espécie de ‘monstro’ para indivíduos com uma determinada personalidade, o que provavelmente é o motivo pelo qual Peterson gosta de repetir que os monstros existem, afinal de contas. Mas faz sentido que as pessoas fiquem eretas quando estão bem, e se curvam quando não estão, mas a mensagem é que alguém pode se recompor e ficar eretas novamente. “Fique de pé ereto e   com os ombros para trás” é uma metáfora para aceitar as muitas responsabilidades da vida, mesmo as mais terríveis e difíceis. A aceitação da responsabilidade equivale a uma intenção de encontrar sentido na vida e respeitar a si mesmo. A brutal distribuição de recursos na palavra de hoje, onde um por cento da população tem até 50 por cento, é o que torna difícil aceitar a responsabilidade:

A maioria dos artigos científicos é publicada por um grupo muito pequeno de cientistas. Uma pequena proporção de músicos produz quase toda a música comercial gravada. Apenas um punhado de autores vendem todos os livros. Um milhão e meio de títulos de livros (!) são vendidos todos os anos nos EUA. No entanto, apenas quinhentos deles vendem mais de cem mil cópias. Da mesma forma, apenas quatro compositores clássicos (Bach, Beethoven, Mozart e Tchaikovsky) escreveram quase toda a música tocada pelas orquestras modernas. Bach, por sua vez, compôs de maneira tão prolífica que levaria décadas de trabalho apenas para copiar as suas partituras, mas apenas uma pequena fração dessa prodigiosa produção é comumente executada. O mesmo se aplica à produção dos outros três membros deste grupo de compositores hiperdominantes: apenas uma pequena fração de seus trabalhos é amplamente tocada. Assim, quase toda a música clássica que o mundo conhece e ama representa uma pequena fração da música composta por uma pequena fração de todos os compositores clássicos que já compuseram algo.

A situação acima é descrita por um gráfico em forma de ‘L’ conhecido como lei de Price, onde o eixo vertical representa o número de pessoas e o eixo horizontal representa a produtividade ou os recursos. É também é conhecido como ‘Princípio de Mateus’, devido a uma citação do Novo Testamento (Mateus 25:29), onde Cristo disse “àqueles que têm tudo, mais será dado; para aqueles que não têm nada; tudo será levado.” Esta citação vem da Parábola dos Talentos, onde Cristo reconhece que as pessoas não são iguais em termos de iniciativa e diligência. O principal ponto que Jordan está tentando fazer é que as hierarquias são parte da vida. As hierarquias evoluíram durante longos períodos de tempo no reino animal, não apenas no homem. Da perspectiva darwiniana, o que importa é a permanência. A hierarquia social não é um conceito novo; já existe há meio bilhão de anos e é real e permanente. A natureza é o que ‘seleciona’, e algo selecionado é tanto mais permanente quanto mais antigo for. A natureza não é tão harmoniosa, equilibrada e perfeita como é imaginada pelas mentes românticas. Há muito mais neste capítulo, por exemplo, como o fato de que todo indivíduo tem dentro de si uma ideia de sua posição na sociedade. Os status baixo e alto são reais. Há ansiedade em ambas as realidades. Sem dúvida, isso é intragável para muitos, mas é a realidade. Agir com responsabilidade no mundo de hoje exige aceitar a realidade e trabalhar com ela. Finalmente, existem formas autodestrutivas e maneiras inteligentes de viver com responsabilidade: “Procure a sua inspiração na vitoriosa lagosta, com os seus 350 milhões de anos de sabedoria prática. Fique de pé ereto e com os ombros para trás.”

Eu fiquei particularmente atraída pela regra 9: “Presuma que a pessoa que você está ouvindo possa saber algo que você não sabe”. Nesta regra, Peterson explica a ciência das interações humanas, enfatizando a atenção e a conversação. Muitas das ideias que Peterson apresenta a respeito dessa regra vêm de sua prática como psicólogo clínico, a qual lhe deu uma grande amostra do isolamento moderno e seus efeitos colaterais secundários. Ele escreve:

As pessoas que eu escuto precisam conversar, porque é assim que as pessoas pensam. As pessoas precisam pensar. Caso contrário, eles vagam cegamente em dentro de fossas. Quando as pessoas pensam, elas simulam o mundo e planejam como agir nele. Se eles fizerem um bom trabalho de simulação, eles poderão descobrir quais as coisas idiotas eles não deveriam fazer. Então eles não irão fazê-las. Então eles não precisarão sofrer as consequências. Esse é o propósito de pensar. Mas não podemos fazer isso sozinhos. Simulamos o mundo e planejamos nossas ações nele. Somente os seres humanos fazem isso. Nós somos brilhantes nisso. Nós fazemos pequenos avatares de nós mesmos. Colocamos esses avatares em mundos fictícios. Então nós assistimos o que acontece. Se o nosso avatar prospera, então agimos como ele, no mundo real. Então nós prosperamos (é o que esperamos). Se o nosso avatar falhar, nós não vamos lá, se tivermos algum juízo. Nós o deixamos morrer no mundo fictício, para que não tenhamos que realmente morrer no mundo real.

A conversação é uma coisa fundamental na vida humana mas mesmo assim ainda não sabemos como conversar corretamente; a conversação é muitas vezes é dificultada por não ouvirmos corretamente ou por não sermos completamente honestos. Peterson chama de “posição de jóquei” a situação em uma conversa em que as pessoas pensam mais na resposta que querem dar do que no que está sendo dito. Uma boa conversa, do tipo em que as pessoas trocam opiniões entre si, está se tornando algo raro. A alternativa à conversação padrão envolvendo dois ou mais interlocutores é a reflexão, que involve pensar com circunspecção e e profundidade. Podemos criar uma conversa em nossas mentes, refletindo profundamente e representando nosso ponto de vista e o de outra pessoa. A autocrítica frequentemente passa por reflexão, mas não é pois não tem o necessário diálogo. Como Peterson mostra, a conversação é uma ótima oportunidade para organizar pensamentos de forma eficaz e limpar as nossas mentes. Colocando de outra maneira, a conversação é a chave para uma boa saúde mental.

A simplicidade é uma característica de todas as 12 regras para a vida prescritas por Peterson. Essa simplicidade vem da visão da ponta de um iceberg de significado. Entretanto, é preciso esforço para entender por completo o iceberg de significado. Há muito significado por trás de cada uma dessas 12 regras de vida. Todas as 12 regras baseiam-se em descobertas científicas ou na sabedoria de narrativas antigas e seus arquétipos, ou em ambas as coisas. O significado, segundo Jordan, é a coisa mais importante que alguém poderia desejar na vida, pois nos permite encontrar o equilíbrio entre a ordem e o caos. Uma condição necessária para o significado é a verdade. Muitas pessoas são incapazes de aceitar o mundo como ele é, e em vez disso, preferem manter a ideia de como o mundo deveria ser. Esse é o tipo de pessoa que odeia Jordan e tenta difamá-lo.

O livro 12 Rules for Life de Jordan B. Peterson situa-se no topo da lista dos livros de autoajuda e a razão para isso é a clareza com que o autor retrata os problemas da vida e as formas como as pessoas lidam com eles, o que, por sua vez, se deve ao fato de que Jordan é um intelectual público e um psicólogo de classe mundial, bem como um indivíduo que já experimentou uma boa dose de problemas em sua própria vida. O livro de Peterson oferece maneiras inteligentes de lidar com os problemas da vida moderna, do isolamento social e abuso de álcool ou substâncias químicas, ao niilismo e à incapacidade de aceitar a verdade sobre o mundo; podemos incluir nesta lista uma gama de distúrbios mentais que vão da ansiedade à depressão. Significado, e  não felicidade, é o objetivo dessas 12 regras. Felicidade é um termo que deriva de ‘feliz’, mas ‘feliz’ não é sinônimo de ‘bom’. Bom inclui uma série de coisas como autorrespeito e a ‘Regra de Ouro’ em relação ao tratamento das outras pessoas; aquilo que nos permite viver nossas vidas com integridade e com esperança de melhorias é  ‘bom’, enquanto o oposto disso é ‘inferno’. Somente através de significado podemos escapar do ‘inferno’ e ter coragem necessária para enfrentar as tragédias da vida.

                                                                                                                                       

Joaquina Pires-O’Brien é tradutora, ensaísta e ex-botânica e bióloga brasileira, residente na Inglaterra. O seu livro de ensaios O homem razoável (2016) foi também publicado em espanhol e encontra-se disponível na Amazon em edições brochura e Kindle. Em 2010 ela criou a revista digital PortVitoria, voltada para cultura ibérica no mundo, em inglês, português e espanhol.

Nota. O livro de Jordan Peterson 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos está para ser lançado em português pela Alta Books Editora, como  “12 regras para a vida: um antídoto para o caos”.

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Jaron Lanier e a máquina Bummer de fazer cabeças

Jaron Lanier e a máquina Bummer de fazer cabeças

Um tecnólogo de informação americano chamado Jaron Lanier é também autor de diversos livros de crítica da Idade Digital, como You are not a Gadget: A manifesto (Você não é um gadget: Um Manifesto; 2010), Who Owns the Future? (Quem é dono do futuro?; 2013), Dawn of the New Everything: A Journey Through Virtual Reality (O nascer do novo tudo: uma jornada através da realidade virtual; 2017). Lanier acaba de publicar seu quarto livro, intitulado Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now (Dez argumentos para deletar já as suas contas de mídia social; 2018), no qual denuncia o Vale do Silício de um modo geral, e o FaceBook, em particular, como uma verdadeiras máquinas de fazer cabeças.

Lanier batizou a máquina de fazer cabeças de ‘Bummer’, um acrônimo da frase “Comportamento de Terceiros, Modificado e Transformado num Império para Alugar” (do inglês  “Behaviour of Others, Modified, and Made into an Empire for Rent”).

O texto abaixo foi extraído da matéria de Danny Fortson publicada na The Sunday Times Magazine, de 19.05.2018, acerca do novo livro de Lanier Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now:

 

No coração de sua preocupação está o acoplamento do smartphone, um supercomputador sempre ligado, e dispositivo de rastreamento, e propaganda, que foi completamente transformado de um aborrecimento periódico que se materializaria em lugares definidos – durante o seu programa de televisão favorito, em um outdoor, em uma revista – em outra coisa completamente. “Todo mundo que está na mídia social está recebendo estímulos individualizados e continuamente ajustados, sem interrupção, desde que usem seus smartphones”, ele escreve. “O que poderia ter sido chamado de publicidade agora deve ser entendido como modificação contínua de comportamento em uma escala titânica.”

Ainda mais alarmante: a máquina Bummer está ficando mais forte a cada dia, porque o que os algoritmos precisam mais que tudo são dados para analisar e comportamentos para analisar. … Quanto mais matéria-prima os algoritmos têm para trabalhar, mais eficazes eles se tornam. Daí o pedido de Lanier para a exclusão em massa: “O arco da história se inverteu com a chegada da máquina Bummer”, diz ele. “Parar é a única maneira, por enquanto, de aprender o que pode substituir nosso grande erro.”

O argumento é o seguinte: os algoritmos são otimizados para criar engajamento e funcionam extremamente bem. O milênio médio verifica seu telefone 150 vezes por dia. É tipicamente a primeira coisa que eles fazem quando se levantam e a última coisa antes de irem dormir. Mais de 2 bilhões de pessoas estão no FaceBook, aproximadamente o mesmo número de seguidores do cristianismo.

O resultado é que a sociedade “escureceu alguns tons”, argumenta Lanier. “Se você não vê os anúncios obscuros, os queixosos do ambiente, os memes frios que alguém vê, essa pessoa vai parecer louca. E esse é o nosso novo mundo Bummer. Parecemos loucos um ao outro porque Baummer está nos roubando as teorias da maioria das mentes uns dos outros.”

A nossa solução é ser como um gato, isto é, ser imune à instrução ou controle. Abandonar a mídia social é a maneira mais objetiva de resistir à insanidade de nossos tempos.

Aqui estão os 10 motivos de Lanier por que as pessoas devem excluir suas contas de mídia social:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio;
  2. Abandonar as mídias socialisé a maneira mais objetiva de resistir à insanidade de nossos tempos;
  3. As mídias sociais estão transformando você em um idiota;
  4. As mídias sociais estão minando a verdade;
  5. As mídias sociais estão fazendo o que você diz sem sentido;
  6. As mídias sociais estão destruindo a sua capacidade de empatia;
  7. As mídias sociais estão deixando você infeliz;
  8. As mídias sociais não querem que você tenha dignidade econômica;
  9. As mídias sociais estão tornando a política impossível;
  10. As mídias sociais odeiam a sua alma;

***

O texto acima foi tirado da entrevista de Danny Fortson a Jaron Lanier, publicada no The Sunday Times Magazine, 19.05.2018, sobre o recente livro de Lanier Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now

Armadilhas do Liberalismo?

Por que eu não escrevo um blog mostrando as armadilhas do liberalismo? Porque a meu ver o liberalismo já tem excelentes depreciadores. Um depreciador do liberalismo bastante reconhecido no século XXI é o filósofo alemão Carl Schmitt (1888-1985), jurista e teorista do direito e da política. Embora Schmitt só tivesse apoiado o Nazismo depois que Hitler chegou ao poder, em 1933, ele gozou de um enorme prestígio nos primeiros anos do governo de Hitler, quando costumava defender políticas nazistas que iam contra as leis, como as execuções extrajudiciais. Schmitt era um conservador que detestava os liberais e os judeus. Em 1936 ele defendeu a ideia nazista de remover os livros de autores judeus das bibliotecas, mas apesar de seus esforços no sentido de ganhar a simpatia dos nazistas, ele acabou caindo em desgraça junto aos mesmos, e acabou sendo demitido da universidade onde lecionava Direito. Depois da Guerra, Schmitt usou esse particular para tecer a sua defesa, quando foi inquirido pelos promotores do Tribunal de Nuremberg. Schmitt escapou das acusações e retornou à sua cidade natal de Plettenberg, na Westfália, lá ficando até a sua morte em 1985, aos 96 anos.

Por que o liberalismo* é odiado tanto pela extrema Esquerda quanto pela extrema Direita?  Por acaso seria porque consideram a crença dos liberais, de que as pessoas são essencialmente racionais e capazes de resolver as suas disputas políticas através do diálogo e da mútua transigência, uma utopia? Seria porque Marx disse que o liberalismo é a ideologia do capitalismo? Ou seria o resultado de um ressentimento típico da mentalidade do escravo descrita por Nietzsche no ensaio ‘A genealogia da moral’? Embora seja impossível saber os motivos do ódio que os extremistas de Esquerda e de Direita têm pelo liberalismo, a afirmação de Schmitt de que “o liberalismo é uma fachada útil da elite dominante” sugere velho motivo do ressentimento de classe.

 

* O ideal do liberalismo é  um contínuo global tolerante a seres humanos de individualidades diversas, mas com direitos iguais, e cujos direitos de identidade são protegidos por leis baseadas em valores universais.

 

A conversação dos sábios

A conversação dos sábios

Joaquina Pires-O’Brien

A arte da conversação é a arte de ouvir e ser ouvido, afirmou o escritor inglês William Hazlitt (1778-1830). Desde a Antiguidade a boa conversação é considerada um dos principais ingredientes da boa sociedade. ‘O banquete dos sete sábios’ é o título de um ensaio de Plutarco (45 – 120 EC)1 descrevendo um fictício diálogo entre os sete grandes sábios da Antiguidade Clássica reunidos num banquete oferecido por Periandro, de Corinto, que apreciava a companhia dos sábios, na vizinhança de Lequeum, próximo ao altar de Afrodite. Os sete sábios convidados eram: Tales, de Mileto; Bias, de Priene; Pítaco, de Mitilene; Sólon, de Atenas; Quílon, de Esparta; Cleóbulo, de Lindos; e Anacarsi, de Cítica. Apesar de conhecer a fama de déspota de Periandro, todos os convidados aceitaram de bom grado o convite, pois eles próprios gostavam de conversar em boa companhia. Durante o banquete os sábios discutem o que é necessário para o sucesso de um banquete desse tipo, concluindo que a responsabilidade pelo sucesso do banquete não é apenas do anfitrião, mas também dos convidados. Os bons convidados dão prazer pela boa conversação, enquanto que os maus convidados são descorteses e incomodam os demais. A preparação correta dos convidados a um banquete vai muito além do vestuário, pois o melhor ornamento do indivíduo é o seu caráter. Além disso, o convidado a um banquete tem a obrigação de saber conversar, o que requer uma longa preparação em termos de adquirir conhecimentos, ter opiniões e saber expressá-las e defendê-las.

A boa conversação continua importante no mundo moderno mas é dificultada pela superpopulação, pela hiperespecialização do conhecimento e por diversos outros fatores. Hoje em dia os sábios não se reúnem em banquetes oferecidos por ricos patronos, mas em encontros especiais organizados pelas mais diversas instituições de ensino e pesquisa, e, a partir da segunda metade do século XX, dos ‘think tanks’. A Revolução Digital do fim do século XX abriu um espaço universal para a conversação, mas é preciso vasculhar muito o espaço cibernético para encontrar conversações edificantes.

Os cientistas e os pensadores do século XXI competem com uma infinidade de néscios pela atenção do grande público. Os eventos de discussões e debates entre peritos, que os ‘think tanks’ costumam promover nas grandes cidades, ocupam um pequeno nicho na indústria do entretenimento. Uma organização que tem se destacado nesse nicho é a Intelligence Squared (intelligence2, Inteligência ao Quadrado), um fórum de debates fundado em 2002 em Londres2.

Em 14 de julho de 2016 eu tive a oportunidade de assistir ao colóquio organizado pela Intelligence Squared em comemoração aos 75 anos do cientista Richard Dawkins, o qual contou com a participação de outros seis pensadores e cientistas Logo na abertura desse colóquio, o seu Presidente, Jonathan Freedland (1967 -), afirmou o evento daquela noite seria mais uma conversação do que um debate. E, de fato, cada um dos sete palestrantes falou no seu turno, e as discussões foram conduzidas com respeito e cortesia, sem polemização e sem apontamento de bodes expiatórios.

O evento acima referido foi uma verdadeira conversação de sábios e uma oportunidade ímpar de aprendizagem. O evento confirmou algo que todos os que estudaram ciência já sabem: os sábios nem sempre concordam uns com os outros e às vezes se contradizem. Assim, quem deseja entender bem determinado assunto precisar ler o que diversos sábios escreveram sobre o mesmo. Ao absorver a pluralidade de opiniões dos sábios estaremos, de fato, conversando com eles.


1.Lucius Mestrius Plutarchus foi um intelectual e escritor grego que tornou-se cidadão romano.

2.Leia a minha postagem ‘Colóquio:Richard Dawkins: o revolucionário racional


Jo Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, dedicada a falantes de português e espanhol. Ajude PortVitoria colocando um link em seu blog ou na sua ágina do Facebook.

O que é Humanismo?

“Um sistema de pensamento racionalista que atribui importância primordial ao humano ao invés do divino ou das questões supernaturais.” (Oxford English Dictionary)

“A rejeição da religião a favor do progresso da humanidade pelos seus próprios esforços.” (Collins Concise Dictionary)

“…uma filosofia não religiosa, baseada em valores humanos liberais.” (Little Oxford Dictionary)

“…a busca, sem a religião, do melhor nos seres humanos, e para os mesmos.” (Chambers Pocket Dictionary)

“…um apelo à razão em contraposição à revelação ou autoridade religiosa como um meio de descobrir o mundo natural e o destino do homem, fornecendo ainda um alicerce para a moralidade… A ética humanista é também distinguível pela colocação do fim da ação moral no bem-estar da humanidade ao invés de no cumprimento da vontade de Deus.” (Oxford Companion to Philosophy)

Diferentemente dos religionários, os humanistas não têm fé. Ter ‘fé’ significa ter uma forte crença em algo sem prova. Os humanistas são essencialmente céticos. Enquanto as pessoas religiosas podem oferecer respostas supernaturais a das questões fundamentais acerca da vida, do universo, e de todas as coisas, os humanistas preferimos deixar um ponto de interrogação. Os humanistas são ateístas (o que significa ‘sem deus’), ou agnósticos (um termo criado no século XIX pelo biólogo Thomas Henry Huxley, para designar ‘sem conhecimento’, pois Huxley afirmou uma vez que ninguém pode provar ou desprovar a existência de Deus).

Os humanistas rejeitam a noção da pós-vida; nós achamos que essa vida é a única que temos, e que precisamos aproveitá-la ao máximo.

Os humanistas não têm o equivalente da Bíblia ou do Corão, ou um livro de regras para guiar-nos pela vida, embora nós podemos nos referir às grandes obras da história, da filosofia e da literatura. Não é necessário ter lido a história das ideias humanistas, mas a maioria dos humanistas, que é formada por pessoas curiosas e inquisitivas, irá investigar as ideias que nos interessam.

Podemos traçar as influências humanistas a mais de 2.500 anos atrás, ao sábio chinês Confucius e aos filósofos, cientistas e poetas da antiguidade. Um deles foi o filósofo grego Epicuro, que, partindo do princípio de Aristóteles de que a felicidade humana depende da boa conduta, definida como ter uma vida boa, de prazeres e amizades, ausência de dor e paz na mente. Os seus discípulos incluíam mulheres e escravos, algo que na época era quase impensável. Epicuro afirmou, “De todos os fins pelos quais a sabedoria traz felicidade na vida, de longe o mais importante é ter amizades”.

Por muitos séculos, não era seguro expressar abertamente pontos de vista não ortodoxos acerca da religião, mas o surgimento da Idade da Razão e do Iluminismo, nos séculos XVII e XXVIII, gradualmente permitiu que isso se tornasse possível, embora com cautela. Algumas pessoas descreveram-se como sendo ‘racionalistas’, ‘secularistas’ ou ‘livre pensadores’, termos que ainda são empregados pelos humanistas de hoje.

Charles Darwin, cuja teoria da evolução causou um enorme impacto na nossa compreensão acerca de onde viemos, foi uma forte influência no humanismo. A cientista Marie Curie, a feminista do século XVIII Mary Wollstonecraft, os autores Thomas Hardy e George Eliot, o Primeiro Ministro da Índia independente, Jawaharlal Nehru, e o criador americano do seriado de TV Star Trek, Gene Roddenberry, são apenas algumas das pessoas influentes que viveram pelos princípios humanistas.

O professor Richard Dawkins, um incansável advogado do secularismo, afirmou, “Eu cheguei às minhas crenças, como todo mundo devia fazer, pelo exame das evidências”. Muitos humanistas resolveram as suas próprias crenças e se encantam ao descobrir que outras pessoas chegaram a conclusões semelhantes. Porque somos pensadores independentes, os humanistas discordamos acerca de muitas coisas, mas a maioria de nós concorda com alguns princípios básicos. Nós acreditamos que devemos assumir a responsabilidade pelo nosso comportamento e pela maneira como o mesmo afeta as outras pessoas e o mundo onde vivemos. Porque nós acreditamos que essa é a única vida que nós temos, nós acreditamos que é importante tentar viver uma vida plena e feliz, e ajudar os outros a fazer o mesmo.

Os humanistas estiveram envolvidos na criação das Nações Unidas; nós valorizamos os direitos humanos, a liberdade de comunicação, a liberdade do medo, da carência e do sofrimento, e uma educação livre de preconceitos e da influência das poderosas organizações religiosas ou políticas.

No seu livro ‘Humanism, an introduction’ (Humanismo, uma introdução), Jim Herrick escreveu, “O humanismo é a mais humana filosofia de vida. A sua ênfase é no humano, no aqui e agora, o humanitarismo. Não se trata de uma religião e não possui nenhum credo formal, embora os humanistas tenham crenças. Os humanistas são ateístas ou agnóstico e não esperam uma pós-vida. É essencial para o humanismo trazer valores e significação à vida”.

Em 1996, a Assembleia Geral da União Humanista & Ética Internacional (IHEU) adotou a seguinte resolução. Qualquer organização que desejar tornar-se um membro da IHEU é doravante obrigada a validar a sua aceitação da declaração abaixo:

O humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e de moldar suas próprias vidas. Significa ser a favor da construção de uma sociedade mais humanitária através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais à luz da razão e da livre inquirição através das capacitações humanas. Não é teísta, e não aceita visões supernaturais da realidade.

Nota: Fonte: http://suffolkhands.org.uk/humanism/, 27.09.2017. Tradução: Joaquina Pires-O’Brien (UK).

PS. A autora edita a revista digital PortVitoria, centrada na cultura ibérica no mundo.

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As Leis da Antiga Grécia – As Primeiras Leis

Nota: O texto abaixo foi adaptado do texto “Law of Ancient Greece”, do portal Canadian Law, fonte: http://www.canadianlawsite.ca/AncientGreek.htm

As Leis da Antiga Grécia – As Primeiras Leis

No período que vai mais ou menos de 1200 – 900 AEC (Antes da Era Comum), os antigos gregos não tinham nem leis e nem punições oficiais. Os homicídios eram resolvidos pelas próprias famílias das vítimas, que procuravam capturar e matar o homicida. Isso frequentemente gerava intermináveis e sangrentos feudos. Mais ou menos no meio do século VII AEC os gregos começaram a estabelecer leis oficiais.

Draco

Em torno de 620 AEC, Draco, o legislador, estabeleceu as primeiras leis escritas da Antiga Grécia. Essas leis eram tão severas que o nome ‘Draco’ é empregado na expressão moderna  ‘lei draconiana’, que significa uma lei excessivamente severa.

Sólon

Sólon (640-558 AEC) foi um estadista e famoso legislador de Atenas. Como estadista, Sólon reformou o sistema de governo da cidade-Estado de Atenas, criando um sistema democrático de governo, baseado numa assembleia de quinhentos membros*. Como legislador, Sólon aperfeiçoou as leis de Draco e democratizou a justiça ao tornar as cortes (tribunais) acessíveis aos cidadãos. Sólon criou muitas novas leis que se encaixam em quatro categorias básicas (veja abaixo). A única lei de Draco que Sólon manteve após ter sido apontado legislador, por volta do ano 594 AEC, foi a lei que estabelecia o exílio como punição para o crime de homicídio.

*A democracia ateniense foi consolidada aos poucos, por outros estadistas como Clístenes (565-492 AEC) e Péricles (494-429 AEC).

Leis dos Agravos

Um agravo ocorre quando alguém comete um dano contra uma pessoa ou contra a propriedade de alguém.

O crime de homicídio fica sob a lei de Agravos, e a punição era o exílio conforme determinado na legislação de Draco que Sólon manteve.

De acordo com as leis criadas por Sólon, a multa por um estupro era de 100 dracmas, e a punição por um crime de furto era a restituição da quantia furtada. Outros crimes e penas incluíam coisas como ‘mordida de cão’, cuja pena era entregar o cão numa coleira de madeira de três côvados. Sólon escreveu leis até para servir como regras para a construção de casas, muros, valas, poços, colmeias, e plantações de certos tipos de árvores.

Leis de Família

Sólon criou ainda diversas leis de família, legislações que regulavam a conduta de homens e mulheres. Ele escreveu leis sobre os dotes de casamento e de adoção, bem como leis sobre heranças e sobre o papel de suporte dos pais.

Não havia penas prescritas para essas leis de família;  a decisão ficava com cada chefe de família.

Leis Públicas

As leis públicas tratavam do funcionamento dos serviços públicos. Sólon contribuiu para algumas dessas leis. Por exemplo, ele escreveu as leis que requeriam que as pessoas que viviam a uma certa distância das fontes ou poços públicos que cavassem seus próprios poços, as leis que proibiam a exportação de produtos agrícolas com exceção do azeite de oliva, leis que restringiam a quantidade de terras que alguém podia possuir, leis que permitiam que os mercadores cobrassem qualquer juro que quisessem, e até leis que proibiam o comércio de perfumes.

Leis Processuais

Leis processuais eram diretrizes que esclareciam aos juízes (no sentido de julgadores) como deveriam usar as demais leis. Essas leis especificavam paço a paço os pormenores de como a lei deveria ser cumprida. As leis processuais incluíam minúcias tipo como as testemunhas deveriam ser chamadas a juízo para que alguém pudesse ser condenado por homicídio.

Os Legisladores

Os legisladores não eram os reis ou governantes mas oficiais designados para o posto de escrever leis. A maior parte dos legisladores eram pessoas de classe média oriundos da aristocracia. Para que as leis não fossem injustas, os governantes oficiais procuravam assegurar que os legisladores não tomassem partido, isto é, que não fizessem parte de nenhum grupo isolado. Devido à essa restrição, os legisladores não participavam normalmente do governo, e eram considerados forasteiros políticos.

As Cortes (ou Tribunais) e o Sistema Judicial

A fim de fazer cumprir as punições previstas pela lei, os antigos gregos precisavam de algum sistema para ‘processar’, ‘julgar’ e ‘sentenciar’ os culpados. Assim, eles criaram um sistema judicial. Os oficiais da corte ganhavam pouco, se é que ganhavam alguma remuneração, e a maioria dos julgamentos eram conduzidos num único dia; os casos particulares eram ainda mais expeditos.

Na corte ou tribunal não havia oficiais profissionais tipo advogados e juízes. Um caso normal consistia de dois ‘litigantes’, um reclamante que alegava que um ato ilícito havia sido cometido, e um respondente que argumentava a própria defesa. Os ‘jurados’ eram a própria audiência da corte. Cada pessoa votava a favor de uma parte ou da outra. O resultado do julgamento era de ‘culpado’ ou ‘não culpado’. Após o julgamento a audiência votava outra vez para decidir a punição.

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René Descartes

Apesar do seu ar pomposo e da sua errônea doutrina do dualismo, René Descartes (1596-1650) foi um grande matemático cujo maior legado é A Geometria (La Géométrie), onde ele apresentou o seu sistema de coordenadas que permite descrever cada ponto num plano por dois números que fornecem a sua localização horizontal e vertical (veja abaixo). Descartes também se destacou pelo absoluto ceticismo em relação ao conhecimento existente, o que o fez reconstruir o mundo a seu redor através da lógica. Acreditava na superioridade do método científico como fonte de conhecimento. Pôs em dúvida a própria existência até deduzi-la por inferência na frase “penso, logo existo”.

As coordenadas cartesianas servem para medir localizações no eixo horizontal (x) e vertical (y) através de linhas perpendiculares (ou eixos) que se cruzam em um ponto chamado ‘origem’, gerando os quatro quadrantes do plano. Qualquer equação pode ser representada no plano, plotando sobre o mesmo o conjunto de soluções da equação. Por exemplo, a simples equação y = x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,1), (2,2), (3,3), etc. A equação y = 2x gera uma linha reta que conecta os pontos (0,0), (1,2), (2,4), (3,6), etc. Equações mais complexas envolvendo x2, x3, etc, geram diversos tipos de curvas no plano. À medida que um ponto muda ao longo da curva, as suas coordenadas mudam, mas uma equação pode ser escrita para descrever a mudança no valor das coordenadas em qualquer ponto na figura. O emprego dessa nova abordagem logo revelou que uma equação como x2 + y2 = 4, por exemplo, descreve um círculo; y2 – 16x uma curva chamada parábola; x2⁄a2 + y2⁄b2 = 1 uma elipse; x2⁄a2 – y2⁄b2 = 1 uma hipérbole; etc.

Em essência, a geometria analítica de Descartes permite converter a geometria em álgebra e vice-versa; portanto, um par qualquer de equações simultâneas pode ser resolvido tanto algebraicamente quanto graficamente (na interseção de duas linhas). Além se servir de base para a invensão do cálculo por Newton e Leibniz, a geometria analítica de Descartes abriu caminho para a o desenvolvimento de geometrias navegantes em dimensões mais elevadas, impossíveis de ser visualizadas fisicamente – um conceito que se tornaria central à física moderna ainda por ser descoberta.

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro encontra-se disponível em versão Kindle e em brochura nos portais da Amazon.

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